sábado, março 25, 2017

Árvore genealógica - Ílhavo, Aveiro - lugar ancestral parte 2

Menina da Ria - Homenagem de Caetano a Aveiro

O sol brilhava levemente no céu de um azul claríssimo naquela manhã de dezembro de 2016 quando a voz ao auto-falante me despertou do pseudo-sono no qual eu caíra desde que havia saído de Coimbra. O comboio suburbano parou na estação de Aveiro. Levantei, vesti meu casaco, esperei as portas se abrirem e desci as escadas rolantes, um tanto sonolento, ainda passeando entre as terras da crença e da descrença. Não queria gerar muitas expectativas, pois, se vocês que acompanham minhas descobertas lembram bem, eu tive uma forte decepção em Coimbra (http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/09/um-lugar-chamado-covelos-foz-de-arouce.html). No entanto, ali em Aveiro, aquele vento friozinho que soprava acariciando minhas faces, brincando com meus cabelos, ia de leve em leve dissipando minhas apreensões, talvez como um prelúdio do que me aguardava - talvez.
Trenzinho de turismo em frente à Estação d'Aveiro
Cheguei ao saguão da estação. Tinha marcado com o Ricardo à entrada. Olhei para um lado e outro. Respirei fundo. A estação estava quase vazia, apenas um ou outro estudante com a mochila nas costas caminhava em direção ao balcão de passagens. Olhei mais uma vez para o lado. A ansiedade, se agigantando, fazia o lugar parecer cada vez mais solitário. Respirei melancolicamente e já pensava em ir dar um passeio pela cidade quando vi vindo em minha direção um rapaz com um boné ao estilo português e os braços abertos, sorriso estampado no rosto e a pergunta: Márcio?!
Aquela fisionomia me era familiar, menos pelas fotos do Facebook do que pela semelhança com o retrato do nosso bisavô que eu tenho na parede do meu gabinete em Salvador da Bahia. Fixei o olhar naquele rosto cuja parecença com o velho Berardo Rocha as fotografias não deixavam tão evidentes quanto agora e acho que devo ter sorrido largamente, porque ele me deu um abraço forte, me olhou e me disse rindo: "Oh, pá! Tás a querer me enganar com essa barba toda! Quase te não reconheci".
O Ricardo me fora apresentado pelo senhor Antônio Bizarro, o qual tinha cumprido a promessa que me fizera quando nos encontramos, quase ao acaso, na praça de Ílhavo em janeiro (http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/09/ilhavo-aveiro-lugar-ancestral.html) e, incansavelmente, procurado pelos remanescentes da família Rocha Carolla que ainda viviam por lá.
Sr. e Sra Antônio Bizarro, Ricardo, eu e Ana Maria
Certa noite, no final de agosto, ao ligar o computador, encontrei o e-mail do Ricardo se apresentando e me dizendo que se precisasse de alguma informação sobre a família, que por favor entrasse em contato com ele. Pode-se imaginar quão grandes foram a surpresa e a alegria que me envolveram totalmente. Quase pulei da cadeira - acho mesmo que devo ter pulado com o coração batendo forte e as lágrimas a umedecerem os olhos. Afinal, após dois anos de busca, chegava diante de mim a confirmação de que pra além do Atlântico Sul alguém tinha nas veias a correr parte do sangue que me havia formado. Ali, nas bandas de Vagos, em Aveiro, residia a outra parte da minha família a qual até há um par de anos nós sequer havíamos suspeitado existir.
Agora ele estava ali, com o braço sobre meu ombro, a cara tão ou quase tão incrédula e ao mesmo tempo crédula e surpresa de estarmos nos vendo face a face e nos ouvindo na mesma língua e com sotaques tão diferentes - nós, que partilhávamos de uma mesma origem comum, de um mesmo ancestral que um dia singrou os mares e foi criar suas duas famílias na antiga Terra de Santa Cruz.

A grande surpresa
Tia Rosa (à direita) e minha avó Georgina
Há muitos anos, após ler um poema de Florbela Spanca chamado "Eu", tive vontade de escrever um conto que narrasse a história de duas pessoas destinadas a se encontrarem e que jamais conseguiram porque sempre, quando se aproximavam uma da outra, desviavam o olhar para o lado oposto. A história se basearia na parte final do soneto que diz: "Sou talvez a visão que Alguém sonhou/ Alguém que veio ao mundo para me ver/ E que nunca na vida me encontrou". Essa foi quase exatamente a sensação que tive quando o Ricardo estacionou o carro em frente à casa de seus pais.
Por um minuto eu pensei que se não houvera sido pela Providência pela qual eu encontrei o senhor Antônio Bizarro na rua, aquela história que eu nunca pus no papel teria sido escrita com minha própria vida.
A razão é simples: quando estive em Ílhavo em janeiro do ano passado fui comprar um arranjo de flores para depositar ao túmulo dos meus trisavós. A floricultura da dona Laide, a Lady Flores, fica na rua atrás do cemitério onde também, a apenas alguns metros, está a casa dos pais do Ricardo! Eu olhei pra ele e disse: "Eu estive andando por esta rua e passei em frente a esta casa duas ou três vezes!" e ele me respondeu: "Pois estiveste tão perto e tão longe, hein primo!". Fiquei num espanto mudo pensando em como às vezes, realmente, na vida as respostas para nossas buscas estão bem perto de nós e elas passam sem que nós saibamos que bastava apenas olhar mais detidamente (e chamar).
O pai do Ricardo me tirou do torpor ao abrir a porta de casa e nos mandar entrar, porque a manhã,
apesar de ensolarada, estava fria. Seria melhor que estivéssemos "aquecidos do lado de dentro". Ele talvez não imaginasse que o "lado de dentro" seria não apenas físico, mas especialmente relacionado à alma.
Ao adentrar aquela sala e ver a Luísa (a irmã do Ricardo) com o sorriso no rosto e o abraço pronto; e o rosto de sua mãe que nos esperava ansiosa sentadinha no sofá, meu coração pulou três vezes. Eu senti correr em mim aquela sensação de acolhimento e carinho, de o peito arfar e o choro subir do mais recôndito da gente e parar incerto entre o coração e os olhos. Aquela senhora encantadora, a qual me recebeu com um abraço tão apertado, era extremamente parecida com minha avó Georgina - mãe do meu pai -, muito mais parecida que minhas próprias tias. Olhei para ela e disse: "Tia Rosa, a senhora é a cara da minha avó!". Se restava alguma dúvida dos papeis, o DNA, estampado no rosto, a dissipava toda. Se puséssemos minha avó e a tia Rosa juntas a caminhar, pensariam todos que fossem mãe e filha ou duas irmãs.

Uma família de braços abertos
Reunião da nossa linda família
Pensar que alguns meses antes meu ônibus vindo de Lisboa parava no centro de Aveiro e eu caminhava perdido por suas ruas em direção ao Fernando Guest House; lembrar que andava incerto pelos caminhos estreitos do Ílhavo à procura de uma centelha que me mostrasse a direção para encontrar a minha gente naquele lugar ancestral para mim, com o coração dizendo sempre "Senhor, onde estão eles?", era sentir na boca um doce sabor de vitória e dever cumprido. Pensar em como a busca por informações sobre os finados no Arquivo Distrital de Aradas nos trouxe a luz da alegria dos vivos é querer dizer a todos: "Oh, pá! vai buscar teus parentes pelo mundo. E se algum deles te não quiser receber, virão outros com o coração cheio de alegria por saber que tu existes" - eu sei, tá bem portuga a estrutura da frase, mas lembrei do Ricardo na estação de trens =}
Mais doce ainda é o sabor de ser acolhido não apenas por uma parte da família, mas por boa parte dela a quem o Ricardo me apresentou. Como a Ana Maria em cuja casa fiquei hospedado e que não cansava de repetir: "O meu pai sempre dizia que tinha família na Bahia, só não sabia como encontrá-la. Se ele estivesse aqui, teria gostado muito de te conhecer. Estou a realizar o sonho dele!". Estávamos! É bem dizer! Acredito que minha avó também se emocionaria muito com essa descoberta, tanto como os meus tios aqui ficaram emocionados com as fotos e o vídeo que fizemos.
Mas o dia corria, e saímos batendo em várias portas. A principio fomos rever o senhor Antônio
João e eu na praia da Vagueira
Bizarro para agradecer. Depois fomos às casas dos primos que queriam saber a história de como eu chegara até eles. Contar e recontar as venturas e desventuras na casa da Margarida, ver os álbuns de fotografias com o Manuel, encontrar o tio Cândido, primo direto de minha avó, já com 90 e tantos anos, ouvir sobre essa família que estava "perdida" nas bandas de lá do oceano e tudo contado com sotaques diferentes, era caminhar no paraíso das buscas genealógicas de maneira tão entusiasmada que quando nos demos conta, já íamos madrugada adentro. Era como se quiséssemos preencher as lacunas que a vida nos deu em apenas algumas horas, algumas lindas horas.
No entanto, aquela não seria minha última ida a Aveiro. Tomaria o comboio de Coimbra para lá várias outras vezes, pois agora era difícil não querer voltar. Havia ali pessoas que de instantâneo uniram suas almas a minha como unido estava o sangue que cruza nosso corpo desde o coração. Afinal, é mesmo como eles me disseram repetidamente: "Lembra que tens aqui família".

A despedida
Uma das coisas que mais me afeiçoavam à série de TV "Brothers & Sisters" era ver que em boa parte dos episódios a família sempre terminava à mesa com todos rindo, comendo, uma música bonita tocando e as taças sendo elevadas ao ar. O que me fazia lembrar de um salmo bíblico que diz que muito bom e maravilhoso é ver os irmãos assentados em união. Essa sensação de estar à mesa com pessoas queridas faz bem ao estômago e à alma, que é acalentada pelas conversas e risadas e compartilhamento da existência.
Meus primos, que também parecem dividir esse mesmo entendimento comigo, sabendo que minhas férias terminavam e que a hora de voltar pra casa se aproximava feroz, resolveram me fazer mais um mimo antes de eu partir: preparar um prato típico.
No dia marcado, voltei a Aveiro para a despedida. O cheiro da comida perfumava a cozinha, assanhava o estômago, deixava clara a alegria com a qual éramos recebidos e a satisfação de estarmos todos ali.
A Vitória, a linda esposa do Ricardo, havia preparado Arroz de Tamboril acompanhado das Natas do Céu (o primeiro é um prato à base de peixe e arroz, e o segundo uma sobremesa à base de ovos, natas e bolacha maria), os quais eu comi e repeti, e repeti, e repeti, sempre com a tia Rosa dizendo: "Ele está muito magrinho depois dessas viagens todas. Mete mais ao prato", ao passo em que eu via meu prato sendo erguido vazio de frente a mim e voltando lindamente decorado e o João, o filho do Ricardo, dizendo: "Elas não vão te deixar em paz, tu vais sair daqui gordo hoje".
Bom, o João estava certo, eu saí daquele almoço - que se alongou até a janta - gordo, verdadeiramente inflado como a gente deve mesmo ficar quando é cercado de tanto carinho, afeição e daquele sentimento de ser tão querido ao ver, por exemplo, os olhos da tia Rosa se encherem de lágrimas enquanto ela dizia com a vozinha embargada pela emoção: "Dá-me pena vê-lo partir agora" quando fomos deixá-la em casa à noite. Quase me desmontei de emoção. Segurei a custo o choro que queria jorrar de mim para não deixá-la mais emocionada do que já estava, abracei-a forte e disse: "Se Deus quiser, em dezembro nos vemos novamente". E vi o tio Artur ajudando-a carinhosamente para dentro de casa.
Olhei o céu, as estrelas brilhando tanto, fechei os olhos para sentir melhor o ar frio daquela noite inesquecível. Deixei subir aos lábios uma frase da oração judaica que aprendi na infância: Barur Atá Adonai Elorreno Meller Ra-Olam Ramerrim mitsadê gaver (Bendito sejas Tu, Senhor eterno, nosso Deus, Rei do Universo, que guias os passos dos homens)". Respirei fundo, olhei para os tios mais uma vez, coração apertado por também eu "ter pena" de deixá-los, e atendi à voz do Ricardo que me dizia que era hora de ir para a estação de Aveiro, pois o trem partiria em 20 minutos. Aquele comboio que cortaria a estrada de volta a Coimbra de onde em algumas horas eu estaria de partida para Lisboa e de lá para São Salvador da Bahia, onde tudo começou, levando comigo todos aqueles abraços calorosos, e beijinhos carinhosos, e lágrimas de felicidade que havia ganhado ali.


Gostou? Que tal então compartilhar o post, deixar um comentário aqui e encorajar outros a fazerem suas pesquisas genealógicas?  😉

P.S.: Os encontros não acabaram aqui. Aguardem o próximo post sobre Coimbra, a Lusa Atena.


7 comentários:

Marta Gallo disse...

Só tenho a dizer... Chorei
Primo Deus ilumine seus caminhos para descobrir todos os nossos parentes ❤

Marcio Machado disse...

Oh, Martinha, reviver esses momentos enquanto escrevia me emocionaram extremamente! E a maior emoção é saber que esses nossos familiares são todos tão queridos e com o coração tão aberto! Pessoas lindas mesmo!
Amém! A busca continua não só para descobrir, mas também para reaproximar!

Anônimo disse...

O teu texto deixou-me com lágrimas nos olhos. Que lindo encontro! Beijinhos da Maria de Fátima Guimarães .

Marcio Machado disse...

Fico feliz que minha experiência tenha tocado as pessoas, Maria de Fátima. Muito obrigado pelo comentário. Um grande abraço.

João Parracho disse...

Partilhei o primeiro post. Li e reli o segundo
Para surpresa descubro que é familiar do Ricardo Catre. E depois...
A descrição fiel do bem "receber" Ilhavense,
"come menino tas tão magrinho".

Benvindo, também à sua "terra" .


Marcio Machado disse...

Obrigadíssimo, João! É verdade, o ilhavense, por toda a experiência que aí tive desde o ano passado, é um grande anfitrião!
E o Ricardo e nossos familiares não poderiam ser diferentes, não é mesmo!
Um forte abraço!

Gabyrhcp15 disse...

Olá Márcio, tudo bem? Nossa, que grande aventura hein?! kkk Muitos beijos e forte abraço!
Gaby ;)