terça-feira, janeiro 10, 2017

Amsterdam - Holanda - Linda, Leve e Louca


Embora meu destino principal fosse Amsterdã, precisei pernoitar em Eindhoven porque a Ryanair tem voos baratos para lá partindo da capital dinamarquesa. E, além do voo com preço superbarato que eu encontrei, ainda tinha a ideia de conhecer mais uma cidade holandesa além da capital. Escolhi um hotel perto da Estação Central onde há várias acomodações arrumadíssimas e com preço acessível. Procurei por um lugar onde pudesse fazer o check-out depois das 10:00 pra poder dormir um pouquinho mais e relaxar antes de me aventurar pelas ruas da louca capital neerlandesa.

Os trens para Amsterdam saem regularmente da estação central e o valor da passagem de ida e volta
Rua do Centro de Amsterdã à noite
(quando comprei) foi 40 euros (se Eindhoven não te interessar, talvez seja melhor pagar mais caro nos bilhetes de voo de outra companhia que tenha Amsterdã como destino e ir direto para lá). O legal de andar de trem na Europa é ver as lindas vilas e povoações ao longo do caminho. No trajeto de uma hora e poucos entre Eindhoven e Amsterdã a gente pode ver cidades e vilas com moinhos rodando suas pás gigantes no horizonte azulado, canais longuíssimos em que barcas cruzam acima e abaixo, chalés coloridos e com chaminés, enfim, vale a pena se deixar inspirar pelo cenário bucólico do interior da Holanda e ainda de quebra conhecer pessoas interessantes que estão no mesmo vagão que você.
 
Igreja de São Nicolas
Amsterdã a cidade do “libera geral”?
Está no imaginário popular que a capital holandesa é o lugar onde se pode fazer de tudo e de tudo se experimentar sem medo de ser feliz. No entanto, acredito, pelo que vi e ouvi dos moradores locais com quem conversei, que as coisas não são bem assim.

É certo que levas de turistas de todo o mundo vão a Amsterdã para poder consumir maconha e outras drogas – em qualquer lugar chamado “coffee shop” eles vendem maconha, space cake, misturas alucinógenas e tudo o que os dopeheads podem desejar - sem serem incomodados pela polícia ou coisa que a valha. Mas você, que gosta de queimar o velho baseado, não se empolgue muito. Aqui vão os motivos: o uso da maconha não é liberado na Holanda, é tolerado (assim como de outras drogas consideradas leves) em Amsterdã; você não pode queimar o becky em qualquer lugar, só nos chamados coffee shops (que, em termos legais, vendem drogas de forma “ilegal”, pois o uso de da maconha não é legal, é tolerado (repito); ou pode consumir em sua casa e só em certa quantidade; você também não pode sair da Holanda com maconha, pois se der azar e passar por uma inspeção ocasional na “fronteira” ou num aeroporto, você estará na cloaca da cobra. Portanto, se a razão pela qual você quer ir a Amsterdã é usar drogas, fique bem atento às regras do país e da Comunidade Econômica Europeia.

Amsterdam Centraal
Isto dito (precisava fazer este hiato para contemplar algumas perguntas feitas por amigos), é preciso dizer que eu, em particular, não estava nem aí para baseados holandeses, a cidade tinha muito mais a oferecer para mim do que uma viagem psicodélica à base de cannabis. Por exemplo: muita arte, muita cultura, muitas igrejas lindas, muitos canais e muita comida.

Mais do que space cake
Antes mesmo de sair da Amsterdam Centraal, já estava encantado com a cidade. A estação, que fica no centro de Amsterdam, estava toda decorada para as festas de fim de ano e as luzes natalinas começavam a brilhar junto com o pôr-do-sol que se aproximava. Parei alguns minutos para apreciar a arquitetura do edifício antes de tomar as ruas.
Rua no centro de Amsterdam
Ainda na estação, percebi que eu não tinha sido o único a querer passar o feriado de 25 de dezembro por ali (aliás, o feriado lá é de 24 a 26!). A cidade estava lotada, de maneira que andar pelas ruas puxando uma mala de rodinhas parecia uma tarefa complicada. Mas eu me misturei à multidão e fui caminhando, fazendo mentalmente o percurso que tinha visto pelo computador no Google maps 3D, por várias vezes, acreditando que mais uma vez meu app iria me deixar na mão (como deixou!).

Da estação central ao meu hostel eram apenas 10 minutos, mas eu alonguei esse período até quase uma hora, pois é impossível caminhar pelas ruas de Amsterdã sem se impressionar com a arquitetura que mais lembra aqueles bloquinhos de casas que a gente tinha na infância. Alguns edifícios, aliás, são extremamente tortos ou se precipitam sobre a rua dando a sensação de que vão cair a qualquer momento. Me lembro, inclusive, da Maria e da Andreza, duas brasileiras com quem tive o prazer de compartilhar o quarto, me chamarem a atenção para um dos prédios que vimos em nossas andanças que pareceria que com qualquer espirro iriam desmoronar sobre a calçada, ou essa era a impressão que causavam. Mas ele estava lá há décadas, enfeitando a, assim chamada, Cidade do Pecado, de frente a um dos vários canais que a cortam como veias pulsando num corpo libertino que desaguam pelo bairro luxurioso das luzes vermelhas.

The Red Light District
Me lembro de uma novela – acho que Tieta do Agreste – onde havia um lugar chamado A Casa da Luz Vermelha, no qual as mulheres-damas trabalhavam para se manter com o suor do seu trabalho, o qual era repudiado pela gente de bem de Mangue Seco. Essas pessoas de lá se chocariam ao passar pelo famoso distrito amsterdanês e verem expostas nas vitrines mulheres de todos os tipos e gostos com suas formas exuberantes ou exóticas, dançando de roupa íntima e combinações para todos os transeuntes olharem, gostarem e comprarem seus serviços. Às vezes, uma delas abria a porta e chamava o passante a entrar e experimentar as delícias do seu trabalho. Um ou outro menos tímido sorria, olhava a multidão, perguntava o valor e sumia atrás da cortina que era puxada sobre a janela da vitrine.
Centenas de pessoas, especialmente homens jovens, transitavam pelo bairro na noite em que estivemos lá. Todos olhando as vitrines com olhos arregalados e muito sorriso sem graça no rosto enquanto caminhavam rua acima ou rua abaixo sem saber direito o que fazer ou em qual das figuras messalínicas concentrarem sua visão. As luzes vermelhas das casas lembrando desejos proibidos, o neon piscando aqui e ali na noite fria de Natal, sugerindo o calor das paixões pagas com euros a mulheres quase nuas simulando sexo nas janelas, o Museu do Erotismo, as águas frias passando pelo canal sob as ruas quentes de De Wallen, é uma atração um pouco chocante para quem não pensa que o ser humano, assim como produtos nas lojas, está à venda.
Mas, se por um lado a prostituição reconhecida legalmente como profissão pode causar desconforto; por outro lado, o direito dessas mulheres (e desses homens) em trabalhar e serem protegidos por lei enquanto exercem sua profissão é algo louvável.  
O Rossebuurt me pareceu um grande mercado popular onde o produto exposto na vitrine tinha cara, corpo e mente de várias raças e culturas, e me fez pensar nas pessoas brasileiras sujeitas a tantos males por viverem na escuridão de seus misteres corpóreos.

“O que é feito não pode ser desfeito, mas podemos prevenir que aconteça novamente”
Casa de Anne Frank
Ir à Amsterdã é se encantar com seus canais, com a ubiquidade de suas bicicletas, com a arquitetura de seus prédios e praças, com a amabilidade de seus moradores, com a cuca fresca de quem passa por nós. Mas é também relembrar um dos episódios mais tristes da história da humanidade.
Desde adolescente, quando li o Diário de Anne Frank pela primeira vez, senti que apesar de sermos capazes de coisas incríveis, somos também capazes de coisas tenebrosas como odiar alguém pelo simples fato de ele/a ser diferente de nós. A história pungente narrada há várias décadas por uma menina da mesma idade que eu tinha quando li suas memórias ficou gravada em minha mente de forma dolorosa e profunda – não apenas por causa de Anne Frank e sua família, mas pela extensão daquilo, por saber que milhões de pessoas passaram pelas mesmas dores, aflições, desespero e medo, e que foram vítimas de uma morte terrível por causa de um louco que pregava a diferença entre humanos e humanos – graças a Deus pela antropologia e pelos estudos de DNA, os quais histórica e biologicamente provam que tal teoria da superioridade ou inferioridade de “raças”, além de ser estúpida, é totalmente mentirosa.  
A casa é uma recriação baseada na narrativa de Otto Frank, não é mobiliada, e também não é no
Prédios desalinhados em Amsterdam
lugar onde a família foi escondida por amigos holandeses. No entanto, subir aquelas escadas e ler a informação a respeito do cômodo, ler trechos do livro, realmente exerce sobre nós uma sensação esmagadora. Ver e estar no ambiente de cômodos pequenos e apertados onde a família teria vivido, fugindo diariamente da SS por tantos meses, é ser transportado de volta para as páginas que Anne Frank legou à humanidade. A Casa de Anne Frank é sem dúvida uma recomendação que faço a quem estiver na cidade.
Mais informações neste endereço:http://www.annefrank.org/en/Museum/Practical-information/Online-ticket-sales/      eles dizem que indo à noite você pode comprar o ingresso na portaria mesmo, mas que não é garantia. Nós compramos assim que chegamos ao museu (umas 20:00h.) e foi tudo de boa, pouca gente, etc.

Pois tudo o que é bom, sempre acaba... em comida italiana
Restaurante Il Palio Amsterdam
Os dias em Amsterdã foram bem bacanas. Conhecer uma das melhores cidades do mundo, uma das mais seguras e tão rica em história e cultura, com gente tão bacana e pronta a ajudar é, sem dúvida, uma viagem que a gente não esquece tão facilmente.
E entre as coisas inesquecíveis, está uma boate no meio do caminho entre o restaurante IL PALIO e nosso hostel. Abre-se um parêntese aqui. O restaurante Il Palio é um lugar que mais do que recomendo aos amantes da boa e farta comida e dos garçons engraçados e amigáveis. As meninas o haviam descoberto no dia em que cheguei à cidade e me convidaram para jantar com elas à noite. Pedimos uma lasanha pensando que era um quadradinho de dois no prato, mas o que veio à mesa encheu até o dia seguinte. Aliás, no dia seguinte também estivemos lá para uma pizza gigantesca individual – tudo a apenas 5 euros! Mais informações aqui: https://www.facebook.com/Pizzeria-IL-PALIO-1555741284660809/?fref=ts
Pois bem, depois de sairmos do restaurante com os cumprimentos e apertos de mãos calorosos de
Paulo, um soteropolitano pelo mundo
Levent, o rapaz que nos atendeu sempre que estivemos lá, fomos procurar uma festa para ir. Mas em Amsterdam, você não procura festa, ela te encontra. Ouvimos um som vindo de uma das casas pela rua onde passamos, paramos, fomos convidados a entrar, entramos sem pagar nada e sem consumo mínimo. Quando chegamos lá, todo mundo dançado, gritando, vivendo. Traduzindo o espírito da cidade nas luzes do estroboscópio e som tecno que a DJ tocava.

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O que ver e fazer em Amsterdã:
Albert Cuyp Market
Museu Van Gogh
Museumplein
Rijksmuseum
Vondelpark
Leidseplein
Dam
Basiliek van H Nicholas
Nemo Science Museum
Maritime Museum
Jewish Historical Museum
Casa de Anne Frank
Nieuwe kerke
Palácio real de Amsterdã
E, obviamente, qualquer coisa que você desejar, Amsterdã tem de tudo!

 
Canal no centro de Amsterdam 







domingo, janeiro 08, 2017

Copenhague - a terra da pequena sereia

Uma das histórias que mais me impressionaram na minha infância foi um conto de Hans Christian Andersen chamado “A vendedora de fósforos”. A história se passa no dia de Natal numa rua dinamarquesa e a pequena vendedora, de pés descalços na neve e sem vender nada de sua mercadoria, morre de frio e fome sonhando com as comidas das casas que não lhe abriam as portas e abandonada pelas pessoas que lhe viravam as costas
na rua. É um conto que retrata o “de um lado esse carnaval, do outro a fome total” da música de Gilberto Gil, ambientado na Dinamarca do século 19.
Contudo, a Copenhague aonde cheguei na antevéspera de Natal tinha uma cara totalmente diferente. Uma cidade extremamente limpa, rica, de pessoas cortesas, sorridentes e que se mostraram felizes em ajudar sempre que precisei. Uma cidade com corações vermelhos espalhados por todas as partes nas decorações natalinas e nas fachadas de algumas casas. A Dinamarca, ao contrário da impressão que tive quando li o conto na infância, estava de braços abertos e sorrisos no rosto esperando por mim e pelas centenas de turistas que a visitariam naquele período.

Meu hostel ficava exatamente no coração de Copenhague, a apenas alguns minutos da estação central
Na área comum do hostel
de trens (pode-se pegar o trem direto do aeroporto), e de todas as atrações recomendadas da cidade. Foi quase fácil chegar ao meu alojamento, não tivesse sido o terrível Google maps não mostrar o mapa off-line e minha bateria descarregar alguns minutos após a milésima tentativa de ativá-lo. Ali, sozinho e perdido no frio dinamarquês de dezembro, olhando para um lado e outro e vendo pessoas passarem apressadas para seus afazeres, me lembrei da história de Andersen e corri para mudar o final dela. Parei a primeira pessoa que se aproximou de mim, e, com um sorriso no rosto e um “sorry” nos lábios, perguntei onde ficava minha acomodação. O rapaz, que gentilmente parou para me escutar, pegou o telefone, procurou na internet e cordialmente me mostrou que direção tomar me dizendo “seja bem-vindo a Copenhague”. Agradeci muitíssimo e parti correndo para fugir daquele frio, daquela neblina, daquela chuvinha insistente.

Dali em diante, era só chegar, deixar as malas no locker até a hora do check-in e ir explorar aquela antiga vila viking fundada no século X depois de Cristo, que floresceu para ser uma das cidades mais lindas, mais tranquilas e mais caras do mundo! Sim, em Copenhague eu descobri exatamente porque meus amigos europeus ou não, evitam ao máximo viajar à Escandinávia. Um exemplo? Estou caminhando naquele frio maravilhoso, coberto dos pés à cabeça e buscando um cantinho quente por alguns minutos para continuar percorrendo as ruas. Resolvi tomar um café latte numa tendinha dessas sobre a calçada. Cheguei, fiz o meu pedido, o rapaz olhou para mim e disse, sorridente: 40 coroas, por favor.  Aquele sorriso cordial, escondendo um pérfido “Se pensas que estás rico pelas poucas centenas de coroas que tens no bolso, verás que em três dias ficarás sem tostões se continuares a tomar cafezinho”. 40 DKKs são aproximadamente 5.38 euros (no dia da compra 18.3 reais) - por um latte médio!  Choquei, surtei, quase tive um piripaque. Comecei a calcular quanto tinha e descobri que precisaria fazer duas coisas: ou viver a pão e água, ou viver de água. Me decidi pela terceira: usar o que tinha, distribuindo um valor máximo para cada dia. No final das contas, o dinheiro acabou, mas posso dizer que valeu a pena. Não sei se um dia volto lá, então, o que fiz, foi bem feito. Afinal, diz a sabedoria popular que dinheiro é ganho para ser gasto; da vida a gente só leva as experiências; se dinheiro fosse bom, nasceria em árvore. Então, vamos esquecer a quase bancarrota e ser feliz na Dinamarca recitando provérbios consoladores.


Deslumbramento e tensão
No dia 23 todas as atrações estão abertas. No entanto, em 24 e 25 de dezembro quase tudo – inclusive restaurantes (salvo os chics e caros) – fica fechado. Portanto, se vier à Escandinávia nesse período, lembre-se de visitar os lugares antes ou depois dos referidos dias, senão pode fazer como eu, acostumado com o consumismo exacerbado da Bahia onde tudo fica aberto todos os dias (exceto pelas lojas de rua), e não se ligar em visitar alguns museus e outros lugares fechados assim que chegarmos, tendo como resultado não poder entrar neles por causa do feriado (verdadeiro por aqui).

Mas, museus e galerias à parte, Copenhague nos brinda com lugares a céu aberto imperdíveis e sem
Âncora em homenagem aos mortos na II Guerra - Nyhavn
custos como o Nyhavn, um canal perto da estação de Kogens Nytorv, escavado por soldados na década de 1670 a fim de que mercadorias pudessem chegar por barcos naquela região. Esse processo transformou a área numa das mais prósperas do país devido à chegada de vários comerciantes e empresários que ali estabeleceram suas casas e seus negócios. No entanto, durante as guerras napoleônicas, o lugar entrou em decadência e se transformou numa zona de prostituição e bebedeira. Hoje, para nossa alegria, está todo recuperado e ali você encontra vários cafés e restaurantes maravilhosos (e por valores muito altos). Ali também viveu Hans Christien Andersen – mas eu não encontrei a casa onde ele morou.

Partindo de Nyhavn, basta cruzar uma ponte no final da rua na direção do mar e ir até o Copenhagen Street Food, um lugar bem bacana, dentro de um prédio, onde se pode saborear a culinária de várias partes do mundo, inclusive do Brasil (no quiosque de nome Brasa). Além da comida e bebida, pode-se também escutar música ao vivo, entre outras formas de arte. No verão a coisa por lá fica bem mais agitada com direito a banho de mar e tudo. Para mais informações, visite o site deles: http://copenhagenstreetfood.dk/en/. Eu recomendo.

O bom em Copenhague é ir andando e descobrindo pequenas coisas interessantes como estátuas, barzinhos, parques e ruas pitorescas com casas coloridas e prédios de arquitetura interessante. Deixei meu roteiro (quase) de lado e tomei as ruas cortando canais, me impressionando com a quantidade de bicicletas e bicicletários que faziam um mar de rodas e guidons aparecerem diante de nós. Nunca vira tantas bicicletas juntas em um só lugar. Pensava que esse era um costume apenas em Amsterdã, mas, pelo que vi em ambas as cidades, Copenhague deixou a cidade holandesa no chinelo neste quesito. É impressionante ver a quantidade de pessoas circulando de bike pelas ruas. Quase tão impressionante como um restaurante que vi no meio de uma praça próxima à Torre Redonda (atração turística de onde você pode ver toda a cidade a partir do topo).

Estamos acostumados a ver frango sendo assado naqueles fornos grandes postos sobre a calçada, mas
jamais vira um leitão inteiro, partido em banda, sendo assado no meio da rua! Olhei aquilo e pensei que talvez me tornasse vegetariano um dia – um dia. O churrasqueiro (ou sei-lá-o-quê), ao me ver fotografar, me convidou a experimentar o leitão, mas eu, com o estômago meio embrulhado, preferi continuar andando em busca de Christiania.

Não, não se trata de uma princesa dinamarquesa de longas tranças loiras esperando um cavaleiro encantado. É uma área autônoma com leis próprias, fundada por hippies, artistas e anarquistas na década de 1970, dentro da cidade de Copenhague. Em todos os blogues e vídeos de viagem que vi, falaram sobre o lugar como um sítio imperdível para os turistas. A ideia que todos esses blogueiros e vlogueiros vendem é de um paraíso meio no estilo socialismo utópico, Kibutziano que me fez pô-lo como principal atração a ver na cidade. No entanto, minha opinião é totalmente o contrário disso aí. O lugar me pareceu uma cidade futurista do tipo Mad Max, onde sobreviventes de uma hecatombe nuclear se reuniram para criar uma sociedade decadente e assustadora onde o consumo e comércio de drogas são liberados. Entrei no lugar com olhos de admiração e saí de lá apressado após cinco minutos. Me pareceu um gueto onde viciados e traficantes se escondiam da polícia e criavam um estado paralelo num ambiente bem ao estilo Doom’s Day. No entanto, quem vive lá diz que quer apenas poder criar seus filhos e viver longe do caos da cidade.

Christiania - A cidade dentro de Copenhague
Não sei, cabe a cada um experienciar e tirar suas próprias conclusões. O que sei é que ao sair de lá, fui direto à Vor Frelsers Kirk (Igreja do Salvador), numa tentativa de tirar de cima de mim a nuvem de almas malfazejas que porventura tivessem tentando se acercar por causa daquela visita a lugar tão sinistro. Fiquei lá, contemplando a beleza da igreja, a paz, o silêncio daquele edifício em cujo topo há um mirante de onde se tem uma visão espetacular de Copenhague, não pude subir, no entanto, porque estava fechado a visitas.

Mais uma vez Hans Christian Andersen
Uma outra atração imperdível em Copenhague é aquela que os críticos consideram a segunda mais
A Pequena Sereia
decepcionante do mundo (para quem pensa que o Manneken Pis de Bruxelas é a primeira). Uma homenagem à história de Andersen, Den Lille Havfrue (A Pequena Sereia) repousa serena sobre uma pedra à beira-mar no cais de Langelinie. Sendo fotografada e filmada por centenas de turistas que, a exemplo do que ocorre em relação a seu coleguinha belga, se acotovelam e arriscam cair no mar gelado para tirar uma foto com ela. Embora as pessoas a achem sem graça, eu, por minha vez achei bacana, talvez, como disse uma amiga que fiz em Bruxelas e que reencontrei em Copenhague, a estátua é "pretty classy" (bem elegante, estilosa).
Kastellet 
Mas, apesar da fama da sereia, o que preferi naquela região foi a indicação do vendedor de café de quem comprei a deliciosa bebida quente para esquentar minha garganta e mãos. Ele me indicou sair dali do furdunço da estátua e entrar em Kastellet (cidadela), uma fortaleza bem ao lado da estátua aonde se vai andando em menos de 3 minutos. A fortaleza foi construída no século 17 e ainda hoje serve como área para assuntos militares, mas é aberta ao público para visitação. Lá, pode-se ver o único moinho da Dinamarca – segundo o vendedor de café – e ter uma visão bem idílica do lugar.
Após deixar Ksatellet, lembre de passar na igreja de Saint Alban – bem bacana.

 “Então é Natal, a festa cristã”
Em minha família o Natal é uma data muito querida e aguardada, não só pela linda mensagem religiosa do nascimento do filho de Deus para iluminar os homens, como também por podermos nos reunir em família e encontrarmos os entes queridos que vivem distantes ou que o dia-a-dia distancia. Mas esse ano eu estava ali em Copenhague, longe de todos e ainda sem saber o que fazer na minha noite de Natal, uma vez que nada funciona na capital dinamarquesa e as ruas estão totalmente desertas. Enquanto tomava café, duas vizinhas minhas de Salvador que estavam no mesmo quarto que eu (as conheci em Copenhague) me disseram que o hostel iria organizar uma festa à noite e que poderíamos participar. Achei que seria melhor do que ficar no quarto assistindo a edição de Natal de Sense8 ou algum filme, ou choramingando pelo Skype enquanto o pessoal lá em casa se arrumava pra ceia. Pois bem, depois de muito andar durante o dia, fui para a área comum do hostel sem esperar muita coisa. Comprei um Irish coffee, sentei numa mesa, e esperei. Em poucos minutos minha mesa estava cheia de gente saudosa de casa e muito afim de fazer novas amizades. Sentamos todos a conversar, comer e rir muito. Pessoas de países diferentes, culturas diferentes, ali, reunidos pela festa mais significativa do mundo abrindo os corações e deixando a alegria da vida inundá-lo. Hans Christian Andersen deveria estar ali, contente de ver como a sociedade que um dia ele descreveu havia se transformado na noite de Natal.
Igreja de Mármore - Copenhague


O que ver e fazer em Copenhague:
Nyhavn
Palácio de Malienborg (ver a troca da guarda às 11:30)
Igreja de Mármore
St Alban’s church
Kastellet (ver a pequena sereia)
Castelo de Rosemborg
The round Tower
Tycho Brahe Planetarium
Tivoli Gardens
Gammel Strand
Stroget
Vor Frelsers Kirk (The Savior Church)
Christianshavn
Christiania (??)
Copenhague Street Food (restaurant brasileiro Brasa)

Borsen - a Antiga Bolsa de Valores de Copenhague

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sexta-feira, janeiro 06, 2017

Bruxelas - Bélgica - a cidade da Grand Place e do Mont des Arts

Tintin, personagem símbolo da Bélgica
A minha viagem começou em Portugal, mas não vou falar sobre as terras lusitanas agora. Quero começar a falar sobre meu segundo destino: A Bélgica, um nome que sempre gostei de pronunciar e que sempre me levou a pensar em chocolate, Smurffs, Tintin, waffles e, mais recentemente, Stromae.

A Bélgica é um país pequeno (ap. 30 528 km²), mais ou menos do tamanho do estado de Alagoas (ap. 27.768 km²), cuja capital é Bruxelas – um nome que não é tão bonitinho assim -, e foi lá que eu cheguei numa tardinha de inverno frio (mas frio mesmo!) e céu azul.

Embora eu tivesse colhido informações aqui e ali sobre o que fazer, não preparei nenhum roteiro para minha visita. A única coisa que realmente planejei foi onde ficar. Procurei um lugar bem central e encontrei um hostel que se fixou numa antiga fábrica às margens do rio Charleroi-Brussel que parecia ser muito interessante e que seguramente era perto de tudo, pois nas cidades europeias, o centro é o lugar onde se encontram a maioria das atrações urbanas de interesse turístico.



O que fazer em Bruxelas
Assim que cheguei no hostel, deixei minhas malas e fui ser cliché, fazendo o que todo turista dos trópicos faz passeando no Velho Continente em dezembro: sentir o vento gelado pelas ruas estreitas e visitar o Christmas Market.

A razão pela qual eu gosto de visitar os “Mercados Natalinos” não é outra senão interação – em todos os sentidos. Lá você pode dar um mergulho rápido na cultura local, saboreando comidas e bebidas típicas, pode encontrar pessoas nativas e interagir com elas (obviamente dependendo do país em que você está e do quão comunicativ@ você é), e, de quebra, ainda se entreter muito nos parques de diversão montados especialmente para esse período.


Igreja de Santa Catarina, Bruxelas, Bélgica
Este ano, no entanto, fui muito cauteloso no passeio por causa da notícia de que mais um louco fanático tinha vitimado várias pessoas num Mercado Natalino em Berlim apenas no dia anterior à minha chegada a Bruxelas. Embora tudo parecesse normal por lá, sempre há a apreensão de que alguém possa repetir os ataques em qualquer outro lugar, inclusive (e talvez especialmente) ali, na capital da Comunidade Econômica Europeia.

Mas naquela noite as pessoas estavam mais concentradas no show de luzes sobre as paredes da linda Igreja gótico-barroca de Santa Catarina (construída em meados do século 19), nas risadas das crianças no carrossel, nas conversas animadas regadas a vinho quente e waffles cobertos por chocolate belga, do que nos fanáticos religiosos espelhados pelo mundo.

Os monumentos
Grand Place, Bruxelas, Bélgica
Victor Hugo, um dos maiores (senão o maior) escritores do Romantismo francês, no tempo em que viveu exilado em Bruxelas, disse que a sua praça central, chamada em francês de “Grand Place” (Na Bélgica se fala francês, alemão e neerlandês) era a praça mais bonita da Europa.

Eu, cético que sou em relação à opinião de segundos, não levei muita fé nessa declaração dele até que entrei na praça. Lá, fiquei sem saber para onde olhar por causa de tantos edifícios bonitos e riquíssimos em detalhes, das tantas minúcias arquitetônicas.

Nessa praça antiquíssima onde funcionaram mercados e casas de pão, vítima do intenso bombardeio francês no século 17 que a destruiu quase por inteiro, hoje têm lugar os prédios públicos como a Maison du Roi, o Museu da Cidade de Luxemburgo, o Museu da Cerveja, a Câmara Municipal, entre outros. É um lugar daqueles que não podemos deixar de visitar. Especialmente porque está ali, bem no coração da cidade, entre ou próximo a outros monumentos importantes.

Estátua do Manneken Pis, Bruxelas, Bélgica
De lá, por exemplo, pode-se ir caminhando ao encontro do que é considerado uma das três atrações turísticas mais decepcionantes do mundo – o Manneken Pis. Uma estátua de 36 cm, ao estilo querubim barroco, de um menino urinando numa bacia de bronze.

Se você for uma pessoa distraída, quase poderia passar batido sem ver a famigerada estátua que foi vítima de tantos sequestros que hoje está sob vigilância contínua e é o objeto de desejo de milhares de pessoas que visitam a cidade e se acotovelam para ter o momento extasiante da fotografia com ele, o menino do pipi.

Uma vez que você tenha sobrevivido às cotoveladas e ao empurra-empurra e esteja longe dali, continue andando até o Palácio Real, de onde poderá ir a mais duas atrações da cidade: O Parque de Bruxelas, em frente ao Palácio; e o prédio do Parlamento, atrás dele. 

Essas obras arquitetônicas são bacanas para quem gosta de prédios, arquitetura, design. Porém, se você não é fã, dê uma olhadela rápida e parta a ver o belíssimo parque que é o orgulho da cidade, ou então prossiga na caminhada até à visão extasiante que se tem do Mont des Arts, mais uma obra arquitetônica belga com valor histórico e êxtase para os olhos. 

Do Mont des Arts têm-se uma visão panorâmica da cidade, de onde se pode ver a Catedral de Bruxelas e até o Atomium, um dos cartões postais da cidade (este último eu não quis visitar por conta de passar apenas um dia na cidade) – ficará para a próxima, talvez.

Doce Bruxelas
Loja de waffles, Bruxelas, Bélgica
Não poderia terminar este post sem falar de duas comidas de que gosto muito e de uma bebida de que não gosto nada, mas que é tradição: chocolate, waffles e cerveja. 

As cervejas belgas são famosas por terem gostos e texturas diferentes – tem cerveja até com gosto de cereja! Os waffles estão em cada esquina com preços que variam do modesto 1 euro (sem recheio) até vários euros dependendo de onde você vai.

Caminhando pelas ruas do centro de Bruxelas e sentindo o perfume dos waffles vindos das várias tendas, quiosques, lojas e restaurantes, eu não resisti e comi alguns – o favorito foi o de kiwi com chocolate belga, o qual degustei sentado no Mont des Arts, vendo o povo ir e vir, o sol se pôr sobre aquela cidade bonitinha e de pessoas gentis enquanto o sabor delicioso do chocolate inundava todos os meus sentidos. 
Mont des Arts, Bruxelas, Bélgica
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sábado, outubro 15, 2016

Feliz Dia do Professor - Happy Teacher's Day!

Imagem retirada da internet - personagens de Maurício de Souza
“Cabeça, tronco e membros”, me lembro de, aos quatro ou cinco anos, estar sentado na sala da casa de minha tia-avó observando-a ensinar ciências a uma turma de alunos do curso primário e lhes dizer quais eram as partes fundamentais do corpo humano. Ela era professora aposentada, mas nunca deixou de transmitir – sem cobrar um tostão -  seu conhecimento em diversas disciplinas para aquele bando de crianças e adolescentes que se apinhavam na sala de sua casa. Pessoas financeiramente carentes que ali podiam aprender ou reforçar o aprendizado do currículo escolar.

Nesse mesmo dia em que minha memória se fixa, uma moça entrou apressada em casa de minha tia, acompanhada de uma mulher - que agora penso ter sido sua mãe -, e com um papel enrolado nãos mãos disse, interrompendo a aula, lágrimas escorrendo nos olhos de ambas: “Dona Zita, me formei!!!”. Lembro de minha tia, sorriso largo no rosto, fixando aqueles olhos azuis brilhantes sobre a moça, dizer: “Hoje é um dia extremamente feliz para nós três!”.

Antes de ir embora, a mãe da moça olhou para todos os meninos e meninas que estavam ali e falou algumas coisas sobre as quais o tempo já não me deixa ter clareza, mas dentre as quais uma frase nunca mais se apagou: “Essa mulher mudou a nossa vida para sempre!”.

Não sei por que motivo tem coisas que a memória grava e às quais se prende com tentáculos e ventosas, enquanto  d'outras ela simplesmente não deixa sequer vestígios. De qualquer forma, dessas lembranças que ficam, a que citei ainda hoje é clara como água pura na minha alma. Me lembro, inclusive, de ter sentido um imenso orgulho de minha velha e de chorar junto quando ela, emocionada pelo que a moça e sua mãe diziam, não segurou mais sua emoção e com sua vozinha mansa repetiu, satisfeita: “Hoje é um dia extremamente feliz para nós três!”.

Acho que foi bem a partir desse dia que eu comecei a sustentar em meu coração a vontade de ser como minha tia: ensinar às pessoas, transmitir meu conhecimento, viver para ajudar o próximo a subir os degraus da vida, “transformar suas vidas para sempre!”, assim como ela transformou a de tantos e também a minha com seu exemplo de amor ao próximo.

Pois ensinar, ter prazer em transmitir o que se conhece, querer que o outro saiba tanto ou mais do que a gente mesmo, mudar a vida das pessoas através do conhecimento, é um ato de amor. Muito mais amor ainda quando, inseridos numa nação que deixa a educação no fundo, bem fundo do quintal (salvo se você paga os olhos da cara para tê-la); num país onde jogadores de futebol (muitos deles sem instrução intelectual ou qualquer vestígio de altruísmo) são deuses gloriosos merecedores de reverência e honra idólatra em desfiles em carros públicos e fotos emoldurando as páginas de redes sociais e quartos de dormir de tanta gente; enquanto professores são vistos – via de regra - como cidadãos de terceira classe, relegados às lembranças magoadas e rancorosas daqueles que têm de fazer a lição de casa quando podiam estar jogando vídeo games.

No entanto, esses mesmos professores resistem todos os dias, e, por mais que a tarefa de querer viver para o outro, de desejar “mudar sua vida para sempre!”, de ver o outro sendo melhor hoje do que ontem, pareça um trabalho hercúleo e sem retorno, resistem impávidos como o colosso da história antiga e continuam em seu sonho quixotesco a acreditar que podem transformar o mundo toda vez que no fim de um semestre, em meio a milhares de pessoas a quem transmitiu o conhecimento adquirido em uma vida inteira, um/a alun@ lhe dá um abraço e lhe diz: “muito obrigado por tudo”.

“Cabeça, tronco e membros” não são apenas verdades entendidas nas aulas de ciências, mas também são uma representação daqueles que no dia 15 de outubro podem comemorar por mudarem a vida de alguém através do seu conhecimento, da sua força e do seu corpo.

Parabéns a todas essas pessoas que dedicaram sua vida a me ensinar desde antes da escola e até após a faculdade! Obrigado, vocês mudaram minha vida para sempre!
Parabéns aos 44 heróis que se formaram comigo no curso de Letras e que continuam a mudar a vida de tantos!
Parabéns aos meus alunos-professores que estão no caminho para mudar a vida de tantos para sempre!
Parabéns a nós professores que iremos mudar a vida de tantos – para sempre!

Imagem retirada da internet com referência à fonte




segunda-feira, setembro 12, 2016

Ílhavo - Aveiro - lugar ancestral

Rua no Centro de Ílhavo - Aveiro
Saí de Coimbra sob o efeito das descobertas que fiz, ainda com uma forte sensação de incerteza sobre o que eu deveria esperar de Aveiro. No entanto, ao respirar o ar úmido e frio, sentir a rápida chuva de inverno tocando meu rosto quando saltei do ônibus, pareceu reavivar aquele significado especial que eu fui construindo pelos meses de pesquisa genealógica. Obviamente já havia sentido a chuva fina invernal portuguesa e de outros lugares, mas naquele dia, naquele lugar, tudo retomava um sentido novo, um significado singular, na busca pelo "conhece-te a ti mesmo" do aforismo antigo. 
As ruas cobertas de paralelepípedos escuros, as calçadas de pedrinhas brancas, as casas de azulejos coloridos, elementos aos quais me habituara na cidade do São Salvador da Bahia, me davam uma nostalgia diferente, me envolvendo todo num manto de acolhimento da alma, por uma sensação tão palpável quanto os pelos dos braços se eriçando de emoção pela descoberta de tesouros perdidos. 
Registro de passaporte de meu bisavô expedido em 1904
O meu tesouro ali tinha valor sentimental, ao qual eu estava ligado por laços de sangue ancestral e que apenas recentemente havia descoberto pela certidão de nascimento de minha avó e por um site encontrado ao acaso na internet (mais informações sobre minhas buscas aqui: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/05/arvore-genealogica-em-busca-das-origens.html). Daquela cidade onde a vida parecia caminhar vagarosamente, tranquilamente, como as nuvens que corriam o céu, viera para o Brasil um dos meus bisavôs paternos em busca de fortuna e/ou. quem sabe, de amores, encontrando os dois na cidade da Bahia. Agora, eu fazia o movimento inverso, buscando apenas conhecer a história do homem que pela década de 1890 decidira, pela primeira vez, deixar sua cidade natal para desbravar o oceano e fazer história, mas sobre quem eu não conhecia muito, a não ser pelos registros das certidões de seus ancestrais, por um ou outro anúncio na seção de negócios de um jornal baiano dos anos de 1907-1910, e de algumas fotos no álbum de família de minha tia.
Foto do álbum de Família
Uma dessas fotos, bem envelhecida, tinha uma legenda que dizia: "Os filhos de Berardo Rocha saudando seu pai". No entanto, por mais que olhasse aquele retrato, não conseguia reconhecer minha avó ou seus irmãos em nenhuma das crianças que ali posaram, imortalizadas, para a posteridade. Além disso, na foto havia apenas uma menina, mais velha entre todos, que com absoluta certeza não seria minha avó, apesar de minha tia insistir que um daqueles pequenos era sua mãe. Apenas quando cheguei a Aveiro e por indicação do meu amigo, o senhor Fernando Martins, resolvi o mistério da fotografia indo ao Arquivo Distrital. 
No Arquivo Distrital de Aradas eu descobri, com a ajuda dos simpaticíssimos funcionários do lugar, que meu bisavô Berardo Rocha tinha ficado viúvo de seu primeiro casamento com Ângela Alves Bonjardim, e que após seu falecimento, ele levou os filhos para Portugal para morarem com os avós, voltando ao Brasil em seguida para continuar cuidando de seus negócios e, pouco tempo depois, casar-se com minha bisavó Irma Júlia de Almeida Monteiro. 
Lá no Arquivo de Aradas, também tive acesso aos nomes das crianças que meu bisavô deixara em Portugal com os seus pais - cinco filhos, conforme mostrava a fotografia. A informação caiu como uma bomba, não no sentido devastador da expressão, mas uma bomba de espanto e felicidade - pois isso queria dizer que a minha família tinha crescido, que minha avó tinha irmãos que, ao que parece, ela não conheceu, e que agora eu não estaria apenas procurando por aqueles que já há muito haviam partido. Mas pelos vivos que compartilhavam comigo os mesmos ancestrais. 

Uma lápide, uma lira, um encontro
O senhor Fernando Martins me havia indicado que no cemitério de Ílhavo havia um jazigo singular por ser encimado por uma lira, em homenagem a um músico da cidade falecido no século passado, mas cujo nome ele não sabia. Tendo a informação de que meu trisavô era músico, se acendeu em mim aquela esperança meio tênue que nos chega quando queremos nos apegar a algum pequeno detalhe que nos traga uma resposta para algo que não sabemos alcançar. Por isso, a primeira coisa que fiz ao chegar ao Ílhavo depois de procurar a câmara municipal e o cartório da cidade, que ficam no mesmo prédio, foi me dirigir à necrópole.
No caminho, por um desses motivos que a gente não compreende direito, decidi puxar conversa com
Pia batismal da igreja de S. Salvador do Ílhavo
um senhor que estava sentado na praça. Ao lhe contar meu caso, ele logo se interessou em me ajudar e me apresentou ao seu amigo que conhecia muito da história e da gente do Ílhavo. E lá ficamos os três: eu, o senhor Duarte e o senhor Antônio Bizarro a conversar por horas sobre a cidade e as pessoas que supostamente teriam ligação comigo. A certa altura da conversa, meus amigos se despediram de mim, e o senhor Antônio se ofereceu a me levar até a rua do cemitério para que pudéssemos conversar mais um pouco e para que eu conhecesse a igreja onde meus ancestrais foram batizados e casados por várias gerações. Lá chegando, ele se despediu com a promessa de continuar procurando por meus parentes a partir daquele dia.







Mais uma vez o cemitério guardava emoções
A andada foi curta, e, logo que cheguei, passei a percorrer avidamente as lápides e jazigos procurando, como quem buscava um baú de jóias, a tal campa com a lira. Apesar de o cemitério ser informatizado - há um terminal de computador ao alcance do visitante -, só depois de andar muito consegui encontrar a referida lápide. Ver o nome sob aquele símbolo me encheu de uma felicidade tão grande que tudo o que consegui fazer nos próximos minutos foi apenas olhar o jazigo, conferir os nomes, e sentir um aperto no coração e um arrepio emocionado correr minha espinha. Aquelas pessoas que eram parte de minha família e que eu não tive o prazer de conhecer estavam ali e eu não podia dizer-lhes o quanto eu estava feliz em tê-los descoberto. Fiquei algum tempo, parado, absorto em pensamentos e perguntas que talvez jamais fossem respondidas.
Havia um vaso de flores lá, o que significava que alguém devia cuidar do jazigo. Quis deixar um bilhete sobre ele com meu nome e e-mail, mas pensei que a chuva logo o destruiria. Desisti da ideia e fui procurar as outras campas onde estariam os irmãos e tios de minha avó.
Enquanto caminhava entre uma lápide e outra, vi uma jovem senhora cuidando de um jazigo. Me aproximei, perguntei se ela, por acaso, tinha visto uma lápide com o nome de Álvaro Rocha, pois estava procurando há algum tempo e não conseguia encontrar. Ela demonstrou surpresa com a pergunta e me apontou onde ficava a tal campa. Agradeci e lá fui eu, coração a mil, querendo ver o rosto do meu tio-avô.
Meus trisavós e minha tia-avó Aurora
Lá estava ele, o jazigo de mármore, o nome e a foto. Parei surpreso, procurei naquele rosto traços de minha avó, de meus tios. A senhora se aproximou de mim. Perguntou se era aquela lápide que eu procurava mesmo. Eu lhe mostrei os nomes que tinha em mãos e as informações que conseguira no Arquivo de Aradas e na Junta de Freguesia. Ela sorriu e me disse: "Pois se é este o seu parente, ele também é meu parente, irmão do meu pai". Os momentos que se seguiram pareceram infindáveis. Sabe quando ficamos mudos, tentando entender o que está acontecendo, ao nosso redor tudo perde o som e só conseguimos nos concentrar na frase "como assim?" sem conseguir pronunciar nada? Foi isso mesmo o que aconteceu. Mas a Joana quebrou o silêncio me explicando quem era aquele senhor, quem era ela e como ela estava surpresa em saber que teria um primo brasileiro. Conversamos um pouco e lhe passei meus contatos caso ela lembrasse de algo que confirmasse o parentesco, como a data de nascimento do tio em questão. Nos despedimos e ela me mostrou onde havia uma floricultura para que eu pudesse fazer minha homenagem aos meus trisavós João da Rocha Carolla e Maria Dias do Rosário.
A floricultura Lady Flor fica ao lado do cemitério. Sua dona, a senhora Laíde, se emocionou ao saber de um brasileiro que tinha saído de tão longe em busca de sua história e, com todo o carinho de uma avozinha portuguesa, me fez um arranjo com lindas flores verdes e amarelas para que eu homenageasse os meus mortos. Conversamos muito e eu descobri que além de florista e talentosa nos arranjos das flores, aquela senhora era também poetisa! A conversa nos rendeu grandes momentos, após os quais voltei à campa, depositei meu arranjo ao lado do outro que lá estava e parti de volta à Coimbra. Feliz da vida e com a sensação de dever cumprido.
Ao chegar em Coimbra, vi uma multidão de mensagens enviadas no Facebook pelo marido de Joana, o Antônio, me saudando e comentando sobre a imensa surpresa e felicidade de ter descoberto um provável primo brasileiro. Ele descrevia tanta felicidade que eu fiquei emocionado à décima potência. Marcamos no dia seguinte de nos encontrarmos em Aveiro para irmos ao cartório confirmar, nos documentos que lá houvessem, o nosso parentesco.
Mas a bem da verdade, Antônio e Joana me trataram com tanto carinho, foram tão imensamente calorosos comigo, que agora pouco importava o que os documentos poderiam dizer. Laços de sangue ou não eu havia encontrado neles uma família, e um cantor de fado maravilhoso!
Recepção calorosa em Aveiro 
Ainda me lembro que no dia anterior à minha volta ao Brasil, nos encontramos no Fórum Aveiro e lá pude ouvir o Antônio cantar um fado feito pelo Vinícius de Morais para Amália Rodrigues cantar, "Saudades do Brasil em Portugal". Pois em Aveiro, posso dizer que o Poetinha Vinícius sabiamente dissera um dia: "A vida é a arte dos encontros" e dos abraços calarosos.
A propósito, o senhor Antônio Bizarro não esqueceu sua promessa. Num próximo post contarei o quanto valeu a pena ter deixado a timidez de lado e conversado com aqueles senhores que estavam na praça de Ílhavo. Maravilhosas surpresas pelo caminho...

Gostaram? Então divulguem.

P.S.: Obrigado a todos pela divulgação dos posts anteriores, especialmente aos grupos de genealogia do Facebook. Com sua ajuda tenho tido gratas surpresas.



sexta-feira, setembro 02, 2016

Um Lugar chamado Covelos - Foz de Arouce - Parte II

Quando o ônibus parou na entrada de Covelos, o dia estava muito nublado e a névoa ainda não tinha se dissipado. A estrada onde eu estava era deserta. Do lado oposto à parada de ônibus havia algumas casas e um prédio de apartamentos, mas as janelas e portas estavam fechadas. 
Atravessei a rua sem acreditar direito que estava ali, diante da vila de Covelos de onde vinha um dos meus trisavós maternos e parte de seus ancestrais. 
A vila de Covelos era um lugar totalmente desconhecido para mim até que eu iniciei minhas pesquisas genealógicas. Aliás, não somente ela, mas todos os outros lugares de onde o ramo português dos meus ancestrais saiu - exceto por Lisboa e Porto. Estar ali, portanto, era ver materializado diante de mim o nome ao qual me havia familiarizado pelos livros de batismo, casamento e óbitos da igreja católica, cujas páginas li e reli em busca de meu ancestral e seus ancestrais. 
Uma olhadela rápida e à distância me dizia que aquele lugar não mudou muito desde o dia 21 de
agosto de 1877 quando meu trisavô Domingos embarcou no vapor Minho em direção à Bahia. Apenas a fachada das casas e seus novos estilos traiam o passar dos anos. Contudo, nem todas elas haviam mudado. 
Nas paredes de pedra com suas portas e janelas faltantes ou pendentes, nas ruínas que davam ao lugar uma aura triste, melancólica, talvez chorosa por aqueles que há centenas de anos haviam indo embora, pude ter um vislumbre da vila na época da partida de meu trisavô. O lugar me deu um sentimento estranho de que eu estava em casa e ao mesmo tempo longe de casa. Especialmente porque, olhando de um lado a outro, não via ninguém, não ouvia ninguém, e nem as chaminés fumaçavam espantando o frio brando de inverno. 
Entre paradas para fotografias e anotações, um cachorrinho começou a me seguir, latindo, me levando até a gleba que sua dona arava. Cumprimentei a jovem senhora que repetia ali o que os ancestrais dela e os meus faziam há centenas de anos naquela mesma terra, e logo indaguei se ainda havia por lá uma família chamada Vaz Collaço. Num lugarejo como aquele provavelmente todas as pessoas se conheciam e a prática da boa vizinhança, que a gente vê nas pequenas cidades brasileiras, ali também deveria reinar. Ela logo me disse que sim e me apontou a casa da família que eu procurava.
O caminho de volta pela estrada parecia infindável. Titubeei um pouco, incerto se deveria ou não procurá-los. Afinal, o que eu iria dizer: "Olá, sou seu parente de quarto grau do Brasil, vim aqui lhe dar um abraço"? Os latidos do cãozinho que me seguia de volta pelo caminho ressoavam como as batidas incertas do meu coração. Eu realmente não sabia o que esperava ou o que queria dizer.
Parei diante do portão, esperei, ouvi meu fôlego, as palmas
batidas por minhas mãos, o silêncio que se seguiu. Quando já estava indo embora, uma senhora loira despontou na varanda me perguntando o que eu queria. Me apresentei, disse a que tinha vindo e perguntei se ela era da família Vaz Collaço. Ela confirmou, com a ressalva de que havia outra família de mesmo sobrenome na casa vizinha, mas que não tinham parentesco próximo - imagine que numa vila tão pequena, pessoas de mesmo sobrenome não têm parentesco próximo... tudo bem. Eu lhe disse que procurava por ancestrais de Maria Augusta, Domingos, Augusto, Maria Izabel e Abílio Vaz Collaço, todos filhos de José Vaz Collaço e
Maria Delfina de Jesus. Ela me disse que não conhecia essas pessoas e se despediu. Eu fiquei olhando pra cima, esperando alguma coisa que eu não sabia bem o que seria, uma sensação de pedra batendo no fundo do poço vazio ou de quando você, por horas e horas, faz um castelo bem bonito na areia da praia num dia lindo de sol e quando tudo está pronto, as pessoas tirando selfies no seu castelo, vem uma turma de crianças correndo e acaba com tudo e depois a onda chega e leva o resto - foi bem assim a sensação.
Baixei a cabeça, suspirei e fui descendo a ladeira, sem rumo certo, coração pesado, pensamentos perdidos, abandonado até pelo cachorrinho feio e chato que tinha me recebido com tanto barulho. Surpresa, porém: quando eu pensava que voltaria dali de mãos abanando, a mesma senhora veio correndo atrás de mim me dizer que
seu marido ouvira o que eu tinha dito e confirmara que a Maria Augusta Vaz Collaço era sua avó, mas que todo o resto da família morava agora na Guarda, e que eles não tinham mais nenhuma ligação entre si. Eu olhei pra ela, com aquele olhar do Gato de Botas do Shrek, pensando: me convide prum cafezinho, uma conversa com seu marido. Ela não entendeu. Mais uma vez me disse adeus e subiu seu caminho loiro de volta pra casa.

O consolo veio do cemitério de Foz de Arouce
Eu sabia, pelos assentos de óbito, que meus tataravós haviam sido sepultados no cemitério público de Foz de Arouce, por isso caminhei para lá . Quem sabe o silêncio dos mortos me diria mais do que a resposta dos vivos.
No caminho, fui pensando que se um dia alguém chegasse à porta da minha casa com informações sobre meus ancestrais, me mostrando documentos com datas de nascimento e óbito e sabendo tanto da história de minha família, eu iria pelo menos ter a dignidade de perguntar como ele se chamava. Mas, vá lá, nem todo mundo é curioso como eu, e aquela minha prima linda pelo menos teve compaixão de sair de sua casa ao meu encontro para me dizer que minhas pesquisas não tinham dado com os burros n'água. No mais, eu devo ser meio louco mesmo. Tão louco ao ponto de entrar no cemitério e sentir uma enorme emoção me tomar por dentro e por fora, lágrimas encherem os meus olhos, o coração acelerar e as pernas tremerem por ver diante de mim o jazigo do meu tataravô Antônio Dias Brandão. Aquele homem que foi um dos responsáveis pela minha existência, e cujos restos mortais estavam ali, tão perto de mim, numa terra que me era estrangeira e para a qual eu também era estrangeiro, mas à qual eu estava ligado irremediavelmente e para sempre em parte por causa dele. Ali dentro estava também minha tetravó e outros membros da família. Fiz uma prece, fotografei aquele jazigo tão singelamente bonito e caminhei em direção à vila de Foz de Arouce - sobre a qual já falei aqui: http://marciowaltermachado.blogspot.com.br/2016/03/europa-em-60-dias-coimbra-portugal-em.html. Depois era voltar a Coimbra e de lá ir a Aveiro continuar procurando o ramo português da minha família paterna - quem sabe os vivos de lá seriam mais receptivos.

P.S.: desculpem por escrever os nomes dos parentes em dada parte do post. Espero que com isso a narrativa não tenha sido quebrada. Fico na esperança que a curiosidade genealógica seja de família e que um dia, quem sabe, um descendente dessas pessoas venha parar aqui no blog ao buscar por seus ancestrais.

Gostaram? Então divulguem! 

Londres ao pôr do sol

Devo confessar que nesta altura do campeonato não vi sequer um jogo da Copa do Mundo na Rússia. Eu sei, o Brasil está em polvorosa, ca...