domingo, agosto 26, 2012

IN MEMORIAM - um desabafo

Podemos crer no que for do leque de opções que as várias religiões e filosofias nos oferecem; podem nos dizer o que quer que seja a fim de nos consolarem: as palavras mais maviosas e ternas, as mais racionais e concisas; podemos saber todo e cada detalhe das leis da biologia, da química e da física; podemos ser médicos, sacerdotes, filósofos ou qualquer que seja a ocupação que a sociedade nos ofereça para nos tornar capazes de compreender a vida e a morte. Mas o fato é: nada do que cremos, nada do que nos digam, nada do que saibamos, consegue aplacar a dor tão atroz que é perder um ente querido. 

Eu, particularmente, acredito na vida após a morte, na ressurreição dos mortos, na volta de Jesus e no Arrebatamento. No entanto, embora tenha o consolo de saber que aqueles que partem, partem para uma vida muito melhor, uma realidade "inefável" - nas palavras que João Ferreira de Almeida traduziu a São Paulo -; que aqueles que partem na verdade "não estão mortos, mas dormem no Senhor", não consigo deixar de ter essa sensação de que algo está em falta e que essa falta é permeada de dor; dum sentimento que comprime as entranhas e faz o peito arder numa aflição tão forte que às vezes é preciso gritar e fazer a pergunta retórica "por quê, meu Deus?". É claro que Deus não precisa de responder, pois sua resposta está na natureza. Desde a escola primária a gente aprende que "todo o ser vivo nasce, cresce, reproduz e morre" - foi o que minha professora Rita de Cássia Santana me ensinou na 1a série. Mas, face a partida de nossos amados, essa constatação natural é apenas esquecida e jogada no fundo do baú de nossas mentes. 

É de lá - do baú de nossas mentes - também que brotam as lembranças as quais nos fazem pensar que "ontem mesmo estava tudo bem, ontem mesmo conversamos, demos gargalhadas, trocamos confidências. Ainda ontem eu te ouvi rindo, ainda ontem eu te ouvi dizer que tudo estava nas mãos de Deus. Foi ontem mesmo que nos vimos, que sentamos juntos, que vimos o dia passar. Foi ontem".  Agora só resta o silêncio. Aliás, não o silêncio, mas as vozes de ontem - seja esse ontem o dia anterior ou o mês anterior ou ano anterior - que não calam e não nos deixam esquecer e que ecoam somente no recôndito de nossos pensamentos.

A velha lição de Ciências fica esquecida na nossa estúpida crença do super-homem, na negação diária da morte, na  ideia equivocada de nossa eternidade física, na protelação das visitas que devemos fazer porque um dia sucede o outro e tudo parece tão igual, tão imutável, ocorrendo bem conforme nossos planos, que nos esquecemos da premência, da urgência que é a vida, e temos o arrogante sentimento de que estamos no controle de tudo. Esquecemos a antiga lição do salmista que nos diz que a vida é como a flor soprada pelo vento, logo se desfaz. E é assim mesmo que vemos e sentimos ante a morte: a vida se desfaz no rosto marmóreo, nas feições inexpressivas, no rosto sereno de quem parece estar dormindo, mas que não acordará com nosso toque ou com nossa voz chamando o seu nome. 

Eu bem sei que nada é para sempre, que as pessoas podem nunca mais voltar - aprendi bem cedo, aos seis anos. Mas somos teimosos, não é? queremos a todo tempo nos prender com unhas e dentes na esperança de mais uns dias, mais uns minutos, de mais algum sopro de vida, de mais qualquer coisa que nos dê um tempo - o mínimo que seja - com aqueles do nosso convívio. No entanto ontem, quando a chuva caía forte, torrencial lá fora, ali dentro daquela capela mais uma vez eu pude ver o quanto nos iludimos com nossos quereres de eternidade, com a negação do óbvio, com a insensatez dos nossos sentimentos infantis. 

Ver minha avó, minha "voinha", coberta de flores dentro de um esquife de alças douradas, seu rostinho tão sereno como se dormisse e logo logo fosse acordar e dizer "Bate Báter" - conforme ela gostava de lembrar o modo de minha prima Michelle chamar meu nome (Márcio Walter) quando éramos crianças - e rir sua gargalhada gostosa como só ela tinha mesmo diante da tristeza; ver os rostos ali presentes, os semblantes de claro pasmo, de dúvida e descrença; ouvir dizerem "mas ontem mesmo ela estava tão feliz, conversando", foi uma das sensações mais tristes, desconsoladas, inconsoláveis que já tive. Afinal, a morte, a despeito de nossas crenças e do óbvio que é morrermos todos os dias, dói demais - e essa dor é tão física quanto metermos a mão com força no peito e arrancarmos de lá o coração com tudo o que há lá dentro: planos futuros, projetos presentes, recordações passadas. 

E essa sensação, persistente e insistente, parece que nunca vai passar. Eu sei que ela gostaria que esquecêssemos o luto, seu desejo seria que gargalhássemos e prosseguíssemos em vez de nos entristecermos e gastarmos tempo escrevendo textos catárticos. Mas como rir de verdade com a ferida recalcitrante no peito, como dizer "é só por um instante, em breve nos veremos" quando ainda a vida pode alongar-se por cinquenta, sessenta anos mais? Quem parte com Deus, parte feliz, diz o povo, mas nos deixa a saudade, a  constatação terrível de que nada está em nosso controle, de que a vida é um sopro e que os risos podem emudecer-se numa fração de segundos, que as alegrias podem desvanecer rapidamente e assim também que as mágoas, os sentimentos de poder, a arrogância recebem uma rasteira e se esfacelam no chão. 

Ontem, a partida de minha avó deixou em mim uma impressão muito forte, uma dor misturada com incertezas, com saudades, com raiva, com um quase desespero diante da impotência nossa. Mas também trouxe à tona a sensação de que é preciso fazer mais, de que é necessário e urgente rever a vida e dar valor as coisas mais importantes: o convívio dos nossos entes queridos, o repensar as prioridades, o esquecer pequenices, o doarmo-nos em todo o tempo; é preciso saber seguir. Seguir as palavras do Evangelho que nos alertam a viver "cada dia como se fosse o último" e nisso aprendermos a compartilhar mais, ouvir mais, viver mais. Pois, antes que esperemos, a vida pode contrariar nossos planos e aquilo que era para sempre se desvanecerá no vento.

Antes que isso ocorra, se lembre de agradecer. eu o faço novamente: obrigado, voinha, por me ensinar a andar de bicicleta, por me dar o gosto de tomar sorvete de chocolate misturado com sorvete de ameixa, por me forçar a comer peixe à escabeche, por me mostrar que a vida é pra ser gargalhada diante das tristezas; obrigado por me ensinar, de criança, a honestidade, obrigado pela severidade imbuída de amor, pelas correções e por deixar pequenas falhas passarem despercebidas. Obrigado pelas coisas simples e pelos ensinamentos profundos, obrigado por tudo e até àquele Dia. 
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Um comentário:

Marcela disse...

Lindo seu desabafo, meu tio. É exatamente assim que me sinto com a perda de minha bisa. A sensação de impotência e a tristeza por perder uma criatura tão maravilhosa. Só o Senhor pra curar as nossas feridas mesmo. Um beijo, amo você.