sexta-feira, julho 06, 2018

Londres ao pôr do sol


Devo confessar que nesta altura do campeonato não vi sequer um jogo da Copa do Mundo na Rússia. Eu sei, o Brasil está em polvorosa, carros e janelas enfeitados com bandeiras, ruas decoradas com bandeirolas, asfaltos e sarjetas pintados por todos os lados mostrando esse patriotismo nosso dos quatro em quatro anos por causa do futebol.

Uma lindeza à qual estou totalmente alheio, aliás, Copa do Mundo FIFA para mim deixou de ter sentido desde a derrota para a França, em 1998, e o patriotismo, bem, depois do chute no saco que o PT e todos os outros Ps da política brasileira me deram, não tenho muito o que comentar.

Mas essa semana, ao ver na TV a comemoração da vitória inglesa sobre a Colômbia nas ruas da Inglaterra, me lembrei das últimas férias que passei por lá, depois de visitar Praga, comemorando os primeiros dias do Ano Novo com esse povo alegre e festeiro. Bateu mesmo uma nostalgia imensa e uma saudade apertada do país da Rainha Elizabete e dos muffins de chocolate.

English breakfast no YHA London Central Hostel 

Preparação para o Ano Novo Chinês em China Town, Londres
TB Tower - Londres
Mulher alimentando esquilo no Regent's Park
A Inglaterra é um país maravilhoso, cheio de sites históricos e paisagens paradisíacas, e Londres, sua capital e principal cidade, é um daqueles cantos do mundo de que os Beatles parecem estar falando na música In my life, de 1965: “há lugares que eu vou lembrar por toda a minha vida”.

Afinal, não basta apenas ser uma cidade organizada, limpa, segura, arquitetonicamente impressionante, onde se pode caminhar com os olhos voltados para todas as partes – porque tudo é um espetáculo às vistas: os prédios antigos se impondo na urbe, os parques verdes onde se pode alimentar esquilos e pássaros e ver os cisnes da rainha flutuando serenos e majestosos nos lagos e ponds.

Além de sentir cheiros e sabores de todos os recantos do mundo e se ouvir, caminhando pelas ruas, nas estações de metrô e pontos de ônibus, os sotaques e línguas mais diversos nos rostos geralmente plácidos e cheios de gentileza convivendo, em regra geral, na maior harmonia. Caetano veloso não mentiu! Mas diferentemente dele e de sua “London, London”, meus olhos não procuravam discos voadores no céu.
London Eye ao pôr do sol, Londres

Porque o céu em Londres tem mais para oferecer do que discos voadores psicodélicos. Num dia sem chuvas, as tonalidades de azul por toda manhã e as cores vibrantes do crepúsculo variando do laranja encarnado ao rosa tênue enquanto o sol vai lentamente desaparecendo por trás do Parlamento e da Abadia de Westminster, colorindo o Big Ben, o London Eye, o Tâmisa, a London Bridge e os olhos dos mais de 10 milhões de habitantes e milhares de turistas agradecidos de estarem ali, não tem preço.

Nem William Turner (1755-1851) conseguiu nas suas vibrantes pinturas retratar as cores do ocaso de Londres no inverno. Me lembro que certo dia, sentado no Hyde Park, o ar úmido cheio de cristais de gelo, o sol se pondo no horizonte por entre as árvores e o som dos pássaros, parecia que a luz lentamente se esvaia num gradiente de cores que eu podia tocar e fruir com todos os sentidos do meu corpo – uma experiência sensorial jamais capitada por pincéis nem câmeras fotográficas. 


The Queens Walk - London Eye, Parlamento e Big Ben ao fundo
E quando a noite cai, não se sabe para onde olhar: se para o céu estrelado, repleto das constelações que só se veem do hemisfério norte e que para nós aqui do sul são lindas desconhecidas, ou se para o show de luzes e cores epiléticas do Picadilly Circus para onde todos afluem em busca de diversão, de comida e de romance.

Não é à toa que aos pés de Eros, quando chega a noite, fica uma multidão sentada, conversando, rindo, comendo, descansando de tanto caminhar pelos arredores, pois, em Londres, todos os caminhos levam ao agitado e vibrante Picadilly Circus - uma visão tão diferente do que deve ter sido durante os ataques dos nazistas na Era Churchill.
 
Estátua e Fonte de Eros, Picadilli Circus, Londres
O choque entre a Londres presente e do passado nebuloso da Segunda Guerra Mundial pode ser sentido numa visita ao The War Museum. Ali se é capaz de reviver a sensação horrível da batalha nas trincheiras, criadas como exposição dos horrores da guerra, através das sombras dos soldados em ação, projetadas na parede, enquanto o som de bombas e metralhadoras cortam o ar.

É mesmo como disse meu querido amigo Marcos, a quem fui encontrar no museu: “uma imagem que me arrepia sempre que venho aqui”. Por algum consolo, lá eu descobri que devido a minha altura não estaria apto a participar da guerra caso fosse inglês e vivesse na década de 40.


Museu da Guerra, Londres
Big Ben, Londres




A Guerra, graças a Deus, passou mas Londres continuou linda, viva, a cada dia florescendo e encantando das formas mais diversas. Seja na decoração para o ano novo chinês na China Town, seja nos parques itinerantes espalhados pela cidade, nas feiras livres ou nos pubs onde a alegria é a dona da festa.

Londres encanta. Por onde quer que os pés te levem ou os trens subterrâneos, ônibus vermelhos de dois andares e táxis pretos te transportem, o desejo é de repetir as palavras de Edmund Spencer (1553-1599): “Doce Tâmisa, corra suavemente até que eu termine minha canção”. e se deixar perder no marulho das águas desse rio que vão fluindo como sangue nas artérias da linda capital inglesa.

The Queen's Walk ao pôr do sol

Abadia de Westminster e Parlamento




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sábado, junho 30, 2018

Canto da saudade



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Imagem: Internet
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Parece que foi ontem
Que eu olhei seus olhos
- Profundo, demorado -
E você correspondeu.

Cada traço, poro, gota de suor
gravados na lembrança...
E a imagem de seus lábios
- Onde eu quis viver -,
A cada dia mais lindos,
Fazendo tremer meu corpo inteiro.

Ah! Quantos suspiros nascendo n'alma!
Quantas palavras caladas no peito!
Quantos "Não vá agora", "Só mais um minuto!"
Quanto sussurrar "Espere! não parta ainda!"
Tantos pudores e tantos medos.

Parece que foi ontem
Que eu senti no mais profundo
A flecha violenta, cruel, tremenda, ardendo,
Me incendiando todo, tudo,
Quando seus olhos se demoraram nos meus.

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Feels like yesterday
That I stared into your eyes
- deeply, lingering -
And you stared back.

Each feature, each pore, each drop of sweat
Seared in my memory...
And the image of your lips
- Where I wanted to for ever dwell -,
More and more beautiful every day,
Making my whole body tremble.

Ah! How many sighs springing from my soul!
How many words silenced in my bosom!
How many "Don't leave now", "Wait a little longer!",
How much whispering "Hold! don't go yet"!
How much propriety and fear.

Feels like yesterday
When I felt in the most hidden parts of me
The violent, cruel, overwhelming, ablazed arrow
Inflaming me whole, all of me,
When your eyes lingered into mine.

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Sembra essere stato ieri
Che ho guardato i tuoi occhi
- Profondamente, lentamente -
E tu m'hai corrisposto.

Ogni traccia, poro, goccia di sudore
incisi nella memoria...
E l'immagine delle tue labbra
- Dove volevo vivere -,
Ogni giorno più belle,
Facendo tremare tutto il mio corpo.

Ah! Quanti sospiri sono nati nell'anima mia!
Quante parole silenziose nel petto!
Quante "Non andare ora", "Solo un altro minuto!"
Quanto sussurrare "Aspetta, non andare ancora!"
Cosi tanti pudori e tante paure.

Sembra essere stato ieri
Che mi sentivo nel profondo
La freccia violenta, crudele, tremenda, bruciante,
Bruciandomi tutto intero,
Quando i suoi occhi indugiavano sui miei.
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sexta-feira, junho 22, 2018

Praga - A charmosa capital da República Tcheca


"Foram necessários seis acasos para levar Tomas até Tereza, como se, por conta própria, nada o tivesse conduzido até ela", diria o filósofo tcheco Milan Kundera em seu livro "A insustentável leveza do ser". No meu caso, foi preciso apenas uma promoção da Airbaltic, no momento certo, para me levar de Helsinque ao encontro de Praga, a charmosa capital da República Tcheca (ou da Tchékia, como a chamam agora). 

Já na saída do aeroporto, a neve caindo fina e rara sobre a cidade, a sensação era de puro encantamento. As imagens de filmes, fotos, blogues de viagens; as histórias de livros e narrativas de amigos que visitaram Praga, fervilhavam em minha cabeça. Dentro do trem que me levaria ao coração da Cidade Velha, eu via as construções passarem coloridas, suaves, e os rostos e corpos se moverem elegantemente pelas ruas limpas e organizadas.

Praga - a bela capital Tcheca
Uma imagem diferente da que eu costumava ter quando criança. Semelhantemente a "Budapeste", "Praga" era um nome que no fundo da minha cabeça infantil me remetia a um quadro catastrófico do leste europeu - "por que essas cidades tinham de ser conhecidas por palavras que, em português, eram tão ruins?". Eu me perguntava em pequeno lembrando das narrativas apocalípticas de pragas e pestes e fomes em toda a parte.

Além disso, a lembrança da diretora da minha escola no Ensino Fundamental entrando em sala para dar sermão toda vez que a turma se comportava mal e terminando sua lição de moral com a célebre e inesquecível frase, após a qual ela levantava a sobrancelha esquerda: "Que nosso padroeiro, o Menino Jesus de Praga, vos dê juízo", com certeza devem ter contribuído para meu estranhamento com a cidade.

Assim que saí do trem, esses pensamentos estranhos e intrigantes da infância logo cederam lugar a um deslumbramento cada vez maior, pois, com horas de procura no booking.com e paciência para buscar preço e lugar agradáveis, encontrei um hostel que ficava exatamente no coração da parte antiga da capital tcheca, na chamada Rota Real, de onde eu teria acesso a pé aos monumentos e sites turísticos mais badalados.

A rua em que se localiza o Hostel Little Quarter é em si mesma já uma atração por conta da diversidade de restaurantes, lojas de souvenires, mercadinhos e embaixadas que lá se localizam - incrivelmente o barulho eventual das ruas não interfere no silêncio dentro do edifício. 

Centro antigo de Praga, Tchekia
O centro antigo de Praga é uma mistura de construções barrocas e góticas que coabitam harmoniosamente nos transportando além do tempo por ruas de paralelepípedos e esculturas da fé católica espalhadas não só dentro das igrejas, mas em monumentos através das praças e pontes.

Destas, a mais famosa é a Ponte Carlos (Karluv Most, construída entre 1357 e 1402), a mais antiga do país, atravessando parte do rio Vltava, ligando a Cidade Antiga à Cidade Pequena (Malá Strana), considerado o bairro mais charmoso da capital tcheca, que abrigou a nobreza do país durante muito tempo, e onde está o Castelo de Praga.

É necessário passear pela ponte sem pressa, observando não só sua beleza arquitetônica ou o cenário deslumbrante que se tem da cidade, mas detendo-se pelo caminho para admirar a arte sacra representada nas 31 imagens dos santos e mártires e as dezenas de bancas de vendedores locais de onde se pode comprar não apenas quadros belíssimos e artesanato local, mas também conhecer a história marcada em cada pedra ao longo do caminho.
Ponte Carlos e Cidade Velha vistas da igreja de São Nicolau

Casario da  Cidade Velha à entrada da Ponte Carlos
A Ponte Carlos, por ser um dos mais famosos cartões postais de Praga, fica lotada de transeuntes, que tanto são pessoas locais, como turistas, e também mendicantes. Por isso, apesar de ser uma cidade com baixíssimo índice de violência urbana, é prudente guardar carteira e passaporte em lugar seguro e de difícil acesso às mãos rápidas dos raros, mas reais, larápios.

Do outro lado da Ponte fica Malá Strana, foi lá que eu saboreei duas das melhores e mais baratas (5 Euros) refeições dessa viagem. As ruas estreitas e cercadas de construções sóbrias e vitrines coloridas pululam de restaurantes, pubs e bares. Fui a dois ou três deles e o atendimento foi impecável. Aliás, diferentemente do que dizem do leste europeu, em Praga eu fui muito bem tratado por pessoas sempre muito gentis comigo.

Uma delas, vendedora de uma loja de souvenires, por exemplo, me fez sentir em casa de uma maneira muito insólita. Quando cheguei para comprar meus sine-qua-non imãs de geladeira, ela me perguntou de onde eu era e quando lhe respondi, ela, toda serelepe, gritou em português arranhado: "Eu amor Maria Betânia!" Aí, ao dizer que eu vinha da Bahia, assim como Betânia, ela disse que iria me dar um presente por conta da casa.

"Para o brasileiro da terra de Maria Betânia", disse passando à moça do caixa um enorme imã redondo que também serve de abridor de garrafas. Eu sorri, paguei pelas outras coisas e saí alegre e agradecido a Betânia por me representar ali naquele canto do mundo. Não satisfeita, ao me ver sair, a moça alegre e desinibida, pôs as mãos nas cadeiras e soltou em inglês: "Eu sou a Anita de Praga! Diga a seus amigos no Brasil!". Eu apenas ri, não sabia quem era Anita até a hora que voltei ao hostel.


Foi engraçado conhecer uma cantora brasileira por intermédio de uma moça da Tchekia. Anita para mim era um nome desconhecido, mas que em um só dia, ouvi três vezes por bocas de pessoas de nações diferentes. No hostel, ao me ver com uma camisa do Brasil, um rapaz coreano disse que era fã de Anita e me mostrou sua música favorita, a qual ele cantava (ou quase) em português.

Mais tarde, dois "conterrâneos" portugueses que estavam no mesmo quarto que eu também me falaram da carioca que estava fazendo sucesso pelo mundo e que eu, com minha cara de nerd fã de Arquivo X, nunca tinha visto mais gorda (ou mais "gostosa", como diriam os gajos de lá). E assim, descobri um pouco mais do Brasil quando estive longe dele e entendi que nesse mundo globalizado a indústria cultural, para fazer Adorno e Horkheimer se mexerem nos túmulos, é uma bênção!
Troca da guarda - Praga
Aproveitei minha estadia em Praga para encontrar meu amigo George. Nos conhecemos na adolescência através de uma daquelas comunidades do extinto ORKUT e desde então, por mais de dez anos, desenvolvemos uma amizade bacana.

Agora, casado e pai de uma menininha linda, o George deixou o dia de trabalho e me levou pra conhecer a parte nova da cidade onde há esculturas muito interessantes e o prédio mais famoso da República Tcheca, chamado de o Prédio Dançante.

A cidade nova é muito interessante de se ver, mas para mim, não difere muito de todos os outros lugares em qualquer cidade do mundo. O que eu gosto mesmo é ver o casario centenário, as igrejas antigas e sentir o cheiro de mofo dos livros e quadros - mesmo Praga conseguindo aliar o velho e o novo de forma tão perfeita.

Eu e George no confortável shopping center de Praga
Na capital da República Tcheca, especialmente na Cidade Velha, vem à mente uma frase marcante de A insustentável leveza do ser: "Tudo é vivido apenas uma vez e sem preparação". Apesar de todas as cidades serem mais ou menos parecidas, apesar das pessoas, a despeito de suas culturas e etnias, serem fundamentalmente iguais, em Praga não conseguimos nos preparar o bastante para fruir desse conhecimento sem algum estranhamento.

A sensação de proximidade humana e a ideia do blasé de estar inserido no contexto urbano universal não se sustentam. Parece mesmo que tudo é novo, sendo velho e antigo. Parece que cada passo sobre os paralelepípedos, cada olhadela sobre a tinta dos prédios, cada floco de neve caindo sobre o Cristo crucificado na Ponte Carlos, cada sorriso de estranhos que se reconhecem em nosso deslumbramento são coisas completamente novas.

O filósofo grego Heráclito estava certo, ninguém se banha no mesmo rio duas vezes. Em Praga, ninguém vê o mesmo Vltava, nem respira o mesmo ar, nem ouve a mesma música ou saboreia o mesmo prato duas vezes - tudo se renova como se ressoassem em nossa mente e se espalhassem pelo corpo as notas do Má Vlast de Bedrich Smetana - suave, espiritual, demasiadamente humano. 




O que fazer/ver em Praga em dois dias: Zaméky Schody, Matyasóva Brana, Prague Castle, Golden Lane, Velká jižní věž katedrály, St. George's Basilica e arredore, St Nicholas Church, Kafka Museum, Charles Bridge, The Bethlehen Chapel, Cidade Velha, The Powder Tower, Jewish Museum and Synagogue, Franz Kafka Monument, Prédio Dançante.

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domingo, setembro 10, 2017

Tervetuloa Turkuun! Turku, a cidade da margarida gigante.


“Perplexidade” – essa é a palavra que toma conta de nós quando ouvimos falar de ataques terroristas. Pois, é difícil entender, por exemplo, o motivo de no dia 18 de agosto um rapaz marroquino chamado Abderrahman Mechkah matar duas pessoas a facadas e ferir outras oito na cidade de Turku, no sudoeste da Finlândia.  Obviamente, pode-se explicar tais atitudes de várias formas, mesmo quando loucos e fanáticos não precisem de uma razão além da motivação distorcida de suas mentes para perpetrarem tais atos. No entanto, sempre me choca ouvir notícias como essa.

Minha perplexidade não só é causada pela incompreensão da maldade, mas se dá também pelo fato de eu ter estado nesse mesmo lugar há apenas alguns poucos meses e ter sido recebido tão calorosamente por sua gente. Aliás, os finlandeses que encontrei pelo caminho foram sempre de extrema atenção e cortesia comigo, se mostrando um povo amigável, prestativo e de imensa amabilidade.

Ver, através da imprensa, a praça do mercado coberta de flores e tristeza foi desolador, uma vez que, ali mesmo, havia pouco tempo, eu fui recebido com um caloroso abraço e um largo sorriso no rosto naquele primeiro encontro ao vivo com o Zamuel depois de duas décadas de uma amizade que começou por carta quando ambos éramos adolescentes estudantes de inglês querendo conhecer o mundo.

A cena propalada pela mídia mundial de ambulâncias e lágrimas e medo em nada lembra a calorosíssima recepção naquela praça coberta de neve de onde fomos rapidamente para o mercado esquentar o estômago com as iguarias da culinária finlandesa tradicional acompanhadas de um café, muita conversa, sorrisos e gargalhadas boas quando lembrávamos das coisas que dizíamos nas cartas e depois pela internet: da vida que vai passando, dos pensamentos que vão mudando, sem a gente se dar conta. 

Turku Kauppahalli - Mercado Municipal
O mercado, onde tomávamos nosso café, foi construído em 1896 para abrigar lojas que vendiam produtos frescos - frutas, carne vermelha, e peixes, estes, devido às instalações hidráulicas feitas já no início do século 20, podiam ser expostos em aquários a fim de serem comprados vivos pelos clientes. Lá encontramos diferentes tipos de restaurantes e lojas que vendem produtos alimentícios diversos. O Kauppahalli é uma das atrações principais da cidade. Lugar imperdível para quem gosta de experimentar a culinária local, bater um bom papo e apreciar um bom café. 

Foto from: https://visitturku.fi/turun-kauppahalli_fi 
Um passeio pela cidade
Eu iria passar apenas um dia em Turku. À noite teria de voltar para Helsinki, de onde, no dia seguinte, partiria para a República Tcheca. Assim, tão logo saímos do Kauppahalli, fomos fazer um pequeno passeio de balsa no mar quase congelado no centro da cidade.

O Zamuel queria que eu tivesse a sensação de como era estar num barco singrando o mar congelado. Aliás, ele havia feito um roteiro interessante das coisas que poderíamos fazer em apenas algumas horas num dia de muito frio naquela cidade que é a terceira maior de seu país.



Me lembro de ele dizer: "Eu sempre quis que você viesse aqui no verão, porque aí poderíamos nos divertir à beça. Mas vamos lá... vai na neve mesmo". Precisei lhe assegurar que aonde quer que fôssemos eu estaria vendo tudo pela primeira vez ali e que aquela realidade era 100% diferente de tudo que eu experimentara a minha vida inteira na Bahia - ou seja, pra mim tava tudo massa apesar do frio que penetrava os ossos.

Afinal, quantas vezes na vida eu veria o mar sólido e patos nadando no gelo como se estivessem brincando nas águas mornas de alguma fazenda no interior da Bahia? Aquela cena era linda: o céu cinza, o gelo cobrindo as águas, minha cara cheia de neve e o vento soprando frio e balançando a balsa onde estávamos. Percebendo aquela imagem, logo entendi porque os quadros do meu amigo são tão ricos em cores, tão cheios de luz e com uma ideia pulsante de vida. 

Satama ja Turku - o Porto e Turku

By Zamuel Hube
À medida em que o carro cortava as ruas, Zamuel ia me contando a história da cidade onde os canais eram uma atração à parte. Durante o verão, restaurantes-barcos ficam lotados de turistas, as ruas à beira do cais estão sempre abarrotadas de gente indo e vindo e a vida pulula freneticamente entre um quiosque e outro.

Naquele dia, devido ao frio, os únicos caminhantes, no entanto, éramos nós. Por isso, conseguimos a façanha de chegar ao Porto rapidamente e fazer várias fotos da Margarida de Turku, do navio da marinha finlandesa, e de todo o entorno, sem ter que pedir pras pessoas chegarem pra lá e deixarem a gente tirar uma fotinha pro Instagram.

Deu pra fazer até palhaçada na hora do retrato, de forma que quase quebrei o pulso escorregando diante dos olhos arregalados de meu amigo, que me pedia pra ir com calma "porque o chão tá escorregadio demais".

A gente então parou de caminhar e manteve o olhar até onde a vista conseguisse penetrar aquela quase intransponível barreira do horizonte cinzento por onde embarcações iam e viam desde anos imemoriais fazendo de Turku a primeira cidade portuária daquele lugar que outrora pertencera à Suécia, que foi a capital da Finlândia e que hoje mantém grande importância na economia e na política do país. 

Um mar de gelo
By Zamuel Hube
Uma das partes do Evangelho que mais me fascinam é a descrição de Jesus andando sobre as águas e dizendo a Pedro que se junte a ele. Sempre fiquei pensando como seria bacana correr em cima do mar, dar uma paradinha pra fazer umas presepadas, acariciar uma baleia, e outras paradas meio psicodélicas.

Ali em Turku, meu sonho foi quase realizado. Paramos o carro diante de um descampado gigante de gelo e neve. Eu, ouvindo no soprar do vento as palavras "winter has come", quase me sentia um John Snow. Zamuel olhou pra mim e perguntou se eu estava pronto. Mandou eu caminhar à frente, "um pouco mais", "mais um pouco", "aí!"... "qual a sensação de andar sobre o mar?". Olhei pra baixo, em choque, minhas botas derrapando no gelo.

Olhei ao redor, o mundo inteiro era gelo e neve. Ali estava eu, enfim, caminhando sobre as águas, escorregando sobre as águas. Meu amigo achando engraçado e fotografando cada cara de espanto, cada deslize naquela superfície inóspita, eu rindo feito criança e ele sorrindo por entender que aquilo tudo era mesmo maravilhoso para mim. Ele pediu que eu fizesse uma pose, colocou um zoom suficiente pra me pegar no meio do mar - no meio mesmo! - e fez a foto que vocês estão vendo aí em cima. 

Não há lugar melhor que a casa (dos nossos amigos numa tarde de inverno)

Como falei anteriormente, os finlandeses são pessoas muito queridas e cortezas. Preocupadas em proporcionar aos visitantes a melhor experiência de suas vidas.

Por isso, não é difícil de acreditar quando digo que a esposa do Zamuel fez um banquete em minha homenagem! Tipo: um banquete daqueles manjar dos deuses do tipo que nos leva a fazer um adendo ao que disse Shaw sobre o amor: "Não há amor mais sincero que o amor à comida", ele disse.

Eu ouso completar: "E não há gratidão maior quando numa tarde de -30 graus C seus amigos te fazem um banquete com carne de rena, puré de batatas, salada e frutas do norte numa casa quentinha onde até os adolescentes te recebem com um sorriso, muita curiosidade e muita vontade de conversar!".

O almoço, exótico para nós que estamos acostumados a ver renas apenas puxando a carruagem do papai Noel, foi de um gosto salgado-adocicado, forte-suave, complementado por umas frutas vermelhas misturadas em cima da carne realçando o sabor de tal modo que minha vontade era comer feito um paxá, mas tive vergonha de parecer um esfaimado mal-educado, então, contive meu estômago e fiquei pensando o resto dos meses seguintes naquela saborosa refeição em companhia daquela linda família enquanto a neve caia lá fora - a neve caindo lá fora é algo de que sempre vou falar 😬.

Sempre gostei de misturar doce com salgado. Recentemente, estudando sobre a Escandinávia por causa do resultado do meu teste de DNA que (dependendo da ferramenta usada para análise do material genético) põe minha herança étnica entre 23.2% e 31%  originária daquelas bandas, descobri que é típico dos países nórdicos misturar esses sabores - um tapa científico na cara de quem me chama de estranho por misturar presunto e queijo com doce de leite! 

Hyvää matkaa - Boa viagem


Dizem que quando a gente está se divertindo o tempo passa que a gente nem sente. Os minutos que passei na presença de meu amigo e sua família pareceram infindáveis. Os vinte anos de amizade pareceram se reproduzir a cada segundo, as sensações, as ideias que fazíamos um do outro, tudo era ao mesmo tempo surpreendente e familiar.

Familiar porque nos sentíamos realmente próximos e surpreendente porque essa familiaridade, esse sentir-se em casa na presença do outro, foi a coisa mais natural do mundo, mesmo, como eu disse, sendo essa a primeira vez que nos víamos ao vivo em todos esses anos. No entanto ali, ao cair da noite, era hora das despedidas e dos corações apertados.

Paramos na sala, eu, Zamuel e sua família; nos olhamos todos por alguns segundos que pareceram imortais, vitrificados no gelo que mais cedo cobria o mar. Alguém lembrou da foto histórica. sentamos todos no sofá, fazendo aquela pose que ficará guardada para sempre. O flash iluminava o recinto e numa fração de centésimos de segundos relembrei minha apreensão quando saí de Helsinque pela manhã; me lembrei do nervoso, da expectativa, ao descer do ônibus e dar de cara com o Zamuel me esperando no ponto sob a neve que caía densa.

Me lembrei da insegurança se dissipando quando ele me disse na mais pura bonomia: "Então você chegou! Eu pensei em trazer sua foto e perguntar ao motorista se ele tinha visto esse sujeito no ônibus. Ia ser um frisson, hein!?". Imagino que teria sido engraçado, pelo menos.

Agora ali, eu sabia que tinha sido acolhido por aquela família que fez de tudo para me deixar feliz e me sentir bem-vindo, desde a delicadeza do meu amigo de me levar a ver coisas que ele pensava seriam inesquecíveis, a doçura de sua filha mais velha em conversar comigo em espanhol e me pedindo pra avaliar seu inglês, ao carinho de sua esposa em preparar uma recepção tão acolhedora.

Antes de irmos, Zamuel me mostrou um livro de fotografias de Salvador da Bahia e me disse: "Um dia a gente se reencontra lá". As palavras correndo a sala com um "Amém" tácito de todos, selado por um sorriso. Havia chegado a hora de ouvir a frase Hyvää matkaa, Boa viagem, mas não sem um abraço forte, e as lágrimas nos olhos, enquanto no meu ouvido ressoavam as palavras da música do A-HA que tocava no carro pela manhã assim que fomos em direção ao porto de Turku, lugar de onde se vai e se vem, "here I am, and within the reach of my hands...".

O ônibus (http://www.onnibus.com/en/index.htm) que me custou apenas dois euros pra atravessar a Finlândia, agora me levava de volta a Helsinque com o coração entrecortado de sentimentos bons e saudade antecipada daquela família tão querida a quem dizer "Paljon kiitoksia, veli" (muito obrigado, irmão), no meu finlandês meio quebrado, não é ainda suficiente. 

Como não podia deixar de ser...
Ao chegar na Estação de Helsinque, lá perto das 22h, a temperatura beirando os 35 graus abaixo de
zero... me perdi. Olhei de um lado para o outro procurando um segurança, um painel que me dissesse como chegar ao meu hostel, mas não encontrei nada.

Subi e desci escada rolante tentando encontrar a entrada pela qual eu havia chegado ali de manhã - estava tudo encoberto pelas abas da noite. Sentei num banco, fechei os olhos e disse: "Senhor, agora é com Você. Eu tô perdido aqui no meio do gelo".

Respirei fundo, levantei resoluto e fui rumo à saída. No caminho, uma moça me olhou - talvez percebendo minha cara de "e agora?!" - e me perguntou se precisa de ajuda. Resultado, ela andou comigo até encontrar o ônibus certo. Quando agradeci, a resposta: "Não há de quê. Eu jamais poderia deixar alguém perdido nesse frio".

Tão finlandesa ela! Tão me fazendo descrer que seria possível existir um cara como aquele marroquino, sobre cujos atos iniciei este post, andando pelas ruas da Finlândia! A moça sorriu, se despediu e eu fui ao caminho do hostel, despreocupado com a caixinha de pastilhas que os filhos de meu amigo tinham comprado pra mim. Aquele sabor agridoce, salgado-açucarado cobrindo minhas papilas gustativas numa noite fria de um dia feliz no norte do mundo. 


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Para conhecer as obras de Zamuel Hube, visite: https://zamuelhube.net/

terça-feira, maio 09, 2017

PROCURA-SE UMA MÃE: ANA ALVES MARTINS




O dia 04 de outubro de 1984 marca o momento em que eles se separaram. Ana Alves Martins, na época com 25 anos, nascida em São Miguel, Estado do Piauí, empregada doméstica em Brasília, muito pobre e sem ter como cuidar de uma criança sozinha, resolveu - após conversas com uma conhecida - dar o seu filho para adoção a um casal estadunidense que estava de férias no Brasil.

Esse seria o último dia que o menino, nascido naquele mesmo ano no Hospital Gama, na capital federal, sentiria os braços de sua mãe biológica. A partir de então, ele se mudaria com sua nova família para os Estados Unidos da América e nunca mais teria contato com o país natal.

O interesse por encontrar sua mãe biológica, no entanto, sempre o acompanhou. De modo que recentemente, sabendo que a ciência genética possibilitou a criação de uma ferramenta para ajudar genealogistas em sua busca pela história familiar (o teste possibilita tanto a descoberta da ancestralidade étnica como o encontro com parentes genéticos), o jovem, agora com 33 anos, reacendeu seu desejo de conhecer sua família biológica e encontrar sua mãe (sobre quem sabe apenas o nome constante nos documentos de adoção) e resolveu fazer o teste de DNA com três companhias nos EEUU, uma dessas companhias também havia sido responsável pela decodificação do meu genoma.

Há uma semana saíram seus resultados e a companhia pela qual eu e ele fizemos o teste cruzou nossos dados genéticos nos pondo na categoria de primos de 3a geração por minha família materna. Sim! Pela primeira vez em toda a sua vida após ser adotado o rapaz entrava em contato com um parente de sangue! Razão porque seu primeiro e-mail para mim tinha palavras tão cheias de espanto e abundava de felicidade.

Por não sabermos o nome de seu pai ou seus avós maternos e paternos, ainda não conseguimos encontrar nosso ancestral comum. Enquanto tentamos encontrá-lo nós dois vamos contando com a ajuda dos amigos e leitores do blogue na busca pela mãe desse meu primo recém-encontrado, com o coração ardendo de esperança.

O meu pedido aqui, amigos, é que cada um de nós compartilharmos o link deste post em nossas páginas do Facebook, Twitter, etc. e peçamos aos nossos amigos que façam o mesmo. Assim, quem sabe, vocês e eu possamos contribuir para que o dia das mães de uma família seja menos doloroso e tenha lágrimas apenas de alegria. 
Contamos com sua ajuda - muito, muito obrigado mesmo!

Procura-se ANA ALVES MARTINS - de São Miguel, Piauí, nascida por volta de 1959, empregada doméstica em Brasília, DF, na década de 1980. 


Muito obrigado. 

segunda-feira, abril 24, 2017

Busca Genealógica

Olá, pessoal!

Como vocês sabem, tenho vindo nessa árdua busca que é a Pesquisa Genealógica há 3 anos. Agora, estou à procura de um ramo da família materna de minha mãe, originária da Bahia e Rio de Janeiro. Abaixo, listo o nome dos tios e primos paternos de minha avó materna junto com uma foto do jornal Correio da Manhã de 08 de Julho de 1952, e duas fotos do álbum de família também da década de 1950.

Se você conhece ou descende de uma dessas pessoas, por favor, entre em contato comigo. Muito obrigado!



Carlos de Abreu e Lima
Firmina Gomes de Abreu e Lima
Neda de Abreu e Lima Branquinho
Enaide de Abreu e Lima da Rosa
Isabel de Abreu e Lima Lemos
Guilma Thomé da Silva



Raul de Abreu e Lima
Cid de Abreu e Lima
Nahir de Abreu e Lima



sábado, abril 22, 2017

Finlândia - a terra das renas, do papai Noel e dos sorrisos cativantes


A cidade que ovacionou freneticamente Adhemar Ferreira da Silva, o viu criar a chamada "Volta Olímpica" após ter quebrado, numa só tarde, quatro recordes mundiais no salto triplo durante as olimpíadas de 1952 (https://www.youtube.com/watch?v=mWWatS6mMxY), 65 anos mais tarde, num dia de janeiro, me recebia calma, gelada e quase silente se não fosse pelo canto gravado de pássaros ecoando nas caixas de som do sanitário do aeroporto.

Quando cheguei ao CheapSleep Hostel a temperatura estava já na casa dos -6 graus C. e a escuridão cobria Helsinki, mesmo ainda não sendo 16 h. Após o check-in fiz o que sempre faço quando chego a uma cidade nova: deixei minhas coisas no quarto e parti em busca de comida.

Perto de onde me hospedei havia algumas lanchonetes e um mercado. Optei por um fast-food porque neles, como os valores são mais ou menos padronizados, a gente pode ter uma ideia geral dos preços na cidade e comparar os custos com outros países, especialmente porque, diferentemente do resto da Escandinávia - em senso estrito a Finlândia não pertence à Escandinávia -, na Finlândia a moeda é o euro.

O valor do Baratíssimo com café no Subway não é tão alto quanto nos outros países do norte, mas se compara aos preços de Paris e Londres. Olhei pra balconista, arrisquei falar em finlandês o nome do sanduba - os atendentes todos deram aquela risadinha tipo "vai tentando, oreba". 

Me sentei lá naquela mesa globalizada, comendo aquele sanduíche globalizado que faz a gente em qualquer lugar do mundo se sentir no mesmo lugar e observei as pessoas indo e vindo enquanto a neve caia grossa pela rua cobrindo a calçada, o asfalto, os casacos dos transeuntes enquanto eu, perdido, admirava tudo isso da janela, com olhos de criança deslumbrada que assiste ao mesmo filme diversas vezes e sempre fala dele com entusiasmo.

O Brasil é aqui!
Helsinki, cujo nome provavelmente deriva de uma palavra sueca referente a um rio que por lá passa, tem se tornado uma capital do norte europeu a cada dia mais cosmopolita. Por isso, não é difícil encontrar pessoas de lugares os mais distantes. Um exemplo disso eu tive quando regressei de minha caminhada pela vizinhança e resolvi fazer um café para esquentar o corpo depois de tanto andar no frio.
Vou me aproximando da cozinha, vejo sentados à mesa do refeitório um rapaz e uma senhora. Passo por eles perdido em meus pensamentos. De repente, minhas orelhas se aguçam, meu coração acelera, minha alma se sente em casa.

Não bastasse ouvi-los falando português, ainda os ouço conversar numa cadência peculiar, numa musicalidade única, numa melodia a qual minha mente conhecia desde antes de eu vir à luz. Parei.

Voltei. Pedi licença e perguntei: vocês são de Salvador? logo vi o sorriso iluminar a face da senhora, dona Luzia, que estava ali visitando seu filho, estudante de mestrado numa cidade próxima. 

Aí já viu, né?! quando encontramos os nossos, a conversa rende, o papo fica comprido e o café é bebido com mais gosto e em grandes quantidades. Dona Luzia é daquelas senhoras de prosa fácil e agradável, que demonstram prazer em conhecer as pessoas e conversar com elas. Por isso, não foi nada difícil ficar lá, ouvindo e compartilhando nossas histórias até tarde.

Quando ia me deitar, um rapaz que estava por perto, me perguntou em inglês se nós estávamos conversando em português. Lhe respondi que sim, e ele me contou que, apesar de ser da Letônia, amava o Brasil e era adepto do Santo Daime e que sua esposa estava fazendo uma tese de doutorado sobre as plantas alucinógenas que são usadas nesses cultos. 

Aí, eu que já estava quase caindo de sono, não consegui ir dormir, né?! Afinal, quantas vezes encontramos um letão que pratica uma religião brasileira, fala português, e conhece uma porrada de coisas sobre o Brasil? De repente, o sono passou e a prosa recomeçou. 

O Marko perguntou se eu gostava de música e começou a cantar, em português quase perfeito, um hino usado nas celebrações de sua devoção religiosa. Fiquei impressionado em ouvi-lo cantar sobre pássaros da floresta amazônica, Deus e a natureza. Qual seria a probabilidade disso acontecer ali na longínqua Finlândia? É aquele velho jargão amarelado pelo tempo e feito cliché pelo uso: a vida é uma caixinha de surpresas.

Catedral de Helsinque vista da Catedral de Uspenski


Igrejas
By Lukas Flamini
A Finlândia, assim como todos os países da Escandinávia, tem uma profunda tradição cristã, especialmente de orientação protestante luterana (mais de 72% dos finlandeses se declararam luteranos no senso de 2016), portanto, alguns dos mais bonitos monumentos do país são as igrejas. 

Eu, amante da arquitetura e de igrejas, não podia deixar de visitá-las. Por isso, tão logo o dia amanheceu (por volta das 9:00), fui com o Lukas - um paulista gente-finíssima que estava estudando na Rússia e que dividia o quarto do hostel comigo com quem eu passei um dia inteiro de boas conversas e risadas - passear pela cidade. 

Não é necessário dizer que estava frio e que a neve caía e que estávamos encasacados da cabeça aos pés. Mas, é interessante saber que o sistema de transporte público é muito bom. Melhor ainda é que o Lukas havia chegado a Helsinki um ou dois dias antes de mim e já tinha se encontrado pelos caminhos de ferro e asfalto helsinquianos.

Tomamos o bonde bem de frente ao hostel, e fomos direto ao Centro. Dessa vez, por causa do frio e das distâncias, não arrisquei ir caminhando aos pontos turísticos mais próximos. Sentei lá no banquinho e deixei o bonde fazer seu trabalho e nos deixar exatamente atrás da Catedral Luterana, sem suor nem lágrimas. 

A Catedral é uma obra imponente, em estilo neo-clássico, embelezando a Praça do Senado no centro
da cidade. Para alcançar o prédio a partir da Praça é necessário dar uma de Rocky Balboa e subir uma escadaria comprida (por trás da Catedral há outras entradas sem escadas) após o que a gente pode quase escutar Eyes of the Tiger enchendo o ar. Mas a subida, embora árdua, vale a pena pelo sentimento de “Vim, Vi, Venci” que nos inunda diante das suas enormes e pesadas portas de madeira.

Por se tratar de uma igreja protestante, os amantes e devotos das imagens de esculturas de santos não vão ter muito o que ver. A igreja tem decoração sóbria e as únicas imagens que vemos estão no altar onde se tem uma linda pintura de Cristo ladeada pelas estátuas de dois anjos. No entanto, há um órgão que de tão bonito é uma atração à parte e dá ao lugar um charme eclesiástico medieval. 

Na hora em que chegamos, havia um grupo enorme de japoneses, acompanhados por um guia, falando pelos cotovelos e andando de um lado a outro com suas botas de salto alto, então, não pudemos dar aquela meditada bacana ao som do órgão, concentrar os pensamentos em Deus, fazer uma prece, mas pudemos contemplar a arquitetura enquanto esperávamos a neve passar um pouco antes de irmos andando à beira-mar até uma outra catedral que fica ali pertinho.

A catedral ortodoxa de Uspenski, uma catedral bizantina linda por dentro e por fora, com imagens, afrescos e pinturas douradas lembra toda a opulência e cultura orientais. Do átrio da catedral têm-se uma visão espetacular do Centro da cidade. 

Ela tem esse nome por ser dedicada à ascensão de Maria aos Céus, por isso o nome "Uspenski", significando "dormição" ou "ascensão". Lá não passamos muito tempo, havia um outro grupo de japoneses também fazendo muito barulho. Além disso, a catedral estava em reforma, então, achamos melhor partir.

Quase no meio da tarde, chegamos, depois de muito andar, a um dos monumentos mais visitados de Helsinki, a Igreja Luterana de Pedra (Temppeliaukio Kirkko). Iniciada e terminada na década de 1960, a igreja foi escarvada numa enorme pedra de granito maciço, de forma arredondada e com a cúpula feita de cobre. 

Ali, pudemos parar e não apenas contemplar a incrível construção, mas sentar e agradecer por aquele dia enquanto, devido à acústica maravilhosa, podíamos escutar o som leve de música clássica inundando o ambiente.



Outras atrações
Antes de irmos ao Temppeliaukio Kirkko, tivemos de passar no Vanha Kauppahalli, um mercadão onde as pessoas se reúnem para comer comidas típicas finlandesas ou apenas conversar enquanto tomam um cafezinho quente. O mercado fica ao lado do porto. Então é muito comum ver turistas subindo e descendo os seus corredores.

Lá, há uma variedade de doces e petiscos, assim como muita carne defumada, especialmente salmão, que é um prato muito consumido no país. Forramos a barriga, vimos os navios deixarem o porto, conversamos com algumas pessoas locais e fomos em busca do famoso monumento a Sibelius. Uma atração que não pode deixar de ser vista quando estiver na capital finlandesa.

O monumento é uma enorme estrutura que lembra um órgão antigo e se encontra no parque que também leva o nome do compositor finlandês Jean Sibelius. Lá, encontramos um quarteto de estudantes paulistas que estavam fazendo um tour da Europa de carro. 

Aí, em meio a neve que voltava a cair pesada, novas amizades surgiram e nós, seis brasileiros perdidos em terras finlandesas descobrimos que por mais lindos e exóticos que outras terras possam ser, sempre haverá em nós (apesar de toda a decepção política e social que temos sentido ultimamente) aquele sentimento caloroso da lembrança de nosso país, aquela vontade de ouvirmos nossa língua, de sentirmos nosso sol, de sentirmos o cheiro de nossa comida e abraçar aqueles que conosco dividem sua cultura. 

By Lukas Flamini
O sol começava a desaparecer no horizonte coberto de nuvens enquanto nos despedíamos dos conteerrâneos. Era preciso voltar ao hostel para fugir do frio intenso e forrar o estômago. Cada um voltou ao seu caminho: os road travelers para pegar a estrada, o Lukas e eu para o hostel preparar as coisas para o dia seguinte. 

Ele ia num cruzeiro de uma dia para Talín, na Estônia; eu, acordaria cedo para ir visitar meu amigo Zamuel Hube, em Turku. Fomos cortando aquele parque imenso na direção do bondinho que não tardaria passar. 


O que ver e fazer em Helsinque:
Catedral de Helsinki, Praça do Senado, Uspenski Cathedral, Torikorttelit, Esplanadi Park, Temppeliaukum Kirkko, Sibelius Monumentti, Tooloon Kirkko, Parque Kaivopuisto, Ateneum - Finnish Art Gallery, Porto, Vanha Kauppahalli. 






By Lukas Flamini @ Ateneum Finnish Art Gallery

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