sexta-feira, junho 24, 2011

Obrigado, Jesus, por tudo. Kiitos, Jeesus, kaikesta.

(Scroll down the page for the English version)

Esses dias eu voltei aos meus estudos de finlandês os quais havia deixado de lado há alguns anos. Decidi retomar uma antiga prática minha - que se tornou conselhos que dou para os meus alunos todos os dias no final das aulas de línguas - e escutar música, muita música, na língua estudada a fim de expor o cérebro ao sistema fonético do idioma, memorizar palavras e estruturas mais rapidamente e aprender frases sem correr o risco de interferência forte da língua materna ou de absorver sotaques regionais dos falantes nativos - você já reparou que - salvos os casos de reafirmação cultural - não há sotaques em música, por mais "carregado" que o idioleto seja quando o sujeito fala? Até mesmo os gagos cantam sem gaguejar! Enfim, querendo aprender um idioma, ouça, memorize e cante música!

Me lembro que minha professora de italiano, Professoressa Marta, costumava pedir que os alunos dessem exemplos de palavras em determinadas funções (adjetivo, verbo, substantivo) para que ela as pusesse no quadro seguindo o alfabeto de A a Z. Toda vez que chegava minha vez de falar, ela dizia: e tu, cantore, puoi dire la parola adesso? (e vc, cantor, pode dizer a palavra agora?). Isso acontecia porque toda vez que eu chegava em sala, tinha estruturas ou palavras novas tiradas de músicas - e ela sabia.

Bem, esses dias fiquei pensando que tipo de música eu podia escutar em finlandês para memorizar mais rapidamente essas palavras cheias de vogais duplas, consoantes duplas, casos flexionais (15 deles!!! o Latim antigo só tinha 6...) Não sabia de nenhuma! Além do Nightwish, que canta em inglês, o que você conhece da música finlandesa? Não precisa pensar muito não, estamos no mesmo barco! NADA! NINGUÉM! COISA NENHUMA! Aí fiquei frustrado, porque não basta apenas escutar música, é melhor escutar uma música conhecida, apelar para a memória afetiva, reconhecer melodias. Mas nada de nada me lembra nada em finlandês.

Então fiquei pensando, pensando, pensando e me lembrei de uma música que o mundo inteiro conhece. Já a ouvi em diversos idiomas mundo afora e com certeza eu a encontraria em finlandês!!! Longa vida à Internet! Fui pesquisar e não encontrei. Pus no tradutor Google transformando do inglês (língua original da música) para o finlandês, do português para o finlandês, do italiano, espanhol... troquei adjetivos, substantivos, verbos de ligação e nada. Até que no último minuto, lá estava ela, tão fácil, tão acessivel! Era só não ser tão esnobe usando palavras do vocabulário clássico "Thou", "Tu", "Vous", um simples "Ele é grande" bastava. É claro que tive de mudar Tu para Ele, mas no final tudo foram melodias... equivocadas! Não encontrei a música que procurava, mesmo tendo encontrado o refrão! (se alguém conhecer, me avise!)

A música "Quão grande és tu" - se você já foi a alguma igreja cristã, se já leu o hinário cristão algum dia, se já assistiu a programas religiosos de TV  num desses dias aziagos e lentos, com certeza já escutou essa musiquinha bonita que diz: "Senhor meu Deus, quando eu maravilhado paro a pensar em Teu grandioso ser (...) com refrão "Quão grande és Tu, quão grande és Tu...". Tão simples, tão fácil, tão pequena, tão bonita! em Português! Porque as versões em finlandês, meu Deus, sem comentários.

Mas eu continuei procurando. Do Google passei para o Youtube. Ah maravilha das maravilhas! vídeos do mundo inteiro! Clipes, violões, shows! fiquei procurando músicas cristãs e esbarrei com um rapazinho de cabelos bagunçados tocando violão. Resolvi arriscar. Vamos lá, música finlandesa, pouco mais de um minuto, deve dar. Na hora que ele começou a cantar eu lembrei do som!! RAPAZ! essa música eu conheço, cantávamos na Igreja Batista no meu tempo de menino e agora aquele rapazinho finlandês estava cantando ela também. De imediato me identifiquei com ele, já era praticamente de casa. Aquele som, aquela reverência que ele faz ao cantar, o coração cheio de adoração - esta é a palavra mais apropriada ao contemplarmos sua expressão -, me lembrava de mim mesmo há alguns anos. Fiquei até de madrugada aprendendo a cantar, com o som nas alturas e o vizinho do lado batendo na parede.

Claro, a música é a mesma, mas a letra difere um pouco. Nossa versão diz "Vamos adorar a Deus", a deles diz "Obrigado, Jesus, por tudo". Mas adorar e agradecer  tem tudo a ver com Graça, com louvor, com alegria do coração. Eu agradeci por ter a oportunidade de ouvir essa música me trazer tão boas lembranças e por me ajudar a memorizar mais alguns sons e palavras finlandeses.

Afinal, poder agradecer a Deus por tantas coisas boas que nos chegam, e até mesmo pelas ruins que nos fazem mais fortes, mais esperançosos, é algo que deveríamos fazer todos os dias em português, finlandês ou qualquer idioma que vc queira falar, né não? - é, é sim!

Aqui vai a letra original em finlandês e a tradução livre que eu fiz:

Kiitos, Jeesus, kaikesta (2x)
Obrigado, Jesus, por tudo (2x)
Uudelleen mä toistan tunteen sydämen
Repito de todo coração
Kiitos, Jeesus, kaikesta.
Obrigado, Jesus, por tudo.
Sä saavuit elämään toit valon sisimpään
Chegaste em minha vida trazendo luz ao meu ser
Niin rikkaan elämän mä tunsin löytyvän
(E) Uma vida cheia de riquezas eu encontrei
En hiljaa olla voi kun sielussani soi
Não consigo me calar de tanta alegria na minha alma
Kiitos Jeesus kaikesta.
Obrigado, Jesus, por tudo.

E a versão original em português, sem tradução para o finandês (descullppeem, anteeksi):

Vamos adorar a Deus (2x),
Vamos invocar o Seu nome,
Vamos adorar a Deus.
Ele veio em minha vida num dia especial,
Trocou meu coração por outro sem igual,
E esta é a razão porque eu canto assim:
Vamos adorar a Deus.

Um dia cheio de paz e graça pra todo mundo (nossa, ficou apostólico isso aqui)

VISITE: http://www.marciowaltermachado.com.br/

Obs: escutem-no cantar, é bem legal.

THANK YOU, JESUS, FOR EVERYTHING. KIITOS, JEESUS, KAIKESTA.

These days I decided to restart my studies of the Finnish language, which I had abandoned some time ago. I decided to take back an old practice of mine – which became some sort of advice I give my students at the end of each of our languages classes – and listen to music, much music, in the language we’re studying so that we can expose the brain to the phonetic system of the language, memorize words and structures more quickly and learn sentences without the risk of a strong interference from our mother language or of absorbing the regional accents of native speakers – have you noticed that – except for the cases of cultural reaffirmation – there’s no accent in music, however thick the idiolect is when the person speaks? Even those who stammer or stutter have a perfect command of their uttering when singing! In a nutshell, if you want to learn a language, listen to, memorize and sing music!

I now remember that my old Italian teacher, Professoressa Marta, used to ask her students to give examples of words in a given function in the sentence (adjective, verb, noun) for her to put them on the board in the A to Z order. Every time it was my turn to speak, she would say: e tu cantore, puoi dire la parola adesso? (and you, singer, can you say the word now?). That happened because every time I got to class, I had new words and structures I’d gotten from new songs – and she knew that.

Well, these days I kept thinking about what kind of music I could listen to in Finnish to memorize more quickly those words full of Double vowels, Double consonants, flexion cases (15 of them!! Old Latin had only 6…) I didn’t know any! Besides “Nightwish”, who sing in English, what do you know about Finnish music? C’mon, no need to think much, we’re in the same boat! NOTHING! NOBODY! NADA! So, I got frustrated, because it’s not enough to listen to music, it’s better to resort to known music, to appeal to the emotional memory, recognize melody. But nothing from nothing brings back anything to my mind in Finnish.

Thus, I thought, thought, thought a little more and remembered a song that’s known world wide. I have heard it in various languages around the world and I was sure to find it in Finnish! Long live the Internet! I started researching, but didn’t find it. Tried the Google translator from English (the original language of the song) to Finn, from Portuguese to Finn, from Italian, from Spanish... changed adjectives, nouns, copula verbs and nothing worked. When, in the last minute, there it was, so easy, so accessible! I just needed to have used simple, plain words instead of classical snobbish vernacular like “Thou”, “Tu”, “Vous”, a simple “He is great” would have done it. Of course I had to change “You” for “He”, but in the end everything was melodies… mistaken ones at that! I didn’t find the song I was looking for, even having found the chorus of it! (If anybody knows it, please tell me!)

The song ‘How great Thou art” – If you have ever been to a Christian church, If you have read Christian hymn books, or watched one of those gospel TV shows on one of those lazy and slow days, you have surely heard this cute little song which says: “Oh Lord my God when I in awesome wonder (…)” and the chorus “How great Thou art, how great Thou art…”. So simple, so easy, so short, so cute! In English! Because the Finnish versions I found, my God, were too big to comment.

But I kept on looking for the real one. From Google I went to Youtube. Oh! Wonder of wonders! Videos from all over the world. Clips, guitars, concerts! I kept on searching for gospel songs and stumbled across a young man with disheveled hair playing his guitar. I took my chances. Let’s see, Finnish music, a little more than one minute long, that’ll do, I thought. As he started to sing I instantly recalled that sound to mind! MAN! That song I was sure to know, we used to sing it at the Baptist church I attended when I was little, and now that young Finnish man was singing it too. I immediately related to him, we were practically akin. That sound, that reverence of his in his singing, that heart full of adoration, - that’s the most appropriate word to say as we watch his face -, reminded me of myself some years ago. I stayed up until 1 or 2 a.m. learning to sing that song, loud speakers speaking really loudly and my neighbor hitting the wall.    

Of course, the song is the same, but the lyric differ a little bit. The Portuguese version says “Let’s worship the Lord”, whereas theirs says “Thank you, Jesus, for everything”. But worshipping and thanking have everything to do with Grace, praising, heart bliss. I thanked for having had the opportunity to listen to this song bring back so many good memories and help me memorize some more Finnish sounds and words.

After all, being able to thank God for so many good things that come to us, and even for the bad ones that make us stronger, more full of hope, is something that we should do every single day in Portuguese, English, Finnish or whatever language you want to speak, isn’t it? – yep, it is!

Here  you’ll have the original lyric in Finnish and a free translation I did:

Kiitos, Jeesus, kaikesta (2x)Thank you, Jesus, for everything (2x)
Uudelleen mä toistan tunteen sydämen
I repeat from all my heart
Kiitos, Jeesus, kaikesta.
Thank you, Jesus, for everything
Sä saavuit elämään toit valon sisimpään

You came into my life bringing light to my being
Niin rikkaan elämän mä tunsin löytyvän
And my life became full of richness
En hiljaa olla voi kun sielussani soi
I can’t be silent because my soul is ringing with happiness

Kiitos Jeesus kaikesta.
Thank you, Jesus, for everything

Watch his singing and have a great day full of grace and peace! (oh My! we're getting so apostolical here)

VISIT: http://www.marciowaltermachado.com.br/

P.S: DO YOU KNOW THE ORIGINAL ENGLISH VERSION FOR THIS SONG? PLEASE TELL ME ;)

sexta-feira, maio 27, 2011

Noite de autógrafos DE DOR E DE SONHOS

A Saraiva MegaStore do Shopping Salvador nos traz em 27/05/2011, às 19h, o coquetel de lançamento do livro DE DOR E DE SONHOS do professor, poeta e contista Márcio Walter Machado. O autor, que já nos emocionou com outras obras literárias, nos brinda agora com histórias cotidianas contemporâneas vividas por personagens que, embora fictícias, têm muito a ver com o dia-a-dia de nossa sociedade, da qual, aliás, o autor retira sua inspiração.

O livro, que tem selo independente e será vendido pelo valor de R$20,00, é narrado de tal forma a nos fazer, através de seus 23 contos, mergulhar num universo em que a nossa própria imagem parece ser refletida no espelho ao passo em que as personagens vivem histórias em tramas nas quais sonhos, incertezas, violência, angústias espirituais e primeiros amores saltam para fora das páginas e nos encantam, nos levando a refletir sobre e em nós mesmos, num convite a irmos além das dores que assolam nossa contemporaneidade e a resgatar os sonhos lá do fundo de cada um de nós.

DE DOR E DE SONHOS é um livro de cabeceira, daqueles que nos dão a sensação de que suas cento e doze páginas poderiam ser triplicadas antes que pudéssemos guardá-lo.


quinta-feira, fevereiro 17, 2011

A beleza está lá fora

Não me lembro em qual de seus livros eu li, mas me lembro nitidamente da sensação de choque e frustração que Nietzsche me causou ao dizer que ler um livro de manhã cedo, enquanto a vida rebrotava lá fora, era obsceno.


Eu, professor de literatura, metido a escritor nas horas vagas, aspirante a filósofo fiquei aturdido com o grande F.N. propor que se largasse de lado a literatura e mesmo a chamasse de obscenidade! É claro que minha reação foi dizer para mim mesmo: que Nietzsche era louco varrido todo mundo sabe, deixa ele pra lá e vamos continuar lendo!


No entanto, esses dias, voltando da formatura de um ex-aluno, as palavras do bigodudo do F.N. voltaram à minha mente como fantasmas errantes que não querem sair de onde estão e arrastam correntes, e fazem "bu", e empurram corpos pelo chão.


Eu lia um livro de contos de Rubem Alves, com a cortininha da janela ao lado fechada enquanto meu ônibus cortava a estrada ladeada por mata atlântica e fazendas de cacau. Eu lá, concentrado nas letras do boníssimo professor enquanto a natureza passava ao meu lado, sem que eu me desse conta; a Mata Atlântica, talvez em seus últimos resquícios, passando despercebida por meus olhos que teimavam em não se deslocar do papel amarelado impresso em tipografia preta, tinta cinza, nas páginas que passavam e que só pararam de dançar nas minhas retinas autômatas quando a voz de uma criança, excitadamente maravilhada, ecoou dizendo, "mainha, olha lá um monte de miquinhos na árvore".


Há tanto tempo não via um miquinho! há tanto tempo não via um pé de cacau ou de café! há tanto tempo não via um ipê amarelo! há tanto tempo não via a natureza verde de verdade juntinho de mim, que eu pus o meu Rubem Alves de lado, abri a cortininha do ônibus e olhei! Mas olhei com olhos extasiados, como aquela criança que chamara a atenção de sua mãe e de todo o ônibus pela alegria, pela surpresa enorme de ter visto um miquinho na árvore verde no meio da estrada - por certo ela, como eu, estava com os olhos carregados do concreto de Salvador, dos prédios crescendo em todos os lugares, já nem lembrava do verde da Paralela ou do Cabula, que vem sendo destruído impiedosamente para abrigar os condomínios de luxo, ou melhor, as Gottham City modernosas. Gottham Cities que levantam seus muros-fortalezas para manterem ao longe a leva de favelados que cresce a cada dia em seu entorno...


E os miquinhos foram ficando para trás, perdidos no meio da mata verde e densa, de onde eu ousei inspirar profundamente aquele ar puro, aquele cheiro de terra e orvalho e vento puro que todo o meu corpo sentia até ouvir a voz de minha consciência me pedindo que olhasse para o outro lado, onde jazia solitário o meu livrinho de palavras tão sábias, de contos tão gostosos de se ler.


Eu tomei meu Rubem Alves na mão e disse: "Professor, o senhor me perdoe, suas 'Estórias de quem gosta de ensinar' são maravilhosas, mas agora, vou deixar minha alma ser preenchida pelo livro da natureza, pela 'aura mediocrita' e pelos ecos do 'fugere urbem' que a contemplação da vida me traz. Vou ficar aqui, contemplando as árvores que passam, as antigas fazendas de cacau, um bichinho no mato, o vendedor de água em algum desses postos perto de uma cidade, a cidadezinha ficando para trás, os rios e córregos que seguem seu curso eterno, e mesmo a nuvem que nunca mais será formada igual. Mas prometo, à noite, no silêncio sonolento das paredes brancas do meu quarto, eu volto a lê-lo com prazer. Porque agora o que vale mesmo é trocar o cinza pelo colorido da Costa do Cacau, da Costa do Dendê e da vida, rebrotando ao redor, porque de manhã chega a ser obsceno ler um livro quando tudo está nascendo.



segunda-feira, dezembro 13, 2010

E foi assim...

Nem uma fita, nem um cartão, nem uma vela acesa, nem uma pétala de rosa. Nada que lembrasse a morte prematura e estúpida de Luis Henrique Silva Sacramento na semana passada num shopping center de Salvador.

O menino, de apenas quinze anos, brincava com seus amigos na escadaria do shopping quando perdeu o equilíbrio e caiu do terceiro piso direto para a morte entre neve artificial e renas de Papai Noel.

Lá no chão frio e solitário ele agonizava já inconsciente enquanto, por um lado, os seguranças tentavam afastar a multidão de curiosos ávida por ver o infortúnio do garoto; e do outro, funcionários do shopping corriam para arrumar a decoração que foi destruída pela queda de Luis Henrique, essa que, segundo nota no site de uma emissora de TV local, “já havia sido refeita antes da chegada dos policiais à cena do acidente”.

O menino agonizava no chão, sendo assistido pelos seguranças e curiosos, enquanto os funcionários do shopping se preocupavam em REFAZER A DECORAÇÃO, ELIMINAR imediatamente os sinais da tristeza que um acidente como aquele poderia causar nos cidadãos que circulavam pelo centro de compras.

Afinal, que pais comprariam presentes para seus filhos vendo diante de si a cena trágica em que um garoto de apenas quinze anos deixou de existir; em pensar que às vésperas do Natal uma família estaria mergulhada na dor, na tristeza, na melancolia? Quem, em sua condição de humanidade, pensaria em gastar seu dinheiro naquele exato momento em que um rapazinho, cujos sonhos, alegrias, esperanças, enfim, cuja vida lhe fora ceifada de forma tão sem porquê, estava morto a alguns metros, ou centímetros de distância?

Quem em sua humanidade não se sentiria triste, coração pesaroso, olhos mareados por ver qualquer vida, especialmente a de um menino, se extinguindo no chão após uma queda tão absurda? Quem em sua humanidade não acharia desprezível a pressa dos funcionários em recolocar as decorações nos seus devidos lugares, em re-enfeitar a praça central desse shopping ao lado da qual jazia o corpo já sem vida de Luis Henrique? Muito mais numa época como o Natal em que há mais de 1800 anos celebramos - ou deveríamos celebrar - o nascimento da Misericórdia, da Paz, da Salvação, da Harmonia, da Compaixão entre os homens e, especialmente, do Amor.

No entanto, apenas alguns minutos após a retirada do corpo, a única coisa que ainda pudesse lembrar, mesmo que sutilmente, qualquer resquício dessa compaixão era o rosto de uma ou outra senhora de mais idade condoída pelo acidente porque, talvez, lembrasse de seus próprios filhos e netos, ou os olhinhos esbugalhados de uma criancinha que não entendia o que ocorrera enquanto os pais tentavam fazê-la esquecer aquele incidentezinho em que um garoto deixara de existir.

Hoje, oito dias depois, não há nada que nos faça pensar no fato. Desde o começo da semana, em frente ao locus mortis de Luis Henrique, as pessoas continuam andando para lá e para cá cheias de compras nas mãos, rindo, fazendo graça, ouvindo o coral que continua cantando suas músicas ditas natalinas, mas que em nada lembram o Amor, a Misericórdia, a Compaixão.

Músicas “natalinas” que celebram não o nascimento do Salvador, mas que incentivam ao consumo, às compras, através de refrãos como “papai Noel chegou com presentes de Natal”; músicas que nos lembram de que precisamos ser salvos de nós mesmos, de olharmos para dentro e especialmente para fora de nós e vermos essa reificação, essa coisificação que estão fazendo conosco.

É preciso abrir os olhos para não deixarmos nossa humanidade se transformar em coisa sem sentido originária dos cultos ao individualismo e a Mamon. É preciso olhar para Franz Kafka e entender o sentido de “A metamorfose”, lembrar dessa história em que Gregor Samsa “acorda pela manhã, depois de sonhos conturbados, metamorfoseado em um inseto” do qual a família quererá livrar-se em breve. É preciso não permitir que nos roubem a moral e nos lancem de volta à animalidade.

É preciso entender o que significa ter nas praças centrais dos shopping centers – local de afluência de gente de todas as classes e faixas etárias – Uma enorme árvore de Natal, fábricas de Papai Noel, renas na neve enquanto o Jesusinho e sua familiazinha são representados por um presepiozinho num cantinho qualquer – quando o há.

É preciso ir além do conceito de religião do qual o natal está imbuído e entendermos o conceito de humanidade, de moral humana, amor ao próximo, respeito à vida que a idéia do nascimento de Cristo traz ou, ao contrário, talvez seja mesmo preciso recorrer ao conceito antigo de religião – re-ligar, re-fazer, re-atar – e nos ligarmos a um tempo em que se chorava com aqueles que choravam e alegrava-se com aqueles que se alegravam, um tempo em que o nosso coração não estava cegado pelas escamas do consumismo desenfreado, da competitividade capitalista que nos faz ver o próximo como concorrente em vez de um companheiro, de um ser que tem como parte integrante sua a divindade; um tempo em que se acreditava que o ser humano trazia em si mais do que a possibilidade de satisfazer o desejo, as necessidades do outro, sem a brutalidade que programas sensacionalistas de TV, de um jornalismo horrorizante, cada vez mais usam para bestializar nosso espírito e banalizar o sentido da existência em sociedade.

É preciso lembrar que, mesmo com tragédias pessoais tão grandes quanto a morte de Luis Henrique, a vida continua, mas sem se esquecer que não estamos sós no mundo; sem acreditar que o outro seja apenas uma coisa que não faz falta porque “eu não o conheço”, ou que os homens são simples peças na engrenagem do mundo e que, quando demande a ocasião, serão imediatamente substituídas, redecoradas, refeitas para que não haja resquícios que atrapalhem o bom funcionamento das vendas.

Assim, quando o coral cantar suas músicas de Noel – nem uma vela, nem uma rosa, nem um cartão para Luis Henrique –, quando os pais incentivarem os filhos a ressoarem que “o bom velhinho não se esquece de ninguém” – nem uma vela, nem uma fita, nem uma flor para Luis Henrique-, quando os apelos das compras cegarem nossos olhos – nem uma lágrima, nem uma vela, nem uma pétala de rosa por Luis Henrique -, nos lembremos daquela mensagem antiga que a ocasião natalina nos traz; mensagem simples e profunda, capaz de mudar todo o curso da humanidade. Lembremo-nos tão somente de que ser humano e não animal não está no poder de compra que se tem, mas sim no poder demasiadamente humano de amar ao próximo e sentir a sua perda.

terça-feira, outubro 19, 2010

Lasanha de chuchu à moda do chef M. W. Machado


Ingredientes:
6 chuchus médios
500 gr. de queijo
500 gr. de presunto
1 cebola pequena cortada em rodelas
1 copo de requeijão cremoso
1 colher de sopa rasa de maisena
1 copo de leite de vaca morno
1 pacotinho de queijo ralado
1 colher de sopa de manteiga
½ caixa de creme de leite
2 cubos de caldo de bacon
Frango desfiado e temperado (a qtd depende do cozinheiro)

Modo de fazer:
Cozinhe os chuchus até o ponto de estarem macios. Corte-os longitudinalmente (tamanho do comprimento), retirando o caroço, em fatias finas e ponha-os sobre um pano de prato seco para a eliminação da água excedente. Doure a cebola na manteiga e acrescente a maisena já dissolvida no leite, o requeijão, ½ pacote de creme de leite e o caldo de bacon. Mexa até formar um creme homogêneo. Deixe engrossar, mas não muito, se preciso acrescente o restante do creme de leite e um pouco mais de leite de vaca morno. Acrescente o frango e misture bem. Após, acrescente o queijo ralado e misture.
Cubra o fundo da assadeira com o creme e vá acrescentando as fatias do chuchu até que o fundo do recipiente esteja coberto. Acrescente o queijo, o presunto e forme outra camada seguindo a mesma ordem: creme, chuchu, queijo, presunto. Até que todo o chuchu esteja na assadeira. A última camada deve terminar com queijo e presunto cobertos com o creme.

A receita é para uma assadeira média.
Caso queira aumentar a porção da lasanha, dobre os ingredientes.
Os chuchus, quando cortados em fatias finas e longitudinais rendem muito, por isso, em vez de 6, aumente para 10, caso deseje fazer uma lasanha maior.
Use uma luva pra descascar e cortar os chuchus.
Bon apetit.

quarta-feira, maio 19, 2010

Eu amo a Lua Minguante

Eu amo a Lua minguante
Envolta na nuvem distante
Lá no céu luzindo, brilhante,
Sem por quê, nem pra quê.

Eu amo a Lua distante
Envolta na nuvem minguante
No céu pendente, errante,
Sem me querer ou saber.

Eu amo a Lua que chora
Brilhante no céu de noite,
Serena, silente, minguante,
Solta no espaço a correr.

Minguante, a Lua que amo, distante
No céu de escuro brilhante
Rasgando a noite gritante
Sozinha quase a morrer.

Eu amo a Lua ausente,
Solitária, pendente,
Correndo noites quentes e frias,
Que não me vigia ou me vê.

Eu amo a Lua que minguante
Se cobre na nuvem distante
De cor tão forte, brilhante,
Que no céu de noite sozinha
Me faz chorar e tremer.

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terça-feira, janeiro 12, 2010

À menina de Feira (de Santana)

Tem uns olhos lindos a menina de Feira,
E um sorriso encantador.
Como fiquei feliz em rever o rosto, em sentir o cheiro, em beijar o gosto,em abraçar o corpo da menina de Feira.

Ela estava lá esperando por mim, olhando um ônibus e outro,
Coração palpitante, talvez, sentidos em suspensão como os meus.
As mãos tremiam de leve, eu senti ao tocá-las, o rosto sereno
Me lembrava caminhadas na praia, pôres-do-sol e risadas de intimidade.

Estava linda em seu vestido florido e bolsa de sisal nas mãos
Me esperando na rodoviária, olhando um ônibus e outro, a menina de Feira.
Há quanto não nos víamos, a menina de Feira e eu; quantos mares,
Quantos lugares deixamos de viver juntos.
Mas agora estávamos ali, parados, diante um do outro,
Cheios de recordações e saudades, cheios de sentidos renascidos.
Ah! aquele vestido florido da menina de Feira.

Queira Deus que em breve eu volte a ver o rosto lindo,
A sentir o cheiro de flores, o corpo viçoso, moreno, querido
Da minha menina de Feira.

domingo, janeiro 10, 2010

Eu sou aquele dos olhos tristes que ninguém entende.
Que te cantou sonatas ao luar
Que te beijou o colo arfante
Que ouviu de tua boca os sussurros
Que roçou teus lábios quentes.

Dos furacões fiz brisas que te tocassem as faces
Do mar revolto e sombrio te fiz serenatas
Para que pudesses ir em paz e quando fosses,
Te lembrasses de mim, das noites acordadas.

“Nesta vida há tanta dor, nessas dores tantas lições”,
Assim o dizem. Mas deixar partir a quem se ama corta
A alma como lâmina, tira o ar, explode tudo por dentro.
Mas na vida, a gente aprende mesmo é quando chora.

Certas noites eu me pego pensando que o amor só vinga se for livre.
Por isso te deixo ir, por isso me deixo ficar,
Por isso sou aquele dos olhos tristes que ninguém entende.
E no fim das contas percebo que gosto mesmo é de ficar só.

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domingo, dezembro 20, 2009

Flamenco Nordestino - GRUPO FLAMENCANTES


Primeiro, as luzes se apagam e vem o silêncio; depois, o som da flauta transversal inunda o teatro com seu lamento doce e triste que se une à voz forte de Ivete Andrade e sua música Severina. Então, iluminados pelo sol poente e causticante do cenário árido a que as composições e o som queixoso de melodias nordestinas nos remetem, os dançarinos entram no palco.

Sobre eles os holofotes lançam feixes de luzes alaranjadas e vermelhas para introduzir-nos na dança sanguínea que em poucos minutos arrebatará nossa atenção inteira e nos extasiará por mais de uma hora.

No requebro de quadris femininos divinamente sensuais, na batida forte dos pés sobre o tablado, nas palmas cadenciadas que alternam em seu ritmo as batidas fortes, fracas, feitas de segundos de suspensão como estava o coração dos espectadores, surgem as Carmens com seus longos vestidos rodados, suas rosas nos cabelos amarrados em coque e seu jeito altivo, imperioso, soberano, de mulheres andaluzas.

Histórias se contam, abandonos, amores bandidos, meninas se tornam mulheres, o luar cobre o sertão. Vemos mãos se transformando em movimentos ora leves ora frenéticos e nos fazendo lembrar de animais de simbolismos ancestrais: o cisne dançando para encantar o deus, a serpente astuta que seduz o viajante incauto, a mulher de olhar agatiado e a ararinha azul se emplumando sobre os troncos secos do árido nordeste. Somos lançados sem dó ou piedade no palco para onde nossos olhos foram arrastados e onde por alguns pares de minutos nos deixamos escravizar pela beleza re-lida, nordestinizada, de um flamenco sincrético.

Os vestidos rodam, sobem, descem no compasso da música. As Carmens Severinas obedecem ao comando de Daniel Moura - um tom de leve masculinidade sobre o império das fêmeas -, se submetem à sua ordem, para depois conquistá-lo sutilmente, violentamente, inescapavelmente, com sua dança morna que vai tomando ares de calores desérticos ao passo em que os sons do sapateado, misturados aos instrumentos de corda e à percussão, ressoam na sala.

Entre as deusas desse Parnasso hispânico-nordestino, Tatiana Simas surge majestosa. Seu vestido amarelo se destaca entre o vermelho, laranja, ocre de suas companheiras. Naquele deserto de fados brasileiros, ela é o girassol que se abre não para absorver do astro rei, mas para irradiar uma beleza, uma tepidez, uma luz que nos hipnotiza durante todo o tempo de sua permanência em cena – ela se basta. Acompanhamos, arrebatados, cada ato, cada gesticular de braços, mãos e dedos, cada sinuosidade da dança lasciva, forte, inocente e de queixas solitárias, cada expressão dura naquele rosto suave de traços firmes, cada palavra muda que seu olhar lança sobre nós – ela e seus colegas são o sol em todo o seu esplendor, e nós, os espectadores, os astros que comovidos e submissos pedimos permissão para orbitar em sua galáxia durante os atos idiossincráticos de sua dança.

Na inovação que se dá em cada ato, os dançarinos, senhores da dança toda sua peculiar, nem nos deixam sentir falta das tradicionais castanholas, pelo contrário, fazem homem, menino, menina, mulher irem ao delírio, não conterem palmas, urras, assobios. E por fim, flores lançadas ao palco, deixam descansar os pés para receberem os aplausos dos que, em estado de graça, assistiram, na última sexta-feira, ao espetáculo benevolentemente trazido ao público por aqueles filhos de Terpsícore que ali estavam diante de nós.

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domingo, novembro 15, 2009

Intolerância Religiosa em Salvador

De quando em quando a imprensa baiana surge com dramáticos neologismos – aquelas palavras que a gente já conhece, mas que tomam sentido novo de acordo com o que os falantes lhes querem imprimir.

Há algum tempo atrás, eles renovaram a palavra “tragédia” de forma a equiparar o lamentável incidente na Fonte Nova à devastação causada pelo furacão Catrina nos E.E.U.U., ao tsunami no Oceano índico em 2004 e ao acidente com os aviões da TAM (2007) e GOL (2006).

Não digo que não tenha sido doloroso e chocante ver pessoas que foram se divertir e torcer pelo seu time morrerem da forma lastimável como morreram, mas tragédia? Bem, dadas as proporções (dos mais de 60 mil pagantes, 08 foram mortos no acidente e cinco se feriram) eu contaria o caso como um triste, terrível acidente; mas apenas porque ver pessoas, de qualquer idade, com saúde e força, serem privadas da vida é sempre terrível. Mas Tragédia? – Com certeza para os familiares e amigos.

Agora, nesse domingo próximo passado, eles me inventaram outra: INTOLERÂNCIA RELIGIOSA, com direito a passeata e tudo.

Falar de intolerância religiosa numa cidade como Salvador é tão patético quanto falar de seres ultra-humanos habitando as profundezas da Terra.

Numa cidade em que se tem um Cristo na Barra, igrejas evangélicas em cada esquina e TODO MUNDO usando jargões como “tá amarrado” ou “tá repreendido” para espantar “forças e energias negativas”; onde há gente de burka rezando três vezes ao dia, pandeiros e fitas e sons de “Hare Krishna”, reuniões budistas freqüentadas por adeptos e curiosos, centros espíritas de portas abertas aos visitantes que os lotam, e tantos desavisados falando em karma a despeito da fé que professam; onde se tem orixás enormes num dos mais belos cartões postais da cidade, o Dique do Tororó, bem como na sede dos Correios e Telégrafos da Pituba, e, como reza a lenda, uma igreja católica para cada dia do ano.

Numa cidade cujo povo, de diferentes religiões - e até mesmo aqueles que não têm crença em nada ou ninguém - sai às ruas na 3ª quinta-feira de janeiro acompanhando o cortejo católico em que mães e pais-de-santo são assediados para darem banho de água-de-cheiro e benzer os caminhantes que, juntos com o prefeito evangélico tocando pandeiro, homenageiam o Cristo ou Senhor do Bonfim ou Oxalá (originalmente Orixalá = Orixá + Allah), falar de intolerância religiosa - uma vez que ser intolerante significa ”ser incapaz de conviver com diferenças, opiniões ou crenças divergentes daquelas particulares ao indivíduo” - repito, é patético demais!

O que sinto é que há um grupo de radicais fascistas querendo nos impedir de exercermos nossa liberdade de expressão; querendo tolher nosso direito constitucional de não acreditar, não querer e não aceitar para nós individualmente suas crenças. Parece-me que querem transformar o nosso direito de não tomar como verdade o que não acreditamos. Os intolerantes não são aqueles que não participam da ou compartilham a fé de outrem ou que não chamam de seus os deuses alheios; os intolerantes são aqueles que não permitem que os outros não dividamos com eles a sua visão de mundo, que nos querem impedir de professar a nossa descrença em seus rituais, que desejam tapar as nossas bocas todas as vezes que dizemos algo que vá de encontro ou fira a sua vaidade pessoal mais que e o seu credo e opinião sempre únicos, verdadeiros e supremos.

Intolerância religiosa é o que o Papa Urbano II promoveu no séc. XI com a invenção das Cruzadas; é o que, mais recentemente, vimos na Indonésia quando da anexação do Timor Leste, período em que os cristãos foram caçados e mortos, seus corpos arrastados na rua pelos muçulmanos, ou a destruição dos budas centenários do Afeganistão pelo regime talibã. Intolerância religiosa foi o que o mundo presenciou nos países do Regime Comunista; foi o que Mao Tsé Tung fez com os budistas chineses na década de 50.

Mas em Salvador, onde a estátua do Cristo da Barra convive serenamente com os Orixás do Dique do Tororó, e os altares em casa provêem espaço para São Jorge (vejam só, um Cruzado!), Yemanjá (um orixá caucasiano e vestido de azul e branco como a Virgem Maria!) e até a efígie do Buda de costas para a rua, ao lado de um copo com água e carvão, duendes e bruxinhas, não se pode falar de intolerância, a não ser por uma questão de afirmação ressentida de poder, por querer-se usar de desculpas absurdas a fim de tentar introduzir à força a repressão ao nosso direito de escolha e à nossa liberdade de pensamento e expressão.

São estes fascistas que querem destruir a nossa individualidade e o nosso direito de não professar sua fé. Não somos nós que destruímos igrejas, que bombardeamos templos ou que tacamos fogo nos terreiros a fim de acabarmos com quaisquer crenças; são eles, os mesmos que pretensamente lutam por seus direitos, que querem destruir o direito alheio quando sutilmente dão nova roupagem ao vernáculo para encobrir a sua sede de vingança, o seu terrorismo e o seu ódio à liberdade. Intolerância Religiosa em Salvador é um neologismo muito sem graça engendrado nas entranhas dos fascistas, propagado pela mídia repressora e acreditado pelas mulas.

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