terça-feira, janeiro 10, 2017

Amsterdam - Holanda - Linda, Leve e Louca


Embora meu destino principal fosse Amsterdã, precisei pernoitar em Eindhoven porque a Ryanair tem voos baratos para lá partindo da capital dinamarquesa. E, além do voo com preço superbarato que eu encontrei, ainda tinha a ideia de conhecer mais uma cidade holandesa além da capital. Escolhi um hotel perto da Estação Central onde há várias acomodações arrumadíssimas e com preço acessível. Procurei por um lugar onde pudesse fazer o check-out depois das 10:00 pra poder dormir um pouquinho mais e relaxar antes de me aventurar pelas ruas da louca capital neerlandesa.

Os trens para Amsterdam saem regularmente da estação central e o valor da passagem de ida e volta
Rua do Centro de Amsterdã à noite
(quando comprei) foi 40 euros (se Eindhoven não te interessar, talvez seja melhor pagar mais caro nos bilhetes de voo de outra companhia que tenha Amsterdã como destino e ir direto para lá). O legal de andar de trem na Europa é ver as lindas vilas e povoações ao longo do caminho. No trajeto de uma hora e poucos entre Eindhoven e Amsterdã a gente pode ver cidades e vilas com moinhos rodando suas pás gigantes no horizonte azulado, canais longuíssimos em que barcas cruzam acima e abaixo, chalés coloridos e com chaminés, enfim, vale a pena se deixar inspirar pelo cenário bucólico do interior da Holanda e ainda de quebra conhecer pessoas interessantes que estão no mesmo vagão que você.
 
Igreja de São Nicolas
Amsterdã a cidade do “libera geral”?
Está no imaginário popular que a capital holandesa é o lugar onde se pode fazer de tudo e de tudo se experimentar sem medo de ser feliz. No entanto, acredito, pelo que vi e ouvi dos moradores locais com quem conversei, que as coisas não são bem assim.

É certo que levas de turistas de todo o mundo vão a Amsterdã para poder consumir maconha e outras drogas – em qualquer lugar chamado “coffee shop” eles vendem maconha, space cake, misturas alucinógenas e tudo o que os dopeheads podem desejar - sem serem incomodados pela polícia ou coisa que a valha. Mas você, que gosta de queimar o velho baseado, não se empolgue muito. Aqui vão os motivos: o uso da maconha não é liberado na Holanda, é tolerado (assim como de outras drogas consideradas leves) em Amsterdã; você não pode queimar o becky em qualquer lugar, só nos chamados coffee shops (que, em termos legais, vendem drogas de forma “ilegal”, pois o uso de da maconha não é legal, é tolerado (repito); ou pode consumir em sua casa e só em certa quantidade; você também não pode sair da Holanda com maconha, pois se der azar e passar por uma inspeção ocasional na “fronteira” ou num aeroporto, você estará na cloaca da cobra. Portanto, se a razão pela qual você quer ir a Amsterdã é usar drogas, fique bem atento às regras do país e da Comunidade Econômica Europeia.

Amsterdam Centraal
Isto dito (precisava fazer este hiato para contemplar algumas perguntas feitas por amigos), é preciso dizer que eu, em particular, não estava nem aí para baseados holandeses, a cidade tinha muito mais a oferecer para mim do que uma viagem psicodélica à base de cannabis. Por exemplo: muita arte, muita cultura, muitas igrejas lindas, muitos canais e muita comida.

Mais do que space cake
Antes mesmo de sair da Amsterdam Centraal, já estava encantado com a cidade. A estação, que fica no centro de Amsterdam, estava toda decorada para as festas de fim de ano e as luzes natalinas começavam a brilhar junto com o pôr-do-sol que se aproximava. Parei alguns minutos para apreciar a arquitetura do edifício antes de tomar as ruas.
Rua no centro de Amsterdam
Ainda na estação, percebi que eu não tinha sido o único a querer passar o feriado de 25 de dezembro por ali (aliás, o feriado lá é de 24 a 26!). A cidade estava lotada, de maneira que andar pelas ruas puxando uma mala de rodinhas parecia uma tarefa complicada. Mas eu me misturei à multidão e fui caminhando, fazendo mentalmente o percurso que tinha visto pelo computador no Google maps 3D, por várias vezes, acreditando que mais uma vez meu app iria me deixar na mão (como deixou!).

Da estação central ao meu hostel eram apenas 10 minutos, mas eu alonguei esse período até quase uma hora, pois é impossível caminhar pelas ruas de Amsterdã sem se impressionar com a arquitetura que mais lembra aqueles bloquinhos de casas que a gente tinha na infância. Alguns edifícios, aliás, são extremamente tortos ou se precipitam sobre a rua dando a sensação de que vão cair a qualquer momento. Me lembro, inclusive, da Maria e da Andreza, duas brasileiras com quem tive o prazer de compartilhar o quarto, me chamarem a atenção para um dos prédios que vimos em nossas andanças que pareceria que com qualquer espirro iriam desmoronar sobre a calçada, ou essa era a impressão que causavam. Mas ele estava lá há décadas, enfeitando a, assim chamada, Cidade do Pecado, de frente a um dos vários canais que a cortam como veias pulsando num corpo libertino que desaguam pelo bairro luxurioso das luzes vermelhas.

The Red Light District
Me lembro de uma novela – acho que Tieta do Agreste – onde havia um lugar chamado A Casa da Luz Vermelha, no qual as mulheres-damas trabalhavam para se manter com o suor do seu trabalho, o qual era repudiado pela gente de bem de Mangue Seco. Essas pessoas de lá se chocariam ao passar pelo famoso distrito amsterdanês e verem expostas nas vitrines mulheres de todos os tipos e gostos com suas formas exuberantes ou exóticas, dançando de roupa íntima e combinações para todos os transeuntes olharem, gostarem e comprarem seus serviços. Às vezes, uma delas abria a porta e chamava o passante a entrar e experimentar as delícias do seu trabalho. Um ou outro menos tímido sorria, olhava a multidão, perguntava o valor e sumia atrás da cortina que era puxada sobre a janela da vitrine.
Centenas de pessoas, especialmente homens jovens, transitavam pelo bairro na noite em que estivemos lá. Todos olhando as vitrines com olhos arregalados e muito sorriso sem graça no rosto enquanto caminhavam rua acima ou rua abaixo sem saber direito o que fazer ou em qual das figuras messalínicas concentrarem sua visão. As luzes vermelhas das casas lembrando desejos proibidos, o neon piscando aqui e ali na noite fria de Natal, sugerindo o calor das paixões pagas com euros a mulheres quase nuas simulando sexo nas janelas, o Museu do Erotismo, as águas frias passando pelo canal sob as ruas quentes de De Wallen, é uma atração um pouco chocante para quem não pensa que o ser humano, assim como produtos nas lojas, está à venda.
Mas, se por um lado a prostituição reconhecida legalmente como profissão pode causar desconforto; por outro lado, o direito dessas mulheres (e desses homens) em trabalhar e serem protegidos por lei enquanto exercem sua profissão é algo louvável.  
O Rossebuurt me pareceu um grande mercado popular onde o produto exposto na vitrine tinha cara, corpo e mente de várias raças e culturas, e me fez pensar nas pessoas brasileiras sujeitas a tantos males por viverem na escuridão de seus misteres corpóreos.

“O que é feito não pode ser desfeito, mas podemos prevenir que aconteça novamente”
Casa de Anne Frank
Ir à Amsterdã é se encantar com seus canais, com a ubiquidade de suas bicicletas, com a arquitetura de seus prédios e praças, com a amabilidade de seus moradores, com a cuca fresca de quem passa por nós. Mas é também relembrar um dos episódios mais tristes da história da humanidade.
Desde adolescente, quando li o Diário de Anne Frank pela primeira vez, senti que apesar de sermos capazes de coisas incríveis, somos também capazes de coisas tenebrosas como odiar alguém pelo simples fato de ele/a ser diferente de nós. A história pungente narrada há várias décadas por uma menina da mesma idade que eu tinha quando li suas memórias ficou gravada em minha mente de forma dolorosa e profunda – não apenas por causa de Anne Frank e sua família, mas pela extensão daquilo, por saber que milhões de pessoas passaram pelas mesmas dores, aflições, desespero e medo, e que foram vítimas de uma morte terrível por causa de um louco que pregava a diferença entre humanos e humanos – graças a Deus pela antropologia e pelos estudos de DNA, os quais histórica e biologicamente provam que tal teoria da superioridade ou inferioridade de “raças”, além de ser estúpida, é totalmente mentirosa.  
A casa é uma recriação baseada na narrativa de Otto Frank, não é mobiliada, e também não é no
Prédios desalinhados em Amsterdam
lugar onde a família foi escondida por amigos holandeses. No entanto, subir aquelas escadas e ler a informação a respeito do cômodo, ler trechos do livro, realmente exerce sobre nós uma sensação esmagadora. Ver e estar no ambiente de cômodos pequenos e apertados onde a família teria vivido, fugindo diariamente da SS por tantos meses, é ser transportado de volta para as páginas que Anne Frank legou à humanidade. A Casa de Anne Frank é sem dúvida uma recomendação que faço a quem estiver na cidade.
Mais informações neste endereço:http://www.annefrank.org/en/Museum/Practical-information/Online-ticket-sales/      eles dizem que indo à noite você pode comprar o ingresso na portaria mesmo, mas que não é garantia. Nós compramos assim que chegamos ao museu (umas 20:00h.) e foi tudo de boa, pouca gente, etc.

Pois tudo o que é bom, sempre acaba... em comida italiana
Restaurante Il Palio Amsterdam
Os dias em Amsterdã foram bem bacanas. Conhecer uma das melhores cidades do mundo, uma das mais seguras e tão rica em história e cultura, com gente tão bacana e pronta a ajudar é, sem dúvida, uma viagem que a gente não esquece tão facilmente.
E entre as coisas inesquecíveis, está uma boate no meio do caminho entre o restaurante IL PALIO e nosso hostel. Abre-se um parêntese aqui. O restaurante Il Palio é um lugar que mais do que recomendo aos amantes da boa e farta comida e dos garçons engraçados e amigáveis. As meninas o haviam descoberto no dia em que cheguei à cidade e me convidaram para jantar com elas à noite. Pedimos uma lasanha pensando que era um quadradinho de dois no prato, mas o que veio à mesa encheu até o dia seguinte. Aliás, no dia seguinte também estivemos lá para uma pizza gigantesca individual – tudo a apenas 5 euros! Mais informações aqui: https://www.facebook.com/Pizzeria-IL-PALIO-1555741284660809/?fref=ts
Pois bem, depois de sairmos do restaurante com os cumprimentos e apertos de mãos calorosos de
Paulo, um soteropolitano pelo mundo
Levent, o rapaz que nos atendeu sempre que estivemos lá, fomos procurar uma festa para ir. Mas em Amsterdam, você não procura festa, ela te encontra. Ouvimos um som vindo de uma das casas pela rua onde passamos, paramos, fomos convidados a entrar, entramos sem pagar nada e sem consumo mínimo. Quando chegamos lá, todo mundo dançado, gritando, vivendo. Traduzindo o espírito da cidade nas luzes do estroboscópio e som tecno que a DJ tocava.

Gostou? Então divulgue.
 😉
O que ver e fazer em Amsterdã:
Albert Cuyp Market
Museu Van Gogh
Museumplein
Rijksmuseum
Vondelpark
Leidseplein
Dam
Basiliek van H Nicholas
Nemo Science Museum
Maritime Museum
Jewish Historical Museum
Casa de Anne Frank
Nieuwe kerke
Palácio real de Amsterdã
E, obviamente, qualquer coisa que você desejar, Amsterdã tem de tudo!

 
Canal no centro de Amsterdam 







Um comentário:

Desconhecido disse...

Excelente texto, um dia com certeza irei!

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