domingo, maio 01, 2016

Árvore Genealógica - Em busca das origens


Meus avós maternos, tias-avós, bisavó, mãe e tios
Caros amigos, como prometido, começo aqui uma pequena série de posts para aqueles que se interessam pela busca de suas origens, em conhecer sua ancestralidade. Espero poder de alguma forma contribuir com suas pesquisas.

Algumas palavras iniciais
Desde criança eu sempre tive grande curiosidade em saber sobre a história de minha família, especialmente quando se falava de ancestrais (ascendentes já falecidos, normalmente de várias gerações anteriores). Ficava calado, olhos abertos, ouvindo minha tia-avó Zita (a que está sentada à direita da foto, segurando meu tio) contar as histórias de seus pais, avós, tios-avós, primos-bisavós, etc. 
Os casos e anedotas por ela compartilhados sempre impulsionaram minha imaginação. Ficava pensando em um de seus avós cruzando o oceano em busca das terras brasileiras, de um de seus bisavós que era delegado de polícia no Brasil colonial, de seus ancestrais diretos e indiretos que participaram de guerras e insurgências, sempre curioso com os desfechos das histórias. Vez ou outra eu perguntava o nome da família a qual pertencia o ancestral em questão. Aí, ela vinha com uma lista de nomes que sempre repetia, talvez para incutir em minha memória e não me deixar esquecer nossas origens: Dias D´ávila, Dias Brandão, Pinto Pacca, Rodrigues Pinto, Cachoeira, Mattos Guerra, Goes e Vasconcellos, Abreu e Lima, Carvalho e Albuquerque, Pereira Marinho, Braga Sampaio, Tinta, e por aí ia a longa lista. Ficava impressionando como sua memória já anciã guardava tanta informação. Especialmente porque ninguém na família, a não ser ela, se interessava por esses pormenores, os quais se mostraram importantíssimos nas minhas buscas quando a leitura de documentos começou a ser feita. 
1A: Meu bisavô é o n. 4 - Mário Dias Brandão.
Do livro "Impressões do Brasil no Século Vinte"
P. 885, Lloyd's Great Britain Publishing Co., 1913
Apesar de todo seu conhecimento da nossa história, alguns fatos como, por exemplo, o lugar de onde seu avô materno era originário, haviam caído no esquecimento após duas gerações, restando apenas nas lembranças os feitos e os seus ensinamentos. Aliás, conversando com as pessoas descobri que esse é geralmente o limite de conhecimento sobre os antepassados: duas gerações. E, incrivelmente, há aqueles que não conhecem sequer os nomes de seus avós , pois os pais não falam sobre seus pais a seus próprios filhos (o que para mim é um escândalo!). Talvez essa falta de interesse familiar de nossa sociedade seja mesmo a razão pela qual ao comentar com algumas pessoas sobre as minhas pesquisas genealógicas elas revezem os questionamentos: "você não tem mais o que fazer?" ou "está querendo tirar passaporte português?". Elas não conseguem entender como alguém pode se interessar pela história de sua família e seus ancestrais, ou como alguém pode passar horas lendo livros velhos e empoeirados, ou buscando na Internet informações sobre pessoas que já se foram há tanto tempo. Tem gente que passa duas horas assistindo a jogos, outros passam a tarde inteira assistindo novelas mexicanas, outros passam seu tempo dormindo, outros estudando a origem do universo. Eu, ultimamente, tenho preferido passar meu tempo livre com pesquisas familiares as quais, além de me levarem ao conhecimento das minhas origens, também me abriram caminho para outras áreas do saber como a onomástica, a paleografia, a antropologia e, obviamente, a história. 

Coincidências à parte...
Depois que minha tia Zita se foi, as conversas sobre meus ancestrais quase não existiram. No entanto, lá nas minhas recordações, a chama da curiosidade ardia a custo, tremulante, querendo uma palhinha para voltar a luzir mais fortemente. 
avós maternos
Isso aconteceu, certo dia, quando  estava assistindo a uma série estadunidense da qual eu gosto muito chamada "Brothers and Sisters" (Irmãos e Irmãs) que se desenrola em torno da família Walker e de suas tribulações e alegrias, conflitos e amores. Em um dos episódios da série, surge uma personagem secundária que é totalmente obcecada por genealogia e que descobre coisas interessantíssimas sobre os ancestrais dos Walkers simplesmente buscando informações sobre eles na Internet, a qual, segundo a personagem "faz a sua cabeça rodar pelas coisas que permite que a gente encontre nas buscas". 
Essa frase ficou martelando na minha cabeça, a força da curiosidade gerada por esse comentário aumentando cada vez que a personagem dizia algo novo sobre os ancestrais das personagens principais. 
Terminado o episódio, sentei na frente do computador e, lentamente, como quem se sentia um bobo por seguir a recomendação de uma personagem de série de TV, pus o nome de meu bisavô materno no Google, sacudi a cabeça me reprovando, cliquei no "enter". Menos de um segundo depois aparece diante de mim o resultado. Vários Mários Dias, Mários Brandão e apenas um que combinava os dois sobrenomes e que fazia parte de um livro sobre como era o Brasil no dealbar do século 20 e quem eram as figuras ilustres de cada Estado brasileiro na época. Cliquei no link, abriu-se a foto que postei acima (1A). 
avós paternos e tios
Quando bati o olho no rosto n. 4 logo reconheci aquela cara bonita por trás do bigodão. Meu bisavô, o mesmo da foto na parede do nosso gabinete, estava ali, na internet, diante dos meus olhos. Liguei para minha avó, perguntei se ela sabia de algum livro no qual o nome e a foto de seu pai constavam, ela disse que não -  ninguém sabia, minha tia nunca mencionara o livro. Começava aí a minha busca pelos tesouros perdidos. Desliguei o telefone, escrevi o nome do meu trisavô. Lá estava ele! Um dos heróis que arriscaram a própria vida durante o incêndio na Faculdade de Medicina da Bahia, em 2 de março de 1905! 
Olhei minha cara refletida no espelho à minha frente, a boca estava aberta em sinal de pasmo. Senti correr em meu corpo aquele raio elétrico de excitação e assombro. Como ninguém nunca tinha pensado em fazer isso?! Continuei a pôr os nomes de que me lembrava, alguns resultados positivos, outros sem nenhum resultado. Entre esses resultados positivos, talvez o mais espantoso tenha sido um sobre a família do avô materno de meu pai, da qual não sabíamos quase nada. Na verdade, a não ser pela foto do meu bisavô, nada mais sabíamos de sua história ou de seus ancestrais, apenas que ele era português e morrera quando minha avó ainda era criança. Pus o nome dele no Google e descobri que era comerciante em Salvador. Pus o nome de seu pai na pesquisa e encontrei um site com um texto longuíssimo falando sobre o homem e sobre sua importância na cultura da cidade de Ílhavo, em Aveiro, Portugal. João da Rocha Carolla, músico ilhavense de outrora, dizia o site. E eu sem ter ideia de onde era o Ílhavo! 
Foi assim, por coincidência, com a ajuda da Internet, por causa de uma série de TV, que iniciei a busca pela história esquecida da minha família.
João da Rocha Carolla - trisavô paterno
Como iniciar suas pesquisas genealógicas
Toda pesquisa genealógica começa com o conhecimento dos nomes de seus ascendentes. Uma boa maneira de você descobrir quem eram eles é olhando sua certidão de nascimento, pois nela constam os nomes de seus pais e seus avós. Depois de saber isso, procure as certidões de nascimento de seus pais, lá constarão os nomes dos pais e dos avós deles - assim você saberá os nomes de seus pais, avós e bisavós. Se ainda conseguir a certidão de seus avós, aí você conseguirá saber os nomes de seus trisavós, e assim por diante.
Uma ideia boa e simples para começar a montar sua árvore (pois existem formas técnicas, algumas delas meio rebuscadas), é você usar o programa Excel => Ferramenta SmartArt => Hierarquia e ir escrevendo as informações (nome e sobrenomes, data de nascimento, casamento, óbito) a partir de você (você pode fazer isso numa cartolina também). Eu mesmo comecei minha árvore pondo os nomes numa folha de ofício A4, pois nunca pensara que ela chegaria tão longe. Na verdade, eu achava que iria encontrar no máximo quatro ou cinco gerações. Mas a pesquisa foi se aprofundando, os documentos disponíveis, na grande maioria, estavam bem conservados, aí eu fui me deixando pesquisar.

O Excel é bom, no entanto, pois com os recursos de adicionar novas cédulas ao lado e abaixo no programa, você pode fazer sua árvore ad infinitum desde que vá aumentando o tamanho da página, e se precisar corrigir alguma data ou nome, o trabalho ficará muito mais fácil e organizado. A minha árvore, por exemplo, já chegou à 13a geração antes de mim (em torno de 1584), e nesses dois anos de pesquisa eu precisei fazer algumas correções de nomes, datas e lugares de origem do ancestral, conforme as informações dos documentos - por essa razão, não devemos apenas procurar os ancestrais diretos, devemos também procurar os irmãos deles para termos certeza da informação prestada no material que temos.
Mas de onde raios vem o nome "árvore genealógica"? Ele é derivado do formato que ela tem, lembrando uma árvore e suas ramificações, pois ela vai crescendo para cima (começando de um ancestral comum a todos os outros descendentes dele/a) ou para baixo (se você começar de si mesmo). Neste último formato você vai descobrindo que à medida em que se encontram novos ancestrais, a árvore vai ficando cada vez mais robusta na base, pois cada um de nós tem 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós 32 tetra-avós, e assim por diante. 

Onde encontrar os registros
Quando comecei a pesquisar, apenas tinha conhecimento do Google Search. Não sabia aonde ir ou a quem pedir ajuda. Quando se acabaram as informações da Internet sobre os ancestrais que eu conhecia, fiquei num mato sem cachorro. Daí, joguei a pergunta no buscador online: "onde pesquisar genealogia". Vários sites foram encontrados e eu comecei a buscar informações neles. Demorou algum tempo até que descobri aonde ir em Salvador. 
Via de regra (não só aqui, mas pelo mundo), os registros a partir de 1900 poderão ser conseguidos no cartório - mas lá será necessário você ter datas de nascimento, casamento, óbito, não apenas o nome. Outra forma de conseguir os registros de nascimento, casamento e óbito no Brasil e Portugal é nos livros de assentos de batismo, matrimônio e óbito da igreja católica. 
Os registros da igreja supracitados estão disponíveis em Salvador no laboratório de restauro da Universidade Católica, na Federação (http://www.ucsal.br/extensao/projetos-e-acoes-comunitarias/laboratorio-de-conservacao-e-restauracao-reitor-eugenio-veiga-lev) e na Cúria Metropolitana, no Garcia (http://arquidiocesesalvador.org.br/site/). Embora os arquivos estejam disponíveis livremente à pesquisa pública, é necessário fazer o agendamento prévio. 
Em Portugal, os registros são disponibilizados nos Arquivos Distritais, na Torre do Tombo, em Lisboa, e na Universidade de Coimbra, em Coimbra, tanto presencialmente como através da Internet. Para mais informações, vá aqui:  http://www.aatt.org/site/index.php?P=3
Outra maneira de conseguir informação sobre os assentos de batismo, casamento e óbito da igreja católica (lembrem-se que no Brasil e Portugal esses registros eram feitos pela igreja, portanto, os registros antes de 1900 com certeza estarão nos arquivos eclesiásticos), é através do site dos mórmons: Family Search. Por questões religiosas, eles mantém o maior banco de dados genealógico digitalizado a partir dos livros das igrejas e registros civis pelo mundo. Isso quer dizer que provavelmente você não precisará sair de sua casa para acessar os registros de seus ancestrais. O site é este aqui: https://familysearch.org/search/collection/location/1927159?region=Brasil. Para começar a pesquisar no site é bom você seguir a visita guiada. 
1B - Certidão de batismo de meu bisavô (Brasil). Ao canto esquerdo lê-se o (prenome) Mário, e a cor (branco). No texto: a data de batismo, data de nascimento, nomes dos pais, e padrinhos; assinatura do padre.
Uma dica para começar a pesquisa é que você pode iniciá-la de duas formas: com as certidões de casamento ou batismo. Nas primeiras, geralmente, você encontrará os nomes dos noivos e de seus pais. Para mim, é o modo mais fácil, pois nos assentos de casamento escreviam-se os nomes de ambos os noivos na lateral do documento, enquanto nos assentos de batismo apenas se escreviam os prenomes das crianças. Desse modo, a certeza de que se encontrou o ancestral correto é maior. Depois de encontrar o certificado de matrimônio, passe ao de batismo. Como os métodos contraceptivos não eram vistos com bons olhos, o primeiro filho sempre vinha nove meses depois do casório, assim, se seu ancestral tiver se casado em janeiro de 1900, tudo correndo bem, seu primeiro filho, com quase absoluta certeza, terá nascido em outubro. Aí você passa a procurar nos assentos de batismo a partir de agosto (o bebê pode ter vindo prematuro) para encontrar seus ancestrais e os irmãos deles. Note que a igreja escrevia apenas o prenome da criança, portanto, há que se ler o certificado de batismo para encontrar os nomes dos pais e (geralmente, em Portugal, raríssimamente no Brasil) os nomes dos avós como se pode observar nas imagens 1B e 1C. As certidões de batismo e casamento portuguesas às vezes vêm com riquezas de detalhes a ponto de informar inclusive a profissão do pai e dos avós da criança, No Brasil, as informações são extremamente básicas - uma das certidões que encontrei, por exemplo, tem apenas a data do casamento dos nubentes, os nomes das mães (ambos constam como filhos legítimos, mas o padre não se deu ao trabalho de incluir os nomes dos pais, que já estavam mortos) e a assinatura do padre. Nesse caso, a pesquisa se torna um pouco mais difícil. 
1C - Certidão de batismo da avó do meu bisavô - minha tetra-avó - (Portugal). Ao canto superior esquerdo lê-se a vila de origem (Covellos) e o prenome (Maria). No texto: dia do nascimento, filiação e vila de origem de cada um dos pais, os nomes dos avós paternos e maternos e suas vilas de origem, o nome da igreja, os nomes dos padrinhos e testemunhas e suas vilas, e a assinatura do vigário. 
Por esta razão, temos que lembrar da existência de outros documentos que nos confirmem filiação, origem, etc., tais quais passaportes, testamentos, certidões de compra e venda, documentos das Forças Armadas, Câmaras Municipais, casamento civil (a partir de 1890), documentos de divórcio (idem), etc. Para ter acesso aos passaportes de portugueses antes de 1910, e os cartões de imigração do Brasil, pode-se consultar os Arquivos Distritais, o Family Search, Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Para os outros documentos, procure o Arquivo Público de sua cidade. No APEBa (em Salvador), eu encontrei vários inventários, testamentos, cartas de dote, recibos de compra e venda de imóveis e produtos, correspondências dos ancestrais que eram delegados de polícia, e os livros da Polícia do Porto, onde se pode ver a entrada e saída de passageiros pelo Porto de Salvador - você também encontra esses livros da Polícia do Porto digitalizados no Family Search). Para mais informações sobre o Arquivo Público da Bahia, APEBa, em Salvador, vá aqui: http://www.fpc.ba.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=66. Você ainda pode procurar na Fundação Gregório de Mattos http://www.culturafgm.salvador.ba.gov.br/ - lá encontrei alguns registros de óbito, casamento civil e documentos da Câmara Municipal -, e nos arquivos da Santa Casa de Misericórdia da Bahia: http://www.santacasaba.org.br/ - se seus ancestrais eram ligados à Santa Casa, e.g. se eram irmãos, provedores ou mesários, ou se foram sepultados no Campo Santo, você encontrará informações valiosas sobre eles como data de nascimento e morte, nome do cônjuge, etc. 

E então, prontos para começar os primeiros esboços de sua árvore genealógica? No próximo post falaremos a respeito dos sobrenomes, e daremos dicas de como ler e entender a grafia nos documentos antigos.

Gostaram? Então divulguem. 




sábado, abril 30, 2016

Europa em 60 dias - De volta pra casa



Deixar Portugal é uma experiência dolorosa. Esse país de tantos lugares lindos e pessoas gentis conquistou definitivamente meu coração e, pelo que vi ao redor, o de muita gente com as quais cruzei pelo caminho, de maneira que passei a acreditar que aquele antigo bordão da música de Frank Sinatra (I left my heart in San Francisco) poderia fácil fácil ser trocado por "I left all my being everywhere in Portugal" - sem exageros. 
Por isso, fazer as malas naquela manhã chuvosa e fria foi extremamente difícil. Cheguei à varanda do meu quarto no hostel, olhei o miradouro de S. Pedro de Alcântara, o castelo de S. Jorge ao fundo, os tuc-tuc passando pela rua, as pessoas caminhando com seus guarda-chuvas abertos contra os chuviscos gelados, as nuvens carregadas tornando o ar mais melancólico do que jamais tinha sentido. Fechei os olhos, deixei o vento frio regelar meu rosto, a chuva molhar meus cabelos, minha pele. Lembrei de António, o primo que encontrei em Ílhavo, cantando para mim e os acólitos da igreja quando estávamos no Fórum Aveiro um fado de Vinícius de Moraes que dizia assim: "O sal das minhas lágrimas de amor / Criou o mar que existe entre nós dois / Para nos unir e separar / Pudesse eu te dizer / A dor que dói dentro de mim / Que mói meu coração nesta paixão / Que não tem fim (...)". O som daquela voz maviosa, as palavras do Poetinha reverberando em minhas lembranças recentes me fizeram suspirar profundo. Encostei a enorme porta de madeira e vidros da varanda. Sentei no chão e comecei a arrumar as coisas. 
As camisas, calças, roupas de baixo, pareciam blocos de pedra sendo postos num muro intransponível
de uma saudade que se alargava dentro do peito. "A paixão que não tem fim" se  agigantava no coração a cada minuto em que pensava dizer adeus. Fechei as malas, pus os cadeados, encostei-as ao canto e saí para ver Lisboa pela última vez. No caminho comi um delicioso pastel de nata acompanhado de um café quentinho e fui andando na tentativa de memorizar cada rua pela qual passava, sentir cada cheiro de comida típica, deixar as marcas dos meus pés naquelas calçadas de pedras portuguesas, naquelas ruas de paralelepípedos, conhecer mais uma pessoa. Cheguei ao Cais do Sodré, contemplei o Tejo, a chuva cinzenta caindo sobre ele, o vento soprando incansável. Naquela hora o sol deveria estar reluzindo em Salvador, bem forte, sobre o mar azul da Baía de Todos os Santos, minha família e amigos deveriam estar se preparando para me receber à noite. Senti meu coração confortado - era hora de voltar. 
As malas pesadas, molhadas pela chuva, empacavam na ladeira de pedras. O esforço era enorme. Na estação uma das escadas rolantes - a mais longa - estava quebrada, tive de carregar as malas até a plataforma, para baixo nenhum santo ajudou. Eu estava pingando de suor. No metrô, pela última vez, vi entrar o ceguinho que tocava o triângulo e pedia esmolas. O sotaque dele nos vagões ressoando seu pedido de ajuda. Chegamos ao aeroporto. Despachei as malas. Sentei a escrever. Uma moça com sotaque bem conhecido me perguntou: "O voo para Salvador parte daqui, não é?" eu confirmei. Começamos a conversar e mais uma vez o mundo, mundo, vasto mundo, se tornava pequeno. Ela e sua mãe vinham da cidade de Eunápolis, onde eu morei por tantos anos. Começamos uma conversa em torno dos nomes de conhecidos - em cidades do interior virtualmente todos se conhecem. Ficamos ali nos fazendo companhia até a hora do embarque. Ainda teríamos 8 horas sobrevoando o Atlântico. 
Minhas conterrâneas sentaram-se bem à frente da aeronave, eu na última fileira - como de costume. Ao meu lado vinha um rapaz argentino que em férias visitava, com sua família, a Europa. Mais um companheiro de conversa surgia. Passamos horas falando de viagens, filmes, livros, e tantas coisas mais que todo o tempo de viagem nos permitiu. 
O avião desembarcou em Salvador, madrugada. o Sebastián e sua família ainda iriam enfrentar mais umas horas de voo até Buenos Aires. Nos despedimos, Minhas conterrâneas vieram ao meu encontro, nos abraçamos e partimos pelo corredor cinzento do aeroporto para reencontrar nossos entes queridos, no calor querido dessa cidade onde eu nasci. No coração ficava um travo de melancolia, de saudade das férias, das pessoas e lugares que conheci. Mas agora, era deixar isso passar e começar a programar as próximas férias, fazer "coisa de rico" como me disseram em janeiro. Mas será que você precisa mesmo de muito dinheiro para viajar?
Farol da Barra ao pôr-do-sol - Salvador, Bahia - foto da Internet.
Como viajar sem gastar muito
Tornou-se lugar comum para mim o ouvir as pessoas me chamarem de "Riquinho Rico" quando sabem que estou viajando, especialmente para o exterior. Ainda há no imaginário popular a ideia de que só quem tem dinheiro viaja, ou que você precisa de rios de Reais para poder sair do Brasil. É claro que com o aumento das moedas estrangeiras em relação ao Real as coisas ficaram um pouco mais caras pra quem ganha em moeda brasileira, mas um pouco de planejamento, força de vontade e priorizações fazem toda a diferença. 
Por exemplo, há pessoas que gastam centenas de reais todos os meses com manutenção de carro (combustível, reparo, etc.); outros gastam rios e fundos com engradados de cervejas, festas, noitadas; há também quem passe o ano pagando 10 mil Reais em camarotes de carnaval ou 2 mil por abadás de blocos; não nos esqueçamos também daqueles que torram 200 Reais em uma calça, 150 Reais num rodízio, 85 reais numa pizza grande. Mas se a gente pensar bem e começar a cortar os gastos supérfluos, vai se dar conta de que viajar para o exterior não é mais caro do que sair todo fim de semana. Tudo é uma questão de rever suas prioridades e se programar. 

Se seu destino for a Europa, por exemplo, você encontra voos internacionais pelo valor de uma pizza e ônibus pelo valor de uma lata de cerveja. Agora, exatamente, pesquisando voos https://www.ryanair.com/pt/pt/booking/home encontrei passagem entre Lisboa e Londres a 22.99 Euros. Com o câmbio a R$4.10, o valor da passagem de ida é exatamente R$122, 96 - mais barato do que muitas churrascarias ou pizzarias por aí. O Megabus http://uk.megabus.com/# está oferecendo agora viagem para Bruxelas por apenas 1 Libra (menos de 6 Reais). Há também passagens de trens por valores irrisórios. 

Mas aí você diz: tá certo, vou viajar de Dublin para Londres a 5 Euros (R$ 20.5), mas vou gastar o olho da cara com hospedagens. Mais uma vez não será preciso gastar muito dinheiro, talvez não seja preciso gastar dinheiro nenhum. Há uma comunidade internacional de viajantes, de todas as partes do mundo, que adoram hospedar pessoas em sua casa sem nenhum custo https://www.couchsurfing.com/. Basta você se cadastrar e cair na estrada. No entanto, se você não se sentir à vontade em dormir na casa de estranhos, pode se hospedar em hostels cujos preços vão variar a partir de 5 Euros, em alojamentos de grupos religiosos cristãos ou na casa de amigos. 
Comida também não é caro. Muito pelo contrário, ir ao supermercado e preparar seu próprio rango para o dia com frutas, pão, queijo, presunto, água e suco/chocolate/café sai a menos de 10 euros - para o dia inteiro! É só pesquisar e partir para o abraço! Outra coisa que barateia muito os custos é viajar com amigos não individualistas. Compartilhando você economiza horrores. 


Bom, fica aí a dica. Nos vemos na estrada nas próximas férias! 😎

Gostou? então divulgue! 

sábado, abril 02, 2016

Europa em 60 dias - Porto, Figueira da Foz e Conímbriga

Porto, Rio Douro e Vila Nova de Gaia vistos da Torre dos Clérigos
Praça da Liberdade - Porto
Cidade do Porto - A Invicta
O trem parou na estação Campanha, alguns passageiros desceram, novos passageiros subiram. Eu fiquei na dúvida se desceria ali ou se deveria esperar. Me lembrava do Yoshi dizer pra saltar em uma estação específica, que ficava mais próxima ao centro, mas eu não lembrava o nome. Esperei. Qualquer coisa, era descer e voltar andando ou no próximo trem. As portas se fecharam, lentamente o comboio parecia voltar pelo mesmo caminho. Senti o coração acelerar até o momento em que a voz no auto-falante anunciou que chegávamos à Estação São Bento. Desci. Os azulejos portugueses decorando as paredes, o relógio antigo preso ao portão de ferro, já me faziam sentir feliz em ter descido ali. À saída da estação, vários ciganos se aglomerando a pedir dinheiro. O sol brilhava forte. 
A "Antiga. mui nobre, sempre leal e invicta" cidade do Porto reluzia diante dos meus olhos em todo o seu esplendor, toda a sua antiguidade, me emocionando, me fazendo pensar em Joaquim Rodrigues Pinto, meu penta-avô, que em 1830 deixara aquela cidade e partira pelo oceano até chegar à Bahia, doando para suas irmãs duas casas "citas no lugar denominado Ribeira, naquella cidade", conforme diz seu testamento. Mas eu não estava ali para pesquisas, estava mesmo era dando um tempo delas, aproveitando o domingo para seguir o conselho do meu amigo Yoshi e apenas me deliciar com aquele lugar bonito, que exala história por todo canto, por cada pedra dos seus edifícios, do seu cais; por cada parreira às margens do Douro, dos barcos, das pontes.
Igreja da Sé
Saí da estação, me desvencilhei dos ciganos que tentavam me segurar o braço e fui fazer o que mais gosto de fazer quando estou visitando algum lugar: caminhar. E em Portugal esse caminhar é sempre subir e descer as ladeiras que serpenteiam acima e abaixo, ladeadas por casas e prédios geralmente barrocos ou góticos para não nos deixarem esquecer onde estamos. 
Logo ao sair da estação, encontrei na Praça da Liberdade um grupo de pessoas reunidas para um tour "grátis". Não me juntei a eles. Tanto porque naquele dia eu preferi fazer meu próprio roteiro, como porque os cinco ou dez euros que iria dar ao meu guia os poderia usar comendo as famosas tripas à moda do Porto ou um bom bacalhau à Gomes de Sá à beira do Douro com uma taça de vinho suave e fresco. 
A cidade do Porto, além de toda a sua importância histórica (foi ela, por exemplo, que deu nome ao país, pois era chamada pelos romanos de Porto Cale), é conhecida também pela sua culinária. Um de seus pratos típicos, as tripas à moda do Porto, entrou para a cuisine local por um fato histórico ainda hoje bastante controverso.
Dizem os historiadores que em 1415, os moradores da cidade doaram toda a carne aos homens que
Casario na Ribeira
foram combater na Tomada de Ceuta, ficando apenas com as tripas dos animais para sua própria alimentação. Essas tripas, as quais se costumavam lavar à beira do Douro, se tornaram um prato típico da cidade e deu aos seus habitantes o epíteto carinhoso de "tripeiros". Em Aveiro algumas pessoas me disseram que as comesse, mas que o fizesse de nariz fechado.
Achei a cidade do Porto um lugar riquíssimo arquitetônica e culturalmente. As pessoas também me pareceram mui cortezas, no entanto, algo me pareceu meio sombrio, não num sentido ruim, mas, talvez, suis generis de tal maneira que me causou uma forte impressão de estranheza, apesar de toda a beleza e da luz do lugar.
Outro fato que me chamou a atenção foi o grande número de turistas e de artistas de rua. Havia um casal no bairro da Ribeira tocando violino
Bairro da Ribeira visto desde a Ponte Luiz I
que literalmente "parou a rua". Embora, ali na Ribeira, as pessoas tenham mesmo ido para "parar" à tarde, apreciando as águas do Rio Douro correrem seu curso, enquanto elas comiam, bebiam, conversavam e sorriam. Eu, procurei um lugar para comer as tripas, mas estavam todos os restaurantes e bares lotados, até as calçadas estavam apinhadas de gente. Pois todos corriam para ali a sentir a magia do Porto.
Segui andando até a Ponte Luiz I, cartão postal da cidade, antes de voltar à parte alta e no caminho parei por conta da voz maviosa de um cantor num barzinho à beira-rio, cantando Paulinho Moska. É tão bom ouvir nosso sotaque em terras estrangeiras! E eu fui feliz nesse quesito, em todos as cidades que estive pude ouvir música nossa, ou ao vivo, ou tocada por auto-falantes.

"O Professor que catou latinhas e foi a Santiago de Compostela"
Como não poderia deixar de ser, fiz pelo caminho mais um amigo com uma história
Torre da Muralha Fernandina
tão interessante que não posso deixar de contá-la aqui.
Conheci sobre a ponte Luiz I o professor e escritor gaúcho Carlos Alberto Tenroller, que estava fazendo o caminho de Santiago de Compostela, o que é muito comum e muita gente faz, daí, não é raro encontrarmos caminhantes aqui e ali, procurando os marcos espalhados pelas cidades, direcionando-os pelo caminho certo.  O interessante da história dele é que para realizar seu objetivo, ele não se fez de rogado nem de orgulhoso. Juntou durante um tempo vários quilos de latinhas, trocou seus livros por elas, e as vendeu para financiar sua viagem - toda a sua viagem. Nos mostrando que quando queremos alcançar algo, de verdade, o fazer-se de rogado não é uma opção. Ele meteu mãos na massa, realizou sua viagem, e virou até notícia na Galiza. E agora está escrevendo um livro sobre sua aventura. Muito sucesso para ti!

O que ver e fazer em Porto
Rio Douro
Ponte Luiz I
Muralhas da cidade
Torre dos Clérigos
As igrejas (Sé, São Francisco, Santa Clara, Santo Ildefonso, Mosteiro de S. Bento da Vitória)
Os museus
Bairro da Ribeira e seus restaurantes
Passeio de barco pelo Rio Douro
Caves de Vinho do Porto (do outro lado do rio, em Vila Nova de Gaia)



Figueira da Foz

Fui parar em Figueira da Foz por indicação do atendente da estação de comboios. Minha querida anfitriã, a dona Fátima, me dera um presente de aniversário - sim, ela descobriu! - para que eu fosse à cidade de Fátima, famosa pelo misticismo católico e pelas grutas. Mas, como me demorei a sair de casa, cheguei na estação quase ao meio-dia. O atendente, todo solicito, me sugeriu não ir à Fátima por causa da distância e do tempo que iria passar lá. Saindo no horário mais próximo chegaria à cidade e não teria tempo de ver quase nada, já que voltaria no mesmo dia. Ele me sugeriu, então, ir à Figueira da Foz, que era um lugar à beira-mar, com vários barzinhos na calçada, um lindo pier, lindas praias, onde, inclusive, eu poderia apreciar um belo pôr-do-sol, e que era pertíssimo de Coimbra.
Forte de Santa Catarina
Acatei sua sugestão, me meti no comboio que já estava quase de saída e fui passear.
A vista de Coimbra à Figueira da Foz é maravilhosa. Passamos por várias vilas e plantações de oliveiras, por um braço enorme de rio que brilhava ao sol, por descampados inspiradores de pinturas e histórias.
Ao descer na estação, sem saber muito bem aonde ir, me meti a andar em direção ao centro da cidade, a algum lugar onde tivessem casas e praças. Seria seguramente o lugar para conhecer e ver gente e coisas.
O dia de sol fez aquela pacata cidade ainda mais bonita e iluminada. Havia várias pessoas sentadas em cafés na calçada, caminhando e se exercitando nas praças, ou apenas sentadas nos bancos, à sombra de alguma árvore a ler um livro ou a fotografar um passarinho ou uma gaivota que estivessem por perto.
O pier, por sua vez, parece um lugar de encontros. Muitos adolescentes e jovens fazendo uma pequena algazarra,
aproveitando o sol para pôr em dia as conversas, ou velhinhos sentados a pescar. Eu caminhei até a extremidade do pier e me sentei a contemplar a vista. A ver as ondas quebrarem na praia, lentamente, e um casal brincar com sua filhinha naquela areia que mais parecia um tapete. Não é sem motivo que o meu amigo Fernando Martins, posteriormente, me disse que Figueira da Foz é um sítio aonde ele vai sempre que quer recarregar as baterias e pensar na vida.
Durante o verão, o lugar fervilha de gente. É um dos mais frequentados resorts ibéricos. Lá está o casino mais antigo da Península, chamado Casino Figueira. Além disso, é um lugar importantíssimo para a paleontologia por conta dos seus sítios do período Jurássico e da Idade do Ferro. A vida noturna - que eu não conheci desta vez - também é das mais agitadas e badaladas do país, especialmente no verão. Terei de voltar em outra oportunidade para poder falar sobre ela. Naquela hora, entretanto, o que eu estava querendo era apenas sentir o vento no rosto, aproveitar aquele dia lindo de sol e céu azul e pensar nos meus projetos, contemplar o mar e ver a vida acontecer ao redor.
Com o sol se pondo, o tempo começou a esfriar e eu fui andando, lentamente, sorvendo cada minuto daquela bela cidade, em direção à estação de comboios. Comprei uma meia de leite (café com leite), para esquentar a caminhada, entrei no trem que já esperava na estação e voltei a Coimbra com o sol quase sumido o horizonte.


Conímbriga - o sítio histórico romano mais importante de Portugal
Para ir de Coimbra a Conímbriga (a semelhança dos nomes não é mera coincidência) a melhor opção é o carro ou a bicicleta. Mas se a opção for o ônibus, é pegar o que parte da rodoviária em direção a Condeixa-a-Velha pela manhã ou pela tarde - atenção aos horários, pois, como já dito em outro post, os horários dos ônibus entre cidades e vilas em Portugal não é satisfatório. Há, às vezes, que se esperar mais de três horas, dependendo do dia, e ainda assim, o horário do último ônibus pode ser deveras complicado.
Você não vai precisar de muito tempo para conhecer todo o lugar. Duas horas são mais do que suficientes. O ônibus de volta - no dia que eu fui - tinha apenas dois horários: às 13 e às 18.
Cheguei em Conímbriga por volta das 11, visitei tudo, li tudo, fotografei tudo, fiz uma boquinha no
Casa da Cruz Suástica - Conimbriga
restaurante, conversei com uma família brasileira que estava lá também, visitei o museu, sentei no banco e pus-me a escrever. E ainda tive tempo o suficiente para esperar o ônibus de volta. Há também a opção de aproveitar a oportunidade e conhecer a vila de Condeixa-a-Velha, que me pareceu muito bem organizada, mas, com receio de encontrar apenas casas fechadas e ninguém nas ruas, resolvi voltar para Coimbra em vez de ter que esperar pelo autocarro até às 18 horas.
Bom, para quem conhece as ruínas dos sítios históricos italianos e gregos, Conímbriga não vai ter muito a acrescentar. São poucas as ruínas, são poucos os achados arqueológicos e o lugar é pequeno. No entanto, para os curiosos e amantes do mundo greco-latino, o lugar tem seu charme. Por isso, Conimbriga entrou na lista do jornal The Guardian como uma das 10 melhores e pouco conhecidas ruinas antigas da humanidade (http://www.theguardian.com/travel/2015/apr/06/10-best-ancient-ruins-cambodia-peru-china-italy)
É interessante ver, por exemplo, os mosaicos bem conservados da terma pública e da casa de um arquiteto romano chamado Cantaber; entre esses mosaicos está os da Casa da Cruz Suástica, onde o menininho brasileiro que estava com sua família parou, arregalou os olhos e disse, chocado: "Eu não tô acreditando nisso!". Olhou para mim com uma expressão de pasmo, e chamou a atenção do pai de forma veemente, só se acalmando quando o homem lhe explicou o significado da suástica para os romanos e o motivo de os nazistas terem-na usurpado.
Além das ruínas dos prédios e da muralha da cidade, ainda temos a opção de visitar o museu e conhecer uma grande coleção de moedas dos tempos de Roma à atualidade e vermos as peças encontradas durante as escavações do lugar. Os achados arqueológicos são na grande maioria utensílios domésticos, moedas, objetos de valor místico-religioso.
O lugar onde se encontram as ruínas, além de ser próximo à
Ruínas da muralha de Conimbriga e igreja de Condeixa
vila de Condeixa-a-Velha, também é cercado por uma mata, onde pessoas vão fazer caminhadas e pedalar. No tempo que estive lá, vi vários grupos de ciclistas e caminhantes passarem pelo local. No próprio sítio há um parque de merendas com muitas mesas e cadeiras onde se pode passar um tempinho observando a natureza, comendo e confraternizando com as pessoas.
Eu recomendo um passeio pelo local, mesmo sendo ele tão simples e com tão pouco para ver. Afinal, no país de Fernando Pessoa, "tudo vale a pena se a alma não é pequena", e no fim das contas, você poderá ter aprendido um pouco mais sobre a ocupação romana, a Luzitânia e como a vida fluía há milhares de anos no que hoje é o distrito de Coimbra, em Portugal.

segunda-feira, março 28, 2016

Europa em 60 dias - Coimbra, Portugal - Em busca das origens - Parte II


Praça 8 de Maio - Coimbra
Havia deixado Aveiro sob uma chuva fina e insistente por volta das 12 horas. Sentei-me no vagão e pus-me a ler as notas das minhas pesquisas genealógicas, a atualizar algumas informações, a rever os planos de visitas aos sítios de meus ancestrais para otimizar meus dias em Coimbra. Pelas largas janelas do trem, via os olivais e as pequenas vilas ficarem para trás. Adiante de mim, se abria uma rota nova, cortada pela estrada de ferro e pedras que formavam o caminho. Se de Ílhavo e Eixo vinha a família de meu pai, era de várias vilas no distrito de Coimbra que vinham boa parte dos meus ancestrais maternos. Pus de lado o caderno de notas, fechei os olhos, comecei a traçar o caminho do meu trisavô Domingos Dias Brandão, que há mais de cem anos deixara o lugar de Covelos, na freguesia de Foz de Arouce, Concelho da Lousã, Distrito de Coimbra, Região das Beiras, (é tão mais fácil ter "bairro, município, estado e região"!) e partira a singrar os mares por mais de vinte dias, para do outro lado do Atlântico, na Cidade da Bahia, dar origem à minha família. O que o tinha levado a isso? e aqui,
Faculdade de Direito de Coimbra
haveria ainda parentes nossos? como seria de verdade o lugar de Covelos que eu tinha "visitado" por tantas vezes pelo Google maps 3D? O comboio parou, a senhora que vinha ao meu lado, pensando que eu dormia, tocou levemente o meu braço e me disse que estávamos na estação final, eu agradeci. As pessoas começaram a levantar, as portas se abriram, uma lufada de vento frio, desautorizando o sol brilhante, esfriou o vagão.
Da porta, vi que o dia estava radiante quando desembarquei na estação de comboios Coimbra (A), que fica exatamente no centro da cidade. Apenas uma hora havia passado desde que saímos de Aveiro. Ao descer do trem, as malas ainda com salpicos da chuva que lá peguei, respirei profundamente o ar úmido e frio vindo do Rio Mondego, correndo ali ao lado. Saí da estação, tomei a esquerda, Google maps na mão, em busca da Rua Saragoça, onde me hospedaria. 
Já habituado à arquitetura portuguesa, não me detive muito observando a cidade e continuei caminhando até ficar de frente a uma ruazinha estreita de pedrinhas brancas ladeada por várias casas comerciais. Parei, olhei a indicação no maps, decidi pegar aquela rua. As malas, embora tivessem praticamente o mesmo conteúdo, estavam levemente mais pesadas, talvez devido à falta de exercício, talvez devido ao cansaço de tantos dias de viagens e emoções.
Continuei puxando minhas malas, pedindo passagem aqui e ali às pessoas que paravam a conversar tranquilas com seus conhecidos ou com os vendedores das lojas. De repente, quando me preparava a parar mais uma vez, ouvi uma voz doce, com um levíssimo sotaque, chamar meu nome. Virei para confirmar que era mesmo comigo e me deparei com a Teresa e a Francesca - as italianinhas que conheci em Aveiro. Havia dois dias, fui deixá-las na estação de comboios de Aveiro, e agora ali, sem marcar nada, nos reencontrávamos no fervilhante centro de Coimbra. Que felicidade reencontrá-las e ouvir de novo suas vozes cheias de uma cadência única, de uma música linda, quer falássemos em italiano ou em português. Elas me apresentaram ao Riccardo, conterrâneo seus que estudava na Universidade de Coimbra, e, depois de alguma conversa, voltei ao meu caminho em direção às ladeiras da cidade, às enormes ladeiras da cidade, puxando minhas malas e sentindo minhas batatas da perna arderem, meus braços doerem, meu suor escorrer rios até chegar à casa da dona Fátima, onde passaria os próximos 12 dias.
Vista do Mondego ao pôr do sol a partir da Ponte Pedro e Inês - Coimbra
Uma surpresa de aniversário
Rua Visc. da Luz - Coimbra
Cheguei no dia 27 de janeiro, dia do meu aniversário. Mas, como não sou de me ligar muito pra data, não comentei o assunto nem com minhas amigas, nem com minha anfitriã, para não deixá-las agoniadas a fazerem regalos ou me pagarem refeições, apesar de que, varado de fome do jeito que eu estava, não seria uma má ideia, especialmente se dona Fátima fizesse aquele delicioso arroz doce ou a sopa dos deuses que ela faz! Mas naquele primeiro dia eu ainda não sabia o que estava perdendo.
Portanto, o que fiz foi deixar minhas malas no quarto, tomar uma boa ducha e sair a explorar aquela cidade milenar da qual eu tinha ouvido falar muito no curso de Letras porque muitos de nossos maiores poetas (e.g. Gregório de Mattos Guerra) estudaram lá. Assim também, pela chamada Questão Coimbrã (uma briga ideológica entre poetas portugueses), pelos estudos sobre o antigo
Igreja da Santa Cruz
dialeto moçarábico, por causa das histórias dos reis de Portugal, entre eles D. Afonso Henriques, e, obviamente, pelo fado e guitarra de Coimbra pelos quais um dos meus professores de Literatura Portuguesa era doido.
Descer a Rua Saragoça era uma contemplação da bela e antiga Coimbra. Pode-se chegar à parte baixa por quatro caminhos a partir de lá e qualquer um que se pegar, é maravilhoso por conta da vista e da arquitetura. Por onde for, também, a Cabra - nome da torre do sino da Faculdade de Direito - é vista, parece mesmo que ela é ubíqua, se impondo no alto da colina, quase como uma sentinela de tempos longínquos, a guardar a cidade e seus cidadãos. Mas eu só iria vê-la de perto mais tarde. Agora, descendo aquelas ladeiras silenciosas, cortadas pelos passos calmos de um ou outro transeunte, eu só queria um lugar para aplacar a minha fome.
Vendedor de castanhas na Praça 8 de Maio
Não foi custoso encontrar, pois o centro da cidade está cheio de cafés, pastelarias e restaurantes. Na Praça 8 de Maio (ao lado da Igreja da Santa Cruz), por exemplo, há um café restaurante muito famoso e muito frequentado. Não estive nele, embora sempre pensasse em entrar.
Eu fui, no entanto, quase todos os dias, parar num café restaurante próximo à estação de trens Coimbra (A), chamado Estação Doce, onde eles servem refeições deliciosas, e onde eu, de sobremesa, sempre pedia brigadeiro (se servem doce do nosso país, por que não comê-lo para matar a saudade de casa um pouquinho?) para acompanhar meu chá preto com leite - a bebida foi um costume aprendido dos meus anfitriões em Dublin há alguns anos. A Mônica, funcionária do restaurante, quando via que eu já terminara a refeição, logo perguntava: "Chá preto com leite e brigadeiro?" e sorria. Como disse anteriormente, Portugal não me deixou, em nenhum dia, ser apenas mais um na multidão.
Maurício e eu nas escadarias de Coimbra
Na Estação Doce, encontrei um amigo brasileiro que está fazendo doutorado na cidade e de lá fomos percorrer Coimbra, a subir e descer ladeiras, a descer e subir ladeiras, escadarias enormes, atravessar pontes sobre o Mondego, a contemplar a vista de cima da colina da Universidade. Coimbra brilhava tremeluzente com as luzes do sol poente sobre suas casas e seus monumentos. O Maurício e eu andamos por mais de três horas não apenas pelo centro, mas por várias partes da cidade que ele conhecia como um nativo. Acabamos por parar em sua casa para o jantar e lá a grande surpresa: um delicioso pene al pesto preparado por ele, e uma garrafa de vinho tinto junto com um bilhete de Feliz Aniversário e ingressos para o Festival de Filmes Alemães que aconteceria no teatro Gil Vicente a partir do dia seguinte, e onde, após o jantar, fomos encontrar seus amigos. E eu pensando que, longe de casa, meu aniversário passaria batido. Mas é como disse o Riccardo, "Em Coimbra tudo acontece".

Vista panorâmica de Covelos - Foz de Arouce






Um Lugar chamado Covelos - Foz de Arouce
Entrada de Covelos
Por volta das 9 horas, dona Fátima me levou à estação rodoviária de onde eu deveria tomar o autocarro para Foz de Arouce - pode-se também tomá-lo próximo à estação de comboios Coimbra (A). Tinha procurado na Internet sobre horários de ônibus e conduções para lá, mas não encontrei nada. Então, caso você deseje conhecer Foz de Arouce e Covelos, e não puder dirigir, é tomar o ônibus que sai em direção a Vila Nova de Poiares, o valor até Covelos é 3.05 euros. O ônibus vai te deixar na entrada de Covelos, se você andar um pouco mais para a frente, sobe uma ladeirinha e vai chegar - depois de uns vinte minutos andando - na vila de Foz de Arouce.
O caminho de Coimbra até Covelos é de uma
Antiga casa de moagem - Covelos, Foz de Arouce
beleza espetacular. Totalmente cênica, com vilas, rios, pontes e muitos bosques, a estrada nos faz esquecer que vamos de um centro urbano a outro e nos dá a sensação de que estamos aonde poucos homens chegaram, tamanha a faixa de mata preservada e a pureza das águas cristalinas do rio que corta todo o percurso. Fui conversando com o senhor Ricardo, o motorista do autocarro, que me deu várias dicas de lugares para comer, o que visitar, como ir, enquanto estivesse na região. Me indicou, por exemplo, não deixar passar a oportunidade de comer as lampreias e a chanfana, pratos típicos da sua vila, chamada Penacova, aonde eu também teria de ir em busca de meus ancestrais, Quando o ônibus chegou diante da placa de Covelos, o senhor Ricardo me disse: "Olha bem o relógio, fazes o que tens de fazer, mas lembra-te de estar na paragem no horário, pois o último autocarro é este, quando eu voltar". Dormir ao relento, num lugar tão frio e enevoado, não era minha opção. O senhor Ricardo partiu em direção a Vila Nova de Poiares e eu fiquei na estrada, olhando um lado e outro sem ver viva alma, me perguntando o que fazia ali.
Olhei o relógio, tinha menos de três horas para ver o máximo que podia. Atravessei a rua, e fui descendo a estreita ladeira de terra que corta a entrada do vilarejo. Olhei para um lado e outro e tudo o que vi foi névoa e casas feitas de ardósias, mato e oliveiras, e um córrego cristalino. Continuei andando à procura de alguém, mas nem as chaminés, nem as glebas nos fundos das casas me davam sinal de que aquela não era uma vila de onde todos os moradores houvessem emigrado para o Brasil, como meu trisavô e seus irmãos. No caminho, uma casa me chamou a atenção por uma inscrição sobre um nicho, uma oração dedicada ao lugar de Covelos e à mãe do escritor. Parei, fotografei. Dias depois vim descobrir que aquela era a casa onde meu trisavô nasceu e cresceu e de onde ele saiu para o Brasil deixando sua irmã Delfina Maria e seu cunhado José Vaz Colaço como proprietários. A chamada Casa da Eira, de Covelos, ali, diante de mim, com suas paredes de pedra, era uma das quintas que Domingos Dias Brandão havia deixado em Portugal e de que eu tanto ouvia falar quando criança.
Rio Ceira - Foz de Arouce
Contornei a casa, e fui ladeira acima. Passei por uma capelinha, reconheci nomes de ruas e propriedades que havia encontrado nos assentos de batismo e casamento em minhas pesquisas: "Rua do Cabeço", "Rua da Portelinha", e assim vai. Todas as portas continuavam fechadas, o único sinal de vida foi um cachorrito que começou a me seguir, latindo para talvez quebrar a monotonia do lugar, e me levou direto à casa onde sua dona arava a terra. Perguntei a ela se conhecia alguém da família Vaz Collaço (a resposta eu dou num post mais adiante sobre árvore genealógica); fiz o percurso de volta à estrada e fui parar no outro lado da rua, a caminho de Foz de Arouce. Aquela vila invadida por franceses e que derrotou o inimigo, se mantendo fiel às suas tradições lusitanas.
Igreja de São Miguel de Foz de Arouce
Atravessei a ponte, vi o monumento aos heróis que venceram os franceses, sentei numa das várias mesas para piquenique no Parque das Merendas a fim de forrar meu estômago que àquela altura já roncava. Na tranquilidade daquele lugar, diante das águas cristalinas do Rio Ceira correndo à minha frente, pássaros chilreando sobre minha cabeça e cabras e ovelhas brincando e balindo por ali perto, pus-me a pensar em como a vida naquele lugar não deve ter mudado tanto nos últimos cem anos. Não fosse o barulho de carros cortando o silêncio da vila de alguma rara vez em alguma rara vez, aquele seria o mesmo lugar em que meus ancestrais viviam, a mesma paz que eles tinham, a mesma vida serena e tranquila.
Voltei a caminhar, explorar a vila, a me deparar com portas e janelas fechadas e o barulho do vento
Placa indicando localidade em Foz de Arouce
Rua de Foz de Arouce
que cortava o dia. Um cachorro veio ao meu encontro, manso, querendo carinho naquele sítio onde só fachadas coloridas de casas antigas lhe faziam companhia. Passei pela Quinta Brandão, um dos maiores e mais conhecidos produtores de vinho da região. Era a única casa aberta pelo caminho. Não entrei, aqueles Brandão eram de outra família, a minha tinha emigrado para o Brasil. Vi um restaurante aberto, entrei em busca de um cafezinho quente. Lá dentro havia um casal de senhores e o dono, todos almoçando. Ao ouvirem meu sotaque, logo começaram uma conversa muito interessada no que eu estava fazendo ali, tão longe de casa. Conversamos um bom tempo, todos tinham parentes que viviam no Brasil, especialmente em São Paulo. Os jovens do lugar estavam indo embora da vila por conta de emprego e de novas aspirações existenciais, por isso a cidade parecia tão deserta. Me recomendaram voltar no verão. Os velhinhos se levantaram, me desejaram boa sorte e partiram. Quando eu estava para sair, entrou um moço a quem logo o dono do restaurante me apresentou como sendo o filho do presidente da Junta de Freguesia, com quem eu poderia obter toda a informação de que precisasse sobre Covelos. O rapaz, em plena hora do almoço, me levou a sua casa, me apresentou seu pai e, com toda cortesia e hospitalidade portuguesas às quais eu já me estava acostumando, me convidou a almoçar com a família. O senhor Padrão se mostrou extremamente prestativo e interessado em minha história, e ali, com ele, minhas buscas tomariam novos rumos, sobre os quais falarei em outra oportunidade.
Voltando da lida - Covelos - Foz de Arouce
Durante nossa conversa, uma ou outra pausa para ouvirmos o noticiário sobre o surto de Zika vírus no Brasil e como ele estava chegando a Portugal. Olhei o relógio, era hora de correr à parada de ônibus pois o senhor Ricardo estaria passando dentro de alguns minutos e eu deveria voltar a Coimbra. Me despedi do senhor Padrão e de sua gentilíssima família, marcamos a minha volta e peguei meu rumo, correndo feito louco para não perder o ônibus. Quando cheguei à "paragem", uma senhora meio enfezada, que chegava em Covelos, me perguntou o que eu tanto "andava a fotografar". Quando lhe expliquei os meus motivos familiares, ela logo abriu um sorriso e me pediu meu endereço eletrônico para acompanhar minha viagem e descobertas.
O senhor Ricardo chegou, no ônibus apenas ele e eu a conversar até estarmos em Coimbra com o sol
de inverno que já começava a se pôr no horizonte.

Vila Nova de Poiares - Terror no Cemitério
Adicionar legenda
Fui a Vila Nova de Poiares numa terça-feira. A ideia era conhecer o lugar e fotografar as localidades de onde vinham meus ancestrais (Ribas, Algaça, Pereiro de Baixo, Redouça, Mocela, entre outros) e as duas igrejas nas quais vários deles foram batizados, casados e sepultados no decorrer de 300 anos. Mas tive que esperar o ônibus por um bom tempo. Os ônibus intermunicipais em Portugal - pelo menos nas regiões onde estive - demoram muito a passar e têm horários extremamente complicados. Por isso, se você vai precisar de se locomover entre localidades no país, o melhor é alugar um carro, do contrário, perde-se muito tempo e vê-se muito pouco. Eu havia deixado minha carteira de motorista em Salvador (geralmente se pode dirigir com a habilitação brasileira em vários países estrangeiros, mas dê uma lida aqui para maiores informações, afinal, melhor é prevenir que remediar: http://www.denatran.gov.br/informativos/20070611_permissao_internacional.htm), portanto, o negócio era mesmo tomar meu chazinho de cadeira sempre que precisasse ir para alguma localidade não atendida por comboios.
Rua no centro de Vila Nova de Poiares
Ao sair da estação rodoviária, logo me deparei com mais uma vila onde não víamos ninguém, ou quase ninguém, a depender da rua onde entrássemos. Fui caminhando a explorar o centro da cidade, onde encontrei um senhor a quem pedi informações sobre a localização das igrejas de Santa Maria de Arrifana e de São José das Lavegadas. O senhor me disse que ambas eram muito distantes para ir andando, pois ambas estavam nas freguesias de mesmo nome, que o ideal seria ir de carro, pois passaria quase o dia inteiro andando para chegar lá. No entanto, me apontou o caminho que eu deveria seguir. Após caminhar bastante pelo centro daquela vila tão charmosa, fui parar no cemitério. À porta dele estava sentado um senhor, com uma boina portuguesa, a quem perguntei se estava no caminho certo para a igreja de Santa Maria de Arrifana. Ele me apontou outro caminho e me disse que era muito longe, que melhor seria... ter um carro. Como estava à porta do cemitério, entrei para ver se encontrava o jazigo de algum parente. No meio-tempo, inventei de tirar uma foto do lugar, que achei superorganizado e limpo. De repente, quando estava saindo, um homem alto e magro postou-se no centro da avenida entre onde eu estava e a entrada. Os braços cruzados, o rosto rígido, o corpo plantado como o capitão de exército diante dos flancos inimigos. Saudei-lhe com um bom-dia, ele me respondeu: "Posso saber o que estava a fotografar?", eu lhe respondi que fotografei
Igreja de Sta Maria de Arrifana
apenas a avenida principal do cemitério. Ele, com a mesma pose: "Com ordem de quem você fez a fotografia?", eu: "Com a ordem de ninguém. Como o cemitério é um local público, pensei que não tivesse problema fotografar". O homem enrijeceu mais o semblante e mandou: "Pois aqui, para fotografar, há que ter a minha permissão. Agora vai me levar exatamente onde fez a fotografia para me mostrar o que fotografou". Eu senti minhas bochechas queimarem, de vergonha. Lhe disse que, se ele quisesse, eu apagaria a fotografia e acabávamos a conversa por ali. Lhe expliquei o porquê de ter ido ao cemitério, ele começou a relaxar o rosto, seu tom ríspido deu lugar a um tom mais afável, compreensivo, e me pediu que o seguisse. Chegamos diante de um barracão, ele entrou, pediu que eu o acompanhasse, não tinha motivos de postar-me à porta. Olhei para um lado e outro, não vi o senhorzinho de boina, que sumira desde que meu imbróglio começara. Pensei: "se eu entrar, o senhor de boina vai trancar a porta e eu serei preso e amordaçado aqui dentro e ninguém saberá do meu paradeiro!". Senti a adrenalina correr, minhas pupilas dilatarem, o coração pulsar mais rapidamente. Todos os filmes de terror que vira passavam como um rio em minha memória. Preparei a ginga para golpear meu agressor com um rabo-de-arraia, uma queixada, uma ponteira, uma meia-lua, ou qualquer outro golpe de capoeira que meu instinto lembrasse. Me aproximei do homem que buscava algo dentro de uma caixa. O coração a mil. Ele sacou o celular, fez uma ligação à junta de freguesia contando minha história e pediu a atendente que me ajudasse, "Pronto, tudo resolvido. Agora você vai lá, vê exatamente onde estão seus familiares e volta aqui. Se calhar, eu mesmo o levarei à Santa Maria de Arrifana.". Estendeu a mão e com um
Igreja de S. José das Lavegadas
aceno disse que me esperava de volta. Passei pelo portão onde o senhor de boina estava sentado a apreciar a vista da vila e fui parar na Junta de Freguesia onde não puderam me ajudar, uma vez que aquele cemitério era do início do século passado e meus ancestrais seguramente não estariam lá. Pedi a moça que agradecesse ao zelador e que lhe explicasse o motivo de eu não voltar ao cemitério. Desci para a rodoviária onde ficaria por três horas esperando a condução de volta a Coimbra.
Para passar o tempo, comecei a escrever minha aventura num caderno que comprei quando meu laptop deu pau. Ao virar para o lado para observar a rodoviária antes de descrevê-la, vi o anúncio de táxis afixado à porta de entrada. Pensei no tempo que esperaria pelo autocarro, pensei no nada que iria fazer ali sentado. Vi todos os números da lista, escolhi um no "Papai do Céu mandou...", liguei. Uma voz feminina atendeu, falei com ela onde estava e pedi que me mandasse um táxi, ela me disse que o motorista era ela e que chegaria em três minutos. Dito e feito. Partimos para a Igreja de Santa Maria de Arrifana, onde ela, conversando com o rapaz que arrumava a igreja, conseguiu que eu entrasse e de lá fomos para São José das Lavegadas por ladeiras extremamente íngremes e sinuosas ao ponto de me gelarem a espinha.
Monumento "O Cristo"
Minha motorista e eu fomos conversando por todo o caminho. Ela me mostrou várias casas fechadas pelos lugarejos e ruas e me disse que muita gente tinha ido para o Brasil e outros para países da CEE em busca de trabalho, mas que agora muitos jovens estavam retornando devido a incentivos do governo para a agricultura e empreendimentos familiares. No entanto, as ruas continuavam desertas. Pedi a minha condutora que em vez de me levar de volta à rodoviária, me levasse para a vila de Lousã, onde poderia encontrar um dos novos amigos que fiz em Coimbra e que em Lousã trabalhava e residia. Ela me deixou no Centro da vila e eu liguei para o André a avisar-lhe que estava por lá. Ele, feliz com a notícia, me indicou um café-bar bem bacana, a Taberna Burguesa, cujos donos haviam vivido em Salvador por muitos anos e onde eu poderia comer alguma coisa enquanto ele saia do trabalho.
Conheci o André quando fotografava uns monumentos em Coimbra. Ele me viu fotografar uma fonte e logo me perguntou se eu sabia a história por trás dela. Daí, ao ouvirmos os sotaques tupiniquins ecoados por nós ambos, logo surgiu aquele sentimento de irmandade que aparece entre conterrâneos em terras estrangeiras. Foi o André quem me levou a conhecer vários lugares em Coimbra, por sinal, lugares que turistas geralmente não frequentam, porque estão fora dos roteiros batidos.
Centro da Vila da Lousã
Meu amigo me levou até o castelo da Lousã - o vi apenas por fora, pois já era noite - e de lá rumamos de volta a Coimbra, o André rindo às gargalhadas com meu momento de pânico no cemitério de Vila Nova de Poiares. Mas agora, pensando friamente no caso, não tiro a razão ao funcionário do cemitério. Afinal, estava sob a responsabilidade dele, e ele tinha de zelar pelo lugar. Sua postura foi a de alguém que leva a sério o seu trabalho.
Terminamos a noite num restaurante muito bom chamado Solar do Bacalhau, onde o Bacalhau ao Forno quentinho e o vinho da Quinta do Sobral me fizeram sorrir satisfeito por estar vivo.

"O 'adeus' de Tereza" - como diria Castro Alves
Francesca, eu e Teresa - Jardim Botânico - Coimbra
Coimbra é um lugar onde, para várias de minhas perguntas, consegui respostas  que pudessem completar meu quebra-cabeças genealógico. Lá visitei lugares que puseram fim a uma busca de duas gerações, mas, sobretudo, Coimbra é mais um lugar de que eu lembrarei pelas pessoas que conheci e pelas amizades que fiz.
Foi lá, por exemplo, que fiquei bem mais próximo de Teresa e Francesca, e que, pela primeira vez em tantos dias de convivência, vi nos olhos de minhas amigas um sentimento de melancolia e saudades misturadas, de tristeza, como a que senti ao deixar Aveiro. Acredito que seja assim que todos nos sentimos ao deixar Portugal: com um sentimento de vazio, de incompletude, de ruptura com algo maravilhoso que encontramos.
Arco de Almedina
No último dia delas na cidade, resolvemos ir andando, conversando, trocando experiências, rindo, comendo. Fomos a vários sítios interessantes, a alguns dos quais eu não conhecia como a Quinta das Lágrimas, o Jardim Botânico, e suas histórias de amor e suicídios. Conversamos sobre literatura brasileira e portuguesa, fiz uma lista de música e livros de ambos os países que elas pudessem ler e escutar para aprimorar suas experiências linguísticas. Trocamos ideias, fizemos planos para as próximas férias: Brasil, Itália, Portugal. Portugal parecia sempre ser a melhor opção. Encontramos o Riccardo, que me surpreendeu com todo o seu conhecimento sobre a cultura brasileira e a riqueza de informações que ele tinha sobre o Brasil, de sorte que até me contou três versões para a lenda da índia Iara. Ele faz mestrado na Universidade de Coimbra, mas como lhe disse, seu vasto conhecimento sobre o Brasil e a nossa cultura me fez duvidar se ele estava estudando no país certo. Continuamos os quatro a pisar aquelas ruas de pedras e paralelepípedos mais antigos que todos nós juntos, passamos pelas muralhas guardiãs e fomos parar na República dos Fantasmas, onde nosso amigo residia. Lá, mais uma surpresa, para nos despedirmos das meninas, o Riccardo fez um delicioso chimarrão! Isso mesmo, um chimarrão à gaúcha! com direito a barulhinho no final e tudo!  mas é como ele diz sempre: "Em Coimbra tudo é possível", inclusive um italiano fazendo chimarrão para esquentar o frio de fim de tarde.
Praça da Canção - Parque do Choupaninho
Deixei minhas amigas na estação, corações apertados, saudades já batendo à porta juntas com as lembranças das nossas caminhadas e descobertas, e rumei, lentamente, na direção de casa. Sentindo o vento frio da noite portuguesa, olhando o Rio Mondego correr, milenar com suas águas crispadas pelo vento. Recitando, intuitivamente, o poema de Castro Alves, que eu tinha esquecido de dizer a Teresa:

"A vez primeira que fitei Tereza,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus..."

Talvez não a valsa, mas o fado, a guitarra de Coimbra, a voz taciturna, sofrida do fadista nas tabernas da velha cidade.

"Coimbra tem mais encanto na hora da despedida"
Ou assim diz a música popular, e é apenas quando estamos de partida, em pé na estação de comboios
Competição de Kayak no Rio Mondego - Coimbra
que sentimos todo o peso dessa verdade. Começamos a pensar em tudo que estamos deixando para trás, nos lugares que visitamos, nas pessoas que conhecemos, na comida que experimentamos, nos fados que ouvimos, na vida borbulhando em todo o redor, na paz de sentarmos no parque e ver as corridas de kayak, os enamorados, os atletas, as aves voando livres.
Pensamos em tudo o que não iremos mais fazer ali e, por isso, tudo se torna bem mais encantador.
O táxi me deixou na estação Coimbra B (de onde se parte para Lisboa) apenas 4 minutos antes do trem expresso partir. Quando cheguei ao balcão de bilhetes, a atendente me disse: "Corre, põe a mala em qualquer vagão e vai andando até o teu.". Foi o que fiz, arrastando minhas malas superpesadas de souvenirs que levava para os entes queridos e garrafas de vinho que ganhei dos amigos. Mas, enfim, era hora de dizer tchau, sentar-me no meu assento e esperar Lisboa chegar dentro de alguns instantes.
Olhei pela janela do trem, o céu escurecia, as luzes de Coimbra começavam a ficar para trás, e eu me lembrava das palavras de Maurício: "Na verdade, Coimbra tem mais encanto da segunda vez que voltamos aqui". Descobrirei em tempo. Agora era fechar os olhos e esperar a próxima estação.

O que ver em Coimbra:
Feira próxima ao  mosteiro de Sta Clara, a Velha
Universidade de Direito de Coimbra;
Igreja da Santa Cruz;
Sé Velha;
Sé Nova;
Museu Machado Castro;
Portugal dos Pequenitos;
Arco de Almedina;
Ponte Pedro e Inês;
Jardim Botânico;
Biblioteca Joanina;
Igreja de São Tiago;
Mosteiro de Santa Clara a Velha;
Mosteiro de Santa Clara a Nova;
Feira ao ar livre em frente ao Mosteiro de Santa Clara, A Velha (que ocorre no 1o sábado de cada mês);
Sé Velha - Coimbra
Escada do quebra-costas;
Pátio da Inquisição;
Parque do Mondego;
Praça do Comércio.

Fora da Cidade:
Figueira da Foz;
Serra da Estrela;
Conímbriga

Onde Comer em Coimbra:
Estação Doce;
Solar do Bacalhau;
Café Bar A Caldeira;
Café Febica (dentro de uma antiga igreja na Rua de Sofia)
The World Needs Nata;
Galeria Santa Clara (ao lado de Portugal dos Pequenitos);
Restaurante da Rodoviária (por incrível que pareça, o restaurante, simples, é muito bom e a comida deliciosa. Quase todos os dias de manhã tomava café lá)

Coimbra tem mais encanto na hora da despedida: 









Londres ao pôr do sol

Devo confessar que nesta altura do campeonato não vi sequer um jogo da Copa do Mundo na Rússia. Eu sei, o Brasil está em polvorosa, ca...