sexta-feira, março 18, 2016

Europa em 60 dias - Dublin e Irlanda do Norte - Reencontros e Descobertas

Amanhecer no Centro de Dublin
Tinha me encantado pela Irlanda quando fui um estudante em Dublin. Não só as paisagens magníficas do país, mas a amistosidade do povo, a sensação de segurança e bem-estar, e mesmo os vários dias de céu nublado e o cheiro do vento, fizeram com que eu me apaixonasse pela Ilha Esmeralda. 
No entanto, confesso que estava meio receoso de voltar ao país, pensei que esse encanto da primeira vez poderia ser perdido tão logo eu desembarcasse em solo irlandês. 
Costume House e Rio Liffey - Dublin
Mas não foi assim. Quando, no aeroporto de Budapeste, comecei a ouvir as conversas daquelas pessoas de sotaque caraterístico e sorriso largo que estavam comigo na fila da Ryanair, logo fui inundado de uma nostalgia maravilhosa. Me engajei num papo gostoso com meus companheiros de voo e até fui corrigido por uma senhora que parecia a Filomena do filme de mesmo nome quando, diante da confusãozinha que se formara em frente ao portão de embarque, lhe falei a palavra "line" para dizer que havia uma fila única para todos os voos. Ela olhou para mim com seu sorrisinho leprechaunico e me disse: "você quer dizer 'queue'. Você não quer ser diferente de nós, não é?", e me piscou o olho esquerdo para confirmar a pergunta que mais parecia uma ordem. Eu lhe sorri de volta e disse, "Não, eu sou quase um Irish, right?!", pronunciado /Óirish, róish/. Ela aplaudiu alegremente meu sotaque fake e respondeu que sim. Embora fosse diferente, já me sentia um pequeno homem de barba ruiva com trevo de quatro folhas na lapela do meu casaco verde. 
Centro de Dublin 
E essa sensação se intensificou quando saí pelos portões do Aeroporto Internacional de Dublin e senti o cheiro daquela cidade que já se havia impregnado em mim, mas estava adormecido em minha memória. Dublin tem um cheiro todo próprio, de chuva, frio e relva verde que se entranha nas narinas como o perfume de uma mãe querida.
Fui andando pelos corredores, sorvendo aquele ambiente, aquela atmosfera, o cheiro da cidade. Sabia que meus amigos já esperavam por mim na saída e que deviam estar preocupados com minha demora pensando até que havia tido algum problema no controle de passaportes, uma vez que o grande número de brasileiros no país é feito tanto por gente muito boa como por gente ruim, que leva seus costumes danosos para onde se dirigem e, por isso, os passaportes brasileiros têm sido vistos com (muito) mais precaução que antes. No entanto, minha demora se dava por eu apenas caminhar lentamente pelos corredores, lembrando todas as vezes que entrei e saí daquele aeroporto. Naquele momento, sentia o coração acelerado pela emoção de estar de volta à cidade que se tornou um dos mais queridos cantos do mundo para mim, e pela antecipação de rever meus amigos aos quais tinha encontrado em Salvador exatamente um ano antes daquele dia, quando, em férias, eles foram me visitar.
Abraços dados, saudações trocadas, sorrisos felizes, deixamos minhas malas em casa e os melhores anfitriões da Irlanda me levaram para um rango superdelicioso, à irlandesa, bem perto do lugar onde morei, mas aonde eu nunca tinha ido. O ambiente é superlegal, jovem e descontraído e a comida deliciosa. Recomendo uma visita ao Hogs & Heifers de Swords e as costelas assadas que eles fazem lá! Entre comida, bebida e música, colocamos o papo em dia e fizemos o roteiro para a minha estadia. Pois Dublin era o único lugar para o qual não tinha feito nenhum plano, apenas queria chegar lá, depois, era só seguir o vento, afinal, havia tanto o que fazer na cidade, tanto para rever, e alguns lugares fora dali para conhecer.
Happy Hour no Johnnie Fox's
Um desses lugares foi um pub supertradicional - desde 1798 - e totalmente Irish chamado Johnnie Fox's - digo "totalmente irlandês", porque na região do Temple Bar, no Centro, há muitos turistas, então, os pubs tomam uma configuração para estrangeiro ver -, com música irlandesa tradicional, muitos pints de Guiness, um delicioso Baileys coffee para esquentar, e velhinhos irlandeses conversando sobre a vida. Esse pub é chamado de o "Pub mais Alto da Irlanda" e está a uns 30 ou 40 minutos do Centro da cidade, já na região das montanhas de Wicklow. O staff é totalmente gentil - tiraram até nossas fotos e nos explicaram várias coisas sobre a cultura do lugar -, e o pub é frequentado majoritariamente por irlandeses - cerca de 98% das pessoas que estavam lá eram nativas.
Os Pubs irlandeses são lugares para onde se deve ir quando se quer realmente sentir a vida do país. Pois eles são para os irlandeses o que as praias são para nós: um lugar aonde todos vamos sem pestanejar.

Bushmills, Giants' Causeway, Carrick-a-Rede e Dark Hedges - Irlanda do Norte
Dark Hedges - Irlanda do Norte
A Irlanda do Norte é sempre um dos destinos certos para quem estuda ou visita a República da Irlanda. Geralmente as pessoas vão a esse país que, embora esteja na mesma ilha, faz parte do Reino Unido e não da República da Irlanda (por isso a moeda não é o euro, mas a libra esterlina), para visitar o Museu do Titanic, o Giant's Causeway (um conjunto impressionante de milhares de pedras de basalto que se encaixam perfeitamente como se tivessem sido postas para formar uma calçada), Carrick-a-Rede, onde há a Ponte de Corda; e agora, também, as Dark Hedges (uma avenida de faias bicentenárias enormes que se entrelaçam criando um cenário incrível), que ficaram famosas porque viraram palco para o último episódio da primeira temporada de Game of Thrones.
Eu, entretanto, não havia ido lá. Fiquei adiando a viagem até que não deu mais para ir. Por isso, assim que o sol raiou (fala-se figurativamente aqui, pois o "sol raiar" no inverno irlandês chega até a ser uma escolha sarcástica de vocabulário), nós nos arrumamos, corremos para o carro e nos mandamos a ganhar a estrada e o dia.
Torre Redonda em Bushmills
A chuva fina caía incansável sobre o teto e vidros do carro enquanto estávamos na M1, o céu cinzento contrastando com o verde vivo do mato e das plantações ao lado da estrada, música brasileira, irlandesa, pop rock, alterativa, tocando no repertório, o tempo passando a quase 100 km por hora ao passo em que gradativamente víamos o meio-fio de verde, branco e laranja mudar para azul e vermelho, e as cores das placas informativas mudarem de verde para azul, e um Union Jack (a bandeira do Reino Unido) voar tímido e solitário no mastro, nos mostrando que deixávamos a República da Irlanda e entrávamos na província de Ulster (nome irlandês da Irlanda do Norte). Quando me dei conta das transformações, meu coração começou a gelar. Me lembrei do IRA, me lembrei de protestantes e católicos, me lembrei do ódio entre irmãos, e da placa Baila Atah Cliath (nome de Dublin em irlandês) no carro. Olhei para John, ele parecia tranquilo, Olhei para Carina, ela também estava tranquila. Perguntei se estava tendo algum problema recentemente, ele disse que não havia nada sério, que as coisas estavam bem há muitos anos. Desanuviei a mente, voltei a me perder na vista e nas ruínas de casas antigas no caminho. A paisagem é tão bucólica, tão única, que mesmo nos mostrando pastos por quilômetros quadrados, torres redondas da época dos celtas e povoações tímidas despontado aqui e ali, não nos enfada nunca.
Mini Fry e chocolate quente- The Copper Kettle
Antes de chegarmos ao Giant's Causeway, precisamos parar num posto. O dono do lugar, ao nos ver chegar, levantou-se da cadeira onde estava do lado de fora da loja e meteu-se por trás balcão, seu olho reluzia, sua cara estava tesa, tensa. Nós entramos, o saudamos, ele respondeu com um aceno de cabeça rígido e quase imperceptível. Entrei no banheiro, rezando. Saí para ver a cara de John e de Carina em pânico, me pedindo para correr porque o homem tinha ido buscar uma picareta para quebrar o carro inteiro. Todos começamos a gritar como loucos, pedindo ajuda, procurando um esconderijo! Mas é claro que isto não é verdade, pelo menos não a parte dos gritos e das picaretas, falei só pra criar um climinha de expectativa.
A verdade é que, quando saí do sanitário, todos continuavam no mesmo lugar. O John e a Carina ao lado da porta me esperando, O homem teso atrás do balcão nos olhando como se fôssemos criminosos, aliás, remoendo o ódio pelo que o John representava para ele: a rebeldia irlandesa que deu um basta ao imperialismo britânico. Carina me disse que não havia lanches lá e fomos embora. Meus pelos arrepiados pelo olhar malévolo do homem que, após nós arrancarmos com o carro, saiu de dentro da loja, cuspiu no chão e disse alguma coisa inaudível. Olhei para os meus anfitriões, todos estávamos aliviados. "Ainda há gente que guarda rancores", comentou o John.
Como - graças a Deus - não encontramos rango na loja de
Menu do The Copper Kettle
conveniências, paramos numa vila próxima ao Giant's Causeway para forrar o estômago. Lá encontramos um restaurante muito ajeitadinho e confortável, com uma comida boa e barata, chamado The Copper Kettle (O Bule de Cobre) e, diferentemente do sujeito no posto, os funcionários do restaurante nos receberam hiperbem. Havia lá também um grupo de ciclistas que fazia a Rota Cênica da costa da Irlanda. Todos muito animados, comendo proteínas e gordura e bebendo café quente para enfrentar o frio e os quilômetros que os esperavam pela frente. Quando saímos do restaurante, John chamou minha atenção para a vila, me dizendo que há dois anos, quando ele esteve lá, havia várias bandeiras da Union Jack (aquela bandeira azul com uma cruz vermelha e branca) penduradas pelos postes, mas que agora não havia nenhuma. Talvez as coisas estejam mesmo ficando no passado, apesar de alguns ressentidos.
O céu começou a abrir, o sol apareceu tímido, bem tímido mesmo, mas suficiente para que aproveitássemos nosso passeio. No Giant's Causeway há uma recepção bem confortável, onde podemos aprender tanto a história quanto a mitologia envolvendo o lugar. Há também um café muito bom. Nosso guia chegou e descemos com ele para explorar a atração. O vento frio sempre presente quase quebrando nossos ossos e fazendo nossos narizes correrem rios, parecia não dizer nada ao guia que permanecia sem luvas nem proteção  para o rosto- um herói!
O sapato que Finn deixou para trás na batalha
Lá fomos nós parando aqui e ali a ouvir histórias interessantes sobre a formação geológica do Causeway; sobre a mulher que vendia cachaça dizendo que vendia água vinda de uma nascente ali mesmo para burlar as leis contra bebida alcoólica; sobre os mitos do camelo Humphrey e do gigante Finn, e as /stiuunes/ (stones, pedras), como nosso guia falava em seu sotaque nortenho, que Finn pôs ali para lutar com o gigante escocês. Mostrando que, enfim, a lenda é sempre mais interessante que a geologia para quem fez Letras.
De lá fomos à Rope Bridge, em Carrick-a-Rede. Uma ponte de madeira e cordas que liga a ilha ao um penhasco de onde, em outros tempos, os pescadores saiam para fazer suas pescas e checarem suas redes de salmão na solidão fria do mar da Irlanda.
A sensação de caminhar na ponte num dia de vento forte é única. Embaixo de você há um abismo
Rope Bridge - Carrick-a-Rede
azul e pedras escorregadias e agudas, e nas laterais só umas cordas que, apesar de seguras, parecem fios de barbante ao vento. Olhar para baixo é uma opção para os de coração forte. Manter o foco à frente, uma opção para quem quer continuar prosseguindo sem receios maiores. Eu fui andando, ignorando o vento, concentrado apenas na minha chegada. Carina do outro lado me gritava: "Olha pra baixo, Márcio!" olhei! quase me borrei todo. O vento soprando, balançando a ponte me deu vertigem. Quase parei no meio, senti o sangue correr do rosto, das mãos, meus amigos falando "vem logo", e eu lá com aquela cara de "Ai, meu Deus, o que eu vim fazer aqui!". Quando enfim cheguei ao outro lado, o alívio, a alegria de estar vivo, a sensação de quem conquistou o mundo, me possuíram. Carina bateu no meu ombro e me disse: "agora quero ver é voltar". Olhei para trás, o vento balançava a ponte, incansável. Quando saímos de lá, o sol já estava quase se pondo, fomos diretos ao Dark Hedges. Havia um grupo de turistas brasileiros com quem eu logo socializei. O cara mais falante do grupo, um paranaense que estava morando em Dublin há dois anos e parecia ser um guia turístico, começou a descrever o local para seus amigos, contando a história do lugar e do porquê tinha se tornado mundialmente famoso, eu aproveitei e fiquei só nas entocas ouvindo tudo. Valeu, colega, pela explicação gratuita.
Fotos tiradas, chuva fina começando a cair de leve, voltamos para Dublin. À noite três horas parecem infindáveis. Dormi pra só acordar em casa.

De volta a Dublin - onde está Molly Malone?!
Postes do Centro de Dublin
No dia seguinte, que foi cheio de bons reencontros e surpresas, saí de Swords, com o céu ainda escuro, em direção ao Centro naquele ônibus double-decker que há tanto tempo eu não pegava. Olhei os rostos das pessoas recém-acordadas, silentes, sentadas nas poltronas azuis confortáveis, as chácaras ao redor, o cenário bucólico na maior cidade da Irlanda, na capital do país. Um sentimento de melancolia doce me envolveu. Percebi o quanto de saudade eu sentia daquele lugar calmo, de gente tranquila e amistosa.
As coisas estavam diferentes, embora parecessem iguais. O trajeto do ônibus não era exatamente o mesmo, a ponte em frente ao Eden's Quay (/ki/) tinha sido terminada, o centro da cidade sofria várias intervenções para as novas rotas dos Luas (os trens de Dublin). O dia amanheceia lento enquanto eu saltava do double-decker e caminhava pelas ruas frias. Antes de ir reencontrar meus antigos professores, fui dar uma volta pela Grafton Street, agora sem as pedras
Passarinho no Saint Stephen's Green
vermelhas que a calçavam, delas restam apenas resquícios em algumas vielinhas e na rua onde há a estátua de Philip Lynott, da banda Thin Lizzy. O Stephen's Green, no entanto, continuava igual: os patinhos, gaivotas, galinhas d'água, fazendo festa no lago, gente sentada nos bancos comendo seu café da manhã, esquilos correndo por aqui e acolá. Eu fui caminhando lentamente, Sentei diante do lago e, por instinto, comecei a cantar João Gilberto, baixinho: "...quiet talks and quiet dreams, quiet walks by quiet streams...", me perdi na minha música e na paz do lugar. Uma senhora que passeava com seu cachorro parou diante de mim e me disse: Que bela música! Que voz suave! posso te ouvir cantar?". Eu, totalmente sem jeito, disse que sim. Ela sentou-se ao meu lado e pediu que eu repetisse a mesma música. Eu, com cara de bolacha, comecei a cantar. No final ela aplaudiu e me disse: "Eu adoro ouvir
Feira da Moore Street
as pessoas cantarem, faz a vida tão mais bonita! E numa manhã tão escura as músicas sempre fazem o dia brilhar". E aí  me perguntou qual era a língua da segunda parte da música. O resto vocês já sabem onde foi parar: Brasil isso, Bahia aquilo, Salvador aquilo outro. Ela se despediu, com um aperto de mão e um sorriso imenso, e lá se foram ela e seu cachorrinho pequeno e desengonçado, cuja raça eu não tenho ideia qual seja.
A Irlanda é assim: pessoas calorosas e gentis, dias frios e cinzentos. A Dublin de Molly Malone continuava a mesma na essência, embora algo tenha mudado aqui e ali. Aliás, a própria Molly Malone não estava mais na Grafton Street. Sua estátua de bronze havia sido retirada, devido às obras do Luas, do lugar onde repousara por algumas décadas. "In Dublin fair city I didn't first set my eyes on sweet Molly Malone" que não estava mais lá "crying cockles and
mussels alive, alive, oh!". No entanto, sua presença podia ser sentida ao cruzarmos a Grafton de volta ao Trinity College, ao Bank of Ireland, à Dame Street onde eu fui rever meus antigos professores com os quais tive uma manhã maravilhosa de lembranças e conversas calorosas. Meu Deus! como o tempo passou sem passar! Aquelas pessoas de mentes brilhantes, de doçura suave, de conversa fácil, estavam ali, muito felizes em me rever e saber notícias minhas. Tantas pessoas passaram por eles, mas ainda assim eles lembravam de detalhes de meu período de estudante. Meu dia foi maravilhoso assim - revendo a linda cidade, reencontrando amigos, voltando aos lugares aonde costumava ir, e terminando num pub no centro da cidade à noite onde fomos ver um show de música e dança irlandesas esquentadas com um Baileys coffee (fiquei viciado nele).

Adeus também foi feito pra se dizer "bye-bye, so long, farwell"
Pôr do sol em Skerries - Co. Dublin
No meu último dia na cidade, nós fomos a uma vila próxima a Swords, Co. Dublin, à beira-mar, chamada Skerries, a qual eu não conhecia, mas aonde recomendo a todos darem um pulinho. O lugar, como todas as vilas irlandesas que conheci, é muito tranquilo e convida à meditação, bonomia e paz de espírito. A vila em si é formada por duas grandes ruas e há lá também alguns monumentos bem interessantes como um forte construído pelos ingleses para sua defesa contra Napoleão Bonaparte, e torres redondas. Lá, fomos almoçar num restaurante muito bacana chamado Blue Bar Café, O ambiente é muito familiar, o lugar requintado, o staff atencioso e a comida com valor muito bom.
Com o sol que se punha, chegava a hora de arrumar as malas e alçar voo. Não sei bem o que estava sentindo ali, mas com certeza era uma sensação boa, uma alegria em saber que Dublin da primeira, da segunda, da milésima vez, continua sempre um lugar especial. Meus receios iniciais não tinham fundamento. A cidade continuava e por muito tempo ainda será, como me disse o vendedor de souvenirs em Budapeste, "uma segunda casa" para mim. Especialmente porque Dublin não é monumentos, ou parques, ou chuva e frio apenas, é emoção. Minhas memórias são afetivas, por causa de todo mundo que conheci lá, de todas as amizades que fiz, de todas as lembranças boas que fiz antes e agora.
Carina, John e eu caminhamos em direção a um playground próximo à Torre Redonda e ficamos a
Skerries - Co. Dublin
observar o mar e a ilha aonde, dependendo da maré, podemos ir caminhando. Sentamos no cais a conversar e a falar da vida enquanto o sol se punha e as estrelas começavam a despontar no céu. A noite seria longa, iríamos à festa de aniversário de Felipe, meu amigo e conterrâneo de Salvador que estava morando em Dublin de tanto que eu enchi a cabeça dele sobre o lugar. A festa seria num pub bem bacana no centro, e a conversa regada a totó, risadas, comida boa e Glucosade.
Às quatro da manhã, parti de volta a Portugal. Começaria a segunda etapa da minha viagem, aquela para a qual eu tinha voltado à Europa em primeiro lugar: a busca pelas minhas raízes e história de meus ancestrais.  Me despedi dos meus queridos anfitriões e entrei pelo saguão do aereporto internacional de Dublin, com uma sensação de saudade antecipada se apoderando de mim.

Recomendo assistir ao vídeo - The Dubliners - Molly Malone




domingo, março 06, 2016

Europa em 60 dias - Budapeste, Hungria - A Cidade dos Monumentos

A parte Peste da cidade vista de Buda com o prédio do Parlamento à esquerda e o Danúbio cortando a cidade
O nome Budapeste sempre me causou estranheza e curiosidade.Quando eu era criança pensava que uma grande praga havia assolado o lugar e que algum ser mítico oriental resolvera o problema. Depois fui descobrir que duas cidades haviam se unido para integrar o que hoje é a capital da Hungria. Budapeste, na verdade, são nomes que designavam lugares diferentes.

Buda vem de uma palavra eslava que significa "água" e Pest significa "fornos ardentes". As cidades foram unificadas em 1873 para formar a bela capital magiar, que hoje é uma das mais bonitas capitais europeias.

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Cheguei lá numa noite fria e de vento forte, vindo do calorzinho bom de Atenas, e fui recebido no aeroporto por um amigo mineiro que tinha conhecido durante a Missa do Galo, no Vaticano.

Ele estava fazendo parte de seu mestrado na cidade e voltava ao Brasil alguns dias após minha visita. O Luiz é desses caras que são agradáveis por natureza e que te deixam super à vontade pelo seu jeitão mineiro e tranquilo de ser.

Pode-se ver o tipo de pessoa pela gentileza: quantos de nós é capaz de ter tanta consideração por alguém pra sair numa noite de graus abaixo de zero a fim de pegar um recém-conhecido no aeroporto e levá-lo até seu alojamento?

Apesar dos meus protestos iniciais, devo confessar que fiquei superfeliz com a calorosa recepção por dois motivos: primeiro, por rever o meu camarada; segundo, porque com certeza não me perderia pela cidade à noite.

É como o próprio Luiz me disse: "Receber as pessoas na sua primeira vez em algum lugar é algo que devemos fazer, não é? Torna a chegada muito mais tranquila e agradável", e também saborosa! Ao
Rua de Budapeste
desembarcamos na estação Déak Ferenc, meu amigo me apresentou uma das típicas delícias da culinária budapestina, o kürtokalács.

Apesar do nome parecer um palavrão, nada mais é que um "pão" enrolado e coberto com açúcar e canela, servido quente e custando apenas 1 euro -  a moeda do país é o forinte húngaro (lembre de trocar o dinheiro antes de viajar para a Hungria), mas nesse stand da estação eles abriram exceção e aceitaram o euro.

Depois de provar o kürtokalács, pois não se pode comer dentro do trem, caminhamos em direção à linha amarela que era a linha para o meu hostel.

No percurso fiquei sabendo que não só aquele era o metrô mais antigo do continente, como também que ele tinha sido feito pela elite da cidade que queria ir ao parque sem ter de passar pelas ruas e ter contato com a plebe.

Daí eles cavaram um buraco no meio da rua, de cima para baixo, e fizeram a linha amarela (hoje tem mais três linhas e os trens têm as cores das linhas) a qual permanece praticamente da mesma forma desde 1896, o que torna a viagem uma volta no tempo, especialmente pelo barulho do vagão passando pelos trilhos e parando nas estações nos dando a impressão de que vai quebrar a qualquer momento.
Dentro do Castelo de Buda
Ao comprar o bilhete, lembre-se de validá-lo na máquina, pois nos trens e nas estações há fiscais que irão te multar se não virem o bilhetinho furado.

O bilhete único - que me levou da estação de ônibus do aeroporto à estação de metrô Oktogon - custa 350 HUF , mas se você for passar mais de um dia na cidade e não desejar fazer caminhadas, vale a pena comprar outros tipos de bilhetes como o de 24 horas, o de 72 horas ou o de 10 dias, este último custa 3000 HUFs).


Dentro do castelo de Buda
Pegamos o trem e alguns minutos depois, lá saíamos nós na praça Oktogon, despontando no frio gelado, a caminho do Friends Hostel.

As ruas são extremamente organizadas, as pessoas caminham como se tivessem uma linha imaginária a qual elas seguem, ordeiramente; os carros param antes mesmo de você pôr o pé na faixa - tão diferente do caos de Roma onde, mesmo com o sinal verde para os pedestres, os carros continuam passando ininterruptamente até que algum herói mete o pé e vai atravessando quase sendo atropelado.

Menos de cinco minutos depois, estávamos subindo o elevador antigo daquele prédio antigo, enorme, parecendo clássico dos anos 20 ou 30. Quem nos recebeu foi um dos sócios do hostel, o Jack.

Muito cordial e preciso nas suas frases, antes de me mostrar o quarto, pediu que tirasse os sapatos - isso mesmo! em Budapeste não se anda de sapatos de rua nas casas! Me deu as instruções, as senhas da porta de entrada, do wifi, e me desejou uma ótima estadia na cidade. Entrei naquele quarto enorme, com janelas que iam do topo até o chão, com vista para a rua.

Pus minha mala naquele lindo guarda-roupa de madeira antigo e antes de me jogar naquela camona, também de madeira maciça, fui com o Luiz comer alguma coisa no Starbucks do outro lado da rua. Está aí um hostel que recomendo.

O Friends Hostel é no centro da cidade, você pode ir a todos os lugares em poucos minutos de caminhada (eu só peguei o metrô para ir ao hostel e voltar ao aeroporto), os quartos são individuais; como é num prédio residencial, não se faz barulho e os caras lá, que também são os donos, são muito gentis e prestativos, o preço também é muito em conta. Portanto, se você quiser se hospedar num lugar bacana, organizado e limpo, ter certeza que dormirá otimamente à noite e que estará perto de tudo e pagar  um bom preço, eis o seu hostel.
Parte da cidade de Budapeste vista do topo da Basílica de Santo Estevão
Os monumentos 
Budapeste não é uma cidade de belezas naturais, apesar do Danúbio cortá-la ao meio, mas, sim, uma cidade de monumentos fascinantes. Eu já tinha feito todos os meus roteiros pelo Google maps antes de sair do Brasil, então sabia exatamente aonde ir e como chegar caminhando.

No entanto, decidi não seguir a ordem na qual o tinha feito. Apenas aproveitei o dia de sol e fui caminhando pelas ruas e visitando os lugares selecionados ou descobrindo outros que não estavam no script.
Terror Háza - Casa do terror
Quando estiver caminhando por Budapeste, preste atenção às placas postas nas calçadas, elas têm informações históricas sobre os prédios e ruas e você pode descobrir muito sobre a cidade com elas.

Meu primeiro destino foi a Casa do Terror (Terror Háza), a apenas três minutos do Friends Hostel. O lugar já assusta antes de entrarmos no prédio. Em frente ao museu, entre a calçada e a rua, há uma parede de ferro e correntes que servia como objeto de tortura durante a ocupação socialista da Hungria.

Dentro do prédio você é levado por vários andares e salas que recontam a história e a vida cotidiana dentro desses lugares e pelas ruas e cidades do país. Há também vídeos com o depoimento de sobreviventes do nazismo e do socialismo - deveria também ter vários lenços pra você enxugar os olhos por causa da comoção que o lugar te causa.

Eu passei minha manhã lá aprendendo sobre aquele país e aquele povo outrora tão guerreiro e que havia caído nas garras do fascismo alemão e soviético por tanto tempo. Me lembrei do prédio do DOPS e pensei que seria interessante que preservássemos a história da ditadura no Brasil como eles fizeram no museu do terror - obviamente ouvindo os dois lados do conflito.

Não sei o que aconteceu com esse nosso prédio, mas ter um museu em suas instalações seria muito bom para preservar a nossa história e recontá-la todos os dias a quem o vistasse.

A ida à Casa do Terror é para aqueles de coração forte, especialmente de manhã cedo quando as taxas de testosterona estão baixas e a gente se emociona com tudo. Mas é um destino sine qua non para quem quer conhecer a história política relativamente recente da Hungria, do ponto de vista dos húngaros. O ingresso geral (há outros tipos) custa 2000 HUFs e você pode tomar informações aqui: www.houseofterror.hu

Basílica de Santo Estevão - Budapeste

De volta às ruas, à luz brilhante do sol e ao frio do vento de inverno, fui descobrindo os lugares lindos daquela cidade. Entre eles, a Basílica de Santo Estevão, um prédio imponente construído em meados do século 19, tornou-se o edifício mais alto e a maior igreja da Hungria.

É um prédio de arquitetura magnífica e majestosa em estilo neoclássico e dentro do qual você deseja passar horas a fim contemplando seu interior. Dentro da igreja há também a Capela da Mão Direita onde se encontra a mão mumificada do rei Santo Estevão I, eu achei o passeio meio bizarro, mas muito interessante.

 No entanto, a minha parte favorita da Basílica foi o topo. De lá temos um mirante de onde se pode ver a cidade em 360º. Super recomendo a subida (à qual se tem acesso pagando uma pequeníssima taxa). Mas se prepare, são 364 degraus. Há um elevador, mas pra chegar a ele, há que se subir muito as escadinhas estreitas.

Me lembro de um trio de meninas irlandesas que encontrei na subida e que, depois de várias vezes dizerem durante o trajeto "What a
Basílica de Santo Estevão - Budapeste
fecking climb! Jayzus!", deram um grito imenso de alegria quando enfim chegamos ao elevador. Daí já se percebe o que enfrentamos. Porém, garanto que o esforço será recompensado.

Eu, particularmente, fiquei boquiaberto com a vista. Se dentro da igreja não dá vontade de sair, de cima dela então a vontade é de passar horas infindáveis.

Diante da igreja há uma praça onde encontramos gente de todos os lugares e de todos os tipos. Foi lá, por exemplo, que encontrei um monge Hare Krishna pedindo doações para sua comunidade - havia vários deles.

Ele me interpelou em Húngaro e eu lhe respondi em inglês que não estava interessado. Ao ouvir minha resposta, ele sorriu largamente e me disse afoito: "Eu também sou americano, de Boston. E você, Califórnia?". Eu respondi que de fato eu era americano, mas do sul, da América do Sul, mais especificamente de Salvador, Bahia, Brasil.
Budapeste - Hungria

Eu geralmente não dou atenção a esse pessoal que supostamente trabalha com agências ou ONGs, ou qualquer coisa semelhante, porque sei que muitos deles estão ali usando indevidamente o nome dessas instituições.

Em Lisboa, por exemplo, onde várias vezes eu era parado por alguém, desenvolvi uma frase que na hora afasta esse povo de mim. Quando uma dessas mulheres com a plaquetinha na mão veio me pedir dinheiro pra uma suposta UNICEF, eu olhei pra ela e disse, carregando nos "r" e "x" "Doroshki Nin Portugashka".

Ela se assustou com o dialeto e disse " O quê?", eu repeti, ela me olhou com raiva e saiu. Comecei a fazer isso em todo lugar apenas trocando Portugashka por Spanishka, Germanika, Greshka, Hungarishka, etc. É tiro e queda. Quer se ver livre da insistência desses meliantes? manda ver no dialeto.

Mão de Santo Estevão
Com o monge foi diferente. Achei que ele era sincero. Daí continuamos a conversar sobre mim e sobre ele, mais sobre ele, a quem eu enchia de perguntas.

A história de Andrew me intrigou muito. Um jovem de vinte e poucos anos, estadunidense, que tinha deixado a faculdade de direito, uma confortável vida de classe média e a igreja presbiteriana para viajar o mundo e se tornar um monge Hare Krishna, de cabeça rapada, pedindo esmola nas ruas de Budapeste.

Perguntei a ele o motivo dessa mudança tão radical e a resposta foi muito parecida com a de Judith (a senhora que conheci em Barcelona) e de outras pessoas que encontrei pelo caminho: "cansado de minha vida vazia". Jovens, velhos, homens e mulheres, muita gente cansada de suas vidas "vazias" por aí. Dei uma graninha a ele continuei meu caminho rumo ao castelo de Buda (Budai Var).
Ponte das Correntes vista de dentro do teleférico

Para chegar lá, partindo da basílica de Santo Estevão, é só atravessar a rua e depois a ponte das correntes - sobre a qual eu parei para vários flashes. Depois, é pagar, pegar o teleférico (Budavari Siklo) e subir a pequena colina que te deixa às portas do castelo de onde você tem outra visão maravilhosa da cidade e do rio.

Encontrei um grupo de brasileiros lá que estavam fazendo intercâmbio em Dublin  Mas não me demorei muito com eles. Apenas troquei algumas palavras, pedi que tirassem umas fotos minhas e segui meu caminho pelo lindo lugar até a Igreja de Matias e o Bastião dos Pescadores.
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Igreja de Matias - Budapeste
Bastião dos Pescadores - Budapeste














Igreja de Matias - Budapeste
A igreja de Matias foi originalmente construída no século 13, mas passou por várias reformas até chegar, no século 20, à estrutura que tem hoje. O que mais me chamou a atenção na parte exterior dela foi a cor do telhado, pintado de forma a lembrar um tapete.

Não conseguia parar de admirá-la de todos os ângulos. As cores se tornaram ainda mais vibrantes e bonitas por causa da luz de ocaso. Ao lado da igreja há uma estátua do rei Santo Estevão I e ao redor dela o monumento chamado o Bastião dos Pescadores com suas sete torres representando os povos magiares.
 Este monumento foi, de todos, o meu favorito. O lugar chama à contemplação e é de uma beleza arquitetônica ímpar.

Pode-se sentar e de lá contemplar toda a parte Peste da capital húngara e ainda ter uma visão maravilhosa do Danúbio. Pode-se também sentar no jardim de frente à igreja e ao Bastião e contemplar a ambos enquanto se faz uma boquinha. Este se tornou o meu lugar favorito de Budapeste. A sensação de paz e a beleza arrebatadora do lugar te fazem ter chumbo nos pés na hora de partir.

Lembro de ter me sentado lá num dos bancos do Bastião a escutar a música vinda de dentro de um dos corredores do monumento. Era música de violino tocada por um músico de rua húngaro inundando a tarde e tornando o pôr-do-sol mais mágico e belo do que ele já era. Me lembro de um turista chinês ter me dito "Meu lugar favorito do mundo". Naquele momento, eu podia concordar com ele.
Ponte Szabadság vista da praça do Mercado Central
Grande Sinagoga, Mercado Central, Gruta de Santo Ivan e o típico Goulash
Prédio do Mercado Central
Dentro do Mercado Central - Budapeste
No dia seguinte, me custou muito levantar daquela cama quentinha e confortável para enfrentar o frio de 5º que fazia pela cidade. Mas era meu último dia na capital húngara e o sangue do desbravador falou mais alto do que o do Zé Preguiça. Fui direto ao Mercado Central conhecer
os produtos e comidas típicas da Hungria.

Os mercados centrais são sempre lugares que turistas em busca do sabor e dos souvenirs ou roupas e artigos típicos precisam de ir. O de Budapeste, então, é um lugar amplíssimo e muito bem organizado. As barracas de frutas e verduras e carnes ficam na parte inferior do prédio, e os  restaurantes, stands de roupas, bolsas e souvenirs ficam na parte superior. Entretanto, antes de chegar lá, fui caminhando pelas ruas e descobrindo novos lugares e novos sabores. Há lanchonetes baratíssimas onde se pode comer kebab ou sanduíches e café quentinho, barracas que vendem vários tipos de chocolates trufados, e praças para sentar e saborear o rango, no frio mesmo.

Grande Sinagoga de Budapeste
O bairro judaico, por exemplo, fica no caminho para o Museu Nacional Húngaro e o Mercado Central, e também é onde encontramos a Grande Sinagoga de Budapeste. Vale a pena pagar a entrada e visitar o prédio para conhecer mais a fundo sua história.

Lá, estavam pondo em pé um memorial ao povo judeu escrito em três línguas .
Mas se o dia estiver muito frio, como estava, faça como eu e corra para os sabores e aromas do mercado central.





Depois de caminhar muito pelo local, sentei-me num dos quiosques e fui forrar o estômago. Há vários stands com todo o tipo de comida, eu preferi o que servia uns cones recheados de carne e legumes muito saborosos. Devo ter comido uns três.

A comida é típica e se chama Kolbice, o que, segundo a explicação da atendente, significa "calabresa no sorvete", porque o cone onde a comida é posta lembra a casquinha de sorvete. Fora o sabor - há de vários tipos, como se pode ver na foto -, o preço também é muito em conta. Bem melhor do que comer num desses fast-foods estadunidenses.

Além disso, vale muito a pena conversar com as pessoas desses stands, elas são muito cortezas e felizes em ajudar na escolha. Me lembro que a moça que me atendeu me recomendou um outro kolbice em vez do que eu tinha escolhido, dizendo sinceramente que eu não me iludisse com as fotos, elas eram ilustrativas. O melhor mesmo era o outro, que tinha mais recheio e era bem mais saboroso. Depois de experimentar a ambos, vi que ela tinha razão.

Gellert Hill vista da Ponte Szabadság
Estátua da Liberdade - Budapeste
Ao sair do Mercado Central de Budapeste, virando à esquerda, vamos dar na ponte Szabadság, atravessando a qual chegamos ao lado Buda da cidade para ir à Citadela, à Gruta de Santo Ivan, etc. 

Essa ponte, para mim, é uma atração à parte. Fiquei no pier sobre o Danúbio apenas observando-a por vários minutos. O vento frio batendo no rosto, as luminárias embelezando as calçadas, o verde da ponte contrastando com o céu cinzento de chuva, tudo era tão romântico. Eu como sempre, após observar um monte de tempo, fui fazer minhas centenas de fotos.  

Uma das que mais gostei é a que pega a ponte, a colina da Gruta de Santo Ivan (Gellert Hill Cave), o Danúbio e a Estátua da Liberdade ao fundo.

Fiquei lá pensando sobre todas as histórias que tinha escutado sobre o povo húngaro e a Hungria. Aquele povo que, segundo Bruno Bethelheim em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, tinha dado origem aos "Ogros".

De Ogros eles não tinham nada, pelo contrário, todos os húngaros que encontrei foram supergentis comigo. Ao contrário do que vários dos meus amigos e blogues que li na Internet me haviam advertido, não vi um povo rude nem sem paciência.

As pessoas com quem conversei desde o Jack até os atendentes de lojas e supermercado, às pessoas na rua, todos me trataram muito cordialmente. Mas, de repente, foram os meus lindos olhos castanhos e minha pele morena que fizeram a mágica, né?! Vai saber.
Gruta de Santo Ivan
Atravessar a ponte de ferro é outra atração genial, pois quando os bondes passam, a ponte treme.

Dá pra ficar parado, encostado à balaustrada e sentir a vibração dos bondes e dos carros. Mesmo caminhando sentimos o tremelicar das estruturas, nada que assuste, no entanto.

Do outro lado da Ponte Szabadság,  está a colina que nos leva à Gruta de Santo Ivan e à Citadela. A visita é interessante e dentro da gruta, por uma pequena taxa, pode-se entrar com áudio-guia. A história é muito interessante.

Diz-se que Santo Ivan curava as pessoas com a água que brotava do que hoje é uma das termas de Budapeste e que fica muito próxima dali.
Belvárosi Plénábiatemplom 
De lá, fui andando até a outra parte da colina onde, num bosque, há a estátua em homenagem a São Geraldo (Gellert), que foi jogado colina abaixo pelos pagãos resistentes à cristianização do país.

O monumento é magnífico e pode ser visto até da outra banda do rio para onde eu fui comer um delicioso goulash húngaro num restaurante bem pitoresco chamado "The Imperator" - há uma limusine branca à porta do restaurante que é o marco do lugar.

Mas nem precisava tanta ostentação, a comida deliciosa, o preço acessível e o ambiente muito charmoso, já dariam pra tornar o lugar conhecido por todos. Quando cheguei para o almoço estava tocando Julio Iglesias e o garçom, pensando que eu era espanhol, disse serem aquelas músicas em homenagem a mim, pois a Espanha é um país admirável e eles estavam felizes em ter um cliente espanhol! (?).

Bom, fiquei lá curtindo Julio e comendo meu pãozinho até que o famoso goulash chegou. Descobri que esse
Goulash no The Imperator
nome estranho nada mais era do que um bom e quente cozido, o qual eu devorei com a fome de leão feita pela andada longa e fria daquele dia. Perto do The Imperator há uma praça muito bacana que lembrou uma das Praças Matrizes de alguma cidadezinha do interior do Brasil, e, na mesma região, a famosa Praça Vörösmarty se abre com seus cafés, stands de comidas e bebidas típicas e lojas de grife.

A caminhada vale a pena e o almoço também. À noite há apresentação ao vivo de música à voz e piano no restaurante e a Praça Vörösmarty e arredores fervilha de gente interessante.

O Danúbio não era azul
A gente passa a vida escutando O Danúbio Azul, de Strauss, e fica com a imagem do nome na cabeça. Porém, em Budapeste, assim como Chico Buarque, descobrimos que ele não é azul.

Pelo menos não nessa parte onde ele corre. Mas, de qualquer forma, continua bonito e inspirador. Especialmente se pegamos um desses passeios de balsa e rumamos até à Ilha Margarida (Margrit) ou simplesmente caminhamos pelo cais em um ou outro lado da capital húngara.

O que importa mesmo é que ele é o Danúbio e corre lindo e romântico pela cidade enquanto a gente ouve ressoar nos ouvidos a valsa do compositor alemão "tan tan tan tan tan... tan tan... tan tan" ou o verso do Red Hot Chilly Peppers "Sing along just like they do in Budapest" ao caminhar pelas ruas.
Parlamento visto do Castelo de Buda



Por isso, despedir-se dessa cidade charmosa, não foi tarefa fácil. Será preciso voltar lá algumas vezes mais, saborear mais um pouco os gostos, os aromas, as vistas, a vida fluindo e o vento frio dessa cidade encantadora, com sua gente de frases precisas e diretas, mas sempre cordiais (na minha experiência).

Tinha deixado para ir a uma das termas no meu último dia à noite, mas estava tão frio que preferi o calor dos bares ao calor das águas e fui com o Luiz a um dos muitos estabelecimentos próximos ao Friends Hostel a conhecer gente jovem e interessante enquanto tomava um, dois, três cafés e a galera me perguntava: "você vem pra um bar pra tomar café?" Fazer o quê, né? cada um com o que gosta. Alguns gostam de cerveja, eu gosto de café e assim a vida segue com as termas ficando para a próxima vez.

Igreja de Matias e Bastião dos Pescadores
Por volta da meia-noite voltei para o hostel, pois de manhã cedo estaria de partida para Dublin. Comprei meu bilhete na mão de um dos fiscais do metrô, peguei o vagão até a estação internacional de ônibus, e pude ver a vida despertando na cidade.

Vários trabalhadores e estudantes com cara de sono, dormindo nos bancos enquanto o barulhinho já comum pra eles de trem quebrando ao meio e seu tremelicar os ninavam.

Pôr-do-sol de dentro do Palácio real
Cheguei ao aeroporto com o sol despontando no horizonte por trás dos vidros da sala de embarque.

Me pus na fila da Ryanair a escutar aquele lindo sotaque de dezenas de dublinenses contando suas aventuras pela cidade, pelas termas, bares e casa de massagens e me lembrei de que estava indo para a minha "segunda casa" - como me disse o rapaz da loja de souvenir quando fui comprar meu imã de geladeira: Dublin é a segunda capital do Brasil, não é? Todo brasileiro que vem aqui  (e vem um monte deles) diz que está morando em Dublin".

O quanto de verdade há nisso! e agora eu iria lá, rever amigos, rever a cidade do Rio Escuro e conhecer coisas que não tinha conhecido quando morei lá. Agora eu ia fazer coisas de turista, não de estudante.

Olhei mais uma vez a minha passagem, confirmei o portão e me mandei em direção a ele. Dublin já me sorria de longe.

Vörösmarty Ter - Praça Vorosmarty

Atrações imperdíveis em Budapeste:
Hungarian State Opera;
Basílica de Santo Estevão;
Ponte das Correntes;
Memorial dos Sapatos;
Palácio Real;
Igreja de Matias,
Bastião dos Pescadores;
Budavari Labirintus;
Citadela;
Casa do terror;
Grande Sinagoga de Budapeste;
Mercado Central;
Gruta de Santo Ivan (Nagyasszonya Sziklatemplom);
Ilha Margarida (Margrit Island);
Belvárosi Plébáriatemplom (A igreja mais antiga de Budapeste) - nessa mesma região, na Rua Martius (pronúncia /március/) há ruínas de uma antiga adega e um museu;
Termas.

Veja nas rotas do Google maps como chegar a esses lugares partindo do seu alojamento. Lembre-se de que em Budapeste se pode fazer tudo andando.

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Londres ao pôr do sol

Devo confessar que nesta altura do campeonato não vi sequer um jogo da Copa do Mundo na Rússia. Eu sei, o Brasil está em polvorosa, ca...