domingo, março 06, 2016

Europa em 60 dias - Budapeste, Hungria - A Cidade dos Monumentos

A parte Peste da cidade vista de Buda com o prédio do Parlamento à esquerda e o Danúbio cortando a cidade
O nome Budapeste sempre me causou estranheza e curiosidade.Quando eu era criança pensava que uma grande praga havia assolado o lugar e que algum ser mítico oriental resolvera o problema. Depois fui descobrir que duas cidades haviam se unido para integrar o que hoje é a capital da Hungria. Budapeste, na verdade, são nomes que designavam lugares diferentes.

Buda vem de uma palavra eslava que significa "água" e Pest significa "fornos ardentes". As cidades foram unificadas em 1873 para formar a bela capital magiar, que hoje é uma das mais bonitas capitais europeias.

Adicionar legenda
Cheguei lá numa noite fria e de vento forte, vindo do calorzinho bom de Atenas, e fui recebido no aeroporto por um amigo mineiro que tinha conhecido durante a Missa do Galo, no Vaticano.

Ele estava fazendo parte de seu mestrado na cidade e voltava ao Brasil alguns dias após minha visita. O Luiz é desses caras que são agradáveis por natureza e que te deixam super à vontade pelo seu jeitão mineiro e tranquilo de ser.

Pode-se ver o tipo de pessoa pela gentileza: quantos de nós é capaz de ter tanta consideração por alguém pra sair numa noite de graus abaixo de zero a fim de pegar um recém-conhecido no aeroporto e levá-lo até seu alojamento?

Apesar dos meus protestos iniciais, devo confessar que fiquei superfeliz com a calorosa recepção por dois motivos: primeiro, por rever o meu camarada; segundo, porque com certeza não me perderia pela cidade à noite.

É como o próprio Luiz me disse: "Receber as pessoas na sua primeira vez em algum lugar é algo que devemos fazer, não é? Torna a chegada muito mais tranquila e agradável", e também saborosa! Ao
Rua de Budapeste
desembarcamos na estação Déak Ferenc, meu amigo me apresentou uma das típicas delícias da culinária budapestina, o kürtokalács.

Apesar do nome parecer um palavrão, nada mais é que um "pão" enrolado e coberto com açúcar e canela, servido quente e custando apenas 1 euro -  a moeda do país é o forinte húngaro (lembre de trocar o dinheiro antes de viajar para a Hungria), mas nesse stand da estação eles abriram exceção e aceitaram o euro.

Depois de provar o kürtokalács, pois não se pode comer dentro do trem, caminhamos em direção à linha amarela que era a linha para o meu hostel.

No percurso fiquei sabendo que não só aquele era o metrô mais antigo do continente, como também que ele tinha sido feito pela elite da cidade que queria ir ao parque sem ter de passar pelas ruas e ter contato com a plebe.

Daí eles cavaram um buraco no meio da rua, de cima para baixo, e fizeram a linha amarela (hoje tem mais três linhas e os trens têm as cores das linhas) a qual permanece praticamente da mesma forma desde 1896, o que torna a viagem uma volta no tempo, especialmente pelo barulho do vagão passando pelos trilhos e parando nas estações nos dando a impressão de que vai quebrar a qualquer momento.
Dentro do Castelo de Buda
Ao comprar o bilhete, lembre-se de validá-lo na máquina, pois nos trens e nas estações há fiscais que irão te multar se não virem o bilhetinho furado.

O bilhete único - que me levou da estação de ônibus do aeroporto à estação de metrô Oktogon - custa 350 HUF , mas se você for passar mais de um dia na cidade e não desejar fazer caminhadas, vale a pena comprar outros tipos de bilhetes como o de 24 horas, o de 72 horas ou o de 10 dias, este último custa 3000 HUFs).


Dentro do castelo de Buda
Pegamos o trem e alguns minutos depois, lá saíamos nós na praça Oktogon, despontando no frio gelado, a caminho do Friends Hostel.

As ruas são extremamente organizadas, as pessoas caminham como se tivessem uma linha imaginária a qual elas seguem, ordeiramente; os carros param antes mesmo de você pôr o pé na faixa - tão diferente do caos de Roma onde, mesmo com o sinal verde para os pedestres, os carros continuam passando ininterruptamente até que algum herói mete o pé e vai atravessando quase sendo atropelado.

Menos de cinco minutos depois, estávamos subindo o elevador antigo daquele prédio antigo, enorme, parecendo clássico dos anos 20 ou 30. Quem nos recebeu foi um dos sócios do hostel, o Jack.

Muito cordial e preciso nas suas frases, antes de me mostrar o quarto, pediu que tirasse os sapatos - isso mesmo! em Budapeste não se anda de sapatos de rua nas casas! Me deu as instruções, as senhas da porta de entrada, do wifi, e me desejou uma ótima estadia na cidade. Entrei naquele quarto enorme, com janelas que iam do topo até o chão, com vista para a rua.

Pus minha mala naquele lindo guarda-roupa de madeira antigo e antes de me jogar naquela camona, também de madeira maciça, fui com o Luiz comer alguma coisa no Starbucks do outro lado da rua. Está aí um hostel que recomendo.

O Friends Hostel é no centro da cidade, você pode ir a todos os lugares em poucos minutos de caminhada (eu só peguei o metrô para ir ao hostel e voltar ao aeroporto), os quartos são individuais; como é num prédio residencial, não se faz barulho e os caras lá, que também são os donos, são muito gentis e prestativos, o preço também é muito em conta. Portanto, se você quiser se hospedar num lugar bacana, organizado e limpo, ter certeza que dormirá otimamente à noite e que estará perto de tudo e pagar  um bom preço, eis o seu hostel.
Parte da cidade de Budapeste vista do topo da Basílica de Santo Estevão
Os monumentos 
Budapeste não é uma cidade de belezas naturais, apesar do Danúbio cortá-la ao meio, mas, sim, uma cidade de monumentos fascinantes. Eu já tinha feito todos os meus roteiros pelo Google maps antes de sair do Brasil, então sabia exatamente aonde ir e como chegar caminhando.

No entanto, decidi não seguir a ordem na qual o tinha feito. Apenas aproveitei o dia de sol e fui caminhando pelas ruas e visitando os lugares selecionados ou descobrindo outros que não estavam no script.
Terror Háza - Casa do terror
Quando estiver caminhando por Budapeste, preste atenção às placas postas nas calçadas, elas têm informações históricas sobre os prédios e ruas e você pode descobrir muito sobre a cidade com elas.

Meu primeiro destino foi a Casa do Terror (Terror Háza), a apenas três minutos do Friends Hostel. O lugar já assusta antes de entrarmos no prédio. Em frente ao museu, entre a calçada e a rua, há uma parede de ferro e correntes que servia como objeto de tortura durante a ocupação socialista da Hungria.

Dentro do prédio você é levado por vários andares e salas que recontam a história e a vida cotidiana dentro desses lugares e pelas ruas e cidades do país. Há também vídeos com o depoimento de sobreviventes do nazismo e do socialismo - deveria também ter vários lenços pra você enxugar os olhos por causa da comoção que o lugar te causa.

Eu passei minha manhã lá aprendendo sobre aquele país e aquele povo outrora tão guerreiro e que havia caído nas garras do fascismo alemão e soviético por tanto tempo. Me lembrei do prédio do DOPS e pensei que seria interessante que preservássemos a história da ditadura no Brasil como eles fizeram no museu do terror - obviamente ouvindo os dois lados do conflito.

Não sei o que aconteceu com esse nosso prédio, mas ter um museu em suas instalações seria muito bom para preservar a nossa história e recontá-la todos os dias a quem o vistasse.

A ida à Casa do Terror é para aqueles de coração forte, especialmente de manhã cedo quando as taxas de testosterona estão baixas e a gente se emociona com tudo. Mas é um destino sine qua non para quem quer conhecer a história política relativamente recente da Hungria, do ponto de vista dos húngaros. O ingresso geral (há outros tipos) custa 2000 HUFs e você pode tomar informações aqui: www.houseofterror.hu

Basílica de Santo Estevão - Budapeste

De volta às ruas, à luz brilhante do sol e ao frio do vento de inverno, fui descobrindo os lugares lindos daquela cidade. Entre eles, a Basílica de Santo Estevão, um prédio imponente construído em meados do século 19, tornou-se o edifício mais alto e a maior igreja da Hungria.

É um prédio de arquitetura magnífica e majestosa em estilo neoclássico e dentro do qual você deseja passar horas a fim contemplando seu interior. Dentro da igreja há também a Capela da Mão Direita onde se encontra a mão mumificada do rei Santo Estevão I, eu achei o passeio meio bizarro, mas muito interessante.

 No entanto, a minha parte favorita da Basílica foi o topo. De lá temos um mirante de onde se pode ver a cidade em 360º. Super recomendo a subida (à qual se tem acesso pagando uma pequeníssima taxa). Mas se prepare, são 364 degraus. Há um elevador, mas pra chegar a ele, há que se subir muito as escadinhas estreitas.

Me lembro de um trio de meninas irlandesas que encontrei na subida e que, depois de várias vezes dizerem durante o trajeto "What a
Basílica de Santo Estevão - Budapeste
fecking climb! Jayzus!", deram um grito imenso de alegria quando enfim chegamos ao elevador. Daí já se percebe o que enfrentamos. Porém, garanto que o esforço será recompensado.

Eu, particularmente, fiquei boquiaberto com a vista. Se dentro da igreja não dá vontade de sair, de cima dela então a vontade é de passar horas infindáveis.

Diante da igreja há uma praça onde encontramos gente de todos os lugares e de todos os tipos. Foi lá, por exemplo, que encontrei um monge Hare Krishna pedindo doações para sua comunidade - havia vários deles.

Ele me interpelou em Húngaro e eu lhe respondi em inglês que não estava interessado. Ao ouvir minha resposta, ele sorriu largamente e me disse afoito: "Eu também sou americano, de Boston. E você, Califórnia?". Eu respondi que de fato eu era americano, mas do sul, da América do Sul, mais especificamente de Salvador, Bahia, Brasil.
Budapeste - Hungria

Eu geralmente não dou atenção a esse pessoal que supostamente trabalha com agências ou ONGs, ou qualquer coisa semelhante, porque sei que muitos deles estão ali usando indevidamente o nome dessas instituições.

Em Lisboa, por exemplo, onde várias vezes eu era parado por alguém, desenvolvi uma frase que na hora afasta esse povo de mim. Quando uma dessas mulheres com a plaquetinha na mão veio me pedir dinheiro pra uma suposta UNICEF, eu olhei pra ela e disse, carregando nos "r" e "x" "Doroshki Nin Portugashka".

Ela se assustou com o dialeto e disse " O quê?", eu repeti, ela me olhou com raiva e saiu. Comecei a fazer isso em todo lugar apenas trocando Portugashka por Spanishka, Germanika, Greshka, Hungarishka, etc. É tiro e queda. Quer se ver livre da insistência desses meliantes? manda ver no dialeto.

Mão de Santo Estevão
Com o monge foi diferente. Achei que ele era sincero. Daí continuamos a conversar sobre mim e sobre ele, mais sobre ele, a quem eu enchia de perguntas.

A história de Andrew me intrigou muito. Um jovem de vinte e poucos anos, estadunidense, que tinha deixado a faculdade de direito, uma confortável vida de classe média e a igreja presbiteriana para viajar o mundo e se tornar um monge Hare Krishna, de cabeça rapada, pedindo esmola nas ruas de Budapeste.

Perguntei a ele o motivo dessa mudança tão radical e a resposta foi muito parecida com a de Judith (a senhora que conheci em Barcelona) e de outras pessoas que encontrei pelo caminho: "cansado de minha vida vazia". Jovens, velhos, homens e mulheres, muita gente cansada de suas vidas "vazias" por aí. Dei uma graninha a ele continuei meu caminho rumo ao castelo de Buda (Budai Var).
Ponte das Correntes vista de dentro do teleférico

Para chegar lá, partindo da basílica de Santo Estevão, é só atravessar a rua e depois a ponte das correntes - sobre a qual eu parei para vários flashes. Depois, é pagar, pegar o teleférico (Budavari Siklo) e subir a pequena colina que te deixa às portas do castelo de onde você tem outra visão maravilhosa da cidade e do rio.

Encontrei um grupo de brasileiros lá que estavam fazendo intercâmbio em Dublin  Mas não me demorei muito com eles. Apenas troquei algumas palavras, pedi que tirassem umas fotos minhas e segui meu caminho pelo lindo lugar até a Igreja de Matias e o Bastião dos Pescadores.
.
Igreja de Matias - Budapeste
Bastião dos Pescadores - Budapeste














Igreja de Matias - Budapeste
A igreja de Matias foi originalmente construída no século 13, mas passou por várias reformas até chegar, no século 20, à estrutura que tem hoje. O que mais me chamou a atenção na parte exterior dela foi a cor do telhado, pintado de forma a lembrar um tapete.

Não conseguia parar de admirá-la de todos os ângulos. As cores se tornaram ainda mais vibrantes e bonitas por causa da luz de ocaso. Ao lado da igreja há uma estátua do rei Santo Estevão I e ao redor dela o monumento chamado o Bastião dos Pescadores com suas sete torres representando os povos magiares.
 Este monumento foi, de todos, o meu favorito. O lugar chama à contemplação e é de uma beleza arquitetônica ímpar.

Pode-se sentar e de lá contemplar toda a parte Peste da capital húngara e ainda ter uma visão maravilhosa do Danúbio. Pode-se também sentar no jardim de frente à igreja e ao Bastião e contemplar a ambos enquanto se faz uma boquinha. Este se tornou o meu lugar favorito de Budapeste. A sensação de paz e a beleza arrebatadora do lugar te fazem ter chumbo nos pés na hora de partir.

Lembro de ter me sentado lá num dos bancos do Bastião a escutar a música vinda de dentro de um dos corredores do monumento. Era música de violino tocada por um músico de rua húngaro inundando a tarde e tornando o pôr-do-sol mais mágico e belo do que ele já era. Me lembro de um turista chinês ter me dito "Meu lugar favorito do mundo". Naquele momento, eu podia concordar com ele.
Ponte Szabadság vista da praça do Mercado Central
Grande Sinagoga, Mercado Central, Gruta de Santo Ivan e o típico Goulash
Prédio do Mercado Central
Dentro do Mercado Central - Budapeste
No dia seguinte, me custou muito levantar daquela cama quentinha e confortável para enfrentar o frio de 5º que fazia pela cidade. Mas era meu último dia na capital húngara e o sangue do desbravador falou mais alto do que o do Zé Preguiça. Fui direto ao Mercado Central conhecer
os produtos e comidas típicas da Hungria.

Os mercados centrais são sempre lugares que turistas em busca do sabor e dos souvenirs ou roupas e artigos típicos precisam de ir. O de Budapeste, então, é um lugar amplíssimo e muito bem organizado. As barracas de frutas e verduras e carnes ficam na parte inferior do prédio, e os  restaurantes, stands de roupas, bolsas e souvenirs ficam na parte superior. Entretanto, antes de chegar lá, fui caminhando pelas ruas e descobrindo novos lugares e novos sabores. Há lanchonetes baratíssimas onde se pode comer kebab ou sanduíches e café quentinho, barracas que vendem vários tipos de chocolates trufados, e praças para sentar e saborear o rango, no frio mesmo.

Grande Sinagoga de Budapeste
O bairro judaico, por exemplo, fica no caminho para o Museu Nacional Húngaro e o Mercado Central, e também é onde encontramos a Grande Sinagoga de Budapeste. Vale a pena pagar a entrada e visitar o prédio para conhecer mais a fundo sua história.

Lá, estavam pondo em pé um memorial ao povo judeu escrito em três línguas .
Mas se o dia estiver muito frio, como estava, faça como eu e corra para os sabores e aromas do mercado central.





Depois de caminhar muito pelo local, sentei-me num dos quiosques e fui forrar o estômago. Há vários stands com todo o tipo de comida, eu preferi o que servia uns cones recheados de carne e legumes muito saborosos. Devo ter comido uns três.

A comida é típica e se chama Kolbice, o que, segundo a explicação da atendente, significa "calabresa no sorvete", porque o cone onde a comida é posta lembra a casquinha de sorvete. Fora o sabor - há de vários tipos, como se pode ver na foto -, o preço também é muito em conta. Bem melhor do que comer num desses fast-foods estadunidenses.

Além disso, vale muito a pena conversar com as pessoas desses stands, elas são muito cortezas e felizes em ajudar na escolha. Me lembro que a moça que me atendeu me recomendou um outro kolbice em vez do que eu tinha escolhido, dizendo sinceramente que eu não me iludisse com as fotos, elas eram ilustrativas. O melhor mesmo era o outro, que tinha mais recheio e era bem mais saboroso. Depois de experimentar a ambos, vi que ela tinha razão.

Gellert Hill vista da Ponte Szabadság
Estátua da Liberdade - Budapeste
Ao sair do Mercado Central de Budapeste, virando à esquerda, vamos dar na ponte Szabadság, atravessando a qual chegamos ao lado Buda da cidade para ir à Citadela, à Gruta de Santo Ivan, etc. 

Essa ponte, para mim, é uma atração à parte. Fiquei no pier sobre o Danúbio apenas observando-a por vários minutos. O vento frio batendo no rosto, as luminárias embelezando as calçadas, o verde da ponte contrastando com o céu cinzento de chuva, tudo era tão romântico. Eu como sempre, após observar um monte de tempo, fui fazer minhas centenas de fotos.  

Uma das que mais gostei é a que pega a ponte, a colina da Gruta de Santo Ivan (Gellert Hill Cave), o Danúbio e a Estátua da Liberdade ao fundo.

Fiquei lá pensando sobre todas as histórias que tinha escutado sobre o povo húngaro e a Hungria. Aquele povo que, segundo Bruno Bethelheim em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, tinha dado origem aos "Ogros".

De Ogros eles não tinham nada, pelo contrário, todos os húngaros que encontrei foram supergentis comigo. Ao contrário do que vários dos meus amigos e blogues que li na Internet me haviam advertido, não vi um povo rude nem sem paciência.

As pessoas com quem conversei desde o Jack até os atendentes de lojas e supermercado, às pessoas na rua, todos me trataram muito cordialmente. Mas, de repente, foram os meus lindos olhos castanhos e minha pele morena que fizeram a mágica, né?! Vai saber.
Gruta de Santo Ivan
Atravessar a ponte de ferro é outra atração genial, pois quando os bondes passam, a ponte treme.

Dá pra ficar parado, encostado à balaustrada e sentir a vibração dos bondes e dos carros. Mesmo caminhando sentimos o tremelicar das estruturas, nada que assuste, no entanto.

Do outro lado da Ponte Szabadság,  está a colina que nos leva à Gruta de Santo Ivan e à Citadela. A visita é interessante e dentro da gruta, por uma pequena taxa, pode-se entrar com áudio-guia. A história é muito interessante.

Diz-se que Santo Ivan curava as pessoas com a água que brotava do que hoje é uma das termas de Budapeste e que fica muito próxima dali.
Belvárosi Plénábiatemplom 
De lá, fui andando até a outra parte da colina onde, num bosque, há a estátua em homenagem a São Geraldo (Gellert), que foi jogado colina abaixo pelos pagãos resistentes à cristianização do país.

O monumento é magnífico e pode ser visto até da outra banda do rio para onde eu fui comer um delicioso goulash húngaro num restaurante bem pitoresco chamado "The Imperator" - há uma limusine branca à porta do restaurante que é o marco do lugar.

Mas nem precisava tanta ostentação, a comida deliciosa, o preço acessível e o ambiente muito charmoso, já dariam pra tornar o lugar conhecido por todos. Quando cheguei para o almoço estava tocando Julio Iglesias e o garçom, pensando que eu era espanhol, disse serem aquelas músicas em homenagem a mim, pois a Espanha é um país admirável e eles estavam felizes em ter um cliente espanhol! (?).

Bom, fiquei lá curtindo Julio e comendo meu pãozinho até que o famoso goulash chegou. Descobri que esse
Goulash no The Imperator
nome estranho nada mais era do que um bom e quente cozido, o qual eu devorei com a fome de leão feita pela andada longa e fria daquele dia. Perto do The Imperator há uma praça muito bacana que lembrou uma das Praças Matrizes de alguma cidadezinha do interior do Brasil, e, na mesma região, a famosa Praça Vörösmarty se abre com seus cafés, stands de comidas e bebidas típicas e lojas de grife.

A caminhada vale a pena e o almoço também. À noite há apresentação ao vivo de música à voz e piano no restaurante e a Praça Vörösmarty e arredores fervilha de gente interessante.

O Danúbio não era azul
A gente passa a vida escutando O Danúbio Azul, de Strauss, e fica com a imagem do nome na cabeça. Porém, em Budapeste, assim como Chico Buarque, descobrimos que ele não é azul.

Pelo menos não nessa parte onde ele corre. Mas, de qualquer forma, continua bonito e inspirador. Especialmente se pegamos um desses passeios de balsa e rumamos até à Ilha Margarida (Margrit) ou simplesmente caminhamos pelo cais em um ou outro lado da capital húngara.

O que importa mesmo é que ele é o Danúbio e corre lindo e romântico pela cidade enquanto a gente ouve ressoar nos ouvidos a valsa do compositor alemão "tan tan tan tan tan... tan tan... tan tan" ou o verso do Red Hot Chilly Peppers "Sing along just like they do in Budapest" ao caminhar pelas ruas.
Parlamento visto do Castelo de Buda



Por isso, despedir-se dessa cidade charmosa, não foi tarefa fácil. Será preciso voltar lá algumas vezes mais, saborear mais um pouco os gostos, os aromas, as vistas, a vida fluindo e o vento frio dessa cidade encantadora, com sua gente de frases precisas e diretas, mas sempre cordiais (na minha experiência).

Tinha deixado para ir a uma das termas no meu último dia à noite, mas estava tão frio que preferi o calor dos bares ao calor das águas e fui com o Luiz a um dos muitos estabelecimentos próximos ao Friends Hostel a conhecer gente jovem e interessante enquanto tomava um, dois, três cafés e a galera me perguntava: "você vem pra um bar pra tomar café?" Fazer o quê, né? cada um com o que gosta. Alguns gostam de cerveja, eu gosto de café e assim a vida segue com as termas ficando para a próxima vez.

Igreja de Matias e Bastião dos Pescadores
Por volta da meia-noite voltei para o hostel, pois de manhã cedo estaria de partida para Dublin. Comprei meu bilhete na mão de um dos fiscais do metrô, peguei o vagão até a estação internacional de ônibus, e pude ver a vida despertando na cidade.

Vários trabalhadores e estudantes com cara de sono, dormindo nos bancos enquanto o barulhinho já comum pra eles de trem quebrando ao meio e seu tremelicar os ninavam.

Pôr-do-sol de dentro do Palácio real
Cheguei ao aeroporto com o sol despontando no horizonte por trás dos vidros da sala de embarque.

Me pus na fila da Ryanair a escutar aquele lindo sotaque de dezenas de dublinenses contando suas aventuras pela cidade, pelas termas, bares e casa de massagens e me lembrei de que estava indo para a minha "segunda casa" - como me disse o rapaz da loja de souvenir quando fui comprar meu imã de geladeira: Dublin é a segunda capital do Brasil, não é? Todo brasileiro que vem aqui  (e vem um monte deles) diz que está morando em Dublin".

O quanto de verdade há nisso! e agora eu iria lá, rever amigos, rever a cidade do Rio Escuro e conhecer coisas que não tinha conhecido quando morei lá. Agora eu ia fazer coisas de turista, não de estudante.

Olhei mais uma vez a minha passagem, confirmei o portão e me mandei em direção a ele. Dublin já me sorria de longe.

Vörösmarty Ter - Praça Vorosmarty

Atrações imperdíveis em Budapeste:
Hungarian State Opera;
Basílica de Santo Estevão;
Ponte das Correntes;
Memorial dos Sapatos;
Palácio Real;
Igreja de Matias,
Bastião dos Pescadores;
Budavari Labirintus;
Citadela;
Casa do terror;
Grande Sinagoga de Budapeste;
Mercado Central;
Gruta de Santo Ivan (Nagyasszonya Sziklatemplom);
Ilha Margarida (Margrit Island);
Belvárosi Plébáriatemplom (A igreja mais antiga de Budapeste) - nessa mesma região, na Rua Martius (pronúncia /március/) há ruínas de uma antiga adega e um museu;
Termas.

Veja nas rotas do Google maps como chegar a esses lugares partindo do seu alojamento. Lembre-se de que em Budapeste se pode fazer tudo andando.

Gostou? Então divulgue :)








sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Europa em 60 dias - Atenas, Grécia - Entre deuses e ruínas

"Epomeni stassi, ...". Dizia a gravação dentro do metrô. Ouvi essa frase tantas vezes no percurso do aeroporto para meu hotel que em menos de vinte minutos na Grécia já havia aprendido como dizer a muito necessária frase "Próxima estação". Afinal, do aeroporto internacional de Atenas até a praça Metaxourgeio, por onde fica o Hotel Neos Olympos, foram várias - várias mesmo! - estações e mais ou menos uma hora e meia de viagem entre inúmeras plantações de oliveiras e muros decorados com andorinhas.
Bandeira da Grécia na Acrópole
Quando cheguei à estação caía uma chuva leve e insistente para refrescar o calorzinho tímido que fazia àquela semana. Dos graus negativos de Berlim à tepidez bem-vinda da manhã grega fui eu andando pelas ruas. O celular tinha descarregado e, por não poder usar o Google maps, me dirigi a uma senhora que passava a fim de saber como chegar ao meu destino. Ela me olhou com aquele lindo sorriso avoternal (mais um neologismo para a coleção de vocês), entrou num restaurante, falou um monte com os homens lá dentro e voltou para me dizer exatamente como chegar.
Essas interpelações nas ruas que eu gosto de fazer
Entre o Partenon e o templo de Atenas Nike
me dão uma ideia de como são - ou podem ser - as pessoas locais. Você vê, uma senhora que entra num restaurante cheio de homens para fazer uma pergunta em favor de um estranho e todas as pessoas lá dentro parecendo estarem felizes em ajudar, mostra que Atenas é uma cidade onde eu não me sentiria desamparado caso precisasse de ser socorrido uma outra vez - pelo menos em teoria. E foi mesmo isso que eu vi por lá: gente muito sorridente, amistosa e interessada em me estender a mão. Aliás, não só a mim. Um dia desses que estive passeando nas ruas, vi um rapaz com pinta de pedinte sentado na calçada comendo biscoito e dividindo o biscoito com os pombos que se aproximavam, uma mocinha parou, olhou pra ele e seu gesto com um rosto tão completamente cheio de ternura e lhe deu dez euros. Diferente daqui, ninguém olhou pra ela com olhar de reprovação, nem ela o olhou como se ele fosse um preguiçoso ou viciado. Parecia que ali era um ajudando o outro, pois quem não podia ajudar, não simplesmente fingia que o rapaz não estava ali, ao contrário, cumprimentava-o. Essa foi a Grécia que eu vi e pela qual me encantei mais do que pelos monumentos. A Grécia dos monumentos frios e ruínas mortas era a Grécia da solidariedade e da misericórdia.

A Acrópole
Odeon de Herodes Ático
Desta vez, fiz boa parte de minhas visitas pelo metrô. Gostava de ouvir as frases em grego anunciadas nos vagões, ver os rostos multicoloridos e multiétnicos, a vida cotidiana daquela cidade de tantos milhares de anos nas imagens que via dentro e de dentro do trem. Da Metaxourgeio (próxima a qual estão vários hotéis que atendem a todos os tipos de clientes) à Akropoli são apenas quatro estações, algo como sete ou dez minutos, um tempo pouco, mas que parecia uma eternidade para quem tinha o coração ansioso por ver todos aqueles monumentos que a gente aprende a admirar desde pequeninos. Essa ansiedade, à medida em que se vê a luz no painel indicativo se aproximando da Cidade Alta (Akro = alto; Polis = cidade), só ia aumentando. E mesmo depois de ter saído do vagão, a expectativa vai se alargando ao nos depararmos com as estátuas e objetos retirados das escavações pelas vizinhanças e postos em todo entorno para não nos deixar esquecer onde estamos. Na saída, (lê-se exodus), pegando a esquerda, pela rua Dionísio Areopagita, vamos parar no Museu da Acrópole, no Teatro de Dionísio (o mais antigo do mundo), Panteão de Herodes Ático, Areópago e aos pés da parte sul da Acrópole (por onde subimos a ela); à direita vamos à Porta de Adriano e ao templo de Zeus Olympos, ou ao à Praça Monastiraki, no Plaka District (depois de pegar a direita, segue reto por uns dois minutos. À sua esquerda, atravessando a pista, se encontram a Porta de Adriano e o templo de Zeus Olympos; à direita caminha-se por uma avenida de lojas e restaurantes até à Praça Monastiraki).
Anfiteatro de Dionísio
A rua Dionísio Areopagita é um lugar lindo, limpo e seguro onde centenas de locais e turistas passam todos os dias a caminho da Acrópole e outros monumentos. Onde podemos ouvir gente cantando e tocando música popular grega ou internacionais em troca de uma gorjeta. Dela, olhando a sua direita, o Partenon se impõe magnífico por sobre o bosque de oliveiras e pinheiros. Aí, antes de subirmos as escadarias que nos põe de frente ao Anfiteatro de Herodes Ático, é preciso fazer uma pausa. Me sentei num dos vários bancos pelo caminho e simplesmente senti o ar fresco que corria entre as oliveiras a ouvir o canto sereno e tímido das cotovias e pensar em tudo o que lera sobre história e guerras antigas e a Grécia dos deuses e heróis. Mais uma vez aquela sensação maravilhosa de ter a história diante dos meus olhos me envolvia todo e me emocionava, quase ouvia Chico Buarque cantar: Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas...
Da  Acrópole, estrategicamente posicionada em um dos pontos mais altos da cidade, pode-se ter uma visão em 360º graus de Atenas. A vista é extasiante! Passei horas contemplando o lugar, pesquisando os dados históricos e conhecendo gente, inclusive dezenas de brasileiros. Acho que Atenas - depois de Dublin e Coimbra, nessa ordem - foi o lugar onde mais encontrei turistas brasileiros.
Bem, enquanto fazia uma boquinha sentado nos degraus próximos ao Monumento de Agripa, a movimentação sobre uma colina de pedra chamou minha atenção. Fiquei curioso em saber o que era aquele lugar e por que havia tanta gente lá se a melhor visão da cidade era da Acrópole. 
Quase terminando o dia (a visitação aos monumentos no inverno é encerrada às 14:45), fui ao local que
Inscrição no Areópago
tanto me interessou. Assim que cheguei, a placa me disse do que se tratava: AREÓPAGO - A Colina de Ares, o deus da guerra. Entrei em choque! Foi exatamente ali que aconteceu um dos episódios que mais me impressionavam na cultura da filosofia ocidental. Um dia, o apóstolo Paulo foi levado pelos epicureus e estoicos até aquele exato lugar para que lhes explicasse a doutrina do cristianismo nascente. Paulo então, cheio do espírito real do cristianismo (tão diferente do circo que esses páreas mercantilistas fazem hoje em dia! Opa! Lá vou eu politizando de novo), subiu à parte mais alta do Areópago e começou o seu discurso que converteu até Dionísio, o Areopagita (se lembram do nome da rua?), iniciando assim o cristianismo grego. Me pus de pé na parte mais alta que há agora e contemplei a cidade, a Acrópole, as pessoas fumando e bebendo e fotografando ali. Me veio à lembrança o discurso de Paulo: Senhores atenienses, (...)" e agora a parte que me fascinava: "(...) Vos anuncio o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe e que não habita em templos feitos por mãos de homens, nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa (...) e que não está distante de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos (...) não devemos pensar que ele é semelhante ao ouro, ou à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem". (Atos 17).
Extasiado pela lembrança, me sentei, liguei a música do meu celular e fiquei lá, esperando o pôr-do-sol de inverno sobre aquela cidade idólatra, linda, fascinante. Enquanto ouvia minha Bossa Nova e deixava o vento friozinho me beijar a face e gelar minhas orelhas, uma família se aproximou de mim. Aquele sotaque lindo, aquela cadência soteropolitana nas frases! Cazuza cantando "Faz parte do meu show" e eu ali, em pleno Areópago conversando com meus conterrâneos sobre nossas viagens pelo mundo, vasto mundo, e tão pequeno mundo que saímos daqui e lá nos encontramos para um bom papo e algumas fotos! O André e sua esposa estavam visitando a filha que estuda em Budapeste (meu próximo destino!) pelo Ciências Sem Fronteiras, e resolveram dar uma esticadinha por outros lugares, haviam acabado de chegar e foram diretos para ali.
Pôr-do-sol do Areópago
Passariam mais um dia e voltariam para a Salvador querida, como ele me disse: "Sabe, Márcio, essa viagem serviu para me fazer gostar mais ainda do Brasil. A gente tem tudo lá. Você chega no controle de passaporte dos aeroportos e esse pessoal te faz mil perguntas, como se a gente fosse trocar a Bahia, o Brasil, por esse mundinho aqui. As frutas não têm cheiro; tem lugares onde a gente foi (Israel), onde, pra entrar na praia, você tem de pagar; na Áustria é tudo escuro, tempo horroroso, etc. Estou mesmo é com saudade da minha Orla azul e da minha comida". Ponto pra você, André, e 0 para os brasileiros que imigram (ilegalmente) para o exterior e, ressentidos de terem de dar o sangue, trabalhando feito escravos em correntes e sendo vítimas de preconceito, detonam seu país nas rodas de jantar com os estrangeiros - como vi no meu hostel em Lisboa - para se sentirem menos humilhados pela escolha que fizeram e condições em que se encontram (mas essa é outra história).
Meus conterrâneos se foram, e eu fiquei ali, sozinho com minha música e minhas ideias, pensando no choque que as palavras de Paulo causaram nos gregos, ali, naquele lugar cheio de templos de deuses e imagens de escultura às quais os atenienses adoravam, imagens de homens feitos deuses. Precisava de ter muita coragem e ser muito intrépido para fazer isso. Correndo o risco de ser jogado dali de cima mesmo, de ser apedrejado, ele falou daquilo em que cria - essa atitude dele foi o que sempre me fascinou; a certeza do que ele dizia a ponto de colocar a própria vida em risco sempre me fascinou. E agora eu estava ali, contemplando a cidade que ele contemplou e os templos e deuses dos quais ele falou. Não tem preço!
Meus conterrâneos já estavam longe e eu continuei lá, esperando o sol sumir no horizonte enquanto um grupo de mexicanos gritava "Padrísimo!" ao conferirem o resultado de suas fotografias.
Pôr-do-sol desde o Areópago
Plaka District, Praça Monastiraki, Porta de Adriano e Templo de Zeus Olympos. 

Plaka District
O Distrito de Plaka é um bairro histórico ocupado desde a Antiguidade, por causa de sua proximidade com a Acrópole e vários templos das imediações, também é chamado de Distrito dos Deuses. Se você quer comer, beber, encontrar pessoas, fazer compras que variem de um delicioso gyros à colares de pedras preciosas à pênis de madeira de todos os tamanhos e diâmetros expostos nas vitrines, este é o local que você não pode deixar de conhecer. Andando pelas ruas e vielas estreitas entre casas em padrão neoclássico e ruínas históricas, você não sabe para onde olhar. Lá há de tudo! Ele se localiza entre a Praça Monastiraki e a Praça Sintagma (outro lugar imperdível). Caminhar pelas ruas é sentir o aroma de azeite de oliva, cordeiro, perfumes... e o melhor de tudo é que de lá, pode-se fazer uma visita a vários sítios históricos como a Porta de Adriano e o Templo de Zeus Olympos numa extremidade e a Praça Monastiraki e Biblioteca de Adriano da outra, por exemplo.
Templo de Zeus Olympos e Acrópole ao fundo
Comprando o ingresso de 12 euros para visitar a Acrópole, pode-se visitar também o templo de Zeus Olympos e a Porta de Adriano, que ficam bem próximos um do outro - o ingresso vale por 48 horas. O lugar é interessantíssimo pra quem gosta de história, ruínas e paz. Eu me sentei lá e fiquei contemplando a linda visão da Acrópole, as colunas imensas do templo de Zeus Olympos e me divertindo com um grupo de estudantes adolescentes dos EUA que estavam lá com o professor de história, e, claro, peguei a ponga deles e fiquei ouvindo a palestra, né! O mundo é dos sabidos, já disseram por aí.
Quando você fizer a visita, lembre de algo muito curioso em relação à Porta de Adriano, o cara que botou moral por lá: há duas inscrições sobre o arco, uma na parte ocidental e outra na parte oriental. A primeira diz: Esta é Atenas, a antiga cidade de Teseu; a segunda diz: Esta é Atenas, acidade de Adriano, não de Teseu! A Porta foi construída entra os anos de 131 e 132 da Era Cristã.
Porta de Adriano
O templo de Zeus Olympos, por sua vez, tem uma história mais interessante. Foi construído a partir do ano de 515 antes de Cristo, como forma de
Plaka District - Atenas
agradecimento a Zeus por livrar o imperador Deucalião, do dilúvio que o próprio Zeus havia mandado para destruir a raça humana por causa de sua grande maldade na Idade do Bronze . Deucalião e sua esposa Pirra foram poupados por serem as únicas pessoas boas na face da terra. Resultado, aconselhado por seu pai, Prometeu, Deucalião fez um barco de madeira e pôs as provisões necessárias para os dias sobre as águas. Depois de nove dias passados, as águas baixaram e todos foram felizes (até certo tempo! - afinal, estamos falando de mitologia grega, não de contos de fadas: tragédias, comédias e mais tragédias). A história soa familiar?
E por falar em águas, pode-se também ver ruínas das famosas termas romanas entre o templo de Zeus Olympus e a Porta de Adriano. Recomendo o passeio e o piquenique.
Praça Monastiraki
Mas, não querendo fazer um piquenique e sim experimentar o que a culinária grega tem de melhor, atravesse a rua e vá em direção à Praça Monastiraki. Por lá você encontrará restaurantes maravilhosos, cafés, lanchonetes que servem gyros e uma sorveteria italiana maravilhosa! Se preferir comprar um gyros ou uma merenda, quando for comer sente-se na praça e contemple a vista - mil vezes melhor que ficar dentro de um restaurante fechado. Você está na Grécia! Vá ver o sol! Apenas fique de olho nos seus pertences, pois há pessoas, especialmente imigrantes, que estarão lá esperando o seu vacilo - pode crer.

Anafiotika - um pequeno hiato

Quando estiver no Plaka District, aproveite para dar uma chegadinha em Anafiotika, um bairrozinho simples e muito elegante que começa na Rua de Adriano. A história desse lugar é bem interessante. Inicia-se quando o rei Otto manda trazer construtores da ilha de Anafi para restaurar o palácio dele. Depois, foram chegando trabalhadores de outras ilhas, especialmente das Ilhas Cicládicas, que foram se instalando lá, e à noite, começaram um trabalho intenso de  construção de suas casas no estilo das ilhas. Essa "favelinha" se tornou um dos lugares mais charmosos da atual Atenas e vale a pena visitar não só pela vista ou pelo estilo das casas, mas também pelos moradores que são sempre muito gentis e, se você for um cara carismático como certos baianos que eu conheço, é bem capaz de um morador te chamar pra um bate-papo e um delicioso vinho (ou cafezinho). Eu me apaixonei pelo lugarzinho e pela hospitalidade das pessoas que encontrei enquanto fazia minha visita por lá.

Troca da Guarda - Evzones

No meu último dia em Atenas eu aproveitei para ver a troca da guarda do Parlamento. Os Evzones - significando "de bela cintura", um termo de honra desde tempos homéricos -, são de imensa importância histórica para os gregos. Hoje a guarda é formada por voluntários do exército que têm de cumprir alguns requisitos mínimos para poderem ser Evzones, tais quais ter pelo menos 1.87 de altura e ter servido ao exército por pelo menos seis meses.
Os trajes típicos dos Evzones é o que mais chama a atenção. A indumentária reproduz o fardamento dos Klephts, gregos que viviam retirados nas montanhas durante a ocupação turca da Grécia e que foram os responsáveis por definitivamente livrar o país do domínio otomano. O melhor dia para ver a troca da guarda, que ocorre exatamente de hora em hora (à hora precisa: 10, 11, 12...), é aos domingos, quando há um desfile de toda a tropa junta e depois a troca da guarda.
O Parlamento fica sobre a Praça Sintagma. Ao sair da estação, sobe-se as escadaria à direita e daí é só atravessar a rua.
Árvore de Natal na Praça Sintagma - Atenas
Após a troca da guarda, voltei para a praça Sintagma e fui caminhando até à Praça Monastiraki para fazer uma boquinha num restaurante-café muito bacana chamado Maiandros, onde o garçom, quando soube que eu era brasileiro, me deu todos os nomes dos jogadores da Seleção de 1982 e me disse que aquela tinha sido a maior seleção brasileira de todos os tempos, trocou algumas palavras num português bem engraçado e pediu pra eu voltar sempre. Recomendo o restaurante! Além da simpatia dos garçons, a comida é muito boa e barata, o lugar é limpo, seguro e bem na saída da Monostiraki - bem à mão mesmo. Este é o site deles: http://www.maiandros.com.gr/

Barriguinha cheia, voltei caminhando por aquelas ruas cheias de gente, cheias de cheiros, cheias de lojas de artigos caríssimos e baratíssimos. Me lembrei da senhorinha simpatissíssima com quem comprei uns imãs de geladeira, uns vazinhos de louça (que deixei no hotel pra não pesarem minha mala modelo Ryanair com peso de 10 kg máximos!) e uns chaveirinhos de souvenir (na rua que fica entre a Acrópole e a Biblioteca de Adriano). Pensando que eu era italiano, degringolou a falar nessa língua comigo tentando me persuadir a comprar todos os
Plaka District
produtos da loja, numa maestria incrível de vendedora. Eu, que iria apenas comprar um chaveiro para a coleção do meu concunhado, acabei comprando várias outras coisas - não, ela não me seduziu pela lábia, mas por uma frase apenas. Quando eu lhe disse, "eu vou comprar apenas um chaveiro, mas tenho certeza que outros turistas virão aqui porque os seus produtos são muito bonitos", ela me disse: "Oh, filhinho, olhe ao redor, está vendo quantos turistas estão passando? agora olhe dentro das lojas. Eles vêm aqui e não entram, nós não vendemos". Partiu meu coração ver aquela velhinha precisando vender e eu ser, pela meia hora que lá fiquei conversando com ela, a única pessoa que entrou e comprou. Na hora de ir embora eu lhe disse que não era italiano, era brasileiro. Ela me olhou, me disse "obrigada e estou feliz", em português mesmo, e me deu um beijo tão avozildo na bochecha que eu quase gastei o resto do meu dinheiro para os próximos trinta dias naquela loja - quase!
A Caminho do Aerodromio (Aeroporto) El. Venizelos - o susto!

Igreja de Panaghia Kapnikarea
Atenas vai ficar para sempre guardada em minha memória como um lugar vibrante e cheio de monumentos lindos e importantíssimos para a história e cultura mundiais. Mas especialmente como um lugar de gente muito humana e acolhedora. Talvez por isso os momentos antes de partir tenham sido meio tristes - agora eu ia pra um lugar onde todo mundo me dizia que as pessoas eram sempre rudes e de pouca conversa. Cheguei à varanda do meu quarto, olhei a cidade de cima mais uma vez, contemplei o céu e naquela cidade de tantos deuses, agradeci ao meu, que também era o de Paulo, porque tudo tinha ido muito bem e porque eu tinha tido aquela maravilhosa oportunidade de ver com os meus próprios olhos o que os livros de história e mitologia tinha gravado em minha mente. Peguei minha malinha e fui descendo a escadaria daquele prédio de estilo clássico, vendo aquela decoração linda, e suspirando. Mas é isso aí, um dia, amigo, eu volto pra te
Street Dance na Avenida Ermou - Atenas
Praça Sintagma - Atenas
encontrar, quem sabe. Me despedi do velhinho da recepção com quem bati altos papos e andei até encontrar a estação. No trem, sentei, e voltei a escutar as dezenas de "Eponi Estassi". De repente, o metrô parou, todos saíram, as luzes se apagaram e a voz nos meus ouvidos deixou de falar. Olhei pra um lado, pro outro, um monte de gente em pé fora do metrô e eu com cara de menino amarelo sem saber o que fazer. Uma moça, vendo minha cara, me disse em inglês: Não se preocupe, o trem para por alguns minutos e daqui a pouco a gente segue para o aeroporto. Agradeci, ela se afastou, eu me encostei na parede e um rapaz começou a puxar conversa comigo em inglês. Era um mochileiro chileno que estava viajando a Europa com um amigo também chileno (porque, pelos preços, é impossível viajar na América do Sul) pela primeira vez. Aliás, era a primeira vez que ambos saiam de sua cidadezinha ao sul do Chile para desbravar o mundo. Estavam encantados, um deles, o Felipe, quando soube que eu era brasileiro, me falou de um músico brasileiro chamado Roosevelt Rodrigues que está fazendo muito sucesso no Chile, parece que participou de um programa tipo Ídolos e mandou ver. Depois procurei os vídeos dele no youtube, vi o do programa de TV e o achei muito bom cantor!
Me despedi de meus novos amigos e fui caminhando pelo aeroporto para o meu portão de embarque com o coração pesaroso por deixar Atenas, sentindo já uma saudadezinha leve no peito. Enquanto andava, parei por alguns segundos a escutar João Gilberto cantando "Chega de Saudade" pelos auto-falantes do Aerodromio de Atenas - ouvir um baiano cantando em português no aeroporto da Grécia! E concordei com ele. Isso aí, João, você está certo! Nada de saudade, o mundo é vasto! #partiubudapeste!

Gostaram? então divulguem!



Londres ao pôr do sol

Devo confessar que nesta altura do campeonato não vi sequer um jogo da Copa do Mundo na Rússia. Eu sei, o Brasil está em polvorosa, ca...