domingo, setembro 10, 2017

Tervetuloa Turkuun! Turku, a cidade da margarida gigante.


“Perplexidade” – essa é a palavra que toma conta de nós quando ouvimos falar de ataques terroristas. Pois, é difícil entender, por exemplo, o motivo de no dia 18 de agosto um rapaz marroquino chamado Abderrahman Mechkah matar duas pessoas a facadas e ferir outras oito na cidade de Turku, no sudoeste da Finlândia.  Obviamente, pode-se explicar tais atitudes de várias formas, mesmo quando loucos e fanáticos não precisem de uma razão além da motivação distorcida de suas mentes para perpetrarem tais atos. No entanto, sempre me choca ouvir notícias como essa.

Minha perplexidade não só é causada pela incompreensão da maldade, mas se dá também pelo fato de eu ter estado nesse mesmo lugar há apenas alguns poucos meses e ter sido recebido tão calorosamente por sua gente. Aliás, os finlandeses que encontrei pelo caminho foram sempre de extrema atenção e cortesia comigo, se mostrando um povo amigável, prestativo e de imensa amabilidade.

Ver, através da imprensa, a praça do mercado coberta de flores e tristeza foi desolador, uma vez que, ali mesmo, havia pouco tempo, eu fui recebido com um caloroso abraço e um largo sorriso no rosto naquele primeiro encontro ao vivo com o Zamuel depois de duas décadas de uma amizade que começou por carta quando ambos éramos adolescentes estudantes de inglês querendo conhecer o mundo.

A cena propalada pela mídia mundial de ambulâncias e lágrimas e medo em nada lembra a calorosíssima recepção naquela praça coberta de neve de onde fomos rapidamente para o mercado esquentar o estômago com as iguarias da culinária finlandesa tradicional acompanhadas de um café, muita conversa, sorrisos e gargalhadas boas quando lembrávamos das coisas que dizíamos nas cartas e depois pela internet: da vida que vai passando, dos pensamentos que vão mudando, sem a gente se dar conta. 

Turku Kauppahalli - Mercado Municipal
O mercado, onde tomávamos nosso café, foi construído em 1896 para abrigar lojas que vendiam produtos frescos - frutas, carne vermelha, e peixes, estes, devido às instalações hidráulicas feitas já no início do século 20, podiam ser expostos em aquários a fim de serem comprados vivos pelos clientes. Lá encontramos diferentes tipos de restaurantes e lojas que vendem produtos alimentícios diversos. O Kauppahalli é uma das atrações principais da cidade. Lugar imperdível para quem gosta de experimentar a culinária local, bater um bom papo e apreciar um bom café. 

Foto from: https://visitturku.fi/turun-kauppahalli_fi 
Um passeio pela cidade
Eu iria passar apenas um dia em Turku. À noite teria de voltar para Helsinki, de onde, no dia seguinte, partiria para a República Tcheca. Assim, tão logo saímos do Kauppahalli, fomos fazer um pequeno passeio de balsa no mar quase congelado no centro da cidade. O Zamuel queria que eu tivesse a sensação de como era estar num barco singrando o mar congelado. Aliás, ele havia feito um roteiro interessante das coisas que poderíamos fazer em apenas algumas horas num dia de muito frio naquela cidade que é a terceira maior de seu país. 
Me lembro de ele dizer: "Eu sempre quis que você viesse aqui no verão, porque aí poderíamos nos divertir à beça. Mas vamos lá... vai na neve mesmo". Precisei lhe assegurar que aonde quer que fôssemos eu estaria vendo tudo pela primeira vez ali e que aquela realidade era 100% diferente de tudo que eu experimentara a minha vida inteira na Bahia - ou seja, pra mim tava tudo massa apesar do frio que penetrava os ossos. Afinal, quantas vezes na vida eu veria o mar sólido e patos nadando no gelo como se estivessem brincando nas águas mornas de alguma fazenda no interior da Bahia? Aquela cena era linda: o céu cinza, o gelo cobrindo as águas, minha cara cheia de neve e o vento soprando frio e balançando a balsa onde estávamos. Percebendo aquela imagem, logo entendi porque os quadros do meu amigo são tão ricos em cores, tão cheios de luz e com uma ideia pulsante de vida. 

Satama ja Turku - o Porto e Turku
By Zamuel Hube
À medida em que o carro cortava as ruas, Zamuel ia me contando a história da cidade onde os canais eram uma atração à parte. Durante o verão, restaurantes-barcos ficam lotados de turistas, as ruas à beira do cais estão sempre abarrotadas de gente indo e vindo e a vida pulula freneticamente entre um quiosque e outro. Naquele dia, devido ao frio, os únicos caminhantes, no entanto, éramos nós. Por isso, conseguimos a façanha de chegar ao Porto rapidamente e fazer várias fotos da Margarida de Turku, do navio da marinha finlandesa, e de todo o entorno, sem ter que pedir pras pessoas chegarem pra lá e deixarem a gente tirar uma fotinha pro Instagram. Deu pra fazer até palhaçada na hora do retrato, de forma que quase quebrei o pulso escorregando diante dos olhos arregalados de meu amigo, que me pedia pra ir com calma "porque o chão tá escorregadio demais". A gente então parou de caminhar e manteve o olhar até onde a vista conseguisse penetrar aquela quase intransponível barreira do horizonte cinzento por onde embarcações iam e viam desde anos imemoriais fazendo de Turku a primeira cidade portuária daquele lugar que outrora pertencera à Suécia, que foi a capital da Finlândia e que hoje mantém grande importância na economia e na política do país. 

Um mar de gelo
By Zamuel Hube
Uma das partes do Evangelho que mais me fascinam é a descrição de Jesus andando sobre as águas e dizendo a Pedro que se junte a ele. Sempre fiquei pensando como seria bacana correr em cima do mar, dar uma paradinha pra fazer umas presepadas, acariciar uma baleia, e outras paradas meio psicodélicas. Ali em Turku, meu sonho foi quase realizado. Paramos o carro diante de um descampado gigante de gelo e neve. Eu, ouvindo no soprar do vento as palavras "winter has come", quase me sentia um John Snow. Zamuel olhou pra mim e perguntou se eu estava pronto. Mandou eu caminhar à frente, "um pouco mais", "mais um pouco", "aí!"... "qual a sensação de andar sobre o mar?". Olhei pra baixo, em choque, minhas botas derrapando no gelo. Olhei ao redor, o mundo inteiro era gelo e neve. Ali estava eu, enfim, caminhando sobre as águas, escorregando sobre as águas. Meu amigo achando engraçado e fotografando cada cara de espanto, cada deslize naquela superfície inóspita, eu rindo feito criança e ele sorrindo por entender que aquilo tudo era mesmo maravilhoso para mim. Ele pediu que eu fizesse uma pose, colocou um zoom suficiente pra me pegar no meio do mar - no meio mesmo! - e fez a foto que vocês estão vendo aí em cima. 

Não há lugar melhor que a casa (dos nossos amigos numa tarde de inverno)
Como falei anteriormente, os finlandeses são pessoas muito queridas e cortezas. Preocupadas em proporcionar aos visitantes a melhor experiência de suas vidas. Por isso, não é difícil de acreditar quando digo que a esposa do Zamuel fez um banquete em minha homenagem! Tipo: um banquete daqueles manjar dos deuses do tipo que nos leva a fazer um adendo ao que disse Shaw sobre o amor: "Não há amor mais sincero que o amor à comida", ele disse. Eu ouso completar: "E não há gratidão maior quando numa tarde de -30 graus C seus amigos te fazem um banquete com carne de rena, puré de batatas, salada e frutas do norte numa casa quentinha onde até os adolescentes te recebem com um sorriso, muita curiosidade e muita vontade de conversar!". O almoço, exótico para nós que estamos acostumados a ver renas apenas puxando a carruagem do papai Noel, foi de um gosto salgado-adocicado, forte-suave, complementado por umas frutas vermelhas misturadas em cima da carne realçando o sabor de tal modo que minha vontade era comer feito um paxá, mas tive vergonha de parecer um esfaimado mal-educado, então, contive meu estômago e fiquei pensando o resto dos meses seguintes naquela saborosa refeição em companhia daquela linda família enquanto a neve caia lá fora - a neve caindo lá fora é algo de que sempre vou falar 😬.
Sempre gostei de misturar doce com salgado. Recentemente, estudando sobre a Escandinávia por causa do resultado do meu teste de DNA que (dependendo da ferramenta usada para análise do material genético) põe minha herança étnica entre 23.2% e 31%  originária daquelas bandas, descobri que é típico dos países nórdicos misturar esses sabores - um tapa científico na cara de quem me chama de estranho por misturar presunto e queijo com doce de leite! 

Hyvää matkaa - Boa viagem
Dizem que quando a gente está se divertindo o tempo passa que a gente nem sente. Os minutos que passei na presença de meu amigo e sua família pareceram infindáveis. Os vinte anos de amizade pareceram se reproduzir a cada segundo, as sensações, as ideias que fazíamos um do outro, tudo era ao mesmo tempo surpreendente e familiar. Familiar porque nos sentíamos realmente próximos e surpreendente porque essa familiaridade, esse sentir-se em casa na presença do outro, foi a coisa mais natural do mundo, mesmo, como eu disse, sendo essa a primeira vez que nos víamos ao vivo em todos esses anos. No entanto ali, ao cair da noite, era hora das despedidas e dos corações apertados. 
Paramos na sala, eu, Zamuel e sua família; nos olhamos todos por alguns segundos que pareceram imortais, vitrificados no gelo que mais cedo cobria o mar. Alguém lembrou da foto histórica. sentamos todos no sofá, fazendo aquela pose que ficará guardada para sempre. O flash iluminava o recinto e numa fração de centésimos de segundos relembrei minha apreensão quando saí de Helsinque pela manhã; me lembrei do nervoso, da expectativa, ao descer do ônibus e dar de cara com o Zamuel me esperando no ponto sob a neve que caía densa. Me lembrei da insegurança se dissipando quando ele me disse na mais pura bonomia: "Então você chegou! Eu pensei em trazer sua foto e perguntar ao motorista se ele tinha visto esse sujeito no ônibus. Ia ser um frisson, hein!?". Imagino que teria sido engraçado, pelo menos. Agora ali, eu sabia que tinha sido acolhido por aquela família que fez de tudo para me deixar feliz e me sentir bem-vindo, desde a delicadeza do meu amigo de me levar a ver coisas que ele pensava seriam inesquecíveis, a doçura de sua filha mais velha em conversar comigo em espanhol e me pedindo pra avaliar seu inglês, ao carinho de sua esposa em preparar uma recepção tão acolhedora.
Antes de irmos, Zamuel me mostrou um livro de fotografias de Salvador da Bahia e me disse: "Um dia a gente se reencontra lá". As palavras correndo a sala com um "Amém" tácito de todos, selado por um sorriso. Havia chegado a hora de ouvir a frase Hyvää matkaa, Boa viagem, mas não sem um abraço forte, e as lágrimas nos olhos, enquanto no meu ouvido ressoavam as palavras da música do A-HA que tocava no carro pela manhã assim que fomos em direção ao porto de Turku, lugar de onde se vai e se vem, "here I am, and within the reach of my hands...". 
O ônibus (http://www.onnibus.com/en/index.htm) que me custou apenas dois euros pra atravessar a Finlândia, agora me levava de volta a Helsinque com o coração entrecortado de sentimentos bons e saudade antecipada daquela família tão querida a quem dizer "Paljon kiitoksia, veli" (muito obrigado, irmão), no meu finlandês meio quebrado, não é ainda suficiente. 

Como não podia deixar de ser...
Ao chegar na Estação de Helsinque, lá perto das 22h, a temperatura beirando os 35 graus abaixo de
zero... me perdi. Olhei de um lado para o outro procurando um segurança, um painel que me dissesse como chegar ao meu hostel, mas não encontrei nada. Subi e desci escada rolante tentando encontrar a entrada pela qual eu havia chegado ali de manhã - estava tudo encoberto pelas abas da noite. Sentei num banco, fechei os olhos e disse: "Senhor, agora é com Você. Eu tô perdido aqui no meio do gelo". Respirei fundo, levantei resoluto e fui rumo à saída. No caminho, uma moça me olhou - talvez percebendo minha cara de "e agora?!" - e me perguntou se precisa de ajuda. Resultado, ela andou comigo até encontrar o ônibus certo. Quando agradeci, a resposta: "Não há de quê. Eu jamais poderia deixar alguém perdido nesse frio". Tão finlandesa ela! Tão me fazendo descrer que seria possível existir um cara como aquele marroquino, sobre cujos atos iniciei este post, andando pelas ruas da Finlândia! A moça sorriu, se despediu e eu fui ao caminho do hostel, despreocupado com a caixinha de pastilhas que os filhos de meu amigo tinham comprado pra mim. Aquele sabor agridoce, salgado-açucarado cobrindo minhas papilas gustativas numa noite fria de um dia feliz no norte do mundo. 


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Para conhecer as obras de Zamuel Hube, visite: https://zamuelhube.net/

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