segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Europa em 60 dias - Berlim, Alemanha

Berlim
Berlim
Do alto a Alemanha parecia uma daquelas cidadezinhas que a gente vê nos filmes de época natalina: toda branquinha, campos e fazendas cobertos pela neve, rios congelados, ruas que se confundiam, pela cor, com as casas e pastos. Apesar de todo esse frio que fazia lá fora, eu sentia meu coração queimar de alegria em ver tanta neve pela frente! Eram mesmo rios de neve em "lava" convertidos dentro de mim - se Gregório me permite a paráfrase. Já tinha estado na neve em Dublin e em Bucareste, mas nunca tinha visto aquele espetáculo diante dos olhos, parecia, do alto, meu congelador sem o frost-free - um espetáculo que eu descobriria brevemente que poderia ser duro, muito duro pra um rapaz latino americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo de Salvador.
Catedral de Berlim - Berliner Dom
Desembarquei empolgado com a vista de dentro do avião e corri ao saguão do aeroporto Berlin-Schöenefeld a comprar os bilhetes de metrô para caminhar pelas ruas do centro o quanto antes - o balcão fica do lado direito de quem sai do desembarque, no final do saguão. Pode-se comprar o bilhete para horas ou dias. Eu comprei o ticket para três dias, que era o tempo de minha estadia na capital Alemã.
A senhora que vendia os bilhetes - uma graça! - falava comigo num samba do crioulo doido linguístico misturando inglês, espanhol e alemão.  De toda aquela verborreia que me fez lembrar um personagem de Umberto Ecco, eu consegui capitar que meu bilhete valia por 3 dias, que eu deveria validá-lo antes de entrar no metrô (para não pagar multa); que deveria sair do saguão e correr em direção ao terminal que fica à esquerda da entrada porque o trem partiria em cinco minutos e me deixaria na FriedrichStr. 
Berlim
Saí correndo puxando minha malinha padrão Ryanair cujas rodinhas se prendiam na neve, enquanto o vento gelado queimava minhas bochechas e minhas mãos. Ia na pressa, rezando que as portas do trem se abrissem para me esquentar, sorrindo com um riso congelado na cara pela graça de ver que a neve tão desejada podia ser bem escrotinha com os tropicálias aqui. Mas é como dizia minha avó: Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Dentro do trem, em direção ao centro de Berlim, meus pensamentos se acalmavam, minha face voltava a ter sangue e minhas mãos, dentro do bolso, começavam a se esquentar, lentamente. Olhava pela janela e tudo o que via era a neve e o gelo e as pessoas cobertas e eu pensando que a roupa que eu vestia não ia dar conta do recado. Fiquei tão noiado naquilo que não percebi o agente do metrô, com cara de paisagem, me pedindo para ver meu ticket. Ele, talvez percebendo meus devaneios, disse qualquer coisa em alemão, com aquele som brabo típico da língua, parecendo que me xingava - talvez o fizesse -, me trouxe de volta ao trem. Mostrei o bilhete, ele disse "danke", eu disse "bitte" e voltei a contemplar o mundo frio pela minha janela. 
Rua próxima à estação Friedrichst.
Bom, Berlim era uma cidade onde eu não teria amigos para me receberem na estação, me darem um abraço apertado e me convidarem para um café quente e cuja língua eu conhecia apenas de passagem por um mês aos meus quinze anos. Mas era bela e me esperava com uns braços meio-abertos pelo frio que fazia. Eu já conhecia meu caminho pelo roteiro no Google maps, mas ao desembarcar, fiquei um tempinho tomando coragem pra sair da estação onde aproveitei pra tomar um chocolate quente, depois outro, depois outro e sentir meu corpo revigorado naquela estação pequenina, mas que tinha umas lojinhas, um mercado, uns fast-foods para os viajantes solitários e muita gente para cima e para baixo com quem eu poderia puxar conversa. Encontrei um grupo de chineses que estava no mesmo "barco" que eu e começamos a falar de nossas viagens. Um deles me surpreendeu falando da novela A Escrava Isaura. A versão da década de 70 com Lucélia Santos fez um sucesso monstruoso por lá e aparentemente até hoje a doce Lucélia é um hit entre eles. 
Portão de Brandemburgo
E daí a conversa durou por quase uma hora. Mas, alguns chocolates quentes depois, Lucélia Santos se tornou uma lembrança querida enquanto eu caminhava novamente no frio e no gelo, puxando minha malinha com as rodas que se prendiam na neve fofa e minhas mãos iam ficando queimadas pelo tempo - queimadas mesmo! Nesse ínterim me surpreendi com um rapaz que estava sentado sobre a ponte pedindo esmolas. Um frio lascado e ele lá a mendigar umas moedinhas. Parei diante dele e perguntei em inglês como ele conseguia aquela façanha. Ele me olhou e me disse pronta e simplesmente: "Quando a gente precisa, nada é tão difícil". Olhei pra ele, olhei pra minha mala, minhas mãos, dei umas moedas que estavam no bolso e fui andando ao som do seu "danke sehr". Essa frase, por sinal - especialmente a outra versão, "danke schön" - foi muito ouvida por mim pelas ruas de Berlim.Os alemães me pareceram extremamente gentis e atenciosos, sempre querendo ajudar, mesmo quando eu não pedia por ajuda - e eu preocupado por não ter amigos na cidade! - bah!
Grande Sinagoga - Berlim

O tempo passa, o tempo voa
O que se faz quando se chega no hostel antes da hora do check-in e não se pode ir para o quarto numa cidade desconhecida e gelada? Eu fui para a área de jantar e fiquei lá na Internet lendo meu roteiro para o dia. No calorzinho de um café quente. Porém, do Generator Berlin Mitte para as principais atrações da cidade é apenas um pulo. Daí, resolvi fazer valer o tempo de espera e fui passear. Afinal, só ficaria na cidade por três dias. O primeiro lugar a visitar seria a Grande Sinagoga Judaica que estava a apenas dois ou três minutos de caminhada, e de lá fui andando até onde o sol me permitiu - o sol estava se pondo antes das 17. 

Andar por aquelas calçadas me fez pensar em todas as aulas de história das guerras mundiais. Pensar na ofensiva britânica por aquelas ruas, nas forças de Hitler prendendo e matando todos os que não eram "arianos", na tomada da cidade e em sua divisão em dois blocos políticos, e agora ali, estar naquela cidade pacífica, de gente corteza e amistosa parecendo cumprir a palavra que Helmut Kohl empenhara quando da
Marco do Muro de Berlim
Marco do Muro de Berlim

queda do Muro de Berlim, foi um dos belos momentos que nos são dados quando viajamos pelo mundo. Especialmente, no caso da Alemanha, quando pensamos que a cidade de Berlim como a conhecemos hoje, reunificada, embora tendo sido pisada por vários reis, imperadores, e afins por tantos séculos era mais nova do que eu. Ao chegar no marco onde começava o Muro, me lembrei da cena da época em que Pedro Bial era um jornalista sério e correspondente da Globo na Europa, transmitindo para o Brasil a queda do paredão que tinha despedaçado uma nação e separado tantas famílias. Parei ali adiante, fiz minha reverência aos que se perderam e continuei por minha busca turística. No caminho, passei pelo Monumento à Memória dos Judeus Assassinados da Europa  durante o Terceiro Reich. Parar ali
Monumento à Memória dos Judeus Assassinados da Europa 
, naquele monumento que toma um quarteirão inteiro, ao lado daquelas lápides de pedras de tamanhos variados é ter ao mesmo tempo raiva e compaixão, dor e alívio, guerra e paz. O concreto que se ergue como se fossem jazigos nos traz de volta uma parte da história que dói por dentro por pensarmos no mal tão grandioso que o ódio, o racismo, os pré-conceitos podem causar e nos leva a refletir sobre ele e ter a esperança de que a bestialidade humana talvez tenha solução. Pois ali próximo desse monumento - que pode ser visto até do céu - está o bunker onde Hitler supostamente morreu. O bunker jaz enterrado sob um estacionamento, escondendo a vergonha que o país tem daquele que foi seu líder e é falado apenas pelos guias turísticos e historiadores. 


Porque caminhar abre o apetite
Árvores abandonadas em frente ao Mall of Berlin
Sempre me disseram que para a falta de fome tem-se o caminhar. Minhas andanças por Berlim me provaram que o ditado estava certo. Para minha sorte, como as outras capitais que visitei, no centro de Berlim tudo está próximo: monumentos, lojas, restaurantes e parques. Continuei a andar pelas ruas, passei por uma chamada Hannah Arendt e pelo caminho fui vendo as árvores de natal jogadas como entulho na esquina. Me disseram que a razão das pessoas se livrarem dos pinheiros é que eles podem, se juntos a uma fonte de calor, causar incêndios nas casas. Cortam-se os pinheiros, usam-nos por 20 dias e depois os jogam fora - e assim as árvores morrem, solitárias e esquecidas nas ruas alemãs. 
No shopping ali perto comi um falafel tão bom quanto o do Às do Falafel, em Paris. Num restaurante
Boussi Falafel
simples, gerenciado por um rapaz muito gente boa e supercurioso sobre o Brasil e nossas tradições, sobre minhas viagens e sobre minhas impressões dos países que visitei. Conversamos tanto que quase esqueci minha fome. Sorte que ele me lembrou e eu caí matando naquele wrap delicioso de trigo, legumes, verduras e molho. Está aí um lugar que recomendo a todos, tanto pela simpatia do atendente quanto pelo valor e sabor da comida. O Boussi Falafel fica na área de alimentação do Mall of Berlin e vale muito a pena visitar. 
Mall of Berlin
Enquanto estava no shopping, também aproveitei para fazer umas compras na C&A e comprei umas roupas superbaratas e com tecido melhor do que as que temos por aqui - pelo menos eu espero que seja. Sério isso, né?! No Berlim Mall há todas as lojas de grife com valores (pelo menos em janeiro) super em conta - Uma camisa da Levi's me custou 15 euros (aqui no shopping perto de casa ela custa 90 e poucos reais) e ainda me rendeu uma conversa com uma vendedora alemã de origem caribenha muito gente boa - pele morena dourada, olhos azulíssimos e cabelos encaracolados! Linda! 

De volta ao Generator Berlin Mitte
Alte Nationalgalerie
Depois de tanto andar e satisfazer meu estômago com o delicioso rango do Boussi Falafel eu finalmente pude voltar ao hostel - detalhe é que fiz tudo andando, não precisei do metrô nem dos ônibus pra passear o dia todo por Berlim. Meu quarto era misto, mas só tinha eu de homem e mais cinco garotas, uma de Manaus que estava com o Ciência Sem Fronteiras estudando na França, e quatro inglesas de Manchester. Quando essa mulherada me viu entrar foi um Deus-nos-acuda. Eu, todo feliz por ser o centro de suas atenções, mantive o sorrisão ensimesmado até a primeira pergunta: onde você comprou essa camisa linda? Sentei na cama e fui mostrando minhas aquisições aos sons de "oh", "ah" "that's BEAUTIFUL" com o sotaque de Manchester.  

Um dia no museu
Escultura em frente ao museu Bode 
Perto do hostel está o Museum Island. Uma verdadeira ilha com prédios de estilo gótico e clássico abrigando quatro dos principais museus da Alemanha: o Bode, O Pergamon, o Neues, o Altes e a Galeria Nacional de Arte. Essa é uma atração imperdível para quem gosta de um tour cultural e histórico. Obviamente as peças mais importantes do
Chapéu de ouro de Berlim
Peças da Idade do Bronze - Bode Museum
mundo antigo são encontradas no Louvre, no Museu do Vaticano e no British Museum, mas mesmo assim, a visita pela Ilha dos Museus vale a pena. No Pergamon, por exemplo, pode-se ver as reconstruções do Portão de Ishtar (sec. 6 a.C.), Da Fachada do palácio do Califa Mshatta (743-44 A.D.) e Portão do Mercado de Mileto (100AD). Obras de tirar o fôlego! Outra peça interessantíssima é o busto da rainha Nefertite que se encontra na Galeria Nacional Alte (dela não se pode tirar fotos) e o chapéu de ouro maciço, no Neues, que era usado apenas pelos sacerdotes em ocasiões festivas na Europa Antiga e era de uso astronômico, cunhado de vários motivos celestes como o sol, a lua, raios, talvez até prevendo eclipses lunares. Apenas três desses chapéus foram encontrados na Europa, um na Alemanha e dois na França. O chapéu de ouro de Berlim data de 1000 a.C. Impressiona! Peças exclusivas desses museus. Sem contar com os inúmeros quadros de pintores alemães e peças encontradas pelas terras germânicas. Objetos da Idade do Bronze e anterior; moedas desde a primeira cunhagem até o Euro, etc. Eu precisei do dia inteiro para ver tudo, e posso garantir que é um programa mais que legal, especialmente num
Portão do Mercado de Mileto - Pergamonmuseum
dia de frio e neve. 
Comprando o bilhete completo - 18 euros -, pode-se visitar todos os prédios. A visita dá direito ao áudio. Lembre-se de pedir a gravação, pois algum funcionário pode pensar que você não a quer. 
Para mais informações, visite: www.smb.museum 

Bye-bye, Berlim
A Berlim do novo e do velho, da neve e do sol, estava indo ficar nas lembranças, nas fotos, no post do blog e nas músicas de Lou Reed e David Bowe da minha coleção. Deixei Berlim numa madrugada fria e de céu lindamente estrelado. Agradecido porque a neve havia derretido e as rodinhas da minha mala não estavam se prendendo no caminho. As ruas não estavam tão agitadas como as de Madrid, mas entre o hostel e a estação havia algumas pessoas festivas e faladoras passando apressadas pelo frio e me dizendo "Auf Wiedersehen" ao que eu respondia "Tschüss" e ia andando, os olhos sempre no céu, lembrando da música de Bowe: "Had to get the train from Potsdamer Platz (...) a man lost in time". Enquanto a beleza do céu noturno no inverno do hemisfério norte me fascinava - na verdade o céu e as estrelas lá ou cá me fascinam! mas numa noite fria de inverno ele parece muito especial, sobretudo quando se vai andando e lembrando de boas canções. 
Cheguei à estação à uma hora, pois eu sabia que os trens rodavam a noite toda no fim de semana. No entanto, para minha surpresa, o trem para o aeroporto passaria apenas às 4:30 (fiquem atentos). Pronto, serviu pra me deixar agoniado, pois tinha de estar no Berlin-Schönefeld às 3. Tive de tirar o
Deutscher Dom - Gendarmenmarkt - Berlim
escorpião do bolso e ir pegar um táxi, deixando de usar o meu ticket já comprado para os 3 dias e pagando 50 pilas na corrida de táxi - fica a experiência e o bolso doendo. Mas, pra todo ônus tem-se um bônus.  Ao sair da estação, dei de cara com o Billy Mack de "Simplesmente Amor", pensei que ele ia sair cantando "I feel it in my fingers, I feel it in my toes, Christmas is all around me, and so the feeling grows...". Obviamente não era o Bill Nighy, era um taxista, mas totalmente igual, até na risada roncante. Um coroa alemão superdivertido, que foi da FriedrichStr. até o Berlin-Schönefeld me contando a história de sua vida e da sua cadela Doris. Vale dizer que ele viveu dez anos em Portugal e agora estava de volta a Berlim para ganhar dinheiro, pois, segundo ele, a vida em terras lusitanas não estava para grana. Lá em Portugal ele trabalhava como taxista e estava construindo uma casa no campo, cercado de árvores e quase sem vizinhos onde ele queria ir para passar os últimos dias de sua vida. 
Chegamos ao aeroporto, Billy Mack me desejou felicidades e em bom português me disse: nos vemos em Portugal qualquer dia. E foi-se, pelas ruas escuras e frias de sua velha Alemanha, ganhar dinheiro pra ir morar nos campos verdes portugueses até o fim de sua vida, com sua cachorrinha Doris ao lado. Viel Glück!

Entrei no aeroporto, pus minhas malas de lado e fui esperar a Ryanair abrir o check-in para Atenas. Lá fora o vento soprava, frio e solitário, tirando as últimas folhas que insistiam em ficar nas árvores quase nuas. 

O que Visitar em Berlim - roteiro de três dias

Portão de Brandemburgo: Cartão postal de Berlim, tem importância histórica, artística e política. Fica bem no centro de Berlim e é próximo a vários pontos de interesse turístico .

Checkpoint Charlie: Um dos postos militares que dividiam as
Mural no Reischtag
duas Alemanhas. Fica bem no centro da cidade e é interessante para quem gosta de história.

Gendarmenmarkt: Considerada uma das praças mais bonitas da cidade, encontramos aí a Casa dos Concertos e duas catedrais

Memorial do Holocausto e Museu (o museu fica no subterrâneo. Tem-se de pegar o elevador para descer):

Reischtag: o prédio do Parlamento Alemão, é um edifício monumental e aberto à visitação.

Ilha dos Museus: já falamos sobre ela

Alexander Platz e Torre de TV: Um dos lugares mais movimentados de Berlim, há vários lugares para compra e uma das mais frequentadas estações da cidade. Da torre, têm-se uma visão de 360 graus da capital

Gelo no rio Spree
Muro de Berlim: A chamada East Side Gallery é um dos lugares onde ainda se pode ver parte do muro em pé. É uma galeria de arte a céu aberto (vá também ao memorial do Muro de Berlim).

Catedral de Berlim: belíssimo prédio em frente ao rio, tem uma praça maravilhosa ao redor. 

Kulturforum e Potsdamer Platz: Área de grande beleza

arquitetônica e histórica, abriga alguns dos mais interessantes prédios modernos da cidade tais quais a Biblioteca de Berlim, a Filarmônica e a Chamber Music Hall, e o Neue Nationalgalerie.

Martin-Gropius-Baun: Um museu em estilo renascentista que sempre tem exposições, concertos e eventos culturais de diversas vertentes

Gostou? então divulgue.
Beijos e até a Grécia! 





2 comentários:

Nando Mesquita disse...

Cara, quando crescer quero ser igual vc. kkkk...

Anônimo disse...

Que maraaaa!!!!!! Adoreei Marciiiinhu, se lembre de mim quando estiver na ABL, bjuuuuuuus <3 (coração).