sábado, abril 07, 2012

Carta aberta aos cristãos sobre dízimos, ofertas e lobos

O último conto de meu livro DE DOR E DE SONHOS traz a história de Luís, um aspirante a pregador duma pequena igreja na periferia de alguma cidade do Brasil. A história se passa no dia da sua consagração como evangelista; dia este que, em vez de alegria cristã, está cheio de um sentimento desesperado de culpa, dúvidas e revolta que lhe encheu a alma alguns dias antes quando ele escutou uma conversa entre o seu pastor e o tesoureiro da igreja acerca dos dízimos e das ofertas. Revoltado com o teor do diálogo, o personagem vive momentos de intenso conflito entre razão e fé que, após uma atitude inesperada sua, culmina numa constatação que resume, na visão do personagem, todo o significado da pregação de Cristo: "De graça recebeste, irmãos, de graça dai! Estamos aqui para vivermos o amor de Deus (...) de coração aberto para um Deus que não precisa de seu dinheiro. (...) Amai-vos uns aos outros! Foi isso, e só isso, o que Jesus pediu de nós. (...)". (- in:Libertação,DE DOR E DE SONHOS, p. 111/112 - Todos os direitos reservados). 

No entanto, muitas igrejas voltam hoje, em pleno século XXI, a cobrar indulgências dos fiéis como nos tempos medievais, a vender-lhes "um pedacinho do Céu" em troca das suas doações - aliás, me lembro muito bem que foi justamente essa frase que ouvi numa visita à igreja Universal no começo da década de 90. Bordão que eles usavam como suprema verdade evangélica até que a Rede Globo de Televisão divulgou vídeos em que o Bispo Edir Macêdo e sua trupe saiam dum estádio de futebol, onde haviam feito um dia de cultos, carregando sacolas de dinheiro e depois, no hotel em que estavam hospedados, dançavam e cantavam exibindo maços de moeda corrente.

Não sou contra a doação de dinheiro para as igrejas, nem sou do tipo que contra isso vocifera. Afinal, as instituições, sejam elas seculares ou religiosas, necessitam de capital, e no que toca a esta última, há que se pagar não só salários de funcionários, aluguel de imóvel, luz, água, mas também prover ajuda aos missionários enviados por todo o mundo. No entanto, como judeu-cristão, eu defendo que os dízimos e as ofertas devem cumprir o propósito pelo qual foram instituídos na Lei de Moisés. Hoje, o que eles pregam são as frases do profeta Malaquias: "Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais e dizeis: em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. (...) Trazei os dízimos e as ofertas para que haja mantimento em minha casa (...)". Mas eles param aí e - a despeito da palavra em si já nos indicar - não nos dizem que mantimento é este de que o profeta estava falando no capítulo três de seu livro. 

Por isso, os simples de coração, os que creem que seus líderes são a trombeta de Deus, os que não têm um pensamento mais crítico - por esse ou aquele motivo -, não se perguntam se o mantimento ao qual se referiu o profeta é aquele que vai engordar as burras de pastores, bispos, apóstolos (e em breve nessa nomenclatura neoprotestante) quasecristos, ou se ele tem outro propósito. 

Se voltarmos à instituição das leis mosaicas, saberemos que Aarão e seus descendentes, chamados de levitas, por determinação divina, eram proibidos de trabalhar e que deveriam viver das ofertas trazidas ao santuário, do qual eles se ocupavam unicamente. Adiantando mais um pouquinho na cronologia legislativa também saberemos que eles, por não terem parte da herança das outras tribos, deviam ser por elas sustentados. No entanto, o que não parecemos entender é um pequeno versículo do livro que determina essas coisas, o livro de Deuteronômio.

No capítulo 14, versículo 29, Moisés diz: "Então, virão o levita (pois não tem parte nem herança contigo), o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão dentro da tua cidade, e comerão, e se fartarão, para que o Senhor, teu Deus, te abençoe em todas as obras que as tuas mãos fizerem". O mantimento na casa do Senhor de forma alguma significava a doação de moeda corrente e, muito menos ainda, sua troca por fazendas, emissoras de TV, carros importados, sítios, apartamentos, casas, viagens ao exterior e pirâmides faraônicas. O mantimento a que se refere o profeta Malaquias é a comida que deveria sustentar não só os levitas mas também os órfãos, as viúvas e os estrangeiros na terra para que eles não ficassem à míngua, desprovidos e desamparados numa sociedade que os marginalizaria. O dízimo tinha cunho social e democrático. 

Mas, va bene, as coisas mudaram dos tempos mosaicos para cá. Como eu mesmo disse anteriormente, há que se pagar luz, água, aluguel de alguns templos, funcionários e manter missionários aqui e no exterior. Tudo bem, contribuamos com a obra do Senhor. Mas contribuamos conscientemente! Não façamos como os alienados que dizem "minha obrigação é dar o dízimo, o que eles farão é problema deles e Deus". Não sejamos os idiotas que são passados para traz, enganados e que ficam na "provação" sorridentes, na "dispensação da graça" enquanto os lobos roubadores se aproveitam do fruto do trabalho alheio. 

Lembremos, por exemplo, do capítulo intitulado pela Sociedade Bíblica do Brasil, tradução de João Ferreira de Almeida, "os dízimos para os serviços do Senhor", do livro de Deuteronômio, a seguir: "Certamente, darás os dízimos de todo o fruto das tuas sementes, que ano após ano se recolher do campo. E, perante o Senhor, teu Deus, (...) comerás o dízimo do teu cereal, do teu vinho, do teu azeite e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer o Senhor, teu Deus, todos os dias. Quando o caminho (até o templo) for comprido demais (...) vende-os e leva o dinheiro na tua mão (...) ESSE DINHEIRO DÁ-LO-ÁS POR TUDO O QUE deseja a tua alma: por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer coisa que TE PEDIR A TUA ALMA; come-o ali perante o Senhor, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa.(...) Então, virão o levita (pois não tem parte nem herança contigo), o estrangeiro, o órfão e a viúva que estão dentro da tua cidade, e comerão, e se fartarão, para que o Senhor, teu Deus, te abençoe em todas as obras que as tuas mãos fizerem". (14:22-29). 

Esse é o mantimento que deve existir na casa do Senhor! Este é o motivo de darmos 10% de tudo o que recebemos: ALEGRAR A NOSSA ALMA USUFRUINDO - NÓS MESMOS - DO FRUTO DO NOSSO TRABALHO E AJUDAR OS QUE NECESSITAM! e aí, segundo Malaquias, depois que nós nos alegrarmos com o nosso dízimo, lembrando por causa dessa alegria com o fruto do trabalho de que foi Deus quem nos deu o que temos e distribuirmos também com os que precisam, aí, Deus "abrirá as janelas dos céus e derramará um dilúvio de bênçãos; repreenderá o devorador, fertilizará a nossa terra e todas as nações nos chamarão bem-aventurados" (Ml 3:6-12).

Se nós, os da fé, entendêssemos o que lemos, não seria necessário que a Globo, nossos vizinhos ou quem quer que seja abrissem nossos olhos. Talvez, através de doações racionais, não víssemos a briga pública capitalista entre Edir Macêdo e Valdemir Santiago, um tentando derrubar o outro, tirar o cliente do outro, para ver quem fica com a maior parte de doadores; ou as enormes fazendas, jatinhos particulares, castelos e toda a sorte de ostentação de riqueza deles e de Estevam e Sônia Hernades ou de tantos outros lobos em pele de cordeiro que em seu afã pela adoração de Mamon, se esquecem que o Filho de Deus era carpinteiro e que andava a pé pregando o Evangelho com o único propósito de redimir as pessoas através da transformação da animalidade humana em essência divina. Talvez, se entendêssemos o que lemos, não veríamos nossa fé transformada em circo e nossa religião em moeda corrente cujo único propósito é enriquecer aqueles que se esquecem de que, como concluiu a personagem da história "Libertação", é só o amor o que importa, pois foi "isso, e só isso, o que Jesus pediu de nós".





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