quarta-feira, março 23, 2016

Europa em 60 dias - Aveiro, Portugal - Em busca das origens - Parte I

Ponte 25 de Abril vista do Cristo Rei - Lisboa (foto: Johann Morriseau)
Saí de Dublin todo agasalhado por causa dos -2 graus que fizeram com que John precisasse jogar água quente nos vidros do carro para derreter o gelo acumulado da noite, e cheguei em Lisboa com um calor imenso de 16 graus (um baiano chamando 16 graus de quente, inemaginável, não é? passe um mês no frio e me diga depois ^_^). Antes de alcançar o sanitário do aeroporto para mudar de roupa, já estava suando bicas arrastando minha malinha pelos corredores como se puxasse o cadáver abatido de um companheiro de guerra pelo Sahara, tamanho o calor que fazia meu cansaço, o sono, a leseira, se agigantarem em mim. 
Troquei o suéter, o sobretudo e as botas cheias de meias de lã por uma fina e confortável camiseta de 1.99 euros e um tênis Olympicos superleve, peguei minha mala grande que estava no aeroporto há um mês, paguei minha taxinha para retirá-la e me mandei para o hostel a comer e dormir. Não consegui dormir, pois passaria apenas um dia em Lisboa antes de ir para o meu próximo destino, então, era aproveitar o que aquela bela capital tinha a oferecer. O dia seguinte, cedíssimo, era hora de ir para a rodoviária, tomar o autocarro (pode-se ir de comboio também) e partir rumo a Aveiro, o coração a mil, a imaginação e a expectativa enchendo meus pensamentos.

Aveiro, a cidade da Ria
Pôr do sol em Aveiro
Como disse no post anterior, minha ida a Portugal tinha sido motivada por uma questão genealógica iniciada em abril de 2014 quando comecei a fazer as pesquisas sobre meus ancestrais. Um dia, cheguei da casa de minha tia com a certidão de nascimento de minha avó em mãos e, ao ligar o computador, resolvi pôr o nome do avô dela na pesquisa do Google; a partir disso fui parar na cidade de Ílhavo, distrito de Aveiro, Região Centro, Sub-região do Baixo Vouga, cujo foral foi-lhe dado pelo rei-poeta D. Diniz no ano de 1296, e que anteriormente era conhecida pelos romanos como Illiabum, mas sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar até aquele dia (escreverei, mais à frente, um post sobre minhas pesquisas genealógicas que já me fizeram conhecer a história de minha família até meados de 1500). 
Não consegui me hospedar em ílhavo, pois os valores de hotéis e pousadas que eu achei estavam fora
Centro de Aveiro
da minha realidade monetária para tantos dias que me eram necessários ficar por lá. Encontrei, no entanto, um alojamento legal, num sobrado antigo e rústico, muito parecido com os que encontramos nos centros históricos coloniais de cidades brasileiras antigas. O Fernando's Guest House fica bem no coração da cidade de Aveiro, no distrito de mesmo nome. Por isso, assim que saltei do ônibus logo cheguei ao lugar que, apesar de simples, está numa rua tranquila e tem um ambiente muito bom; o quarto em que fiquei era bem arejado e limpo, com vista para a rua, a cama muito confortável, me dando a sensação de que eu estava em casa. Não posso esquecer também que a dona do alojamento é uma portuguesinha hipersimpática e prestativa, do tipo que nos deixa super à vontade, sentindo-se no aconchego do nosso lar, especialmente porque na cozinha há café e chá à nossa espera em qualquer hora - um cafezinho quente no friozinho da noite portuguesa sempre é bem-vindo. 
Inscrição no moliceiro
De Aveiro ao Ílhavo são aproximadamente 20 minutos de autocarro (que passa a cada uma hora, mais ou menos), então, não seria problema me hospedar ali. Especialmente porque a cidade é linda e tranquila e as pessoas locais sempre gentis e amistosas. É mais uma cidade onde se deixa o coração e se reza para termos a oportunidade de voltar.
Aproveitei que o ocaso se aproximava e fui perambular pelas ruas a fotografar e descobrir a existência de uma palavra em português europeu que jamais escutara no Brasil: Ria, que segundo informação do Wikipédia é, "em termos gerais, um braço de mar que adentra a costa e que está submetido às marés", mas que para mim era simplesmente um lindo canal cheio de peixes, cortando a cidade, por onde circulam os moliceiros - barcos parecidos com gôndolas que antes eram usados para tirarem os moliços (plantas aquáticas que são usadas na agricultura), e que hoje levam turistas acima e abaixo, num passeio superagradável pela cidade. Uma curiosidade sobre os moliceiros é que todos eles têm umas inscrições cômicas em uma das extremidades, algumas de cunho erótico, outras religiosos, outras de ditos populares, mas todas muito engraçadas. Para mais informações sobre o distrito e gente de Aveiro, sugiro o site do historiador Fernando Martins: http://pela-positiva.blogspot.com.br/.
Moliceiros na ria de Aveiro - Portugal
Sentei na praça em frente à ria para comer um doce delicioso e típico de Aveiro, feito de ovos e hóstia, chamado "Ovos moles". 
Os ovos moles de Aveiro, segundo me contou o dono da pastelaria onde os comprei, tiveram origem nos conventos da região, onde as freiras, após engomarem as roupas com a clara dos ovos, usavam as gemas que eram aproveitadas como doce para não serem jogadas no lixo. Depois que os conventos acabaram, as senhoras educadas pelas freiras continuaram a fazer os doces. Hoje pode-se comer os ovos moles de duas formas, ou se compra uma barriquinha e as enche com eles, ou se compram eles envoltos em hóstias. De uma forma ou de outra, eles são deliciosos! Comi vários deles com um cafezinho com leite e sem açúcar - pois os ovos moles são doces o suficiente - pra esquentar a noite que chegava com pontos brilhantes no céu. 

Praia da Costa Nova, Farol da Barra - Ílhavo
Casas típicas da Costa Nova - Ílhavo
Aproveitei que o dia seguinte era um sábado de sol invernal e rumei para a praia da Costa Nova, aonde um amigo que fiz durante minhas pesquisas me indicou que fosse. Enquanto passava minha horinha de chá de cadeira na "paragem do autocarro", um rapazinho que esperava a mãe de sua namorada vir pegá-lo no ponto puxou assunto comigo. Ao ouvir meu sotaque, me encheu de perguntas sobre o Brasil e sobre a Seleção e me pôs na parede querendo saber se eu achava Neymar melhor que (Cristiano) Ronaldo, o melhor do mundo. Eu, que não sou fã de futebol e que não sei nem o que é um goleiro, joguei a pergunta de volta pra ele com um "ora, a resposta é óbvia, o que você me diz?". Aí, ele voltou a se empolgar e o papo continuou até que sua namoradinha e a mãe dela chegaram, me ofereceram uma carona e partiram sem mim, pois íamos em direções opostas.
Não demorou muito tempo, um rapaz de aparência oriental chegou ao ponto e se aproximou

Surfistas na praia da Costa Nova - Ílhavo
perguntando em inglês se o ônibus para Costa Nova (pronunciou o "s" chiado) já havia passado. Eu disse que também o estava esperando e aí foi conversa que não acabou mais.
Descobri que meu novo amigo vinha de Taiwan e que estava em Aveiro a trabalho por um mês. Aquela seria a sua penúltima semana na cidade e ele estava aproveitando o tempo para passear um pouco. Já havia ido ao Porto e me recomendou enfaticamente visitar a cidade que fica a apenas uma hora de trem de Aveiro, me deu todas as instruções, o valor do comboio e o que eu poderia visitar na cidade - um roteiro turístico completo. 
Meu amigo Taiwanês e eu passamos o dia juntos caminhando pela linda Costa Nova e Barra, trocando informações sobre a cultura dos nossos países e compartilhando as experiências em Portugal, e tudo de maneira muito natural, como se fôssemos velhos conhecidos que acabavam de se reencontrar após longas datas e punham o papo em dia - maravilhas que acontecem quando se viaja e se encontra pessoas abertas ao mundo. Em dado momento de nossa conversa, alguém lembrou-se de perguntar os nomes, eu, como de costume ao falar com estrangeiros que falam inglês, disse, fazendo a mímica: mar-see-you (como em "I see you", "eu vejo você"), ele riu e nunca mais esqueceu - ninguém esquece! "E o seu?", eu perguntei. Ele naturalmente me disse "Yoshi". Eu fiquei em silêncio, num silêncio constrangedor, lembrando do
Farol da Barra
meu jogo favorito da infância, olhando para ele, com cara de paisagem, querendo perguntar. Ele entendeu e me respondeu, "Você conhece o jogo Super Mario Bros., não é?", eu disse que sim, ele continuou "Então, é igual ao do dinossauro". Eu ri. "E eu pensando que minha técnica de memorização de nomes era infalível! A sua que é. Você apelou para a memória sentimental. Nunca mais se esquece seu nome! Yoshi, Cadê Luigi, o rei Copas?". Ele começou a gargalhar e a gente continuou andando enquanto ele me contava a história daquele nome, que não era o dele mesmo, mas uma aproximação de sons. O seu nome real era bem mais complicado e decidimos que Yoshi estava legal.
O papo estava tão bom, que a gente foi andando até chegar ao Farol da Barra sem sentir o tempo passar, O farol  é o mais alto de todo Portugal e o segundo maior da Península Ibérica, do qual os portugueses - pelo menos os de Aveiro - têm um orgulho imenso. Ele foi construído a partir de 1885 e tem 62 metros de altura. Fica na praia da Barra, na freguesia da Gafanha da Nazaré, concelho de Ílhavo, e de cima dele dá para se ter uma visão incrível do lugar. Nós não pudemos subir, pois na porta, estava afixada uma nota dizendo que o farol está aberto à visitação às quartas-feiras apenas. Mas mesmo de fora, a imponência dele, a beleza dele na paisagem, já enchem os olhos. Sentamos na praça em frente ao farol e o Yoshi, cheio de saudades de casa, me contou a lenda da deusa Matsu, protetora dos velejadores e marinheiros, e de como ela tinha morrido ao se lançar no mar para salvar seu pai e seu irmão. Ficamos contemplando o farol por mais alguns minutos, calados, pensando na deusa Matsu e seu ato de heroísmo. Discutimos o assunto do heroísmo dos deuses e homens e aquele papo filosófico encheu a gente de fome.
Homens pescando na praia da Barra - Ílhavo
Voltamos andando pela praia à procurar um lugar para comer e encontramos um restaurante café superarrumado quase sobre a areia onde eu apresentei a Yoshi a famosa francesinha portuguesa. Ele comeu para lamber os beiços e dizer "é muito bom, é muito bom!".
Depois da barriga cheia, era hora de voltar para a cidade de Aveiro. Fomos andando pela praia, pelo cais, sem pressa. Conversamos com pessoas locais nas lojas de souvenir e no calçadão, ouvimos histórias parecidas contadas por lábios diferentes sobre o lugar e sua gente e suas atrações. Sentamos a esperar o ônibus e no meio-tempo podemos apreciar uma regata que estava ocorrendo por lá. As praias da Costa Nova e da Barra são excelentes para a prática de esportes como futevôlei, futebol e vôlei de areia, frisbee e de esportes náuticos. Para lá vão surfistas, kitesurfistas, velejadores, canoístas e afins, além de pescadores, banhistas e gente que quer apenas desfrutar da beleza e calma da praia de areia bege e fofa. Também a localidade é famosa pela culinária, especialmente pelo bacalhau e pelas deliciosas enguias fritas,  as quais eu tive o prazer de desfrutar no tradicional restaurante Marisqueira em companhia de meu amigo e historiador gafanhense, o Sr. Fernando Martins, enquanto saboreávamos um delicioso vinho verde e ele me regalava com as histórias do lugar e do povo. 
Antes de vermos o fim da regata, o ônibus chegou e com ele a noite se aproximava. Descemos em Aveiro, me despedi de Yoshi, que se tornaria meu companheiro de caminhadas e janta durante todo o tempo que fiquei na cidade, e, como tinha comprando um ingresso para o novo Star Wars,
Regata na Costa Nova do Prado - Ílhavo
fui encerrar minha noite vendo Harrison Ford e companhia. 
No cinema, que fica no shopping center local chamado Fórum Aveiro, aconteceu um fato curioso. Estava eu lá vendo meu filminho tranquilo com os dez ou onze outros espectadores quando, do nada, no meio do filme, as luzes se acenderam, eles começaram a tocar música brasileira e algumas pessoas saíram da sala. Olhei para o casal ao meu lado e perguntei o que estava acontecendo, se o filme tinha dado problema, se teríamos de voltar no dia seguinte, se tinha pegado fogo na Babilônia. O rapaz me disse que não me preocupasse, dentro de poucos minutos o filme voltaria a rodar, era só um intervalo. Recostei na minha poltrona e fiquei lá ouvindo Caetano Veloso cantando pra São Jorge até o intervalo acabar. 

Cidade de Ílhavo
Monumento da cidade de Ílhavo
Na segunda-feira, logo cedo, fui conhecer a cidade de Ílhavo atrás de informações sobre meus ancestrais e os irmãos de minha avó que ficaram lá. O ônibus que sai de Aveiro deixa a gente na porta da Câmara Municipal, prédio onde funcionam vários órgãos públicos de que eu precisava para minha pesquisa.
Depois de encontrar as informações em uma e outra sala, fui andar pela cidade para conhecê-la um pouco. Caminhar naquelas ruas pacatas de paralelepípedos e calçadas de pedras portuguesas, olhar as casas de azulejos coloridos, a arquitetura que me lembrava o barroco colonial da Bahia, me fez sentir passeando por Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, e a igreja de São Salvador do Ílhavo me fez pensar na igreja do Senhor do Bonfim. Pude entender porque meu bisavô se sentia tão em casa na cidade da Bahia que voltou a morar e casar por aqui duas vezes.
Praça Central da cidade de Ílhavo
Entrei na igreja, sentei no banco, fiz uma prece. Olhei aquele lugar por muito tempo, emocionado. A igreja é simples, sofreu algumas reformas, mas a pia batismal antiga ainda estava lá. Pensei em meu bisavô sendo batizado, meus trisavós, os pais deles e assim vários ancestrais antes deles. Pensei nos casamentos que ali se fizeram e nas composições sacras que meu trisavô João da Rocha Carolla tinha escrito e nas vezes todas que elas devem ter sido executadas no órgão da igreja. Meu coração estava cheio de uma emoção nova; eu estava extasiado.
Saí da igreja para continuar minha caminhada pelo Museu Marítimo de Ílhavo e Aquário da cidade, onde aprendi muito sobre a história dos ílhavos e a pesca do bacalhau. Lá se pode também ver um aquário imenso com bacalhaus vivos se aproximando do vidro para nos dizer um "Olá, como estás?". Depois, cansado de tantas andanças, fui à praça central para descansar antes de voltar a Aveiro e lá encontrei um senhor sentado no banco a tomar o sol frio que brilhava no céu azul. Puxei conversa com ele perguntando se conhecia a família de meu bisavô e, do longo papo que se seguiu, pude encaixar mais peças ao meu quebra-cabeça genealógico (mas sobre isso falarei em outro post).
Igreja de S. Salvador de Ílhavo
No final do dia, retornando a Aveiro, as emoções já em ordem, ao voltar para o Fernando's Guest House conheci minhas vizinhas de quarto: duas italianinhas gente boníssima que estavam passeando por Portugal há algumas semanas para praticar o português que aprendiam no curso de Letras na Universidade de Turim. Novas amizades pela frente, uma boa caminhada pela ria sob o céu estrelado.

Quando dizer adeus dói
No distrito de Aveiro eu experimentei fortes emoções e conheci lugares e pessoas maravilhosos. Desde a cultura religiosa, à culinária, à paz e tranquilidade das praias de areia levemente  bege, à amistosidade e receptividade do povo, às casas coloridas típicas e aos famosos "palheiros" da Costa Nova, Aveiro nos transporta para um mundo moderno que está embebido de uma aura antiga. Onde as pessoas apressadas pelo dia a dia não têm pressa, onde se sentam para um café e conversam com alegria, onde sorriem cordialmente e te fazem sentir incluído no seu ambiente, onde parecem ter o prazer em receber o forasteiro
Sobremesa de frutas cobertas com ovos moles
e compartilhar com ele daquilo que lhe é próprio. Não é à-toa que todos as pessoas de lá que me deram o prazer de suas companhias se tornaram instantaneamente queridas para mim. Desde o meu amigo historiador Fernando Martins, à dona da pousada, aos Pedro e Abel - atendentes do restaurante Sabores do Mercado, no Fórum Aveiro, aonde eu ia jantar todas as noites -, aos pesquisadores e o pessoal do atendimento no Arquivo Distrital de Aradas, à velhinha da venda, dona Maria, que sempre me dava uma cavaca quando eu aparecia por lá, ao primo que conheci, aos senhores na praça de Ílhavo, enfim, parece mesmo que todos que me chegaram pelo caminho - até os não-portugueses - em Aveiro vinham saídos de um mundo que está desaparecendo das nossas vidas urbanas cotidianas.
Entre essas pessoas, ainda há o Luís Shark, uma pérola da música jovem gafanhense e um campeão da vida.
Havíamos nos conhecido há mais ou menos um ano em um grupo do Facebook e, na minha ida a Aveiro, não pude deixar de encontrá-lo pessoalmente.
Luís Shark  em seu show
Marcamos de nos ver num bar hipermassa na Gafanha da Nazaré chamado Porão Restbar onde a galera jovem se encontra para uns goles, uma conversa, umas músicas, enfim, para descontrair. Quando cheguei, o Luís já estava lá, sentado numa grande mesa de madeira tamborilando com os dedos algum arranjo que ele, músico talentosíssimo, provavelmente estava criando.
Ficamos conversando por horas sobre tantas coisas da vida e do mundo, sobre as superações dos obstáculos que a vida nos impõe, sobre o não prostrar-se diante das adversidades; sobre assuntos pesados e leves; sobre qualquer coisa que nos vinha à mente, como é natural acontecer com alguém cuja prosa é tão fácil. O Luís mesmo, pela sua história, é um desses gigantes que não se deixam abater, que transformam as agruras do destino em caminhos a serem galgados e superam o que a vida traz de mal, pegando o leme da existência na sua mão e conduzindo seu barco para os mares que lhe aprazem. Muitas vezes transformando a vida em música e projetos musicais a fim de ajudar a existência de outros através da arte e da cultura, proporcionando a outros sonhar, pois como ele mesmo diz "vida sem sonhos é como um céu sem nuvens, um passo mal dado".
E assim, entre um gole e outro de café com o Luís ou com os outros camaradas que encontrei, se confirmou em mim que essa minha viagem tinha sido mais sobre pessoas e a aventura humana e a bênção de conhecer vidas e histórias do que visitar lugares e coisas.
Por isso, Aveiro fica na minha memória não só como o lugar de onde um de meus bisavós saiu a singrar os
Trenzinho saindo da estação de Aveiro
mares para realizar o sonho do conquistador de novos mundos, mas como um porto seguro, uma parada obrigatória para as próximas viagens que eu fizer às Terras Lusitanas; um sítio aonde eu fui procurar por histórias dos mortos e encontrei gente viva, espontânea e cordial que enriqueceu minha viagem e a minha própria história.

Para mais sobre o Luís, acessem aqui: https: https://www.facebook.com/LuisRocha.Singer/?fref=ts

e escutem:


Museu da Cidade de Aveiro
O que fazer/ ver em Aveiro:
Passeio de moliceiro na Ria de Aveiro;
Praia da Costa Nova;
Farol da Barra;
Igrejas e o Museu da Cidade de Aveiro;
Festa de São Gonçalinho (em maio) onde cavacas são jogadas da torre da capela de São Gonçalo como forma de pagamento de penitências (cuidado com a cabeça);
Comer as enguias fritas, cavaca e ovos moles.

Onde comer em Aveiro:
Sabores do Mercado do Fórum Aveiro;
Zig Zag Café e restaurante;
Marisqueira (Costa Nova);

Mais sugestões? Me diga e as postarei aqui.

Para mais sobre o que ocorre em Aveiro, acesse: https://www.viralagenda.com/pt/aveiro



sexta-feira, março 18, 2016

Europa em 60 dias - Dublin e Irlanda do Norte - Reencontros e Descobertas

Amanhecer no Centro de Dublin




























Tinha me encantado pela Irlanda quando fui um estudante em Dublin. Não só as paisagens magníficas do país, mas a amistosidade do povo, a sensação de segurança e bem-estar, e mesmo os vários dias de céu nublado e o cheiro do vento, fizeram com que eu me apaixonasse pela Ilha Esmeralda. 

No entanto, confesso que estava meio receoso de voltar ao país, pensei que esse encanto da primeira vez poderia ser perdido tão logo eu desembarcasse em solo irlandês. Mas não foi assim. Quando, no aeroporto de Budapeste, comecei a ouvir as conversas daquelas pessoas de sotaque caraterístico e sorriso largo que estavam comigo na fila da Ryanair, logo fui inundado de uma nostalgia maravilhosa.

Me engajei num papo gostoso com meus companheiros de voo e até fui corrigido por uma senhora que parecia a Filomena do filme de mesmo nome quando, diante da confusãozinha que se formara em frente ao portão de embarque, lhe falei a palavra "line" para dizer que havia uma fila única para todos os voos.

Ela olhou para mim com seu sorrisinho leprechaunico e me disse: "você quer dizer 'queue'. Você não quer ser diferente de nós, não é?", e me piscou o olho esquerdo para confirmar a pergunta que mais parecia uma ordem. Eu lhe sorri de volta e disse, "Não, eu sou quase um Irish, right?!", pronunciado /Óirish, róish/. Ela aplaudiu alegremente meu sotaque fake e respondeu que sim. Embora fosse diferente, já me sentia um pequeno homem de barba ruiva com trevo de quatro folhas na lapela do meu casaco verde. 

Costume House e Rio Liffey - Dublin



E essa sensação se intensificou quando saí pelos portões do Aeroporto Internacional de Dublin e senti o cheiro daquela cidade que já se havia impregnado em mim, mas estava adormecido em minha memória. Dublin tem um cheiro todo próprio, de chuva, frio e relva verde que se entranha nas narinas como o perfume de uma mãe querida.

Fui andando pelos corredores, sorvendo aquele ambiente, aquela atmosfera, o cheiro da cidade. Sabia que meus amigos já esperavam por mim na saída e que deviam estar preocupados com minha demora pensando até que havia tido algum problema no controle de passaportes, uma vez que o grande número de brasileiros no país é feito tanto por gente muito boa como por gente ruim, que leva seus costumes danosos para onde se dirigem e, por isso, os passaportes brasileiros têm sido vistos com (muito) mais precaução que antes. 

No entanto, minha demora se dava por eu apenas caminhar lentamente pelos corredores, lembrando todas as vezes que entrei e saí daquele aeroporto. Naquele momento, sentia o coração acelerado pela emoção de estar de volta à cidade que se tornou um dos mais queridos cantos do mundo para mim, e pela antecipação de rever meus amigos aos quais tinha encontrado em Salvador exatamente um ano antes daquele dia, quando, em férias, eles foram me visitar.

Centro de Dublin 





















Abraços dados, saudações trocadas, sorrisos felizes, deixamos minhas malas em casa e os melhores anfitriões da Irlanda me levaram para um rango superdelicioso, à irlandesa, bem perto do lugar onde morei, mas aonde eu nunca tinha ido. O ambiente é superlegal, jovem e descontraído e a comida deliciosa. Recomendo uma visita ao Hogs & Heifers de Swords e as costelas assadas que eles fazem lá! 

Entre comida, bebida e música, colocamos o papo em dia e fizemos o roteiro para a minha estadia. Pois Dublin era o único lugar para o qual não tinha feito nenhum plano, apenas queria chegar lá, depois, era só seguir o vento, afinal, havia tanto o que fazer na cidade, tanto para rever, e alguns lugares fora dali para conhecer.

Happy Hour no Johnnie Fox's


Um desses lugares foi um pub supertradicional - desde 1798 - e totalmente Irish chamado Johnnie Fox's - digo "totalmente irlandês", porque na região do Temple Bar, no Centro, há muitos turistas, então, os pubs tomam uma configuração para estrangeiro ver -, com música irlandesa tradicional, muitos pints de Guiness, um delicioso Baileys coffee para esquentar, e velhinhos irlandeses conversando sobre a vida. 

Esse pub é chamado de o "Pub mais Alto da Irlanda" e está a uns 30 ou 40 minutos do Centro da cidade, já na região das montanhas de Wicklow. O staff é totalmente gentil - tiraram até nossas fotos e nos explicaram várias coisas sobre a cultura do lugar -, e o pub é frequentado majoritariamente por irlandeses - cerca de 98% das pessoas que estavam lá eram nativas.

Os Pubs irlandeses são lugares para onde se deve ir quando se quer realmente sentir a vida do país. Pois eles são para os irlandeses o que as praias são para nós: um lugar aonde todos vamos sem pestanejar.

Bushmills, Giants' Causeway, Carrick-a-Rede e Dark Hedges - Irlanda do Norte
Dark Hedges - Irlanda do Norte




















A Irlanda do Norte é sempre um dos destinos certos para quem estuda ou visita a República da Irlanda. Geralmente as pessoas vão a esse país que, embora esteja na mesma ilha, faz parte do Reino Unido e não da República da Irlanda (por isso a moeda não é o euro, mas a libra esterlina), para visitar o Museu do Titanic, o Giant's Causeway (um conjunto impressionante de milhares de pedras de basalto que se encaixam perfeitamente como se tivessem sido postas para formar uma calçada), Carrick-a-Rede, onde há a Ponte de Corda; e agora, também, as Dark Hedges (uma avenida de faias bicentenárias enormes que se entrelaçam criando um cenário incrível), que ficaram famosas porque viraram palco para o último episódio da primeira temporada de Game of Thrones.

Eu, entretanto, não havia ido lá. Fiquei adiando a viagem até que não deu mais para ir. Por isso, assim que o sol raiou (fala-se figurativamente aqui, pois o "sol raiar" no inverno irlandês chega até a ser uma escolha sarcástica de vocabulário), nós nos arrumamos, corremos para o carro e nos mandamos a ganhar a estrada e o dia.

A chuva fina caía incansável sobre o teto e vidros do carro enquanto estávamos na M1, o céu cinzento contrastando com o verde vivo do mato e das plantações ao lado da estrada, música brasileira, irlandesa, pop rock, alterativa, tocando no repertório, o tempo passando a quase 100 km por hora ao passo em que gradativamente víamos o meio-fio de verde, branco e laranja mudar para azul e vermelho, e as cores das placas informativas mudarem de verde para azul, e um Union Jack (a bandeira do Reino Unido) voar tímido e solitário no mastro, nos mostrando que deixávamos a República da Irlanda e entrávamos na província de Ulster (nome irlandês da Irlanda do Norte). 


Torre Redonda em Bushmills




Quando me dei conta das transformações, meu coração começou a gelar. Me lembrei do IRA, me lembrei de protestantes e católicos, me lembrei do ódio entre irmãos, e da placa Baila Atah Cliath (nome de Dublin em irlandês) no carro. Olhei para John, ele parecia tranquilo, Olhei para Carina, ela também estava tranquila. 

Perguntei se estava tendo algum problema recentemente, ele disse que não havia nada sério, que as coisas estavam bem há muitos anos. Desanuviei a mente, voltei a me perder na vista e nas ruínas de casas antigas no caminho. A paisagem é tão bucólica, tão única, que mesmo nos mostrando pastos por quilômetros quadrados, torres redondas da época dos celtas e povoações tímidas despontado aqui e ali, não nos enfada nunca.


Mini Fry e chocolate quente- The Copper Kettle




















Antes de chegarmos ao Giant's Causeway, precisamos parar num posto. O dono do lugar, ao nos ver chegar, levantou-se da cadeira onde estava do lado de fora da loja e meteu-se por trás balcão, seu olho reluzia, sua cara estava tesa, tensa. Nós entramos, o saudamos, ele respondeu com um aceno de cabeça rígido e quase imperceptível. 

Entrei no banheiro, rezando. Saí para ver a cara de John e de Carina em pânico, me pedindo para correr porque o homem tinha ido buscar uma picareta para quebrar o carro inteiro. Todos começamos a gritar como loucos, pedindo ajuda, procurando um esconderijo! Mas é claro que isto não é verdade, pelo menos não a parte dos gritos e das picaretas, falei só pra criar um climinha de expectativa.

A verdade é que, quando saí do sanitário, todos continuavam no mesmo lugar. O John e a Carina ao lado da porta me esperando, O homem teso atrás do balcão nos olhando como se fôssemos criminosos, aliás, remoendo o ódio pelo que o John representava para ele: a rebeldia irlandesa que deu um basta ao imperialismo britânico. 

Carina me disse que não havia lanches lá e fomos embora. Meus pelos arrepiados pelo olhar malévolo do homem que, após nós arrancarmos com o carro, saiu de dentro da loja, cuspiu no chão e disse alguma coisa inaudível. Olhei para os meus anfitriões, todos estávamos aliviados. "Ainda há gente que guarda rancores", comentou o John.

Como - graças a Deus - não encontramos rango na loja de conveniências, paramos numa vila próxima ao Giant's Causeway para forrar o estômago. Lá encontramos um restaurante muito ajeitadinho e confortável, com uma comida boa e barata, chamado The Copper Kettle (O Bule de Cobre) e, diferentemente do sujeito no posto, os funcionários do restaurante nos receberam hiperbem. 

Havia lá também um grupo de ciclistas que fazia a Rota Cênica da costa da Irlanda. Todos muito animados, comendo proteínas e gordura e bebendo café quente para enfrentar o frio e os quilômetros que os esperavam pela frente. Quando saímos do restaurante, John chamou minha atenção para a vila, me dizendo que há dois anos, quando ele esteve lá, havia várias bandeiras da Union Jack (aquela bandeira azul com uma cruz vermelha e branca) penduradas pelos postes, mas que agora não havia nenhuma. Talvez as coisas estejam mesmo ficando no passado, apesar de alguns ressentidos.

O céu começou a abrir, o sol apareceu tímido, bem tímido mesmo, mas suficiente para que aproveitássemos nosso passeio. No Giant's Causeway há uma recepção bem confortável, onde podemos aprender tanto a história quanto a mitologia envolvendo o lugar. Há também um café muito bom. Nosso guia chegou e descemos com ele para explorar a atração. O vento frio sempre presente quase quebrando nossos ossos e fazendo nossos narizes correrem rios, parecia não dizer nada ao guia que permanecia sem luvas nem proteção  para o rosto- um herói!



O sapato que Finn deixou para trás na batalha




























Lá fomos nós parando aqui e ali a ouvir histórias interessantes sobre a formação geológica do Causeway; sobre a mulher que vendia cachaça dizendo que vendia água vinda de uma nascente ali mesmo para burlar as leis contra bebida alcoólica; sobre os mitos do camelo Humphrey e do gigante Finn, e as /stiuunes/ (stones, pedras), como nosso guia falava em seu sotaque nortenho, que Finn pôs ali para lutar com o gigante escocês. Mostrando que, enfim, a lenda é sempre mais interessante que a geologia para quem fez Letras.

De lá fomos à Rope Bridge, em Carrick-a-Rede. Uma ponte de madeira e cordas que liga a ilha ao um penhasco de onde, em outros tempos, os pescadores saiam para fazer suas pescas e checarem suas redes de salmão na solidão fria do mar da Irlanda.

A sensação de caminhar na ponte num dia de vento forte é única. Embaixo de você há um abismo
azul e pedras escorregadias e agudas, e nas laterais só umas cordas que, apesar de seguras, parecem fios de barbante ao vento. Olhar para baixo é uma opção para os de coração forte. Manter o foco à frente, uma opção para quem quer continuar prosseguindo sem receios maiores. Eu fui andando, ignorando o vento, concentrado apenas na minha chegada. Carina do outro lado me gritava: "Olha pra baixo, Márcio!" olhei! quase me borrei todo!


Rope Bridge - Carrick-a-Rede



O vento soprando, balançando a ponte me deu vertigem. Quase parei no meio, senti o sangue correr do rosto, das mãos, meus amigos falando "vem logo", e eu lá com aquela cara de "Ai, meu Deus, o que eu vim fazer aqui!". Quando enfim cheguei ao outro lado, o alívio, a alegria de estar vivo, a sensação de quem conquistou o mundo, me possuíram. Carina bateu no meu ombro e me disse: "agora quero ver é voltar". 

Olhei para trás, o vento balançava a ponte, incansável. Quando saímos de lá, o sol já estava quase se pondo, fomos diretos ao Dark Hedges. Havia um grupo de turistas brasileiros com quem eu logo socializei. O cara mais falante do grupo, um paranaense que estava morando em Dublin há dois anos e parecia ser um guia turístico, começou a descrever o local para seus amigos, contando a história do lugar e do porquê tinha se tornado mundialmente famoso, eu aproveitei e fiquei só nas entocas ouvindo tudo. Valeu, colega, pela explicação gratuita.

Fotos tiradas, chuva fina começando a cair de leve, voltamos para Dublin. À noite três horas parecem infindáveis. Dormi pra só acordar em casa.

De volta a Dublin - onde está Molly Malone?!


Postes do Centro de Dublin


















No dia seguinte, que foi cheio de bons reencontros e surpresas, saí de Swords, com o céu ainda escuro, em direção ao Centro naquele ônibus double-decker que há tanto tempo eu não pegava. Olhei os rostos das pessoas recém-acordadas, silentes, sentadas nas poltronas azuis confortáveis, as chácaras ao redor, o cenário bucólico na maior cidade da Irlanda, na capital do país. 

Um sentimento de melancolia doce me envolveu. Percebi o quanto de saudade eu sentia daquele lugar calmo, de gente tranquila e amistosa.

As coisas estavam diferentes, embora parecessem iguais. O trajeto do ônibus não era exatamente o mesmo, a ponte em frente ao Eden's Quay (/ki/) tinha sido terminada, o centro da cidade sofria várias intervenções para as novas rotas dos Luas (os trens de Dublin).

 O dia amanheceia lento enquanto eu saltava do double-decker e caminhava pelas ruas frias. Antes de ir reencontrar meus antigos professores, fui dar uma volta pela Grafton Street, agora sem as pedras vermelhas que a calçavam, delas restam apenas resquícios em algumas vielinhas e na rua onde há a estátua de Philip Lynott, da banda Thin Lizzy. 

O Stephen's Green, no entanto, continuava igual: os patinhos, gaivotas, galinhas d'água, fazendo festa no lago, gente sentada nos bancos comendo seu café da manhã, esquilos correndo por aqui e acolá. Eu fui caminhando lentamente, Sentei diante do lago e, por instinto, comecei a cantar João Gilberto, baixinho: "...quiet talks and quiet dreams, quiet walks by quiet streams...", me perdi na minha música e na paz do lugar. 

Uma senhora que passeava com seu cachorro parou diante de mim e me disse: Que bela música! Que voz suave! posso te ouvir cantar?". Eu, totalmente sem jeito, disse que sim. Ela sentou-se ao meu lado e pediu que eu repetisse a mesma música. Eu, com cara de bolacha, comecei a cantar. No final ela aplaudiu e me disse: "Eu adoro ouvir as pessoas cantarem, faz a vida tão mais bonita! E numa manhã tão escura as músicas sempre fazem o dia brilhar".

 E aí  me perguntou qual era a língua da segunda parte da música. O resto vocês já sabem onde foi parar: Brasil isso, Bahia aquilo, Salvador aquilo outro. Ela se despediu, com um aperto de mão e um sorriso imenso, e lá se foram ela e seu cachorrinho pequeno e desengonçado, cuja raça eu não tenho ideia qual seja.


Feira da Moore Street





















A Irlanda é assim: pessoas calorosas e gentis, dias frios e cinzentos. A Dublin de Molly Malone continuava a mesma na essência, embora algo tenha mudado aqui e ali. Aliás, a própria Molly Malone não estava mais na Grafton Street. Sua estátua de bronze havia sido retirada, devido às obras do Luas, do lugar onde repousara por algumas décadas. "In Dublin fair city I didn't first set my eyes on sweet Molly Malone" que não estava mais lá "crying cockles andmussels alive, alive, oh!". 

No entanto, sua presença podia ser sentida ao cruzarmos a Grafton de volta ao Trinity College, ao Bank of Ireland, à Dame Street onde eu fui rever meus antigos professores com os quais tive uma manhã maravilhosa de lembranças e conversas calorosas. Meu Deus! como o tempo passou sem passar! 

Aquelas pessoas de mentes brilhantes, de doçura suave, de conversa fácil, estavam ali, muito felizes em me rever e saber notícias minhas. Tantas pessoas passaram por eles, mas ainda assim eles lembravam de detalhes de meu período de estudante. Meu dia foi maravilhoso assim - revendo a linda cidade, reencontrando amigos, voltando aos lugares aonde costumava ir, e terminando num pub no centro da cidade à noite onde fomos ver um show de música e dança irlandesas esquentadas com um Baileys coffee (fiquei viciado nele).


Adeus também foi feito pra se dizer "bye-bye, so long, farwell"


Pôr do sol em Skerries - Co. Dublin
















No meu último dia na cidade, nós fomos a uma vila próxima a Swords, Co. Dublin, à beira-mar, chamada Skerries, a qual eu não conhecia, mas aonde recomendo a todos darem um pulinho. O lugar, como todas as vilas irlandesas que conheci, é muito tranquilo e convida à meditação, bonomia e paz de espírito.


A vila em si é formada por duas grandes ruas e há lá também alguns monumentos bem interessantes como um forte construído pelos ingleses para sua defesa contra Napoleão Bonaparte, e torres redondas. Lá, fomos almoçar num restaurante muito bacana chamado Blue Bar Café, O ambiente é muito familiar, o lugar requintado, o staff atencioso e a comida com valor muito bom.

Com o sol que se punha, chegava a hora de arrumar as malas e alçar voo. Não sei bem o que estava sentindo ali, mas com certeza era uma sensação boa, uma alegria em saber que Dublin da primeira, da segunda, da milésima vez, continua sempre um lugar especial. Meus receios iniciais não tinham fundamento. 

A cidade continuava e por muito tempo ainda será, como me disse o vendedor de souvenirs em Budapeste, "uma segunda casa" para mim. Especialmente porque Dublin não é monumentos, ou parques, ou chuva e frio apenas, é emoção. Minhas memórias são afetivas, por causa de todo mundo que conheci lá, de todas as amizades que fiz, de todas as lembranças boas que fiz antes e agora.

Carina, John e eu caminhamos em direção a um playground próximo à Torre Redonda e ficamos a observar o mar e a ilha aonde, dependendo da maré, podemos ir caminhando. Sentamos no cais a conversar e a falar da vida enquanto o sol se punha e as estrelas começavam a despontar no céu. 

A noite seria longa, iríamos à festa de aniversário de Felipe, meu amigo e conterrâneo de Salvador que estava morando em Dublin de tanto que eu enchi a cabeça dele sobre o lugar. A festa seria num pub bem bacana no centro, e a conversa regada a totó, risadas, comida boa e Glucosade.

Às quatro da manhã, parti de volta a Portugal. Começaria a segunda etapa da minha viagem, aquela para a qual eu tinha voltado à Europa em primeiro lugar: a busca pelas minhas raízes e história de meus ancestrais.  Me despedi dos meus queridos anfitriões e entrei pelo saguão do aeroporto internacional de Dublin, com uma sensação de saudade antecipada se apoderando de mim.

Recomendo assistir ao vídeo - The Dubliners - Molly Malone




domingo, março 06, 2016

Europa em 60 dias - Budapeste, Hungria - A Cidade dos Monumentos

A parte Peste da cidade vista de Buda com o prédio do Parlamento à esquerda e o Danúbio cortando a cidade
O nome Budapeste sempre me causou estranheza e curiosidade.Quando eu era criança pensava que uma grande praga havia assolado o lugar e que algum ser mítico oriental resolvera o problema. Depois fui descobrir que duas cidades haviam se unido para integrar o que hoje é a capital da Hungria. Budapeste, na verdade, são nomes que designavam lugares diferentes.

Buda vem de uma palavra eslava que significa "água" e Pest significa "fornos ardentes". As cidades foram unificadas em 1873 para formar a bela capital magiar, que hoje é uma das mais bonitas capitais europeias.

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Cheguei lá numa noite fria e de vento forte, vindo do calorzinho bom de Atenas, e fui recebido no aeroporto por um amigo mineiro que tinha conhecido durante a Missa do Galo, no Vaticano.

Ele estava fazendo parte de seu mestrado na cidade e voltava ao Brasil alguns dias após minha visita. O Luiz é desses caras que são agradáveis por natureza e que te deixam super à vontade pelo seu jeitão mineiro e tranquilo de ser.

Pode-se ver o tipo de pessoa pela gentileza: quantos de nós é capaz de ter tanta consideração por alguém pra sair numa noite de graus abaixo de zero a fim de pegar um recém-conhecido no aeroporto e levá-lo até seu alojamento?

Apesar dos meus protestos iniciais, devo confessar que fiquei superfeliz com a calorosa recepção por dois motivos: primeiro, por rever o meu camarada; segundo, porque com certeza não me perderia pela cidade à noite.

É como o próprio Luiz me disse: "Receber as pessoas na sua primeira vez em algum lugar é algo que devemos fazer, não é? Torna a chegada muito mais tranquila e agradável", e também saborosa! Ao
Rua de Budapeste
desembarcamos na estação Déak Ferenc, meu amigo me apresentou uma das típicas delícias da culinária budapestina, o kürtokalács.

Apesar do nome parecer um palavrão, nada mais é que um "pão" enrolado e coberto com açúcar e canela, servido quente e custando apenas 1 euro -  a moeda do país é o forinte húngaro (lembre de trocar o dinheiro antes de viajar para a Hungria), mas nesse stand da estação eles abriram exceção e aceitaram o euro.

Depois de provar o kürtokalács, pois não se pode comer dentro do trem, caminhamos em direção à linha amarela que era a linha para o meu hostel.

No percurso fiquei sabendo que não só aquele era o metrô mais antigo do continente, como também que ele tinha sido feito pela elite da cidade que queria ir ao parque sem ter de passar pelas ruas e ter contato com a plebe.

Daí eles cavaram um buraco no meio da rua, de cima para baixo, e fizeram a linha amarela (hoje tem mais três linhas e os trens têm as cores das linhas) a qual permanece praticamente da mesma forma desde 1896, o que torna a viagem uma volta no tempo, especialmente pelo barulho do vagão passando pelos trilhos e parando nas estações nos dando a impressão de que vai quebrar a qualquer momento.
Dentro do Castelo de Buda
Ao comprar o bilhete, lembre-se de validá-lo na máquina, pois nos trens e nas estações há fiscais que irão te multar se não virem o bilhetinho furado.

O bilhete único - que me levou da estação de ônibus do aeroporto à estação de metrô Oktogon - custa 350 HUF , mas se você for passar mais de um dia na cidade e não desejar fazer caminhadas, vale a pena comprar outros tipos de bilhetes como o de 24 horas, o de 72 horas ou o de 10 dias, este último custa 3000 HUFs).


Dentro do castelo de Buda
Pegamos o trem e alguns minutos depois, lá saíamos nós na praça Oktogon, despontando no frio gelado, a caminho do Friends Hostel.

As ruas são extremamente organizadas, as pessoas caminham como se tivessem uma linha imaginária a qual elas seguem, ordeiramente; os carros param antes mesmo de você pôr o pé na faixa - tão diferente do caos de Roma onde, mesmo com o sinal verde para os pedestres, os carros continuam passando ininterruptamente até que algum herói mete o pé e vai atravessando quase sendo atropelado.

Menos de cinco minutos depois, estávamos subindo o elevador antigo daquele prédio antigo, enorme, parecendo clássico dos anos 20 ou 30. Quem nos recebeu foi um dos sócios do hostel, o Jack.

Muito cordial e preciso nas suas frases, antes de me mostrar o quarto, pediu que tirasse os sapatos - isso mesmo! em Budapeste não se anda de sapatos de rua nas casas! Me deu as instruções, as senhas da porta de entrada, do wifi, e me desejou uma ótima estadia na cidade. Entrei naquele quarto enorme, com janelas que iam do topo até o chão, com vista para a rua.

Pus minha mala naquele lindo guarda-roupa de madeira antigo e antes de me jogar naquela camona, também de madeira maciça, fui com o Luiz comer alguma coisa no Starbucks do outro lado da rua. Está aí um hostel que recomendo.

O Friends Hostel é no centro da cidade, você pode ir a todos os lugares em poucos minutos de caminhada (eu só peguei o metrô para ir ao hostel e voltar ao aeroporto), os quartos são individuais; como é num prédio residencial, não se faz barulho e os caras lá, que também são os donos, são muito gentis e prestativos, o preço também é muito em conta. Portanto, se você quiser se hospedar num lugar bacana, organizado e limpo, ter certeza que dormirá otimamente à noite e que estará perto de tudo e pagar  um bom preço, eis o seu hostel.
Parte da cidade de Budapeste vista do topo da Basílica de Santo Estevão
Os monumentos 
Budapeste não é uma cidade de belezas naturais, apesar do Danúbio cortá-la ao meio, mas, sim, uma cidade de monumentos fascinantes. Eu já tinha feito todos os meus roteiros pelo Google maps antes de sair do Brasil, então sabia exatamente aonde ir e como chegar caminhando.

No entanto, decidi não seguir a ordem na qual o tinha feito. Apenas aproveitei o dia de sol e fui caminhando pelas ruas e visitando os lugares selecionados ou descobrindo outros que não estavam no script.
Terror Háza - Casa do terror
Quando estiver caminhando por Budapeste, preste atenção às placas postas nas calçadas, elas têm informações históricas sobre os prédios e ruas e você pode descobrir muito sobre a cidade com elas.

Meu primeiro destino foi a Casa do Terror (Terror Háza), a apenas três minutos do Friends Hostel. O lugar já assusta antes de entrarmos no prédio. Em frente ao museu, entre a calçada e a rua, há uma parede de ferro e correntes que servia como objeto de tortura durante a ocupação socialista da Hungria.

Dentro do prédio você é levado por vários andares e salas que recontam a história e a vida cotidiana dentro desses lugares e pelas ruas e cidades do país. Há também vídeos com o depoimento de sobreviventes do nazismo e do socialismo - deveria também ter vários lenços pra você enxugar os olhos por causa da comoção que o lugar te causa.

Eu passei minha manhã lá aprendendo sobre aquele país e aquele povo outrora tão guerreiro e que havia caído nas garras do fascismo alemão e soviético por tanto tempo. Me lembrei do prédio do DOPS e pensei que seria interessante que preservássemos a história da ditadura no Brasil como eles fizeram no museu do terror - obviamente ouvindo os dois lados do conflito.

Não sei o que aconteceu com esse nosso prédio, mas ter um museu em suas instalações seria muito bom para preservar a nossa história e recontá-la todos os dias a quem o vistasse.

A ida à Casa do Terror é para aqueles de coração forte, especialmente de manhã cedo quando as taxas de testosterona estão baixas e a gente se emociona com tudo. Mas é um destino sine qua non para quem quer conhecer a história política relativamente recente da Hungria, do ponto de vista dos húngaros. O ingresso geral (há outros tipos) custa 2000 HUFs e você pode tomar informações aqui: www.houseofterror.hu

Basílica de Santo Estevão - Budapeste

De volta às ruas, à luz brilhante do sol e ao frio do vento de inverno, fui descobrindo os lugares lindos daquela cidade. Entre eles, a Basílica de Santo Estevão, um prédio imponente construído em meados do século 19, tornou-se o edifício mais alto e a maior igreja da Hungria.

É um prédio de arquitetura magnífica e majestosa em estilo neoclássico e dentro do qual você deseja passar horas a fim contemplando seu interior. Dentro da igreja há também a Capela da Mão Direita onde se encontra a mão mumificada do rei Santo Estevão I, eu achei o passeio meio bizarro, mas muito interessante.

 No entanto, a minha parte favorita da Basílica foi o topo. De lá temos um mirante de onde se pode ver a cidade em 360º. Super recomendo a subida (à qual se tem acesso pagando uma pequeníssima taxa). Mas se prepare, são 364 degraus. Há um elevador, mas pra chegar a ele, há que se subir muito as escadinhas estreitas.

Me lembro de um trio de meninas irlandesas que encontrei na subida e que, depois de várias vezes dizerem durante o trajeto "What a
Basílica de Santo Estevão - Budapeste
fecking climb! Jayzus!", deram um grito imenso de alegria quando enfim chegamos ao elevador. Daí já se percebe o que enfrentamos. Porém, garanto que o esforço será recompensado.

Eu, particularmente, fiquei boquiaberto com a vista. Se dentro da igreja não dá vontade de sair, de cima dela então a vontade é de passar horas infindáveis.

Diante da igreja há uma praça onde encontramos gente de todos os lugares e de todos os tipos. Foi lá, por exemplo, que encontrei um monge Hare Krishna pedindo doações para sua comunidade - havia vários deles.

Ele me interpelou em Húngaro e eu lhe respondi em inglês que não estava interessado. Ao ouvir minha resposta, ele sorriu largamente e me disse afoito: "Eu também sou americano, de Boston. E você, Califórnia?". Eu respondi que de fato eu era americano, mas do sul, da América do Sul, mais especificamente de Salvador, Bahia, Brasil.
Budapeste - Hungria

Eu geralmente não dou atenção a esse pessoal que supostamente trabalha com agências ou ONGs, ou qualquer coisa semelhante, porque sei que muitos deles estão ali usando indevidamente o nome dessas instituições.

Em Lisboa, por exemplo, onde várias vezes eu era parado por alguém, desenvolvi uma frase que na hora afasta esse povo de mim. Quando uma dessas mulheres com a plaquetinha na mão veio me pedir dinheiro pra uma suposta UNICEF, eu olhei pra ela e disse, carregando nos "r" e "x" "Doroshki Nin Portugashka".

Ela se assustou com o dialeto e disse " O quê?", eu repeti, ela me olhou com raiva e saiu. Comecei a fazer isso em todo lugar apenas trocando Portugashka por Spanishka, Germanika, Greshka, Hungarishka, etc. É tiro e queda. Quer se ver livre da insistência desses meliantes? manda ver no dialeto.

Mão de Santo Estevão
Com o monge foi diferente. Achei que ele era sincero. Daí continuamos a conversar sobre mim e sobre ele, mais sobre ele, a quem eu enchia de perguntas.

A história de Andrew me intrigou muito. Um jovem de vinte e poucos anos, estadunidense, que tinha deixado a faculdade de direito, uma confortável vida de classe média e a igreja presbiteriana para viajar o mundo e se tornar um monge Hare Krishna, de cabeça rapada, pedindo esmola nas ruas de Budapeste.

Perguntei a ele o motivo dessa mudança tão radical e a resposta foi muito parecida com a de Judith (a senhora que conheci em Barcelona) e de outras pessoas que encontrei pelo caminho: "cansado de minha vida vazia". Jovens, velhos, homens e mulheres, muita gente cansada de suas vidas "vazias" por aí. Dei uma graninha a ele continuei meu caminho rumo ao castelo de Buda (Budai Var).
Ponte das Correntes vista de dentro do teleférico

Para chegar lá, partindo da basílica de Santo Estevão, é só atravessar a rua e depois a ponte das correntes - sobre a qual eu parei para vários flashes. Depois, é pagar, pegar o teleférico (Budavari Siklo) e subir a pequena colina que te deixa às portas do castelo de onde você tem outra visão maravilhosa da cidade e do rio.

Encontrei um grupo de brasileiros lá que estavam fazendo intercâmbio em Dublin  Mas não me demorei muito com eles. Apenas troquei algumas palavras, pedi que tirassem umas fotos minhas e segui meu caminho pelo lindo lugar até a Igreja de Matias e o Bastião dos Pescadores.
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Igreja de Matias - Budapeste
Bastião dos Pescadores - Budapeste














Igreja de Matias - Budapeste
A igreja de Matias foi originalmente construída no século 13, mas passou por várias reformas até chegar, no século 20, à estrutura que tem hoje. O que mais me chamou a atenção na parte exterior dela foi a cor do telhado, pintado de forma a lembrar um tapete.

Não conseguia parar de admirá-la de todos os ângulos. As cores se tornaram ainda mais vibrantes e bonitas por causa da luz de ocaso. Ao lado da igreja há uma estátua do rei Santo Estevão I e ao redor dela o monumento chamado o Bastião dos Pescadores com suas sete torres representando os povos magiares.
 Este monumento foi, de todos, o meu favorito. O lugar chama à contemplação e é de uma beleza arquitetônica ímpar.

Pode-se sentar e de lá contemplar toda a parte Peste da capital húngara e ainda ter uma visão maravilhosa do Danúbio. Pode-se também sentar no jardim de frente à igreja e ao Bastião e contemplar a ambos enquanto se faz uma boquinha. Este se tornou o meu lugar favorito de Budapeste. A sensação de paz e a beleza arrebatadora do lugar te fazem ter chumbo nos pés na hora de partir.

Lembro de ter me sentado lá num dos bancos do Bastião a escutar a música vinda de dentro de um dos corredores do monumento. Era música de violino tocada por um músico de rua húngaro inundando a tarde e tornando o pôr-do-sol mais mágico e belo do que ele já era. Me lembro de um turista chinês ter me dito "Meu lugar favorito do mundo". Naquele momento, eu podia concordar com ele.
Ponte Szabadság vista da praça do Mercado Central
Grande Sinagoga, Mercado Central, Gruta de Santo Ivan e o típico Goulash
Prédio do Mercado Central
Dentro do Mercado Central - Budapeste
No dia seguinte, me custou muito levantar daquela cama quentinha e confortável para enfrentar o frio de 5º que fazia pela cidade. Mas era meu último dia na capital húngara e o sangue do desbravador falou mais alto do que o do Zé Preguiça. Fui direto ao Mercado Central conhecer
os produtos e comidas típicas da Hungria.

Os mercados centrais são sempre lugares que turistas em busca do sabor e dos souvenirs ou roupas e artigos típicos precisam de ir. O de Budapeste, então, é um lugar amplíssimo e muito bem organizado. As barracas de frutas e verduras e carnes ficam na parte inferior do prédio, e os  restaurantes, stands de roupas, bolsas e souvenirs ficam na parte superior. Entretanto, antes de chegar lá, fui caminhando pelas ruas e descobrindo novos lugares e novos sabores. Há lanchonetes baratíssimas onde se pode comer kebab ou sanduíches e café quentinho, barracas que vendem vários tipos de chocolates trufados, e praças para sentar e saborear o rango, no frio mesmo.

Grande Sinagoga de Budapeste
O bairro judaico, por exemplo, fica no caminho para o Museu Nacional Húngaro e o Mercado Central, e também é onde encontramos a Grande Sinagoga de Budapeste. Vale a pena pagar a entrada e visitar o prédio para conhecer mais a fundo sua história.

Lá, estavam pondo em pé um memorial ao povo judeu escrito em três línguas .
Mas se o dia estiver muito frio, como estava, faça como eu e corra para os sabores e aromas do mercado central.





Depois de caminhar muito pelo local, sentei-me num dos quiosques e fui forrar o estômago. Há vários stands com todo o tipo de comida, eu preferi o que servia uns cones recheados de carne e legumes muito saborosos. Devo ter comido uns três.

A comida é típica e se chama Kolbice, o que, segundo a explicação da atendente, significa "calabresa no sorvete", porque o cone onde a comida é posta lembra a casquinha de sorvete. Fora o sabor - há de vários tipos, como se pode ver na foto -, o preço também é muito em conta. Bem melhor do que comer num desses fast-foods estadunidenses.

Além disso, vale muito a pena conversar com as pessoas desses stands, elas são muito cortezas e felizes em ajudar na escolha. Me lembro que a moça que me atendeu me recomendou um outro kolbice em vez do que eu tinha escolhido, dizendo sinceramente que eu não me iludisse com as fotos, elas eram ilustrativas. O melhor mesmo era o outro, que tinha mais recheio e era bem mais saboroso. Depois de experimentar a ambos, vi que ela tinha razão.

Gellert Hill vista da Ponte Szabadság
Estátua da Liberdade - Budapeste
Ao sair do Mercado Central de Budapeste, virando à esquerda, vamos dar na ponte Szabadság, atravessando a qual chegamos ao lado Buda da cidade para ir à Citadela, à Gruta de Santo Ivan, etc. 

Essa ponte, para mim, é uma atração à parte. Fiquei no pier sobre o Danúbio apenas observando-a por vários minutos. O vento frio batendo no rosto, as luminárias embelezando as calçadas, o verde da ponte contrastando com o céu cinzento de chuva, tudo era tão romântico. Eu como sempre, após observar um monte de tempo, fui fazer minhas centenas de fotos.  

Uma das que mais gostei é a que pega a ponte, a colina da Gruta de Santo Ivan (Gellert Hill Cave), o Danúbio e a Estátua da Liberdade ao fundo.

Fiquei lá pensando sobre todas as histórias que tinha escutado sobre o povo húngaro e a Hungria. Aquele povo que, segundo Bruno Bethelheim em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, tinha dado origem aos "Ogros".

De Ogros eles não tinham nada, pelo contrário, todos os húngaros que encontrei foram supergentis comigo. Ao contrário do que vários dos meus amigos e blogues que li na Internet me haviam advertido, não vi um povo rude nem sem paciência.

As pessoas com quem conversei desde o Jack até os atendentes de lojas e supermercado, às pessoas na rua, todos me trataram muito cordialmente. Mas, de repente, foram os meus lindos olhos castanhos e minha pele morena que fizeram a mágica, né?! Vai saber.
Gruta de Santo Ivan
Atravessar a ponte de ferro é outra atração genial, pois quando os bondes passam, a ponte treme.

Dá pra ficar parado, encostado à balaustrada e sentir a vibração dos bondes e dos carros. Mesmo caminhando sentimos o tremelicar das estruturas, nada que assuste, no entanto.

Do outro lado da Ponte Szabadság,  está a colina que nos leva à Gruta de Santo Ivan e à Citadela. A visita é interessante e dentro da gruta, por uma pequena taxa, pode-se entrar com áudio-guia. A história é muito interessante.

Diz-se que Santo Ivan curava as pessoas com a água que brotava do que hoje é uma das termas de Budapeste e que fica muito próxima dali.
Belvárosi Plénábiatemplom 
De lá, fui andando até a outra parte da colina onde, num bosque, há a estátua em homenagem a São Geraldo (Gellert), que foi jogado colina abaixo pelos pagãos resistentes à cristianização do país.

O monumento é magnífico e pode ser visto até da outra banda do rio para onde eu fui comer um delicioso goulash húngaro num restaurante bem pitoresco chamado "The Imperator" - há uma limusine branca à porta do restaurante que é o marco do lugar.

Mas nem precisava tanta ostentação, a comida deliciosa, o preço acessível e o ambiente muito charmoso, já dariam pra tornar o lugar conhecido por todos. Quando cheguei para o almoço estava tocando Julio Iglesias e o garçom, pensando que eu era espanhol, disse serem aquelas músicas em homenagem a mim, pois a Espanha é um país admirável e eles estavam felizes em ter um cliente espanhol! (?).

Bom, fiquei lá curtindo Julio e comendo meu pãozinho até que o famoso goulash chegou. Descobri que esse
Goulash no The Imperator
nome estranho nada mais era do que um bom e quente cozido, o qual eu devorei com a fome de leão feita pela andada longa e fria daquele dia. Perto do The Imperator há uma praça muito bacana que lembrou uma das Praças Matrizes de alguma cidadezinha do interior do Brasil, e, na mesma região, a famosa Praça Vörösmarty se abre com seus cafés, stands de comidas e bebidas típicas e lojas de grife.

A caminhada vale a pena e o almoço também. À noite há apresentação ao vivo de música à voz e piano no restaurante e a Praça Vörösmarty e arredores fervilha de gente interessante.

O Danúbio não era azul
A gente passa a vida escutando O Danúbio Azul, de Strauss, e fica com a imagem do nome na cabeça. Porém, em Budapeste, assim como Chico Buarque, descobrimos que ele não é azul.

Pelo menos não nessa parte onde ele corre. Mas, de qualquer forma, continua bonito e inspirador. Especialmente se pegamos um desses passeios de balsa e rumamos até à Ilha Margarida (Margrit) ou simplesmente caminhamos pelo cais em um ou outro lado da capital húngara.

O que importa mesmo é que ele é o Danúbio e corre lindo e romântico pela cidade enquanto a gente ouve ressoar nos ouvidos a valsa do compositor alemão "tan tan tan tan tan... tan tan... tan tan" ou o verso do Red Hot Chilly Peppers "Sing along just like they do in Budapest" ao caminhar pelas ruas.
Parlamento visto do Castelo de Buda



Por isso, despedir-se dessa cidade charmosa, não foi tarefa fácil. Será preciso voltar lá algumas vezes mais, saborear mais um pouco os gostos, os aromas, as vistas, a vida fluindo e o vento frio dessa cidade encantadora, com sua gente de frases precisas e diretas, mas sempre cordiais (na minha experiência).

Tinha deixado para ir a uma das termas no meu último dia à noite, mas estava tão frio que preferi o calor dos bares ao calor das águas e fui com o Luiz a um dos muitos estabelecimentos próximos ao Friends Hostel a conhecer gente jovem e interessante enquanto tomava um, dois, três cafés e a galera me perguntava: "você vem pra um bar pra tomar café?" Fazer o quê, né? cada um com o que gosta. Alguns gostam de cerveja, eu gosto de café e assim a vida segue com as termas ficando para a próxima vez.

Igreja de Matias e Bastião dos Pescadores
Por volta da meia-noite voltei para o hostel, pois de manhã cedo estaria de partida para Dublin. Comprei meu bilhete na mão de um dos fiscais do metrô, peguei o vagão até a estação internacional de ônibus, e pude ver a vida despertando na cidade.

Vários trabalhadores e estudantes com cara de sono, dormindo nos bancos enquanto o barulhinho já comum pra eles de trem quebrando ao meio e seu tremelicar os ninavam.

Pôr-do-sol de dentro do Palácio real
Cheguei ao aeroporto com o sol despontando no horizonte por trás dos vidros da sala de embarque.

Me pus na fila da Ryanair a escutar aquele lindo sotaque de dezenas de dublinenses contando suas aventuras pela cidade, pelas termas, bares e casa de massagens e me lembrei de que estava indo para a minha "segunda casa" - como me disse o rapaz da loja de souvenir quando fui comprar meu imã de geladeira: Dublin é a segunda capital do Brasil, não é? Todo brasileiro que vem aqui  (e vem um monte deles) diz que está morando em Dublin".

O quanto de verdade há nisso! e agora eu iria lá, rever amigos, rever a cidade do Rio Escuro e conhecer coisas que não tinha conhecido quando morei lá. Agora eu ia fazer coisas de turista, não de estudante.

Olhei mais uma vez a minha passagem, confirmei o portão e me mandei em direção a ele. Dublin já me sorria de longe.

Vörösmarty Ter - Praça Vorosmarty

Atrações imperdíveis em Budapeste:
Hungarian State Opera;
Basílica de Santo Estevão;
Ponte das Correntes;
Memorial dos Sapatos;
Palácio Real;
Igreja de Matias,
Bastião dos Pescadores;
Budavari Labirintus;
Citadela;
Casa do terror;
Grande Sinagoga de Budapeste;
Mercado Central;
Gruta de Santo Ivan (Nagyasszonya Sziklatemplom);
Ilha Margarida (Margrit Island);
Belvárosi Plébáriatemplom (A igreja mais antiga de Budapeste) - nessa mesma região, na Rua Martius (pronúncia /március/) há ruínas de uma antiga adega e um museu;
Termas.

Veja nas rotas do Google maps como chegar a esses lugares partindo do seu alojamento. Lembre-se de que em Budapeste se pode fazer tudo andando.

Gostou? Então divulgue :)








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