terça-feira, janeiro 12, 2010

À menina de Feira (de Santana)

Tem uns olhos lindos a menina de Feira,
E um sorriso encantador.
Como fiquei feliz em rever o rosto, em sentir o cheiro, em beijar o gosto,em abraçar o corpo da menina de Feira.

Ela estava lá esperando por mim, olhando um ônibus e outro,
Coração palpitante, talvez, sentidos em suspensão como os meus.
As mãos tremiam de leve, eu senti ao tocá-las, o rosto sereno
Me lembrava caminhadas na praia, pôres-do-sol e risadas de intimidade.

Estava linda em seu vestido florido e bolsa de sisal nas mãos
Me esperando na rodoviária, olhando um ônibus e outro, a menina de Feira.
Há quanto não nos víamos, a menina de Feira e eu; quantos mares,
Quantos lugares deixamos de viver juntos.
Mas agora estávamos ali, parados, diante um do outro,
Cheios de recordações e saudades, cheios de sentidos renascidos.
Ah! aquele vestido florido da menina de Feira.

Queira Deus que em breve eu volte a ver o rosto lindo,
A sentir o cheiro de flores, o corpo viçoso, moreno, querido
Da minha menina de Feira.

domingo, janeiro 10, 2010

Eu sou aquele dos olhos tristes que ninguém entende.
Que te cantou sonatas ao luar
Que te beijou o colo arfante
Que ouviu de tua boca os sussurros
Que roçou teus lábios quentes.

Dos furacões fiz brisas que te tocassem as faces
Do mar revolto e sombrio te fiz serenatas
Para que pudesses ir em paz e quando fosses,
Te lembrasses de mim, das noites acordadas.

“Nesta vida há tanta dor, nessas dores tantas lições”,
Assim o dizem. Mas deixar partir a quem se ama corta
A alma como lâmina, tira o ar, explode tudo por dentro.
Mas na vida, a gente aprende mesmo é quando chora.

Certas noites eu me pego pensando que o amor só vinga se for livre.
Por isso te deixo ir, por isso me deixo ficar,
Por isso sou aquele dos olhos tristes que ninguém entende.
E no fim das contas percebo que gosto mesmo é de ficar só.

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domingo, dezembro 20, 2009

Flamenco Nordestino - GRUPO FLAMENCANTES


Primeiro, as luzes se apagam e vem o silêncio; depois, o som da flauta transversal inunda o teatro com seu lamento doce e triste que se une à voz forte de Ivete Andrade e sua música Severina. Então, iluminados pelo sol poente e causticante do cenário árido a que as composições e o som queixoso de melodias nordestinas nos remetem, os dançarinos entram no palco.

Sobre eles os holofotes lançam feixes de luzes alaranjadas e vermelhas para introduzir-nos na dança sanguínea que em poucos minutos arrebatará nossa atenção inteira e nos extasiará por mais de uma hora.

No requebro de quadris femininos divinamente sensuais, na batida forte dos pés sobre o tablado, nas palmas cadenciadas que alternam em seu ritmo as batidas fortes, fracas, feitas de segundos de suspensão como estava o coração dos espectadores, surgem as Carmens com seus longos vestidos rodados, suas rosas nos cabelos amarrados em coque e seu jeito altivo, imperioso, soberano, de mulheres andaluzas.

Histórias se contam, abandonos, amores bandidos, meninas se tornam mulheres, o luar cobre o sertão. Vemos mãos se transformando em movimentos ora leves ora frenéticos e nos fazendo lembrar de animais de simbolismos ancestrais: o cisne dançando para encantar o deus, a serpente astuta que seduz o viajante incauto, a mulher de olhar agatiado e a ararinha azul se emplumando sobre os troncos secos do árido nordeste. Somos lançados sem dó ou piedade no palco para onde nossos olhos foram arrastados e onde por alguns pares de minutos nos deixamos escravizar pela beleza re-lida, nordestinizada, de um flamenco sincrético.

Os vestidos rodam, sobem, descem no compasso da música. As Carmens Severinas obedecem ao comando de Daniel Moura - um tom de leve masculinidade sobre o império das fêmeas -, se submetem à sua ordem, para depois conquistá-lo sutilmente, violentamente, inescapavelmente, com sua dança morna que vai tomando ares de calores desérticos ao passo em que os sons do sapateado, misturados aos instrumentos de corda e à percussão, ressoam na sala.

Entre as deusas desse Parnasso hispânico-nordestino, Tatiana Simas surge majestosa. Seu vestido amarelo se destaca entre o vermelho, laranja, ocre de suas companheiras. Naquele deserto de fados brasileiros, ela é o girassol que se abre não para absorver do astro rei, mas para irradiar uma beleza, uma tepidez, uma luz que nos hipnotiza durante todo o tempo de sua permanência em cena – ela se basta. Acompanhamos, arrebatados, cada ato, cada gesticular de braços, mãos e dedos, cada sinuosidade da dança lasciva, forte, inocente e de queixas solitárias, cada expressão dura naquele rosto suave de traços firmes, cada palavra muda que seu olhar lança sobre nós – ela e seus colegas são o sol em todo o seu esplendor, e nós, os espectadores, os astros que comovidos e submissos pedimos permissão para orbitar em sua galáxia durante os atos idiossincráticos de sua dança.

Na inovação que se dá em cada ato, os dançarinos, senhores da dança toda sua peculiar, nem nos deixam sentir falta das tradicionais castanholas, pelo contrário, fazem homem, menino, menina, mulher irem ao delírio, não conterem palmas, urras, assobios. E por fim, flores lançadas ao palco, deixam descansar os pés para receberem os aplausos dos que, em estado de graça, assistiram, na última sexta-feira, ao espetáculo benevolentemente trazido ao público por aqueles filhos de Terpsícore que ali estavam diante de nós.

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domingo, novembro 15, 2009

Intolerância Religiosa em Salvador

De quando em quando a imprensa baiana surge com dramáticos neologismos – aquelas palavras que a gente já conhece, mas que tomam sentido novo de acordo com o que os falantes lhes querem imprimir.

Há algum tempo atrás, eles renovaram a palavra “tragédia” de forma a equiparar o lamentável incidente na Fonte Nova à devastação causada pelo furacão Catrina nos E.E.U.U., ao tsunami no Oceano índico em 2004 e ao acidente com os aviões da TAM (2007) e GOL (2006).

Não digo que não tenha sido doloroso e chocante ver pessoas que foram se divertir e torcer pelo seu time morrerem da forma lastimável como morreram, mas tragédia? Bem, dadas as proporções (dos mais de 60 mil pagantes, 08 foram mortos no acidente e cinco se feriram) eu contaria o caso como um triste, terrível acidente; mas apenas porque ver pessoas, de qualquer idade, com saúde e força, serem privadas da vida é sempre terrível. Mas Tragédia? – Com certeza para os familiares e amigos.

Agora, nesse domingo próximo passado, eles me inventaram outra: INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, com direito a passeata e tudo.

Falar de intolerância religiosa numa cidade como Salvador é tão patético quanto falar de seres ultra-humanos habitando as profundezas da Terra.

Numa cidade em que se tem um Cristo na Barra, igrejas evangélicas em cada esquina e TODO MUNDO usando jargões como “tá amarrado” ou “tá repreendido” para espantar “forças e energias negativas”; onde há gente de burka rezando três vezes ao dia, pandeiros e fitas e sons de “Hare Krishna”, reuniões budistas freqüentadas por adeptos e curiosos, centros espíritas de portas abertas aos visitantes que os lotam, e tantos desavisados falando em karma a despeito da fé que professam; onde se tem orixás enormes num dos mais belos cartões postais da cidade, o Dique do Tororó, bem como na sede dos Correios e Telégrafos da Pituba, e, como reza a lenda, uma igreja católica para cada dia do ano.

Numa cidade cujo povo, de diferentes religiões - e até mesmo aqueles que não têm crença em nada ou ninguém - sai às ruas na 3ª quinta-feira de janeiro acompanhando o cortejo católico em que mães e pais-de-santo são assediados para darem banho de água-de-cheiro e benzer os caminhantes que, juntos com o prefeito evangélico tocando pandeiro, homenageiam o Cristo ou Senhor do Bonfim ou Oxalá (originalmente Orixalá = Orixá + Allah), falar de intolerância religiosa - uma vez que ser intolerante significa ”ser incapaz de conviver com diferenças, opiniões ou crenças divergentes daquelas particulares ao indivíduo” - repito, é patético demais!

O que sinto é que há um grupo de radicais fascistas querendo nos impedir de exercermos nossa liberdade de expressão; querendo tolher nosso direito constitucional de não acreditar, não querer e não aceitar para nós individualmente suas crenças. Parece-me que querem transformar o nosso direito de não tomar como verdade o que não acreditamos. Os intolerantes não são aqueles que não participam da ou compartilham a fé de outrem ou que não chamam de seus os deuses alheios; os intolerantes são aqueles que não permitem que os outros não dividamos com eles a sua visão de mundo, que nos querem impedir de professar a nossa descrença em seus rituais, que desejam tapar as nossas bocas todas as vezes que dizemos algo que vá de encontro ou fira a sua vaidade pessoal mais que e o seu credo e opinião sempre únicos, verdadeiros e supremos.

Intolerância religiosa é o que o Papa Urbano II promoveu no séc. XI com a invenção das Cruzadas; é o que, mais recentemente, vimos na Indonésia quando da anexação do Timor Leste, período em que os cristãos foram caçados e mortos, seus corpos arrastados na rua pelos muçulmanos, ou a destruição dos budas centenários do Afeganistão pelo regime talibã. Intolerância religiosa foi o que o mundo presenciou nos países do Regime Comunista; foi o que Mao Tsé Tung fez com os budistas chineses na década de 50.

Mas em Salvador, onde a estátua do Cristo da Barra convive serenamente com os Orixás do Dique do Tororó, e os altares em casa provêem espaço para São Jorge (vejam só, um Cruzado!), Yemanjá (um orixá caucasiano e vestido de azul e branco como a Virgem Maria!) e até a efígie do Buda de costas para a rua, ao lado de um copo com água e carvão, duendes e bruxinhas, não se pode falar de intolerância, a não ser por uma questão de afirmação ressentida de poder, por querer-se usar de desculpas absurdas a fim de tentar introduzir à força a repressão ao nosso direito de escolha e à nossa liberdade de pensamento e expressão.

São estes fascistas que querem destruir a nossa individualidade e o nosso direito de não professar sua fé. Não somos nós que destruímos igrejas, que bombardeamos templos ou que tacamos fogo nos terreiros a fim de acabarmos com quaisquer crenças; são eles, os mesmos que pretensamente lutam por seus direitos, que querem destruir o direito alheio quando sutilmente dão nova roupagem ao vernáculo para encobrir a sua sede de vingança, o seu terrorismo e o seu ódio à liberdade. Intolerância Religiosa em Salvador é um neologismo muito sem graça engendrado nas entranhas dos fascistas, propagado pela mídia repressora e acreditado pelas mulas.

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domingo, julho 19, 2009

Um menino à janela (Para M.T.)

Eu vi um menino apoiando o queixo sobre o braço, sobre a janela
Olhar perdido, esperançoso contemplando o céu azul.
O que ele queria? voar talvez. Ícaro sem asas ele era,
O menino que eu vi olhando o mundo da janela semi-cerrada.

Uma mão sua repousava sobre o queixo, a outra descansava o peso do mundo
Sobre os cabelos penteados lateralmente.
O que ele queria? sonhar talvez, viver num mundo diferente
Daquele a que seus olhos de leve melancolia presenciaram até hoje.

Há uma idade em que o vento leve sobre as faces é furacão
E que a ventania é uma pluma tocando leve os corações puros.
Eu vi o rosto daquele menino e fui tocado pela beleza da composição que ele, distraido, criou.
O que ele queria? poetizar talvez, sem saber, a alma de quem o via.

Que olhar era aquele, meu Deus, que inspiração o levara a ele,
Que indecisão, que dor escondida na alma daquele menino que eu vi um dia?
Não sei, mas o rosto levemente inclinado para cima,
Sem os traços dos anos, verde em folha, suave como o passarinho que quer voar
Quando as asas ainda não sabem fazê-lo, me encheu de uma nostalgia, uma saudade tão grandes Do tempo em que era eu um menino que contemplava o céu da janela
Pensando, sonhando, sorrindo como esse menino, à janela, que eu vi um dia.



quarta-feira, julho 08, 2009

Há um silêncio aqui dentro pior do que o que faz lá fora,
Pois esse não tem cicio de insetos nem som de vento
Removendo as folhas do chão, brincando com o pano das cortinas;
Este silêncio é mudo por completo e tem o vazio solitário das esquinas–
Este silêncio é silêncio.

Um velho mendigo anda cambaleando na calçada:
Pára, senta, escuta, tenta levantar. Há quem ria dele, há quem sinta pena;
Não queria risos nem dó, mas flores para o enterro
De si mesmo, esse sujismundo a quem o amor amarrotou.

Às vezes eu me pego pensando no valor das coisas -
Entre elas a vida, a amizade, a paixão, enfim, o que nos faz humanos.
É quando entra um pensamento bruto na alma de que nada vale a pena.
Seja a alma grande ou pequena, tudo é vão.

Mas basta um olhar, uma carícia, um beijo leve ou um aperto de mão
Para que esse pensamento terrível se dissipe.
A gente vive querendo justificar a existência e entender as ações dos outros
Quando na verdade deveria olhar para o céu e se perder na imensidão azul
E no silêncio, o silêncio.

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segunda-feira, julho 06, 2009

Que Michael descanse em paz (POR FAVOR!)

O escritor francês René Char disse certa vez que "quem vem ao mundo para nada alterar, não é digno de consideração nem de paciência". Dessa forma, certamente há que se render tributos a Michael Jackson, o artista que modificou para sempre a cara da música pop no mundo, que foi um dos responsáveis pela quebra de mais um dos muros da estúpida segregação racial dos E.E.U.U, reafirmando com sua voz melódica e seus passos de leveza sublime a música e a dança dos negros na América branca.

Sua morte, portanto, deixa uma ferida profunda no seio da música mundial e uma clareira aberta no coração dos milhões de fãs seus que foram sendo arrebanhados por três, quatro gerações seguidas através de baladas românticas, de seus gritos de protesto por um “mundo” que precisa de ser “curado pelo amor” .

Não é de se estranhar, assim, que vejamos planeta afora homenagens, tributos, comoção geral, uma corrida para se comprar seus álbuns – o que talvez faça de Michael, a exemplo de Elvis Presley, mais rico em morte que em vida-, e o desamparo estampado na face de velhos, jovens e crianças que se abraçavam numa tentativa de consolo coletivo diante do hospital em que o músico expirava. Quantos homens conseguiram destroçar as diferenças entre gerações, culturas e raças como ele o fez em vida e muito mais em morte? Poucos, com certeza.

No dia 25 de Junho de 2009, Michael Jackson deixava os palcos em silêncio. A partir de então, raramente se verá toda aquela efusão genuína de melodia, dança, vida, luz, cores, amor à arte e o drama profundo de uma vida convertida em espetáculo: um drama cheio de luz e cores que lhe tolheu a infância, e o transformou no rei do show biz, gerando naquela mente sensível ao extremo o que os seus detratores mais tarde chamariam de excentricidade paranóica.

Mas como julgá-los? Quantos de nós não fomos tomados por espanto ao ver durante os anos as incríveis transformações pelas quais o músico passava? Primeiro, a modificação dos cabelos Black-Power por cachos domados; depois, o afinamento das feições africanas para uma aparência caucasiana por sucessivas plásticas no nariz e lábios; e, por fim, o branqueamento de sua pele. Michael Jackson parecia querer destruir todo e qualquer traço de sua origem afro-americana e se transformar em alguém acima do bem e do mal, talvez o übermensch de Nietzsche, aniquilando os traços de sua raça, modulando sua voz sempre infantil e obtendo feições cada vez mais definidas nos padrões míticos que ele mesmo elaborava de acordo com os ditames de sua mente adoecida.

O menino negro de cabelos encarapinhados que encantou o mundo com canções como “Ben” e “One day in your life”, pouco a pouco foi se convertendo num recluso, exótico ser humano de aparência híbrida e chocante. Essa sua reclusão, aliada a um hipotético complexo de Peter Pan, catapultou as suspeitas sobre seus gostos sexuais e o levou às manchetes de jornais em todo mundo devido a acusações de (suposta?) pederastia. Começou aí a trilhar a Via Crucis sem esperança de ressurreição.

Seus algozes não eram os soldados romanos e seu flagrum, mas a pena e as câmeras da imprensa que caíam sobre seu corpo como os urubus sobre a carniça e continuaram sobre ele até bem recentemente. É interessante notar na evocação dessas lembranças, no entanto, que essa mesma imprensa implacável diante das faltas de Jackson é a mesma que há duas semanas incessantemente não pára de falar de sua morte. Mas esse é mesmo o trabalho dela desde William Hurst: destruir e criar mitos.

Não é à-toa que vimos a hipocrisia sincera de William Bonner ao dizer no final do Jornal Nacional do dia 25/06 – para consertar um erro de Fátima Bernardes – que estávamos “todos chocados com a notícia de última hora”. Chocados devíamos mesmo estar, afinal, é sinal humano chocar-se com a morte de um contemporâneo por razões psicológicas que não citaremos aqui. Mas chocados até que ponto? Ao dos supostos suicídios que se seguiram à morte do cantor, ou ao show incessante das imagens de Michael a fim de transformarem aquele a quem essa própria mídia chamou de drogado, pederasta, molestador, em um ídolo ubíquo quase deus? Sinceramente, estou esperando o momento em que a imprensa começará a relatar os milagres de Michael Jackson e pedir ao povo que espere a sua ressurreição. Será que o Vaticano já recebeu um pedido de beatificação em favor do cantor?

Estamos chocados sim! Pois a morte de alguém sempre nos choca. Mas chocados ao ponto de pararmos todas as notícias em prol de uma? De mobilizarmos o mundo em prol de um sepultamento que já deveria ter ocorrido? De transformarmos nossos Orkuts e MSNs em epitáfios? Não estou advogando contra Michael, pois, como a própria mídia não nos deixa esquecer há tantos dias sucessivos, ele teve relevância na história da música contemporânea. Mas não já estaria na hora de deixarmos os mortos enterrarem seus mortos e prosseguirmos com a vida que no resta?

Essa explosão de notícias sobre o passamento do cantor, essa exploração da morte de alguém querido para tantos, por razões reais ou de afetação, já ultrapassou o ridículo! O que nos importa saber quantas passagens secretas havia no rancho Neverland. Por que nos interessaria descobrir que havia uma televisão escondida sobre a piscina do cantor? O que nos importa se o homem dormia de touca?

Se queremos trazer à tona os mortos, tragamos os que realmente nos afetaram diretamente! Eis diante de vós, leitores, o exemplo do ex-senador Darcy Ribeiro, que poucos conheceram em vida e muitos menos em morte. Esse que lutou anos sem trégua pela democratização da educação no Brasil, pela inclusão das chamadas minorias e seu acesso ao sistema educacional brasileiro, que criou Leis para nos garantir a educação pública e resguardar nossas crianças e jovens. Ele sim deveria ter programas em sua devoção por duas, três semanas seguidas; deveria ter seu rosto estampado em todas as capas de revista, deveria ter discutidas suas leis para que o povo soubesse o que realmente importa! Ele que apenas foi citado em notas de rodapé quando da sua morte.

Mas a ele, uma das vozes dos que clamam no deserto, como o são todos aqueles que na verdade merecem glórias, a nossa imprensa a serviço da idiotização das massas relegou ao esquecimento e às discussões nos cursos de Humanidades. Assim como fará com Cristovam Buarque, Rubem Fonseca, Rubem Alves, Prof. Cleide Sobrinho, Frei Henry de Rosiers e um milhão de outros que dedicam sua existência para transformar o mundo com o que realmente importa.
Vivas a Michael Jackson; mas muito mais vivas a quem viveu ou vive em prol da humanidade; muito mais vivas a quem morreu para transformar verdadeiramente o mundo dos outros!


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sábado, julho 04, 2009

Palavras Mudas, Palavras Cruzadas – Poemas para Duas Mãos

Trago aqui singelas idéias, palavras mudas... que aos poucos vão ganhando voz...
E cantando assim elas parecem ora estranhas, ora artimanhas,
Obra do destino, ou algum sortilégio de quem busca ajuda
Em nem sempre tão mundana mente, vítima de torpe algoz.

Ei-las palavras mudas, caladas no íntimo, ganhando vida em uma, duas mãos diferentes.
Elas não se cruzam, não se intercalam, jorram como fontes, da mente, de algum lugar.
Cortam as folhas eletrônicas do computador em rápidos segundos
Para encontrar seus pares em outras folhas brancas envoltas de azul.

Palavras muitas que tentam de duas mãos sair e ganhar o mundo,
E encontrar no fundo, dos seres míticos ou críticos ou rítmicos, um sei-lá-o-quê-?
Senso, sentido, sincronismo, similaridade, sinceridade, sonoridade, solicitude...
Virtudes que se espremem de mentes sãs, de mãos abertas para receber o desconhecido.

Nessa rede em que vivemos, pensamos em (nos) prender - ou quem sabe libertar-(nos)!?
Na velocidade e na fugacidade, na efemeridade e na tenacidade
Poemas são feitos à distância segura – mas de onde?
Do coração ou dos ecos de leituras passadas ou de atos mecânicos das mãos
Que não se cruzam?
À distância segura sempre – mas para quê?
Para serem impolutas ou intrínsecas ou quintessentes,
Ou para serem seres ganhando vida em mãos tão diferentes, de histórias tão diferentes que um dia se cruzam?

Vão seguindo-se todas as tentativas de uma conexão...
Perfeita na essência, imperfeita na presença;
Audaz na proposta e eloqüente em supostas respostas.
Vejo pontes sendo feitas, vindas de mim e indo até ao onde-quer-que-seja, onde-quer-que-você-esteja.
Através dessas palavras que criam caminhos e veredas e labirintos dos quem-sou-eu e para-quê-?
Elas se perdem no espaço, nos cabos de fibras óticas, os negros buracos cheios de eletricidade
E de emblemáticas poesias que encontram indefinidas as mãos que não se cruzam.

Por isso, às vezes, cantar um solo é tão fácil que fujo da essência da proposta,
Não sei ainda falar sem som, gritar sem palavras, nem pensar sua canção.
Daí essas palavras mudas e caladas no peito se metem a correr velozes a encontrar sentidos
Diversos nos teclados de computadores distantes um do outro,
Cujo intuito é gerar o que não se pensou jamais, criar o que era impossível
E sonhar com poemas entrecruzados que cortam calados as telas brancas dos computadores.

Dos quais, de um lado, grita um poeta: Ah, quimera de quimeras tão louca na concepção, audaz na criação, cheia de cabeças e braços e mãos!
Quanto receio me inspiraste, quanto alienar-se de mim, quanto buscar a palavra exata que rendesse um poema uniforme vindo de mãos que não se cruzam!
Do outro, responde o bardo: Oh doce mão que iniciou tal ensejo... desculpe os erros desse solfejo...
Queria apenas ouvir e sentir teu pulsar neste primogênito dueto refrão!

Não temas, poeta, pois veja:
Este poema que corre na velocidade de dois pensantes,
Cheio de vida e som e luz que lateja,
Quiçá como a inocência de tantos infantes, talvez com asas de um anjo serafim
Foi feito por minha, por tua mão que se cruzam enfim.

POR: Deivis Elton e Márcio Walter Machado

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domingo, maio 24, 2009

Amores voláteis

Entendi que os amores são como os pássaros -
Nasceram para voar livres nos espaços serenos.
Eles são felizes e eternos apenas se são livres.
Porque, quando postos entre as barras da gaiola,
Perdem seu canto, murcham e morrem como as flores
Cortadas dos hastis.

Muita vez eu fui menino malvado que ao ver o canto do pássaro no mato,
Quis tê-lo para si somente, correu a enjaulá-lo e a pô-lo na parede de casa
Até que seu canto cessasse, as asas se amofinassem
E a alegria emplumada perdesse a graça.

Aprendi que libertando os amores, como se libertam os pássaros engaiolados,
O jardim se enche de um canto novo todo dia, de cores fortes e lindas
Todas as manhãs, e os pássaros, outrora amofinados no canto da gaiola,
Voltam felizes e radiantes e do peitoril de nossa janela aberta
Trinam melodias cada vez mais sonoras para nos mostrarem que os amores,
Assim como os pássaros, só são felizes se estiverem livres para voar.



domingo, maio 10, 2009

Perdido

De tanto amar-te, meu coração virou um rio
E entre afluentes, corredeiras e precipícios
Ele perdeu-se no caminho - eu me perdi!
Pedi a Deus que me fizesse anjo, ave voando -
Que me desse um ninho!
Mas ai!, malgrado meu, Deus ainda não me ouviu.

Há dias em que as estrelas não brilham
Nem a lua nasce no horizonte escuro;
Em que eu não tenho norte, nem sul, nem rumo
E minha estrada é calçada de inúmeras perguntas sem respostas.

Queria me jogar no mar e esperar suas águas profundas
Me envolverem naquele silêncio de mar,
E quando estivesse descendo a me afogar, tu viesses do nada
E me levasses de volta à tona pela mão.
Queria descer no vazio silencioso do mar
Só para ver se tu virias correndo salvar minha ilusão.

Mas temo que ficaria só na imensidão de oceano que é a vida.
Porque os amores todos nascem mesmo é na solidão,
E lá eles se criam e se desfazem e se refazem
Nessas invenções que geramos dentro de nós na busca de sermos completos,
Nessa desvontade de abrirmos mão do que um dia quisemos ter
- É justamente quando o coração se perde e nos sentimos como rios
Que se afogam no meio do mar.

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Criança sequestrada em 1988 procura família biológica

OLHA ATENTAMENTE PARA ESSAS FOTOS Se essa criança te parece familiar, talvez ela seja . Se seus traços te lembram algum parent...