O escritor francês René Char disse certa vez que "quem vem ao mundo para nada alterar, não é digno de consideração nem de paciência". Dessa forma, certamente há que se render tributos a Michael Jackson, o artista que modificou para sempre a cara da música pop no mundo, que foi um dos responsáveis pela quebra de mais um dos muros da estúpida segregação racial dos E.E.U.U, reafirmando com sua voz melódica e seus passos de leveza sublime a música e a dança dos negros na América branca.Sua morte, portanto, deixa uma ferida profunda no seio da música mundial e uma clareira aberta no coração dos milhões de fãs seus que foram sendo arrebanhados por três, quatro gerações seguidas através de baladas românticas, de seus gritos de protesto por um “mundo” que precisa de ser “curado pelo amor” .
Não é de se estranhar, assim, que vejamos planeta afora homenagens, tributos, comoção geral, uma corrida para se comprar seus álbuns – o que talvez faça de Michael, a exemplo de Elvis Presley, mais rico em morte que em vida-, e o desamparo estampado na face de velhos, jovens e crianças que se abraçavam numa tentativa de consolo coletivo diante do hospital em que o músico expirava. Quantos homens conseguiram destroçar as diferenças entre gerações, culturas e raças como ele o fez em vida e muito mais em morte? Poucos, com certeza.
No dia 25 de Junho de 2009, Michael Jackson deixava os palcos em silêncio. A partir de então, raramente se verá toda aquela efusão genuína de melodia, dança, vida, luz, cores, amor à arte e o drama profundo de uma vida convertida em espetáculo: um drama cheio de luz e cores que lhe tolheu a infância, e o transformou no rei do show biz, gerando naquela mente sensível ao extremo o que os seus detratores mais tarde chamariam de excentricidade paranóica.
Mas como julgá-los? Quantos de nós não fomos tomados por espanto ao ver durante os anos as incríveis transformações pelas quais o músico passava? Primeiro, a modificação dos cabelos Black-Power por cachos domados; depois, o afinamento das feições africanas para uma aparência caucasiana por sucessivas plásticas no nariz e lábios; e, por fim, o branqueamento de sua pele. Michael Jackson parecia querer destruir todo e qualquer traço de sua origem afro-americana e se transformar em alguém acima do bem e do mal, talvez o übermensch de Nietzsche, aniquilando os traços de sua raça, modulando sua voz sempre infantil e obtendo feições cada vez mais definidas nos padrões míticos que ele mesmo elaborava de acordo com os ditames de sua mente adoecida.
O menino negro de cabelos encarapinhados que encantou o mundo com canções como “Ben” e “One day in your life”, pouco a pouco foi se convertendo num recluso, exótico ser humano de aparência híbrida e chocante. Essa sua reclusão, aliada a um hipotético complexo de Peter Pan, catapultou as suspeitas sobre seus gostos sexuais e o levou às manchetes de jornais em todo mundo devido a acusações de (suposta?) pederastia. Começou aí a trilhar a Via Crucis sem esperança de ressurreição.
Seus algozes não eram os soldados romanos e seu flagrum, mas a pena e as câmeras da imprensa que caíam sobre seu corpo como os urubus sobre a carniça e continuaram sobre ele até bem recentemente. É interessante notar na evocação dessas lembranças, no entanto, que essa mesma imprensa implacável diante das faltas de Jackson é a mesma que há duas semanas incessantemente não pára de falar de sua morte. Mas esse é mesmo o trabalho dela desde William Hurst: destruir e criar mitos.
Não é à-toa que vimos a hipocrisia sincera de William Bonner ao dizer no final do Jornal Nacional do dia 25/06 – para consertar um erro de Fátima Bernardes – que estávamos “todos chocados com a notícia de última hora”. Chocados devíamos mesmo estar, afinal, é sinal humano chocar-se com a morte de um contemporâneo por razões psicológicas que não citaremos aqui. Mas chocados até que ponto? Ao dos supostos suicídios que se seguiram à morte do cantor, ou ao show incessante das imagens de Michael a fim de transformarem aquele a quem essa própria mídia chamou de drogado, pederasta, molestador, em um ídolo ubíquo quase deus? Sinceramente, estou esperando o momento em que a imprensa começará a relatar os milagres de Michael Jackson e pedir ao povo que espere a sua ressurreição. Será que o Vaticano já recebeu um pedido de beatificação em favor do cantor?
Estamos chocados sim! Pois a morte de alguém sempre nos choca. Mas chocados ao ponto de pararmos todas as notícias em prol de uma? De mobilizarmos o mundo em prol de um sepultamento que já deveria ter ocorrido? De transformarmos nossos Orkuts e MSNs em epitáfios? Não estou advogando contra Michael, pois, como a própria mídia não nos deixa esquecer há tantos dias sucessivos, ele teve relevância na história da música contemporânea. Mas não já estaria na hora de deixarmos os mortos enterrarem seus mortos e prosseguirmos com a vida que no resta?
Essa explosão de notícias sobre o passamento do cantor, essa exploração da morte de alguém querido para tantos, por razões reais ou de afetação, já ultrapassou o ridículo! O que nos importa saber quantas passagens secretas havia no rancho Neverland. Por que nos interessaria descobrir que havia uma televisão escondida sobre a piscina do cantor? O que nos importa se o homem dormia de touca?
Se queremos trazer à tona os mortos, tragamos os que realmente nos afetaram diretamente! Eis diante de vós, leitores, o exemplo do ex-senador Darcy Ribeiro, que poucos conheceram em vida e muitos menos em morte. Esse que lutou anos sem trégua pela democratização da educação no Brasil, pela inclusão das chamadas minorias e seu acesso ao sistema educacional brasileiro, que criou Leis para nos garantir a educação pública e resguardar nossas crianças e jovens. Ele sim deveria ter programas em sua devoção por duas, três semanas seguidas; deveria ter seu rosto estampado em todas as capas de revista, deveria ter discutidas suas leis para que o povo soubesse o que realmente importa! Ele que apenas foi citado em notas de rodapé quando da sua morte.
Mas a ele, uma das vozes dos que clamam no deserto, como o são todos aqueles que na verdade merecem glórias, a nossa imprensa a serviço da idiotização das massas relegou ao esquecimento e às discussões nos cursos de Humanidades. Assim como fará com Cristovam Buarque, Rubem Fonseca, Rubem Alves, Prof. Cleide Sobrinho, Frei Henry de Rosiers e um milhão de outros que dedicam sua existência para transformar o mundo com o que realmente importa.
Vivas a Michael Jackson; mas muito mais vivas a quem viveu ou vive em prol da humanidade; muito mais vivas a quem morreu para transformar verdadeiramente o mundo dos outros!
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De tanto amar-te, meu coração virou um rio




