domingo, janeiro 08, 2017

Copenhague - a terra da pequena sereia

Uma das histórias que mais me impressionaram na minha infância foi um conto de Hans Christian Andersen chamado “A vendedora de fósforos”. A história se passa no dia de Natal numa rua dinamarquesa e a pequena vendedora, de pés descalços na neve e sem vender nada de sua mercadoria, morre de frio e fome sonhando com as comidas das casas que não lhe abriam as portas e abandonada pelas pessoas que lhe viravam as costas
na rua. É um conto que retrata o “de um lado esse carnaval, do outro a fome total” da música de Gilberto Gil, ambientado na Dinamarca do século 19.
Contudo, a Copenhague aonde cheguei na antevéspera de Natal tinha uma cara totalmente diferente. Uma cidade extremamente limpa, rica, de pessoas cortesas, sorridentes e que se mostraram felizes em ajudar sempre que precisei. Uma cidade com corações vermelhos espalhados por todas as partes nas decorações natalinas e nas fachadas de algumas casas. A Dinamarca, ao contrário da impressão que tive quando li o conto na infância, estava de braços abertos e sorrisos no rosto esperando por mim e pelas centenas de turistas que a visitariam naquele período.

Meu hostel ficava exatamente no coração de Copenhague, a apenas alguns minutos da estação central
Na área comum do hostel
de trens (pode-se pegar o trem direto do aeroporto), e de todas as atrações recomendadas da cidade. Foi quase fácil chegar ao meu alojamento, não tivesse sido o terrível Google maps não mostrar o mapa off-line e minha bateria descarregar alguns minutos após a milésima tentativa de ativá-lo. Ali, sozinho e perdido no frio dinamarquês de dezembro, olhando para um lado e outro e vendo pessoas passarem apressadas para seus afazeres, me lembrei da história de Andersen e corri para mudar o final dela. Parei a primeira pessoa que se aproximou de mim, e, com um sorriso no rosto e um “sorry” nos lábios, perguntei onde ficava minha acomodação. O rapaz, que gentilmente parou para me escutar, pegou o telefone, procurou na internet e cordialmente me mostrou que direção tomar me dizendo “seja bem-vindo a Copenhague”. Agradeci muitíssimo e parti correndo para fugir daquele frio, daquela neblina, daquela chuvinha insistente.

Dali em diante, era só chegar, deixar as malas no locker até a hora do check-in e ir explorar aquela antiga vila viking fundada no século X depois de Cristo, que floresceu para ser uma das cidades mais lindas, mais tranquilas e mais caras do mundo! Sim, em Copenhague eu descobri exatamente porque meus amigos europeus ou não, evitam ao máximo viajar à Escandinávia. Um exemplo? Estou caminhando naquele frio maravilhoso, coberto dos pés à cabeça e buscando um cantinho quente por alguns minutos para continuar percorrendo as ruas. Resolvi tomar um café latte numa tendinha dessas sobre a calçada. Cheguei, fiz o meu pedido, o rapaz olhou para mim e disse, sorridente: 40 coroas, por favor.  Aquele sorriso cordial, escondendo um pérfido “Se pensas que estás rico pelas poucas centenas de coroas que tens no bolso, verás que em três dias ficarás sem tostões se continuares a tomar cafezinho”. 40 DKKs são aproximadamente 5.38 euros (no dia da compra 18.3 reais) - por um latte médio!  Choquei, surtei, quase tive um piripaque. Comecei a calcular quanto tinha e descobri que precisaria fazer duas coisas: ou viver a pão e água, ou viver de água. Me decidi pela terceira: usar o que tinha, distribuindo um valor máximo para cada dia. No final das contas, o dinheiro acabou, mas posso dizer que valeu a pena. Não sei se um dia volto lá, então, o que fiz, foi bem feito. Afinal, diz a sabedoria popular que dinheiro é ganho para ser gasto; da vida a gente só leva as experiências; se dinheiro fosse bom, nasceria em árvore. Então, vamos esquecer a quase bancarrota e ser feliz na Dinamarca recitando provérbios consoladores.


Deslumbramento e tensão
No dia 23 todas as atrações estão abertas. No entanto, em 24 e 25 de dezembro quase tudo – inclusive restaurantes (salvo os chics e caros) – fica fechado. Portanto, se vier à Escandinávia nesse período, lembre-se de visitar os lugares antes ou depois dos referidos dias, senão pode fazer como eu, acostumado com o consumismo exacerbado da Bahia onde tudo fica aberto todos os dias (exceto pelas lojas de rua), e não se ligar em visitar alguns museus e outros lugares fechados assim que chegarmos, tendo como resultado não poder entrar neles por causa do feriado (verdadeiro por aqui).

Mas, museus e galerias à parte, Copenhague nos brinda com lugares a céu aberto imperdíveis e sem
Âncora em homenagem aos mortos na II Guerra - Nyhavn
custos como o Nyhavn, um canal perto da estação de Kogens Nytorv, escavado por soldados na década de 1670 a fim de que mercadorias pudessem chegar por barcos naquela região. Esse processo transformou a área numa das mais prósperas do país devido à chegada de vários comerciantes e empresários que ali estabeleceram suas casas e seus negócios. No entanto, durante as guerras napoleônicas, o lugar entrou em decadência e se transformou numa zona de prostituição e bebedeira. Hoje, para nossa alegria, está todo recuperado e ali você encontra vários cafés e restaurantes maravilhosos (e por valores muito altos). Ali também viveu Hans Christien Andersen – mas eu não encontrei a casa onde ele morou.

Partindo de Nyhavn, basta cruzar uma ponte no final da rua na direção do mar e ir até o Copenhagen Street Food, um lugar bem bacana, dentro de um prédio, onde se pode saborear a culinária de várias partes do mundo, inclusive do Brasil (no quiosque de nome Brasa). Além da comida e bebida, pode-se também escutar música ao vivo, entre outras formas de arte. No verão a coisa por lá fica bem mais agitada com direito a banho de mar e tudo. Para mais informações, visite o site deles: http://copenhagenstreetfood.dk/en/. Eu recomendo.

O bom em Copenhague é ir andando e descobrindo pequenas coisas interessantes como estátuas, barzinhos, parques e ruas pitorescas com casas coloridas e prédios de arquitetura interessante. Deixei meu roteiro (quase) de lado e tomei as ruas cortando canais, me impressionando com a quantidade de bicicletas e bicicletários que faziam um mar de rodas e guidons aparecerem diante de nós. Nunca vira tantas bicicletas juntas em um só lugar. Pensava que esse era um costume apenas em Amsterdã, mas, pelo que vi em ambas as cidades, Copenhague deixou a cidade holandesa no chinelo neste quesito. É impressionante ver a quantidade de pessoas circulando de bike pelas ruas. Quase tão impressionante como um restaurante que vi no meio de uma praça próxima à Torre Redonda (atração turística de onde você pode ver toda a cidade a partir do topo).

Estamos acostumados a ver frango sendo assado naqueles fornos grandes postos sobre a calçada, mas
jamais vira um leitão inteiro, partido em banda, sendo assado no meio da rua! Olhei aquilo e pensei que talvez me tornasse vegetariano um dia – um dia. O churrasqueiro (ou sei-lá-o-quê), ao me ver fotografar, me convidou a experimentar o leitão, mas eu, com o estômago meio embrulhado, preferi continuar andando em busca de Christiania.

Não, não se trata de uma princesa dinamarquesa de longas tranças loiras esperando um cavaleiro encantado. É uma área autônoma com leis próprias, fundada por hippies, artistas e anarquistas na década de 1970, dentro da cidade de Copenhague. Em todos os blogues e vídeos de viagem que vi, falaram sobre o lugar como um sítio imperdível para os turistas. A ideia que todos esses blogueiros e vlogueiros vendem é de um paraíso meio no estilo socialismo utópico, Kibutziano que me fez pô-lo como principal atração a ver na cidade. No entanto, minha opinião é totalmente o contrário disso aí. O lugar me pareceu uma cidade futurista do tipo Mad Max, onde sobreviventes de uma hecatombe nuclear se reuniram para criar uma sociedade decadente e assustadora onde o consumo e comércio de drogas são liberados. Entrei no lugar com olhos de admiração e saí de lá apressado após cinco minutos. Me pareceu um gueto onde viciados e traficantes se escondiam da polícia e criavam um estado paralelo num ambiente bem ao estilo Doom’s Day. No entanto, quem vive lá diz que quer apenas poder criar seus filhos e viver longe do caos da cidade.

Christiania - A cidade dentro de Copenhague
Não sei, cabe a cada um experienciar e tirar suas próprias conclusões. O que sei é que ao sair de lá, fui direto à Vor Frelsers Kirk (Igreja do Salvador), numa tentativa de tirar de cima de mim a nuvem de almas malfazejas que porventura tivessem tentando se acercar por causa daquela visita a lugar tão sinistro. Fiquei lá, contemplando a beleza da igreja, a paz, o silêncio daquele edifício em cujo topo há um mirante de onde se tem uma visão espetacular de Copenhague, não pude subir, no entanto, porque estava fechado a visitas.

Mais uma vez Hans Christian Andersen
Uma outra atração imperdível em Copenhague é aquela que os críticos consideram a segunda mais
A Pequena Sereia
decepcionante do mundo (para quem pensa que o Manneken Pis de Bruxelas é a primeira). Uma homenagem à história de Andersen, Den Lille Havfrue (A Pequena Sereia) repousa serena sobre uma pedra à beira-mar no cais de Langelinie. Sendo fotografada e filmada por centenas de turistas que, a exemplo do que ocorre em relação a seu coleguinha belga, se acotovelam e arriscam cair no mar gelado para tirar uma foto com ela. Embora as pessoas a achem sem graça, eu, por minha vez achei bacana, talvez, como disse uma amiga que fiz em Bruxelas e que reencontrei em Copenhague, a estátua é "pretty classy" (bem elegante, estilosa).
Kastellet 
Mas, apesar da fama da sereia, o que preferi naquela região foi a indicação do vendedor de café de quem comprei a deliciosa bebida quente para esquentar minha garganta e mãos. Ele me indicou sair dali do furdunço da estátua e entrar em Kastellet (cidadela), uma fortaleza bem ao lado da estátua aonde se vai andando em menos de 3 minutos. A fortaleza foi construída no século 17 e ainda hoje serve como área para assuntos militares, mas é aberta ao público para visitação. Lá, pode-se ver o único moinho da Dinamarca – segundo o vendedor de café – e ter uma visão bem idílica do lugar.
Após deixar Ksatellet, lembre de passar na igreja de Saint Alban – bem bacana.

 “Então é Natal, a festa cristã”
Em minha família o Natal é uma data muito querida e aguardada, não só pela linda mensagem religiosa do nascimento do filho de Deus para iluminar os homens, como também por podermos nos reunir em família e encontrarmos os entes queridos que vivem distantes ou que o dia-a-dia distancia. Mas esse ano eu estava ali em Copenhague, longe de todos e ainda sem saber o que fazer na minha noite de Natal, uma vez que nada funciona na capital dinamarquesa e as ruas estão totalmente desertas. Enquanto tomava café, duas vizinhas minhas de Salvador que estavam no mesmo quarto que eu (as conheci em Copenhague) me disseram que o hostel iria organizar uma festa à noite e que poderíamos participar. Achei que seria melhor do que ficar no quarto assistindo a edição de Natal de Sense8 ou algum filme, ou choramingando pelo Skype enquanto o pessoal lá em casa se arrumava pra ceia. Pois bem, depois de muito andar durante o dia, fui para a área comum do hostel sem esperar muita coisa. Comprei um Irish coffee, sentei numa mesa, e esperei. Em poucos minutos minha mesa estava cheia de gente saudosa de casa e muito afim de fazer novas amizades. Sentamos todos a conversar, comer e rir muito. Pessoas de países diferentes, culturas diferentes, ali, reunidos pela festa mais significativa do mundo abrindo os corações e deixando a alegria da vida inundá-lo. Hans Christian Andersen deveria estar ali, contente de ver como a sociedade que um dia ele descreveu havia se transformado na noite de Natal.
Igreja de Mármore - Copenhague


O que ver e fazer em Copenhague:
Nyhavn
Palácio de Malienborg (ver a troca da guarda às 11:30)
Igreja de Mármore
St Alban’s church
Kastellet (ver a pequena sereia)
Castelo de Rosemborg
The round Tower
Tycho Brahe Planetarium
Tivoli Gardens
Gammel Strand
Stroget
Vor Frelsers Kirk (The Savior Church)
Christianshavn
Christiania (??)
Copenhague Street Food (restaurant brasileiro Brasa)

Borsen - a Antiga Bolsa de Valores de Copenhague

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2 comentários:

Projeto 101 Países disse...

Que post lindo!!! Me vi andando em Copenhague através da sua narrativa. Imaginei cada detalhe: do latte mega caro, da área dos hippies, do Natal com as vizinhas de SSA, dentre outros. Só aumentou a minha vontade de conhecer a Dinamarca.
Beijos

Marcio Machado disse...

Obrigado! Fico feliz que tenha podido inspirar vocês com esse post. Vocês sempre me inspiram com os seus e são sempre a primeira fonte que busco para planejar meus roteiros!
Muitas viagens para nós!