sexta-feira, janeiro 01, 2016

Europa em 60 dias - Bucareste e Transilvânia - Romênia


Citadela Rasnov
O que vem a sua cabeça quando você escuta a palavra
Romênia?  Para mim sempre foi um lugar associado a duas coisas: Transilvânia e Tristan Tzara. A primeira, pelas obvias razoes - Drácula, lobos, ficçao; a segunda, porque o poeta romeno Tristan Tzara foi um dos criadores do movimento vanguardista chamado Dadaísmo, o qual eu tive de estudar e restudar na escola e na faculdade de Letras. Claro, também sabia um pouco da história do comunismo no país, já vira várias fotos dos Cárpatos, estudei as estruturas gramaticais da língua em "Filologia Românica" - obrigatória no meu curso -, e conhecia um pouquissimo do restante, mas nada além disso. Nao podia comparar, por exemplo, as minhas expectativas com relaçao a Portugal e Itália, dos quais sabemos praticamente tudo. De resto, a Romênia  era um país a ser explorado em todos os aspectos, um lugar onde, caminhando pelas ruas, incrivelmente, nao ouvi sequer uma palavrinha em língua portuguesa-brasileira! E isso é inacreditável, pois todo lugar do mundo que a gente vai, especialmente nas férias, ouvimos brasilês a toda hora. Razao pela qual meu camarada Rodrigo, o chileno que fala português, sempre me perguntava em Roma: "Ficou alguém em seu país neste fim de ano?".

Dessa vez, graças a Deus, peguei um voo diurno e cheguei a Bucareste em plena luz do dia. Se nao
Velhinho dormindo na praça em Bucareste
para evitar os transtornos da viagem anterior, pelo menos pra me assegurar de que nao haveria nenhum mamífero voador procurando meu pescoço. Nao houve nenhum problema, aliás, o desembarque no aeroporto de Otopeni foi totalmente tranquilo, o agente de imigraçao muito educado, carimbou meu passaporte com um sorriso meio sem saber como sorrir e disse: "futebol é bom!". Eu sorri latinamente, disse "yes" e me mandei em busca de transporte para o centro da cidade com medo do sol se pôr antes de eu chegar por lá. Aqui vale uma recomendaçao feita por todo romeno que conversou comigo: JAMAIS pegue táxi em Bucareste, mesmo aqueles registrados e com o nome da empresa e o taxímetro (aparentemente) contando os km rodados. O primeiro motivo é que eles vao te enganar; o segundo motivo é que eles vao te extorquir. Me disseram que quando eles veem turistas, fazem o caminho de 2.5 Lei (a moeda local) se transformar em 100 Lei. Neste período que estive lá o Lei estava equiparado ao Real, 4.5 para 1 Euro - troque o dinheiro antes de chegar na Romênia. Lá eles nao aceitam outra moeda que nao o Leu e vários estabelecimentos, inclusive hostels, nao aceitam cartao de crédito.  

Biserica Baratiei SF. Maria a Harurilor
Prefira pegar o ônibus n. 783 que parte do aeroporto para a Piata Unirii 2. Lá você estará perto de tudo. Para isso, saia pelo portao de desembarque, vira à direita e se dirija até a cabine de vendas de cartao de ônibus. Compre seu cartao - o cartao é para duas viagens, ou seja, ida e volta, esta nao precisa ser no mesmo dia. Eu fiquei em Bucareste por 3 dias e usei o mesmo cartao para voltar ao aeroporto - Valide seu cartao dentro do ônibus e se mande. Você verá os nomes das paradas numa telinha em cima da cabine do motorista. Fique de olho nela, pois a populaçao, exceto os jovens (talvez), nao falam ou nao se importam de falar outra língua ou em conversar com você. 

Catedral Sfântul Spiridon Nou - Bucareste
Preciso fazer uma recomendaçao com o único propósito de ajudar vocês: fiquem no The Cozyness Downtown Hostel. O lugar é totalmente agradável, você se sente em casa, e o staff é particularmente atencioso e muito feliz em ajudar. Da Piata Unirii 2 até o The Cozyness Bucareste sao apenas 7-10 minutos de caminhada em sentido reto. Há também a comodidade de o hostel estar localizado a apenas alguns minutos de caminhada de todos os pontos turísticos importantes de Bucareste. 

Centro de Bucareste iluminado para o Natal
Bom, chegando à Piata Unirii, o papai aqui foi, como sempre, olhar o mapa e se perder mesmo já tendo feito minhas caminhadas pelo centro de Bucareste via Google Maps 3D. Daí inventei de fazer o que mais gosto quando estou viajando: conversar com as pessoas locais. Vi aquele senhorzinho caminhando em minha direçao, virei pra ele e disse "Ajuta Hotel" (algo como "me ajude a chegar em meu hotel, olhe o mapa aqui em minha mao. Será que o senhor poderia me indicar qual destas quatro ruas me leva a ele?"). O senhorzinho, me olhou e disse sonoramente: "NO!". Virou a cara e continuou andando, assim, sem cerimônia, enquanto eu, estupefato, ficava lá, no meio da praça com cara de "o quê? É isso mesmo?". Tá bem, escolhi a pessoa, errada. Fui à segunda pessoa, mapinha na mao, uma senhora a caminho: "ajuta hotel". Você me olhou? nem ela! virou a cara (MESMO!) e se mandou. E assim com a terceira, a
Pôr do sol sobre a praça Unirii
quarta, a quinta. Desisti. Fui procurar um táxi apesar de todas as recomendaçoes, pois nao havia nenhum policial ou servico de informaçao ao turista que eu pudesse ver. O primeiro taxista tinha um GPS, mostrei meu endereço e ele me disse em inglês partido "Nao sei onde fica", eu retruquei "seu GPS ali", ele: "nao é um GPS, é só um programa". Eu olhei bem no olho dele e por dentro de mim disse cobras e lagartos que me vieram à boca com o som de "thanks for your help" e o complemento em português: "tomara que ninguém pegue seu táxi hoje, miserável" - sorri e parti em direçao ao desconhecido. Nem me importei em perguintar a outros motoristas adivinhando qual seria a resposta. Mas a memória é uma coisa fantástica, e me fez ir reconhendo os prédios do Google maps na medida em que caminhava pela calçada limpa daquela avenida bonita e bem organizada com um sol vermelho lindo se pondo atrás dos prédios eregidos pelo regime comunista do megalômano Nicolae Ceaușescu /Txétxêshcu/. Fui caminhando, e descobri a rua! Estava ali, cinco minutinhos de caminhada desde a
Piata Universitatii - Bucareste
parada de táxi. Por isso que ele nao quis me levar, nao quis me extorquir, nao quis nem me dizer que era só continuar andando. Cheguei, me instalei e fui conhecer a galera bacana que trabalhava e a que estava hospedada no hostel The Cozyness Downtown Bucareste. A noite foi superagradável ao som de uma galera romena que estava lá tocando música local no violao enquanto eu escrevia meu segundo post sobre Portugal e conversava com Georgiana, uma romena extremamente simpática que me deu dicas sobre o lugar, me disse o que fazer e como agir na Romênia e conversou comigo sobre seu país, seus planos presentes e futuros e seu amor pelas artes e pela arquitetura. A conversa com ela, regada a chá de morango e um racambole delicioso de mel com amêndoas feito pela mae de Ilinka, a recepcionista, tiraram de mim toda a má impressao dos romenos anteriores.
Piata Unirii

Catelo de Bran -Transilvânia
Castelo de Bran - Transilvânia
Uma outra recomedaçao é: sempre que estiver viajando, procure no hotel/hostel por Free Walking Tours reconhecidos, que sao os passeios gratuitos que algumas pessoas oferecem pelos pontos turísticos da cidade e que também se torna uma maneira de fazer novos amigos de várias partes do mundo. Ilinka me indicou que fosse encontrar o pessoal do free tour na praça Unirii, pois seria melhor que ir andando sozinho numa cidade com um povo tao pouco simpático aos turistas. Com eles, conheci todos os pontos importantes de Bucareste, aprendi a história local contada por uma Romena e confirmada pelos meus estudos da cidade, e entrei em contato com várias pessoas legais, inclusive um português que estava estudando numa cidade próxima a Bucareste e que ficou hipercontente em poder conversar em português com alguém depois de 6 meses sem falar sua língua materna. O passeio foi incrível e bem produtivo. Em vez das caras fechadas e dos "NO!" enfáticos, conheci gente sorridente e me diverti muito. Mas o que eu mais queria era ir a Transilvânia e conhecer os terrores do Conde Drácula e seu castelo nos Cárpatos.

Saída do Castelo de Bran
O passeio pela Transilvânia quase nao rolou por que o cabeça de nós todos aqui simplesmente resolveu deixar as coisas acontecerem. Ah, uma vez em Bucareste, o resto se resolve! Bom, foi o que pensei. Nao levei em consideraçao que os museus fecham às segundas, e, que por isso, nao há passeios para a Transilvânia nesse dia. Cheguei no sábado à tarde, parti na terça no mesmo horário. E, pensando que era tudo festa, usei meu domingo pra passear por Bucareste. Quando voltei à noite pro Hostel foi que soube do problemao. Mas, como diz o ditado, sempre há uma luz no fim do túnel quando contamos com uma recepcionista imbatível e incansável. A Ilinka ligou pra umas trezentas agências de viagem até descobrir uma que fazia o tour para a Transilvânia - só nao iria ao Castelo de Peles /Pelesh/, um dos mais bonitos da Europa. Mas na moral, quem se importava com Peles, a minha pele tava aqui, queimadinha do sol da Bahia. Queria mesmo era ver os Cárpatos e o Castelo de Drácula (Bran). Passei a infância e adolescência sonhando com aquele lugar, vendo Scooby Doo e sua patota entrarem em apuros, vendo Keanu Reeves nas garras de Gary Oldman, etc. etc., vendo reportagens na TV sobre as assombraçoes que assolavam o castelo e pititi patatá. Peles a gente veria pela TV qualquer hora dessas.
Castelo de Bran - Transilvânia

Bom, meu guia e motorista foi me pegar às 7 em ponto, pois, junto com outros sete turistas, teríamos uma grande jornada pela frente. Ao todo, a viagem duraria por volta de 10 horas contando com a ida, visitas e a volta. Mas quem se importa com o tempo quando se tem todo o tempo do mundo, paisagens deslumbrantes diante de si e um guia muito engraçado com cara e jeito de Joey Tribbiani de Friends e uma pegada no estilo do Forrest Gump. Lá estava ele, o Mathei, dirigido sua Mystery Machine, contando as histórias da Romênia e de cada cidadezinha pela qual a gente passava. E eu maravilhado diante do que via. Parecendo um chinês a tirar foto de tudo, até dos semáforos que pareciam mais brilhantes que os nossos.

Devo confessar, no entanto, que o Castelo de Bran me decepcionou. Nao porque ele nao tem nada a ver com Vlad Tepes, isso eu já sabia, a história dele gira em torno da lenda de Drácula devido a uma confusao geográfica de Bram Stoker. Mas porque o lugar por dentro mais parece uma casa de campo de uma galera endinheiradinha do que um castelo propriamente dito. Castelo por castelo, fico com o Dias D'Avila, na Bahia. Apesar disso, vale a pena visitar o castelo, conhecer a história dele e também se deliciar com a vista. Aos pés da colina onde ele se situa, há uma cidadezinha maneira, e um mercado vampiresco onde se pode comprar souvenirs, roupas, comida. É bem legal, só nao espere sorrisos nem demonstracoes esfusiantes de agradecimento ou cortesia, estamos na Romênia.
Citadela Rasnov - Romênia

Citadela Rasnov - Romênia
Foram dois os pontos altos da viagem, para mim. O primeiro é a citadela de Rasnov /Rashnov/. Erigida no topo de uma colina e usada em tempos idos para defender o povo contra os otomanos. Para chegar a ela, pode-se pegar um bondinho que sobe e desce a cada três minutos ou ir andando. Eu subi andando para poder contemplar a vista e a estrada de acesso e também para passar tempo conversando com dois dos turistas que estavam comigo no passeio. Um deles do México e o outro do Egito, ambos estudantes em Barcelona pelo Erasmus Mundus. Enquanto subíamos íamos conversando sobre nossos países, economia (ambos fazem mestrado em economia na Espanha), Barcelona, um dos meus próximos destinos, las chicas e, nao poderia deixar de ser, sobre a família dos Estados Unidos que estava conosco na viagem e que nao se comunicava com nenhum de nós, apesar de todos conversarmos em inglês no carro. Sempre que o guia se dirigia a eles contando alguma coisa dos lugares, respondiam mecanicamente com frases feitas do tipo: "Oh, interesting", "Oh, really?" e assim por diante. Lembro do camarada mexicano me perguntando "What's wrong with those people?", ao que eu respondi: "United Statesans". Acho que estar com eles foi a parte mais assustadora da viagem a Bran :)

Centro de Brasov - Romênia
A cidade de Brasov /Brashóv/, a terceira mais populosa do país, também é uma atraçao imperdível. Bem diferente de Bucareste, as pessoas sao mais acolhedoras (na forma romena de ser), os lábios se abrem um ou dois milímetros quando riem e aqui eles arranham no inglês. Recomendo o passeio, o almoço e a subida de teleférico aos letreiros da cidade. A vista é maravilhosa pelo que eu vi nos videos que encontrei na net. Nao pude subir porque quando chegamos o sol já estava quase se pondo. Brasov, no entanto, ficará na memória.

A Romênia deixou de ser um lugar místico e

cheio de superstiçoes para mim, mas, apesar dos pesares, continuou como a terra da poesia romântica de Mihai Emenescu e dos frases dadaístas de Tzara. Colocando as partes numa sacola, tirando-as sem pensar muito, forma-se um poema dadaísta cheio de beleza e de colorido, mas, dadaísta sempre e sem muitos sorrisos largos. A nao ser o meu, na hora de ir embora. Nao porque quisesse me livrar do lugar, mas porque, depois de três dias de frio suportável, quando abri a porta do hostel para andar até a praça Unirii, a neve começou a cair. Uma neve pesada, branquinha, que ia cobrindo as ruas, os telhados das casas, minha cabeça, meu sobretudo. A neve que eu tanto queria ver. Foi assim que a Romênia se despediu de mim, com um beijo molhado e frio, mas radiante, do meu hoste até o aeroporto.

Gostou? Entao divulgue!!

Vejo vocês na Espanha!


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