domingo, março 12, 2017

Lituânia - o país das jóias de âmbar - parte final

Nosso roteiro pela Lituânia

Afastei as cortinas que escureciam o quarto e escondiam a vista da varanda: o sol nascia no céu claro, refletindo na neve que cobria as árvores, o chão, os bancos. Me encostei no vidro da porta e fiquei olhando a natureza tão diversa da minha São Salvador da Bahia onde apenas o sol, despontado por trás das árvores, era uma imagem familiar. 
Havíamos combinado de sair cedo - tínhamos ainda muito o que ver. Depois de uma ducha rápida e um café com omeletes, partimos pela imensidão de neve e gelo e pinheiros que nos cercavam. Naquele momento todo o mundo era uma imensidão branca e fria e deserta de gente. Só o nosso carro cortava a estrada regelada como as naus outrora deveriam cortar o mar azul. O termômetro do carro dizia que a temperatura exterior era -19ºC. Mas ali dentro as conversas, as risadas e o aquecedor deixavam tudo na temperatura ideal. 

Uns vinte minutos depois de termos deixado o hotel e caído no mundo, resolvi pegar o celular e fazer um vídeo para o Instagram. Mão indo ao bolso e eu, de repente, sentindo minha espinha gelar e minhas bochechas arderem. Meu Deus! o que é que eu tinha feito? Olhei pro Mindaugas com aquela cara de "pxiiii", ele me olhou preocupado querendo saber porque eu estava vermelho. Eu, a vergonha em pessoa, disse: "Acabei de descobrir que esqueci de entregar a chave do quarto". Acho que devo ter dado aquele sorriso amarelo de emoji do Whatsapp. Meu amigo me olhou com um "Oh, Márcio, eu não acredito nisso!". Pensei em várias soluções para o vacilo, mas ele resolveu voltar, meia hora na estrada, indo a caminho daquele hotel bonito e quente cujas chaves do quarto eu trazia de volta em minhas mãos trêmulas de embaraço.  Fiquei em silêncio enquanto o pessoal tentava me acalmar dizendo que não era muito problema, "quem sabe o universo nos livrou de alguma coisa ruim que nos aconteceria?!", e outras frases que de alguma sorte pudessem desenrubescer minhas bochechas. 
Saí do carro com a neve caindo ainda mais pesada sobre meus ombros, como se todo o gelo do mundo estivesse sobre meu corpo acabrunhado. Olhei pra recepcionista e me desculpei mil vezes por ter levado a chave comigo. Perguntei a ela como dizer "me perdoe mesmo" em lituano. Voltei pro carro. Abri a porta e antes de sentar disse: /ash labai atsipraxôu/ e dei outro sorriso emoji. Todos me olharam surpresos com meu curso intensivo de lituano desculpante e meu sotaque perfeito (a vergonha faz cada coisa, hein!). Pegamos a reta mais uma vez. Algum tempo depois vimos ambulâncias e um carro da polícia passando por nós. Havia acontecido um acidente na estrada - dois carros tinham colidido violentamente de frente numa parte do caminho uns poucos minutos adiante do ponto de onde havíamos feito o retorno para o hotel. Mindaugas me olhou e disse: "O universo...".  Continuamos na rota para Riga, a capital da vizinha e tão igualmente fria Letônia (sobre a qual falarei em outro post).  

Krizius Kalnas - A Colina das Cruzes
No meio da estrada, num caminho onde a vista se perde na imensidão do horizonte, paramos o carro. Tudo o que eu via era uma paisagem na qual a neve e a solidão quase reinariam soberbas não fosse pelo punhado de turistas que caminhavam agasalhados sobre a neve, carregando pequenas cruzes e rosários comprados na loja de frente ao estacionamento.
Começamos a caminhar na direção dos peregrinos até nos depararmos com uma pequena colina onde se via ao longe milhares de crucifixos soerguidos sobre a neve branca como uma lembrança do próprio Cristo sobre o Gólgota. Não se sabe ao certo quando começou o costume de se fincar ali as cruzes. Alguns dizem que foi a partir do Levante de 1831 como forma de homenagear os revolucionários mortos pelo exército russo, outros dizem que foi como forma de protesto e resistência contra a ocupação da URSS materialista um século mais tarde. Sendo como for, hoje o lugar permanece encravado ao norte da cidade de Siauliai e é um centro de peregrinação católica tendo sido, inclusive, abençoado pelo papa João Paulo II em visita ao local no ano de 1993 - por isso vemos várias homenagens a ele (encontrei até uma em Português). 
Achei o lugar muito interessante do ponto de vista cultural. No entanto, confesso que caminhar por aquele mar de cruzes, rosários, crucifixos e agradecimentos em línguas diversas no meio da neve alta e pesada me fez ter a sensação um tanto arrepiante de estar numa peregrinação na Idade Média ou em algum lugar da série Game of Thrones, com as pessoas caminhando em respeitoso silêncio por entre os caminhos estreitos e a neve derrapante. Isso não querendo dizer, porém, que eu não gostei de estar ali, gostei muito. A sensação é de realmente ter sido transportando para o tempo onde a fé e a esperança são imortais, resistindo incólumes contra as forças da natureza castigadora e gelada e dos tanques soviéticos, estes os quais por várias vezes destruíram o lugar que novamente foi reerguido pela população de coração inquebrantável daquele país, derrubada após derrubada. A colina das cruzes é um lugar sagrado para os lituanos, muitos dos quais acreditam que uma vez tendo feito a nossa visita tudo em nós se modificará. 

Anykiscius Regioninis Parka - Parque Regional de Anykisius
O dia estava indo cada vez mais frio. O Mindaugas de vez em quando chamava minha atenção para o termômetro do carro. Quando a temperatura exterior alcançou os -22ºC. ele me perguntou a que temperatura estava Salvador-Bahia quando eu saí do Brasil. Depois de saber que naquela noite nós tivemos 32ºC. às 23h ele me olhou com uma cara pensativa e disse: "O corpo humano é mesmo capaz de coisas incríveis! Você deixa o Brasil a +32ºC., enfrenta -22ºC. na Lituânia e continua aí firme e forte". Eu quase ouvi ressoarem em meus ouvidos as notas de "We are the champions" do Queen. Especialmente por entender profundamente aquilo que ele estava dizendo ao observar pelos vidros do carro que a neve se adensava. 
Quando chegamos ao Parque Regional de Anykisius, a temperatura matinha-se nos -22ºC., mas não nevava. Saímos do carro, mãos no bolso, correndo para o centro de atendimento ao turista onde estaria um pouco mais quente. A Ieva sempre me recomendando pôr o gorro e as luvas porque o frio intenso poderia me deixar doente, enquanto eu teimava em querer sentir o frio fazendo minhas orelhas arderem. Compramos o ingresso e partimos como dardos pelo parque. Nossa rota era a  Pedra Puntukas (Puntuko akmuo) e a Trilha Sobre As Árvores.
Meu amigo me disse que aquela era a segunda maior pedra da Lituânia, um país quase plano e de poucas pequenas colinas. Todos os anos, especialmente no verão, as pessoas se dirigem àquele lugar por lazer ou estudo da história local e para ver aquela pedra que ali fora posta, segundo a lenda, por um demônio que tentava arremessá-la contra a igreja de Anykiscius (a segunda mais alta do país), mas o bicho-ruim se assustou com o canto de um galo e a derrubou ali, onde ela permanece até então. A pedra está próxima ao rio que corta o parque e provavelmente foi trazida pela correnteza há milhares de anos, durante o último período glacial, e se tornou um marco no país. Na década de 1940, um escultor local gravou nela o rosto de dois pilotos de avião lituanos, Stepona Darius e Stasys Girenas, pelo aniversário de dez anos de sua morte durante o voo transatlântico no Lituanica. Essa história me foi contada enquanto apressávamos os passos contra o vento frio que fazia os nossos ossos terem a sensação de que quase estavam sendo quebrados. Poses para a foto. Pé na tábua em direção à pequena colina que nos leva a um caminho de madeira e aço sobre a copa das árvores, no meio do parque. No final do caminho há uma torre que se projeta a 34 metros de altura e de onde se pode ter uma das vistas mais bonitas da Lituânia. Ali, naquela altura imensa, o vento castigava. E eu pensava em como a Ieva tinha razão ao me mandar trazer o gorro. Pausa para a foto com dedos quase congelados, pegamos a escada da torre e partimos correndo para o carro, para o calor do aquecedor do carro, para as risadas  da loucura de sair naquele frio pra o alto das árvores e de uma torre de 34 metros! Aventura inesquecível! 

Cosmos
Não poderíamos sair de Anykiscius sem visitar outra atração que é uma queridinha entre os locais, especialmente entre as crianças. O lugar fica em uma casa muito grande de uns dois ou três andares onde funciona uma loja de souvenirs e o Cosmos. 
Essa atração é bem interessante. Você entra numa sala pequena e escura onde de repente luzes se acendem. Porque a sala é cheia de espelhos as luzes se tornam milhares de pontos brilhantes e sua imagem se projeta no que parecem ser miríades de dimensões sobre as quais você está em posições diferentes - eu particularmente me senti na sala do Professor Xavier procurando X-men pelo mundo. A diversão dura cerca de 4 minutos, mas vale a pena ver, acredito que os adolescentes e as crianças se divertirão muito - a Agota e o Mr. King pareceram curtir demais o local. Além do show de luzes, há também uma música tocando o tempo todo simulando o que se ouviria no espaço caso o som se propagasse por lá. Parece que o que ouvimos são ruídos captados por sondas e decodificados em som. 


A hora de dizer "até breve"
Chegamos a Vilnius por volta das 15 horas com um dia extremamente bonito. Meus amigos queriam que eu experimentasse dois pratos típicos lituanos, por isso partimos direto para um restaurante bem aconchegante no centro da cidade. O lugar não podia ser mais bonito e a comida mais saborosa, especialmente porque regada a muita conversa e risadas - nada melhor do que comer em boa companhia!
No entanto, não nos demoramos muito ali porque meus anfitriões queriam que visse mais da cidade. Após a refeição partimos para a chamada TV Tower de Vilnius de onde se tem uma vista privilegiada da cidade a partir de um restaurante giratório no topo da torre. Quando chegamos, o sol estava quase a se pôr e o céu tomava uma cor avermelhada que se refletia sobre as casas, prédios, parques e na neve branquinha depositada sobre as ruas. Ali sentados, torta de chocolate e chá preto com leite, em meio a conversas e aos meninos nos mostrando as fotos que faziam do lugar, parecia difícil acreditar que dali a algumas horas estaria deixando aquela família adorável e seu país maravilhoso. 

Tive na Lituânia alguns dos melhores dias das minhas férias, não apenas pelos lugares maravilhosos que visitei e pelas novas sensações que experimentei, mas especialmente pelo carinho daquela família tão linda e tão calorosa que me recebeu de forma imensamente acolhedora e me proporcionou momentos muito além de tudo o que eu tinha imaginado. 

Antes de nos despedirmos, Mindaugas ainda quis que fizéssemos um tour da cidade e fôssemos ao mercado para comprar um doce tipicamente lituano. Aproveitei a oportunidade, e comprei flores para agradecer aos meus amigos por todo aquele carinho. Vi um bouquê lindo de flores amarelas exuberantes que me chamou bastante a atenção. Comprei-o. Tentei esconder as flores o máximo que pude sob meus casacos. Na hora da partida, entreguei a Ieva o bouquê e agradeci a todos por aqueles dias maravilhosos. Meus amigos agradeceram e me revelaram que na Lituânia flores amarelas são dadas às pessoas de quem não gostamos. Eu corei! Mais um vacilo no pais das jóias de âmbar! Flores amarelas! ai meu Pai do Céu! Todos riram do meu embaraço e me disseram pra relaxar, porque o que valia mesmo era a intenção. 

Talvez seja assim. Mas não só a intenção vale, como também valem as atitudes e todo o apreço, amizade e consideração que de fato demonstramos para com os outros, e aqueles meus amigos ali com certeza são pessoas que sabem profundamente o que isso significa, pessoas que têm a maior alegria em compartilhar todo o seu mundo e esperam apenas que "você tenha se sentido feliz". Fico só esperando o dia em que terei a alegria de recebê-los na Bahia e lhes mostrar as cores todas de que eles me falaram quando eu cheguei "na fria e cinza Lituânia". Nos abraçamos forte e aquela canção não parava de ressoar em minha mente: "Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração, assim falava a canção que na América ouvi (...) qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar". 


 Gostou? Então, que tal comentar e compartilhar? 😉 

Outros posts sobre a Lituânia:
http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2017/02/lituania-o-pais-das-joias-de-ambar.html

quarta-feira, março 01, 2017

Lituânia - o país das jóias de âmbar - parte 2












À medida em que nos afastávamos do mar e adentrávamos o continente, a sensação que eu tinha era como a descrita pelo personagem Robert Walton no famoso livro de Mary Shelley: "Eu sinto uma fria brisa nortenha brincar sobre minhas bochechas, a qual abraça meus nervos e me enche de prazer. Esta brisa, que vem das regiões às quais estou avançando, me dá um sabor antecipado dos climas gélidos." E, como Walton, eu também sentia que aquele gelo todo, aquela neve que se empilhava pelo acostamento e sobre as casas, caindo sobre o para-brisa do carro, embranquecendo todo o caminho, ao contrário de ser "uma imagem desoladora", era a coisa mais linda do mundo, que "se apresentava à minha imaginação como a região da beleza e do deleite"! De dentro do carro, ver toda aquela neve branquinha cobrindo o mundo, trazia de volta à mente as imaginações da infância vivida numa cidade de clima tropical como é Salvador-Bahia, e o sonho de saber como era ter as estações bem definidas. Fiquei viajando na paisagem enquanto meu amigo me dizia que nos tempos da faculdade gostava de ir à região onde estávamos naquele momento para refletir e descansar às margens do Lago Plateliai. Mas antes de chegarmos a esse lugar idílico íamos conhecer uma parte não tão bonita assim da história da Lituânia. 

Saltojo Karo Muzieju - Museu da Guerra Fria

O Museu fica no Parque Nacional de Zemaitija (Zamatijos Nacionalinis Parkas), a cerca de uma hora de Klaipeda, onde estávamos. Foi construído numa área estratégica para a URSS na década de 1960, utilizando mão de obra de soldados da Letônia, em sua maioria. O Complexo tem 4 silos, um dos quais se pode visitar, e onde eram armazenados quatro mísseis tipo R-12U (ou SS-4), os quais ficavam a 27 metros de profundidade dentro do complexo subterrâneo. 


Os mísseis estavam apontados para regiões diferentes da Europa (desde a Noruega, no norte, até a Inglaterra, no oeste, Espanha e Turquia, no sul) e podiam fazer um estrago enorme no continente caso tivessem de ser ativados. A cada quatro anos os alvos eram modificados, para cobrir assim toda a Europa. 
Tão logo adentramos o complexo subterrâneo, nos deparamos com uma sala onde soldados-bonecos estão sentados exercendo as funções que ali se realizavam nos tempos da Guerra Fria e vemos os objetos que nos fazem ter uma ideia precisa de como era viver por meses naquele lugar sinistro. A impressionante estrutura de paredes grossíssimas, vigas e porta de ferro maciço parecem querer esconder dentro de si todos os segredos de uma época sombria da humanidade e sobre qual a maioria das pessoas que a viveram não tinham uma noção real. 

Lugar onde ficava o míssil

Percorrer aqueles labirintos e pensar nas centenas de soldados que viveram ali sob tensão permanente, com a terrível tarefa de destruir nações inteiras, ver as ogivas, as armas, as imagens em vídeo e sons que ali permeiam o ambiente, é entrar numa era de nossa história que parecia coisa apenas dos filmes de Hollywood e dos livros didáticos. 
O lugar me encheu de assombro pela destruição em massa que ele representava e para que tinha sido criado, e também de admiração por ver a que ponto a ciência, por mais destrutiva que seja, pode chegar. Mas o interesse não era só meu. Os filhos do meu amigo percorriam um lado e outro naquelas salas e corredores cobertos com propagandas comunistas e capitalistas, cheios de telas de TV onde se veem e se ouvem a história contada por seus atores. Os meninos paravam apenas para ouvir as explicações dos seus pais - que viveram a infância no período antes da cisão da URSS - sobre aquele lugar sinistro. O museu dispõe de visitas guiadas e de áudio-guia (mas quem precisa de outros quando se tem amigos conhecedores da história de seu país?!).
No final do passeio, há uma sala onde nós podemos apertar um botão e ver numa grande tela em nossa frente o que aconteceria se, até 1978 quando o complexo foi desativado, alguém tivesse tido a infeliz missão de mostrar o poderio bélico soviético a partir dali.
Apesar de ter valido muito a pena visitar o museu, a sensação de respirar o ar fresco e livre, de ver o sol se pôr por detrás dos pinheiros e caminhar pela neve levemente acinzentada pelo tempo e pensar que (provavelmente) aquele período tenebroso da humanidade tinha sido superado, era o pensamento mais cheio de paz que eu experimentara nas últimas duas horas.
Olhei ao redor, vi o teto dos silos que me lembravam pires ou discos-voadores e desejei que toda aquela terrível ideia de destruição tivesse ficado mesmo para trás apesar de Putin.
Para mais informações sobre museus da Lituânia, visite aqui: http://www.muziejai.lt/Index.en.asp

Lago Plateliai
By @savic_a
A noite já caia quando chegamos ao hotel à beira do lago Plateliai. Não estava mais nevando, mas a temperatura estava na casa dos -11ºC. Sentir aquele vento frio enquanto o horizonte se enegrecia aos poucos e a lua surgia bonita e pálida no céu foi uma sensação diferente, que entrava rascante e fria pelas narinas e saía aquecida parecendo transformar o corpo inteiro numa coisa ainda indefinível para mim. 
Deixamos as malas nos quartos daquele hotel de estilo clássico rústico, com móveis de madeira e almofadas acolchoadas e fomos caminhar até o lago. Passamos por uma floresta de pinheiros cobertos pela neve que se acumulara em seus galhos e pela aleia onde nossas pernas afundavam até a canela e nós apenas ouvíamos os sapatos fazendo kruch kruch contra o gelo do chão. Não havia insetos trilando ao redor, o silêncio era absoluto, quase mortal, a não ser por nossos passos e por nossas vozes cortando o ar. A Ieva me falando que o Mindaugas era louco porque gostava de caminhar nos lagos congelados, coisa que a apavorava (só fui entender exatamente o medo dela quando cheguei à Finlândia), enquanto eu e os meninos ríamos. 
Lago Plateliai ao cair da noite
Caminhamos até o fim de uma ponte, que balançava com nosso peso sobre a água ainda por congelar. Mindaugas pediu que eu olhasse bem onde estávamos, porque talvez àquela noite mesmo iríamos pular no lago depois da sauna! Sim, pular no lago depois da sauna!!!!! Eu não sei se o frio que cortou minha espinha vinha do vento persistente ou se foi o pânico que me dominou naquele momento - estava prestes a protagonizar mais uma versão do filme trash de mesmo nome (Pânico no Lago) - agora em 4D. 
Mas, ah!, quem está na chuva é para se molhar e uma vez na Lituânia, aja como os lituanos, já diz o ditado! Era esperar a sauna chegar. 

Aš norėčiau kavos, ačiū - Eu quero um café, obrigado
Kvas - imagem da internet
A ida ao lago pelo caminho gelado tinha dado a todos a mesma ideia: voltar correndo para o hotel e tomar qualquer coisa quente que fizesse com que sentíssemos nossos corpos vivos de novo. Sentamos à mesa e tudo o que eu pensava era na nova frase que Mr. King me ensinara um pouco antes: /ash norêtchiu kávôs, átchiu/. Estava doido por pôr as mãos ao redor de uma xícara quente de café fumegante e voltar a sentir meus dedos. Mas em vez disso, meus anfitriões pediram uma bebida típica para mim antes da janta. Fizeram o maior suspense até a chegada do copo comprido com um liquido marrom que me lembrava uma batida de jenipapo. 
Peguei o copo. O cheiro era bom. Provei a bebida sob os olhares atentos da minha família lituana.
Et voilà! sabor levemente alcoólico e doce, ao mesmo tempo semelhante e diferente de qualquer coisa que eu já havia provado. Se chamava kvas, uma bebida feita de água e pão fermentado! típica da Lituânia e de outros países próximos. Junto com o kvas, também vieram umas fritas, que não eram batatas, mas pão frito em tiras. Começava ali minha deliciosa visita à culinária lituana. Entre as delícias que experimentei, ressalto duas que são imperdíveis: a sopa fria de beterraba com seu sabor agridoce e o capelinai, feito de batata recheada de uma forma peculiar dessa região europeia.
Percebi junto àquela família que apesar de tão distantes em termos culturais e geográficos, não éramos assim tão diferentes. Vendo-nos à mesa com todos ali juntos a conversar e rir entre garfadas e goles, pensei em minha própria família na Bahia, onde fazíamos a mesma coisa quando estávamos juntos repartindo o pão - ou a batata. 

A sauna lituana
A sauna na cultura lituana é um lugar para confraternizar com a família e os amigos. No frio rigoroso que assola o país durante o inverno, a melhor pedida é mesmo reunir todo mundo num lugar quente onde se possa respirar o vapor escaldante vindo das pedras aquecidas enquanto se conversa, se brinca e se bebe e come alguma coisa. 
Nós alternamos entre conversas nas salas quentes e mergulhos na piscina aquecida. Meus amigos me recomendaram entrar de novo na sauna toda vez que eu começasse a perder calor na água - assim a saúde ficaria em dia - e me disseram que respeitasse os sinais corporais. Se o corpo começasse a suar muito, era hora de deixar a sauna; e quando começasse a sentir frio na piscina, era hora de voltar ao calor. 
Como vocês já sabem, o plano inicial era ficar na sauna (por uns trinta minutos) e de lá correr para o lago onde mergulharíamos e voltaríamos correndo para o calor. Mas o Mindaugas achou melhor deixar a corrida no gelo para uma outra ocasião, pois a temperatura, que já estava baixa, baixou bem mais àquela noite chegando aos -17ºC e o vento começou a soprar muito forte. Segundo ele, a ida até o lago seria possível, mas a volta seria complicada especialmente para mim que não estava acostumado ao clima. 
No entanto, eu tinha ficado muito curioso para saber como era a sensação de ter um choque térmico tão brutal. Afinal, em Salvador-Bahia eu jamais iria sair do calor para uma temperatura menor que 25 graus C na rua ou 18ºC no ar-condicionado, a não ser que começasse a trabalhar em frigorífico. 
A solução que encontramos para a a minha curiosidade foi sairmos para o estacionamento do hotel, onde a neve caia livre e o vento soprava alegre, e jogar uma bola de neve no peito. Começamos todos a rir com a ideia que parecia loucura aos olhos de Ieva e algo inusitado para a Agota e o Mr. King. 
Bom, lá fomos nós. O resultado vocês conferem aqui embaixo:
Aquele dia que começou com um encontro na rodoviária terminava com uma das coisas mais loucas que já fiz até aqui. Mas é como dizem: a vida só é vivida uma vez. Portanto, se jogue sem medo de ser feliz. 

Gostou? Então comente e compartilhe 😉

segunda-feira, fevereiro 20, 2017

Lituânia - o país das jóias de âmbar - parte I


Eu li num texto de David Whitehouse para a revista ShortList que “o lugar aonde você vai de férias diz muito sobre quem você é”. Fiquei pensando em quem eu seria quando meu ônibus (https://ecolines.net/international/en 16 euros) chegou à estação rodoviária de Vilnius por volta das 7 h. numa manhã fria e coberta de gelo - um aventureiro (para alguns amigos, sim), um desbravador (não em Vilnius), um louco (para os meus amigos lituanos, sim), um curioso viajante (talvez), ou talvez nada disso/tudo isso junto. No entanto, a razão principal pela qual eu tinha ido àquele país, que de outra forma teria ficado apenas nas minhas aulas de geografia e história pós-Perestróica, foi o Mindaugas e a sua família, os quais eu encontraria pela primeira vez após muitos anos.  

Os momentos que antecederam o encontro, desde minha saída da estação Warsawa Zachodnia, na capital da Polônia, até ali foram de muita expectativa e ansiedade. Já dentro do ônibus, vendo a estrada coberta de neve, a silhueta de pinheiros escurecidos pela noite, algumas casinhas espalhadas aqui e ali com suas luzes vacilantes, fiquei pensando no que dizer: “Olá, pessoal, eu sou o Márcio”, “Olá, pessoal!”, “Olá!”, “Márcio”, “... (sorriso amarelo)...”. Cheguei à conclusão de que deveria deixar as palavras surgirem naturalmente. Fitei meus olhos no escuro do mundo e adormeci.

Percorremos 9 horas de asfalto liso e neve durante a noite, o cenário invernal e escuro, quieto e “com tudo morto” como diria meu amigo, me havia feito dormir como pedra num ônibus cuja única voz a ser ouvida era a da comissária de bordo quando paramos em alguma das 3 ou 4 estações pelo caminho até a Autobusu Stotis, em Vilnius.

Desci do veículo ainda sonolento, o sol ainda não havia despontado e a neve caía fina em meu sobretudo, caminhei em direção ao bagageiro de onde o motorista arrancava as malas e despachava os viajantes um a um, da forma mais ordeira que já vira. Peguei a minha, respirei fundo aquele ar gelado que entrava em meu nariz, inundava meus pulmões enquanto eu puxava minha bagagem neve acima em direção à saída da estação. Nesse meio tempo, vi vindo em minha direção aquele rapaz alto, olhos claros, usando um gorro cinza e confirmando a suspeita com a pergunta: “Márcio?!”. Sorri e fui na direção dele. Afinal, não tinha sido minha a primeira palavra.

O Mindaugas e eu havíamos nos conhecido há alguns anos pela internet e desde então eu fazia planos de ir visitar a ele e sua família em Vilnius. Este ano, tudo deu certo e naquela manhã lá estávamos nós, no frio lituano a apertar nossas mãos e finalmente ver-nos em pessoa. Por todas as vezes que conversamos ao longo dos anos, a minha impressão sempre foi de que ele era um cara centrado, muito gentil, que sempre tem as palavras exatas e cujos conselhos são daqueles que, quando ouvimos, vamos no caminho certo. Impressões que foram confirmadas nos poucos, mas duradouros, dias de convivência que tivemos cruzando o país num frio que variava de entre -8 a -19 graus C.

Centro Antigo de Kaunas

Percorrendo a Lituânia
Não havia feito planos para explorar a cidade de Vilnius. O único que tinha era conhecer o meu amigo ao vivo e a cores, tomar um café com ele e sua família em algum restaurante quentinho e, se calhasse, ver algum monumento o qual eu pudesse fotografar para o meu blog, afinal, era plena segunda-feira no mês de janeiro e quem estava de férias era eu, não queria tomar muito o tempo deles. Mas, para minha surpresa, o que eles tinham em mente era algo bem diferente!

Assim que entramos no carro para fugir do frio intenso que fazia, me contou que iríamos ficar apenas algumas horas em Vilnius e que de lá partiríamos para lugares que eles haviam pensado que eu pudesse gostar e nos quais pudesse buscar inspiração para meus novos livros.

Aliás, eles estavam muito surpresos e preocupados com a minha ida à “fria e cinza” Lituânia de inverno, uma vez que eu vinha de um “país exuberante e cheio de cores e luz e calor do sol”.

E, apesar de eu dizer que não se preocupassem com isso, porque ali tudo era lindo e novo e surpreendente para mim, eles não conseguiam acreditar que eu fosse gostar de estar naquele lugar congelante.

Após rodarmos um pouco pelo Centro Histórico da cidade, Mindaugas me olhou, perguntou se eu estava preparado, ligou o carro e partimos a caminho de Kaunas, a 105 km de lá aonde chegamos com o sol ainda tímido e frio no horizonte.

Kaunas me pareceu um lugar bonito e bem tranquilo. Dividido em duas margens pelo Rio Neman, tendo o Centro Histórico com uma arquitetura renascentista e barroca de admirar, destacando-se aí o edifício da prefeitura (iniciado no século 16), nos convidando à contemplação e à caminhada. No entanto, no frio que fazia, preferimos nos ater à contemplação rápida, indo a uma das colinas de onde podíamos ver quase toda a cidade. Àquela altura, a antiga capital temporária da Lituânia e sua segunda maior cidade atualmente parecia um quadro desses que a gente vê à parede da sala de estar de nossas avós.


Museu do Âmbar de Palanga - Klaipeda
Parque à entrada do Museu do Âmbar
Após mais algum tempinho por Kaunas à procura de um lugar para comer, partimos rumo ao oeste onde eu pude constatar que as estradas da Lituânia são extremamente bem conservadas e sinalizadas, fazendo imenso gosto percorrê-las – íamos na direção do Mar Báltico, para o balneário de Palanga.

O balneário fica situado na antiga Rota do Âmbar, a qual existe desde tempos pré-históricos e que por milhares de anos foi o centro de escoamento e comércio do chamado “Ouro do Norte”.

Nossa primeira parada foi o Museu de Âmbar, lugar onde se encontra um riquíssimo acervo que vai desde material pré-histórico com fósseis envolvidos na resina dourada a artefatos encontrados em escavações e que eram usados pelas populações locais através dos milhares de anos até joias originais e exclusivas feitas por artesãos regionais.

O museu se encontra num palácio construído em 1897 o qual era a residência oficial do conde Feliksas Tiskevicius, e é rodeado por um imenso e lindo parque que no inverno está todo coberto de neve, embora os patinhos continuem a nadar nas lagoas espalhadas pela área.

Percorremos todo o museu, visitando todas as exposições – o museu também é palco para shows em determinadas épocas do ano. Fiquei impressionado com a riqueza do acervo e com o cuidado na produção de cada peça de joia e de arte feitas com aquele material. Para mim, que pensava que o âmbar era apenas uma resina que envolvia o mosquito pré-histórico do filme Jurassic Park, ver todas aquelas pequenas obras de arte e joias feitas a partir desse material foi fascinante.

Surpreendente também foi ver os filhos adolescentes do meu amigo extremamente interessados em conhecer a história do lugar e os objetos que víamos. Fiquei muito impressionado com os dois. Além de serem extremamente gentis e terem uma comunicação bem articulada, inclusive em língua estrangeira (inglês era a nossa língua comum), se mostraram muito atentos e desejosos de aprendizado, fazendo valer o ditado que diz que “quem sai aos seus não degenera” – vi ali o reflexo do Mindaugas e da Ieva na educação de seus filhos.
Fósseis em âmbar - fonte: internet

Colares de âmbar - fonte: internet


Ao sairmos do museu, a Ieva me perguntou se conseguia ouvir o som. Paramos. Comecei a escutar algo como se fosse um vento, um gerador, um ar-condicionado muito forte. Não identifiquei a origem nem o que seria. Ela logo me explicou que o som era de ondas, pois estávamos muito próximos ao mar. Para mim, aquela revelação foi nocauteante, pois diante de nós o chão estava coberto de gelo e neve – eu ouvia o prunk prunk da neve debaixo das nossas botas – e o mar estaria logo ali, após uma pequena colina com areia bege e ondas quebrando contra a praia! Quase fui correndo para ver aquilo com meus próprios olhos.
Klaipeda
Em um só lugar eu conseguia ver gelo e neve, mar e areia fina soprada pelo vento. Ver aquela praia, sentir o cheiro do mar, o vento gelado do Báltico soprando em meu rosto enquanto caminhávamos em direção ao píer e o sol lentamente baixava no horizonte, ali com aquela família maravilhosa que tinha planejado junta para mim uma viagem que eu mesmo nem pensara em ter, ouvir suas histórias, e assim conhecê-los melhor e deixá-los conhecer a mim também, me trouxe uma sensação de gratidão, um sentimento de alegria e paz como em poucas vezes nos ocorre. Paramos à beira do píer. Olhei para os meus amigos e disse a palavra que o “Mr. King” (como passei a chamar o filho do Mindaugas) havia me ensinado recentemente: /Átchiu/ significando “obrigado”, e os ouvi dizer: "se você está feliz, então estamos felizes".

Deixamos o píer e fomos andando em direção ao carro. No caminho, todos famintos, paramos para comprar um salmão defumado delicioso que era vendido bem ali, naquela praia, que é famosa nos meses de verão, enquanto eu aprendia palavras novas daquele idioma sonoro e meus amigos me perguntavam se estava pronto para nossa próxima experiência lituana.


Para mais sobre o Museu do âmbar: http://www.pgm.lt/Gintaro_muziejus/titulinis_en.htm

Gostaram? Então compartilhem! 😉

quarta-feira, janeiro 25, 2017

Varsóvia, Polônia - linda, imensa e fria / Varsavia, Polonia - bella, enorme e fredda

(Scorri la pagina per leggere la versione in italiano)
Foi assim: Chegamos. À porta de entrada no aeroporto, a partir do pátio de aterrizagem, se postaram vários policiais fardados e segurando cães farejadores. Alguns pouquíssimos de nós, eu entre os happy few, fomos requisitados a parar, responder algumas perguntas e ter os passaportes levados para uma saleta para conferência.

A oficial, séria e gentilmente, me perguntou de onde eu vinha, eu gaguejei, me esqueci o nome da cidade. Ela riu e perguntou: você não sabe de onde veio? Eu respondi: sei, mas fiquei nervoso e os nomes se confundem em minha mente. Aqui está meu passaporte com a passagem. Ela pegou o passaporte, seguiu para a saleta já mencionada. Alguns minutos depois, voltou, me entregou o passaporte e disse: vá por onde eles estão indo.

Segui os desafortunados a uma sala onde terriers famintos por drogas começaram a cheirar minha bagagem e partiram para minha direção. Após os poucos minutos que passavam em câmera lenta, o oficial me olhou fundo e disse: Go! Eu parti a mil, coração acelerado. Puts! Parado pela polícia no aeroporto de Varsóvia!

Fiquei me perguntando, no caminho até à saída, o que tinha acontecido. Várias respostas vieram à minha mente: 1: eles pensaram que eu era um imigrante do oriente médio; 2: pensaram que eu era um mula latino-americano trazendo drogas em meu estômago; 3: pensaram que eu estava levando drogas da Holanda para dentro da Polônia agora sob o governo antieuropeísta, nacionalista e conservador do presidente Andrzej Duda; 4: nenhuma das alternativas, era apenas revista de praxe; 5: eu estava no voo errado pro lugar errado - não cheguei a uma conclusão, mas pelo menos, ganhei uma história para introduzir este post.

Centro de Varsóvia - Palac Kultury i Nauki
Passado o susto e o risco (?) de ser mandado de volta, saí do aeroporto e fui direto no busão para o centro da cidade. E que cidade! Varsóvia me pareceu enorme, com ruas largas e prédios imponentes. O principal deles, o Palácio da Cultura e Ciência, que me pareceu poder ser visto de todos os pontos da cidade (pelo menos eu o usei como guia todas as vezes que saí do hostel em busca do desconhecido), rasgava o céu azul e parecia um colosso posto sobre a praça para onde todos os olhos se dirigiam, mesmo os olhos poloneses que têm com ele uma relação de amor e ódio por ter sido um presente de Stalin à Polônia.

Conhecendo pessoas e lugares

Após minha experiência no aeroporto e as lembranças que me vieram à mente dos dias em Bucareste – outra capital do leste europeu que havia saído das garras da antiga URSS -, não procurei conversa com ninguém pelas ruas.

Minha estratégia para conhecer pessoas da Polônia foi postar uma mensagem num fórum do couchsurfing anunciando minha chegada e convidando a galera para uma conversa, um café ou um passeio pela cidade. Para minha grande surpresa, mais de dez couchsurfers poloneses responderam a minha postagem, e desses, duas maravilhosas figuras tiveram o horário e o dia coincidentes com os meus.


Obviamente conhecer uma cidade ou lugares na cidade com moradores é uma experiência diferente daquela de apenas pegar um mapa e ir andando, ou se juntar a um grupo de Free Walking Tour. Quando a Wiola me enviou uma mensagem e me convidou a explorar um antigo bairro chamado Praga, me dizendo que era onde foi gravado o Pianista, eu me arrumei e fui correndo encontrá-la. A Wiola morou no Brasil alguns meses e entre seus destinos esteve Salvador, onde ela trabalhava num hostel no Pelourinho. Então, nos demos bem desde o primeiro “Czéṥc” (Olá).


Ela estava me esperando num café nas proximidades da Catedral de Santa Madalena (uma igreja Gótica lindíssima e cartão postal da cidade) à qual eu cheguei depois de andar por volta de 40 minutos vendo os monumentos ao longo do caminho e a superbonita arquitetura local – os prédios e pontes são belíssimos, e o Centro Nicolau Copérnico está bem perto do distrito aonde eu ia, bem como o estádio de futebol e outras atrações as quais listarei no final do post.

Bom, saímos caminhando pelo distrito Praga, à procura de um restaurante onde pudéssemos nos aquecer do frio e encher a barriguinha. Nessa região há vários restaurantes e bares para todos os bolsos, por isso não foi difícil encontrarmos boas opções.



Fomos a um restaurante bem elegante onde pudemos conversar bastante ao som de música ambiente e ao sabor de um café delicioso.  Depois de algum tempo, resolvemos ir bater perna e a Wiola me mostrou a parte do bairro onde aconteceram as gravações do filme O Pianista e os prédios antigos, envelhecidos, que ainda faziam parte do patrimônio arquitetônico do período pré-guerra-e-ocupação-soviética. 

Os edifícios decadentes, um grupo de meninos jogando bombas nas ruas sem se importar se os fogos iriam atingir alguém, uma crescente sensação de insegurança e o sentimento de que já tínhamos visto tudo, fez com que minha anfitriã me convidasse a dar meia-volta e partir rumo à cidade antiga. 



Stare Miasto – A Cidade Antiga
Esse tempo de caminhada foi maravilhoso não apenas por me ajudar a conhecer minha anfitriã um pouco mais, mas também porque podemos conversar sobre muitas e variadas coisas, especialmente sobre política contemporânea polaca e o sentimento xenofóbico invadindo a Europa depois da abertura à imigração muçulmana recente.

No entanto, a Stare Miasto (Cidade Antiga) fez com que nos calássemos para apenas admirá-la. A cidade original foi criada no século XIV d.C, mas hoje em dia restam apenas 5% a 10% das construções originais que foram destruídas várias vezes devido às invasões e guerras, tendo a última destruição ocorrido durante a II Guerra Mundial.


Mas quem se importa com a originalidade dos antigos prédios uma vez que eles foram reconstruídos de forma a trazer de volta a antiga estrutura outrora existente?! Eu pelo menos não e importei, fiquei maravilhado. Não explorei muito o local, apenas ficamos na parte de entrada da cidade antiga, pois a noite começou a cair, o frio a recrudescer.

Entretanto, tive a felicidade de ter em meu quarto um grupo de espanhóis supersimpáticos e gente
boníssima que me convidou a passear com eles por lá no dia seguinte. Não deu outra! De manhã cedo, por volta das dez (o sol nasce depois das 8:30 no inverno), lá estávamos nós nos encontrando debaixo de neve - muita neve! – que caía do céu como chuva torrencial para a emoção minha e deles (que vinham do quente sul da Espanha).

By Marcos Navarro
Andamos a percorrer toda a Stare Miasto, sentindo o vento frio e a neve gelada caindo sobre nossos rostos, fazendo “poc, poc” em nossos olhos arregalados, regelando nossas mãos fotográficas, enquanto ouvíamos o guia do Free Walking Tour contar a história sobre o rei Sigismundo II, a casa mais estreita do mundo, o sino do desejo, o coração de Chopin na igreja da Santa Cruz; e escutávamos a música de Chopin saída dos bancos - espalhados por algumas áreas da cidade - quando passamos a mão neles, tomávamos o vinho quente no Christmas Market instalado na praça principal etc.

Pois bem, um dia que começou preguiçoso e com muita neve sobre a cidade, culminou num passeio agradabilíssimo com pessoas que instantaneamente se tornaram queridas – um brinde às viagens, às amizades que fazemos pelo caminho, e às pessoas de coração aberto à vida! Viva!

Eu, Marcos, Isa, Alejandro, Vicente, Juan - maravillosos chicos!


Réveillon em Varsóvia – Palac Kultury i Nauki
Para ser sincero, eu tinha decidido ficar no hostel e escrever um post sobre Eindhoven enquanto os fogos de artifício e os gritos de “Feliz Ano Novo” estivessem correndo soltos pela rua. Não estava mesmo muito afim de sair no frio para celebrar com um monte de estranhos a chegada de 2017.

Mas a Astrid e o Ferruccio – uma dupla bem bacana que eu conheci no hostel no dia anterior – se recusaram a me deixar no quarto e me convenceram a ir rapidinho ver a queima de fogos que seria uma das mais bonitas da Europa e deixar o post pra depois. Me arrumei, e partimos caminhando os três à procura de um posto livre por entre a multidão que se aglomerava ao redor do Palácio.

Havia um show com músicos locais e o som que ouvíamos de música pop polaca enchia todo o quadrante da praça e além. Não conseguíamos ver sequer o asfalto, não só pela neve que caía, mas especialmente pelas milhares de pessoas que paravam a escutar as canções, e se punham a postos, como nós, para contar os últimos segundos do Ano Velho.
video

Quando enfim o relógio badalou a virada do ano, o que se viu foi um show de luz e cores que durou por minutos intermináveis. Os fogos de variadas formas e sons iluminavam o céu, os rostos, as ruas e prédios. O Palácio da Cultura e Ciência deixava de ser um velho socialista sisudo e se transformava numa Carmen Miranda polonesa – foi um dos Réveillons mais bacanas que já tive.

Nos abraçamos os três – um brasileiro, uma holandesa e um italiano –, nos desejamos um 2017 feliz e seguimos a multidão que ia embora pelas ruas como uma manada de volta ao aprisco enquanto a Astrid comentava que era muito estranho ver a debandada logo após os fogos uma vez que ainda rolava o show em frente ao Palácio. Talvez fosse devido ao frio, talvez todos tivessem tido a mesma ideia que nós, talvez houvesse outra festa para ir! Bom, nós voltamos para o calor dos quartos do Warsaw Hostel Centrum.



Ẑegnaj Warszawa! Adeus Varsóvia!

Os dias que passei na capital da Polônia foram muito bons, feitos mais especiais ainda pelas pessoas que conheci e com as quais tive o prazer de caminhar pela cidade, dividir refeições, ouvir e contar histórias e compartilhar experiências. Entre elas, a Iwona, uma polaca supersimpática, coptóloga, que ama a língua portuguesa e com quem tive o prazer de passar quase a tarde inteira conversando e aprendendo. 

No meu último dia por lá, fui convidado por ela para almoçar num restaurante maravilhoso chamado Café Kulturalna que fica dentro do Palac de Kultury i Nauki, pela entrada lateral do Marlszalkowska.


E não bastasse o almoço maravilhoso, também pude ouvir histórias incríveis de suas viagens pelo mundo e de como ela havia se apaixonado pela língua e aprendido o português. A Iwona é dessas pessoas que a gente olha pela primeira vez e sente que é gente de casa. Aliás, foi bem assim a sensação da minha visita a Varsóvia – estar em casa, não pelo lugar ou seus monumentos, mas pelas pessoas que conheci e os amigos que fiz por lá: um pessoal que quero levar comigo sempre pela vida. 

O que ver/fazer em Varsóvia
A Sereia de Varsóvia




























Palak Kulturi i Nauki (Há um mirante no topo do prédio; um café e um teatro no térreo)
Nowy Sviat
Muzeum Frederika Chopina
Igreja da Santa Cruz
Tumba do soldado desconhecido
Plac Zamkowy
O castelo Real
Ryneg Starego Miasta
Barbakan
Fort Legionow
Centro Nicolau Copérnico
A Sereia de Varsóvia (estátua)
Caminhada ao longo do Rio Vístula
Igreja do Salvador
E tudo o mais que você quiser descobrir com suas caminhadas 

Gostou? Então divulgue 😉















(Traduzione di Teresa Concas)
E così, atterrammo. Proprio all'entrata dell'aeroporto, già sulla pista di atterraggio, erano appostati vari poliziotti in divisa, con cani antidroga al guinzaglio. A pochissimi di noi,  me compreso, venne chiesto di fermarsi per rispondere ad un paio di domande mentre i  nostri passaporti venivano portati in una saletta conferenze.

Una ufficiale, seria e gentile, mi chiese da dove venissi. Esitai, non riuscivo a ricordare il nome della città. Lei rise, incredula: “davvero non sa da dove arriva?”; e io: “Lo so, ma sono un po' nervoso e faccio confusione con i nomi. Qui c'è in passaporto e il biglietto”. Prese il passaporto ed entrò nella saletta di cui sopra. Tornò dopo alcuni minuti, mi consegnò il passaporto e mi disse di seguire il resto del gruppo.



Seguii gli sfortunati fino ad una stanza, dove terrier famelici di droga presero ad annusare i miei bagagli, dirigendosi poi verso di me. Come al rallentatore, passato qualche minuto, l'ufficiale mi squadrò per bene e disse: “Go!”. Non me lo feci ripetere, il cuore a mille. Questa poi! Fermato dalla polizia nell'aeroporto di Varsavia! Continuavo a chiedermi, andando verso l'uscita, cosa fosse successo. 

Ecco alcune delle possibili risposte che trovai. 1: Sono stato scambiato per un immigrato mediorientale; 2: Avranno pensato che fossi un trafficante sudamericano con lo stomaco pieno di droga; 3: Avranno pensato che stessi contrabbandando droga dall'Olanda in Polonia, che è controllata dal governo antieuropeista, nazionalista e conservatore del presidente Andrzej Duda; 4: Si trattava di un controllo di routine; 5: Ero sul volo sbagliato e sono atterrato nel posto sbagliato. Non sono tutt'ora giunto ad una conclusione, ma almeno ho guadagnato una storia per introdurre questo post.

Centro di Varsavia – Palac Kultury i Nauki
Passato lo spavento e il rischio (?) di essere rimandato indietro, uscii dall'aeroporto e andai direttamente a prendere il bus diretto in centro città. E che città! Varsavia mi sembrò enorme, con le sue strade larghe e i palazzi imponenti. Il più grande, il Palazzo della Cultura e della Scienza, mi sembrò si potesse vedere da tutti i punti della città (o almeno lo usai come punto di riferimento ogni volta che lasciai l'ostello in cerca dell'ignoto). 

Graffiava il cielo e sembrava un gigante torreggiante sulla piazza, dove tutti gli occhi si dirigevano, compresi quelli dei polacchi che hanno con lui una relazione di amore e odio, poiché fu un regalo di Stalin alla Polonia.

Conoscendo persone e luoghi
Dopo la mia esperienza in aeroporto e il ricordo ora sempre più vivido dei giorni a Bucarest (altra capitale est europea scampata alle grinfie dell'URSS), non cercai di parlare con nessuno per strada. Il mio piano per conoscere persone in Polonia era postare un messaggio in un forum di Couchsurfing annunciando il mio arrivo e invitando i lettori per quattro chiacchiere, un caffè o una passeggiata per la città. Con mia grande sorpresa più di dieci couchsurfers polacchi risposero al mio post e, di questi, due splendidi persone avevano tempi e giorni coincidenti con i miei.

Ovviamente conoscere una città e i suoi luoghi con chi vi abita è un'esperienza diversa dal semplice prendere una mappa e andare, o unirsi ad un Free Walking Tour.
Praga
Per questo quando Wiola mi inviò un messaggio per invitarmi ad esplorare un antico quartiere chiamato Praga, dicendomi che lì era stato girato Il Pianista, mi rassettai e corsi ad incontrarla. Wiola ha vissuto in Brasile per alcuni mesi vivendo per qualche tempo anche a Salvador, dove lavorava in un hotel in Pelourinho: per questo andammo d'accordo dal primo “Czéṥc” (Ciao).

Mi aspettava in un caffè vicino alla Cattedrale di Santa Madalena (una chiesa gotica stupenda, cartolina della città) dove arrivai dopo una camminata di quasi 40 minuti, in cui mi presi il tempo di osservare i monumenti lungo la strada e la meravigliosa architettura locale – i palazzi e i ponti sono bellissimi, e il centro Nicola Copernico è molto vicino alla zona dove stavo andando, così come lo stadio di calcio e altre attrazioni che elencherò alla fine di questo post.

Dunque, uscimmo a passeggiare per il distretto Praga alla ricerca di un ristorante dove poterci riparare dal freddo e riempirci lo stomaco. In quest'area si trovano molti ristoranti e bar per tutte le tasche, per questo non fu difficile trovare un buon posto.

Scegliemmo un ristorante molto elegante, dove era possibile conversare con musica di sottofondo accompagnata da un delizioso caffè.

Dopo un po', decidemmo di metterci in cammino e Wiola mi mostrò la parte del quartiere dove ci venne è stato girato il film Il pianista, tra i palazzi antichi, invecchiati, che ancora facevano parte del patrimonio architettonico del periodo prima della guerra/occupazione sovietica. 

Gli edifici decadenti, un gruppo di ragazzini intenti a tirare petardi per strada senza prestare attenzione se colpivano qualcuno o meno, un crescente senso di insicurezza e la sensazione di aver già visto tutto fecero si che la mia guida mi invitasse a tornare indietro per fare un giro nella città vecchia.


Stare Miasto – La città vecchia
Il tempo di questa passeggiata fu meraviglioso non solo perché mi aiutò a conoscere un po' meglio la mia guida, ma anche perché ci permise di conversare di molti e svariati argomenti, specialmente l'attuale politica in Polonia e il sentimento xenofobo che sta invadendo l'Europa dopo la recente apertura all'immigrazione musulmana.


Nel frattempo, la Stare Miasto (Città Vecchia) ci fece ammutolire, ammirati. La città fu fondata inizialmente nel XIV secolo D.C., ma ad oggi rimangono appena il 5 o 10% delle costruzioni originarie, distrutte varie volte tra invasioni e guerre, l'ultima risalente alla seconda Guerra Mondiale.

Ma a chi importa dell'originalità degli antichi palazzi, una volta che sono stati ricostruiti in maniera da riprodurre l'antica struttura?! Almeno, a me non importava, ne rimasi meravigliato. Non esplorai molto la zona, rimanendo soltanto vicino all'entrata della città vecchia, perché cominciò a calare la sera  e il  freddo ricominciò a mordere.

Poi, per una felice coincidenza, trovai nella mia stanza un gruppo di spagnoli stra simpatici e alla mano che mi invitarono a ritornare lì con loro il giorno seguente per una passeggiata. Senz'altro! La mattina presto, intorno alle dieci (il sole nasce dopo le 8.30 in inverno), eccoci là, a incontrarci sotto la neve (tanta neve!) che cadeva dal cielo come pioggia torrenziale tra il mio e il loro stupore - che venivano dal sud della Spagna.


Percorremmo tutta la Stare Miasto, sentendo il vento freddo e la neve gelata cadere sui nostri volti, facendo “poc, poc” nei nostri occhi socchiusi, congelando le nostre mani fotografiche, mentre la guida del Free Walking Tour ci raccontava la storia di Re Sigismondo II, della casa più stretta del mondo, della campana del desiderio, del cuore di Chopin nella chiesa della Santa Croce; e ascoltavamo la musica di Chopin venire dalle bancarelle sparse in alcune aree della città, o bevendo vino caldo nel mercatino di Natale nella piazza principale ecc.

Insomma, un giorno che era iniziato pigramente e con molta neve sulla città, terminò in una splendida passeggiata con persone che fin da subito sentii vicine – un brindisi ai viaggi, alle amicizie che si fanno lungo il cammino e alle persone con il cuore aperto alla vita! Viva!


Capodanno a Varsavia - Palac Kultury i Nauki
Ad essere sincero, avevo deciso di rimanere in ostello a scrivere un post su Eindhoven quando i fuochi d'artificio e le grida “Felice anno nuovo” avessero iniziato a correre libere per la strada. Non ero molto dell'idea di uscire al freddo per celebrare con una folla di estranei l'arrivo del 2017.

Ma Astrid e Ferruccio, una coppia molto simpatica che avevo conosciuto il giorno prima proprio in ostello, si rifiutarono di lasciarmi in stanza e mi convinsero a sbrigarmi per vedere i fuochi, che sono uno degli spettacoli più belli d'Europa e a lasciare il post per dopo.

Mi rassettai e ci incamminammo, un trio in cerca di un posto libero in mezzo alla moltitudine che si raccoglieva intorno al Palazzo. Era in corso un concerto di musicisti locali e la musica pop polacca riempiva risuonando tutta la piazza e oltre. Non si riusciva nemmeno a vedere l'asfalto, non solo per la neve che cadeva incessantemente, ma specialmente per le centinaia e centinaia di persone che si fermavano per ascoltare le canzoni, preparandosi a contare gli ultimi secondi dell'anno vecchio,e noi con loro.
La casa più stretta del mondo

Quando finalmente l'orologio segnò il passaggio dell'anno, cominciò uno spettacolo di luci e colori che durò per lunghissimi minuti. I fuochi di molte forme e suoni illuminavano il cielo, i volti, le strade e i palazzi. Il Palazzo della Cultura e della Scienza smetteva di essere un vecchio socialista serioso e si trasformava in una luccicante Carmen Miranda polacca – uno dei capodanno migliori della mia vita fin'ora.

Ci abbracciammo: un brasiliano, una olandese e un italiano, augurandoci un felice 2017 e seguimmo la folla che si disperdeva per le strade come un gregge di ritorno all'ovile mentre Astrid commentava che era molto strano vedere che tutti se ne andavano subito dopo i fuochi, visto che lo spettacolo continuava di fronte al Palazzo. Forse per via del freddo, forse avevano avuto tutti la nostra stessa idea, forse stava iniziando un'altra festa cui andare! Insomma, noi tornammo al caldo delle stanze del Warsaw Hostel Centrum.


Ẑegnaj Warszawa! Arrivederci Varsavia!
I giorni che passai nella capitale Polacca sono stati molto buoni, resi ancora più speciali dalle persone che ho conosciuto e con le quali ho avuto il piacere di camminare per la città, dividere pranzi e cene, ascoltare e raccontare storie, condividere esperienze. Tra queste, Iwona, una polacca super simpatica, studiosa della lingua e della cultura copta, che ama la lingua portoghese e con cui ho avuto il piacere di passare quasi tutta la sera chiacchierando e imparando.
Chiesa della Santa Croce

L'ultimo giorno mi invitò a pranzo in un ristorante meraviglioso chiamato Café Kulturalna, dentro il  Palac de Kultury i Nauki, passando dall'entrata laterale del Marlszalkowska.  

E come se il meraviglioso pranzo non fosse bastato, ebbi anche il piacere di ascoltare le incredibili storie dei suoi viaggi intorno al mondo, e di come, innamorata della lingua portoghese, decise di impararla. 

Iwona è una di quelle persone che fin dal primo momento si capisce che sono gente di casa. In realtà, questa fu la sensazione per tutto il tempo della visita a Varsavia: essere a casa, non per il posto o per i monumenti, ma per le persone che ho conosciuto e gli amici che ho trovato lì, gente che vorrei portare con me per tutta la vita.



Cose da vedere/fare a Varsavia
 Palak Kulturi i Nauki (C'è un terrazzo panoramico in cima al palazzo; un caffè e un teatro al piano terra)
Nowy Sviat
Muzeum Frederika Chopina
Chiesa della Santa Croce
Tomba del milite ignoto
Plac Zamkowy
Il castello reale
Ryneg Starego Miasta
Barbakan
Fort Legionow
Centro Nicolau Copérnico
La sirena di Varsóvia (statua)
Camminata lungo il fiume Vístula
Chiesa del Salvatore
E tutto quello che potete scoprire con le vostre passeggiate

Ti è piaciuto l'articolo? Condividi! 

Criança sequestrada em 1988 procura família biológica

OLHA ATENTAMENTE PARA ESSAS FOTOS Se essa criança te parece familiar, talvez ela seja . Se seus traços te lembram algum parent...