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domingo, maio 01, 2016

Árvore Genealógica - Em busca das origens


Meus avós maternos, tias-avós, bisavó, mãe e tios
Caros amigos, como prometido, começo aqui uma pequena série de posts para aqueles que se interessam pela busca de suas origens, em conhecer sua ancestralidade. Espero poder de alguma forma contribuir com suas pesquisas.

Algumas palavras iniciais
Desde criança eu sempre tive grande curiosidade em saber sobre a história de minha família, especialmente quando se falava de ancestrais (ascendentes já falecidos, normalmente de várias gerações anteriores). Ficava calado, olhos abertos, ouvindo minha tia-avó Zita (a que está sentada à direita da foto, segurando meu tio) contar as histórias de seus pais, avós, tios-avós, primos-bisavós, etc. 
Os casos e anedotas por ela compartilhados sempre impulsionaram minha imaginação. Ficava pensando em um de seus avós cruzando o oceano em busca das terras brasileiras, de um de seus bisavós que era delegado de polícia no Brasil colonial, de seus ancestrais diretos e indiretos que participaram de guerras e insurgências, sempre curioso com os desfechos das histórias. Vez ou outra eu perguntava o nome da família a qual pertencia o ancestral em questão. Aí, ela vinha com uma lista de nomes que sempre repetia, talvez para incutir em minha memória e não me deixar esquecer nossas origens: Dias D´ávila, Dias Brandão, Pinto Pacca, Rodrigues Pinto, Cachoeira, Mattos Guerra, Goes e Vasconcellos, Abreu e Lima, Carvalho e Albuquerque, Pereira Marinho, Braga Sampaio, Tinta, e por aí ia a longa lista. Ficava impressionando como sua memória já anciã guardava tanta informação. Especialmente porque ninguém na família, a não ser ela, se interessava por esses pormenores, os quais se mostraram importantíssimos nas minhas buscas quando a leitura de documentos começou a ser feita. 
1A: Meu bisavô é o n. 4 - Mário Dias Brandão.
Do livro "Impressões do Brasil no Século Vinte"
P. 885, Lloyd's Great Britain Publishing Co., 1913
Apesar de todo seu conhecimento da nossa história, alguns fatos como, por exemplo, o lugar de onde seu avô materno era originário, haviam caído no esquecimento após duas gerações, restando apenas nas lembranças os feitos e os seus ensinamentos. Aliás, conversando com as pessoas descobri que esse é geralmente o limite de conhecimento sobre os antepassados: duas gerações. E, incrivelmente, há aqueles que não conhecem sequer os nomes de seus avós , pois os pais não falam sobre seus pais a seus próprios filhos (o que para mim é um escândalo!). Talvez essa falta de interesse familiar de nossa sociedade seja mesmo a razão pela qual ao comentar com algumas pessoas sobre as minhas pesquisas genealógicas elas revezem os questionamentos: "você não tem mais o que fazer?" ou "está querendo tirar passaporte português?". Elas não conseguem entender como alguém pode se interessar pela história de sua família e seus ancestrais, ou como alguém pode passar horas lendo livros velhos e empoeirados, ou buscando na Internet informações sobre pessoas que já se foram há tanto tempo. Tem gente que passa duas horas assistindo a jogos, outros passam a tarde inteira assistindo novelas mexicanas, outros passam seu tempo dormindo, outros estudando a origem do universo. Eu, ultimamente, tenho preferido passar meu tempo livre com pesquisas familiares as quais, além de me levarem ao conhecimento das minhas origens, também me abriram caminho para outras áreas do saber como a onomástica, a paleografia, a antropologia e, obviamente, a história. 

Coincidências à parte...
Depois que minha tia Zita se foi, as conversas sobre meus ancestrais quase não existiram. No entanto, lá nas minhas recordações, a chama da curiosidade ardia a custo, tremulante, querendo uma palhinha para voltar a luzir mais fortemente. 
avós maternos
Isso aconteceu, certo dia, quando  estava assistindo a uma série estadunidense da qual eu gosto muito chamada "Brothers and Sisters" (Irmãos e Irmãs) que se desenrola em torno da família Walker e de suas tribulações e alegrias, conflitos e amores. Em um dos episódios da série, surge uma personagem secundária que é totalmente obcecada por genealogia e que descobre coisas interessantíssimas sobre os ancestrais dos Walkers simplesmente buscando informações sobre eles na Internet, a qual, segundo a personagem "faz a sua cabeça rodar pelas coisas que permite que a gente encontre nas buscas". 
Essa frase ficou martelando na minha cabeça, a força da curiosidade gerada por esse comentário aumentando cada vez que a personagem dizia algo novo sobre os ancestrais das personagens principais. 
Terminado o episódio, sentei na frente do computador e, lentamente, como quem se sentia um bobo por seguir a recomendação de uma personagem de série de TV, pus o nome de meu bisavô materno no Google, sacudi a cabeça me reprovando, cliquei no "enter". Menos de um segundo depois aparece diante de mim o resultado. Vários Mários Dias, Mários Brandão e apenas um que combinava os dois sobrenomes e que fazia parte de um livro sobre como era o Brasil no dealbar do século 20 e quem eram as figuras ilustres de cada Estado brasileiro na época. Cliquei no link, abriu-se a foto que postei acima (1A). 
avós paternos e tios
Quando bati o olho no rosto n. 4 logo reconheci aquela cara bonita por trás do bigodão. Meu bisavô, o mesmo da foto na parede do nosso gabinete, estava ali, na internet, diante dos meus olhos. Liguei para minha avó, perguntei se ela sabia de algum livro no qual o nome e a foto de seu pai constavam, ela disse que não -  ninguém sabia, minha tia nunca mencionara o livro. Começava aí a minha busca pelos tesouros perdidos. Desliguei o telefone, escrevi o nome do meu trisavô. Lá estava ele! Um dos heróis que arriscaram a própria vida durante o incêndio na Faculdade de Medicina da Bahia, em 2 de março de 1905! 
Olhei minha cara refletida no espelho à minha frente, a boca estava aberta em sinal de pasmo. Senti correr em meu corpo aquele raio elétrico de excitação e assombro. Como ninguém nunca tinha pensado em fazer isso?! Continuei a pôr os nomes de que me lembrava, alguns resultados positivos, outros sem nenhum resultado. Entre esses resultados positivos, talvez o mais espantoso tenha sido um sobre a família do avô materno de meu pai, da qual não sabíamos quase nada. Na verdade, a não ser pela foto do meu bisavô, nada mais sabíamos de sua história ou de seus ancestrais, apenas que ele era português e morrera quando minha avó ainda era criança. Pus o nome dele no Google e descobri que era comerciante em Salvador. Pus o nome de seu pai na pesquisa e encontrei um site com um texto longuíssimo falando sobre o homem e sobre sua importância na cultura da cidade de Ílhavo, em Aveiro, Portugal. João da Rocha Carolla, músico ilhavense de outrora, dizia o site. E eu sem ter ideia de onde era o Ílhavo! 
Foi assim, por coincidência, com a ajuda da Internet, por causa de uma série de TV, que iniciei a busca pela história esquecida da minha família.
João da Rocha Carolla - trisavô paterno
Como iniciar suas pesquisas genealógicas
Toda pesquisa genealógica começa com o conhecimento dos nomes de seus ascendentes. Uma boa maneira de você descobrir quem eram eles é olhando sua certidão de nascimento, pois nela constam os nomes de seus pais e seus avós. Depois de saber isso, procure as certidões de nascimento de seus pais, lá constarão os nomes dos pais e dos avós deles - assim você saberá os nomes de seus pais, avós e bisavós. Se ainda conseguir a certidão de seus avós, aí você conseguirá saber os nomes de seus trisavós, e assim por diante.
Uma ideia boa e simples para começar a montar sua árvore (pois existem formas técnicas, algumas delas meio rebuscadas), é você usar o programa Excel => Ferramenta SmartArt => Hierarquia e ir escrevendo as informações (nome e sobrenomes, data de nascimento, casamento, óbito) a partir de você (você pode fazer isso numa cartolina também). Eu mesmo comecei minha árvore pondo os nomes numa folha de ofício A4, pois nunca pensara que ela chegaria tão longe. Na verdade, eu achava que iria encontrar no máximo quatro ou cinco gerações. Mas a pesquisa foi se aprofundando, os documentos disponíveis, na grande maioria, estavam bem conservados, aí eu fui me deixando pesquisar.

O Excel é bom, no entanto, pois com os recursos de adicionar novas cédulas ao lado e abaixo no programa, você pode fazer sua árvore ad infinitum desde que vá aumentando o tamanho da página, e se precisar corrigir alguma data ou nome, o trabalho ficará muito mais fácil e organizado. A minha árvore, por exemplo, já chegou à 13a geração antes de mim (em torno de 1584), e nesses dois anos de pesquisa eu precisei fazer algumas correções de nomes, datas e lugares de origem do ancestral, conforme as informações dos documentos - por essa razão, não devemos apenas procurar os ancestrais diretos, devemos também procurar os irmãos deles para termos certeza da informação prestada no material que temos.
Mas de onde raios vem o nome "árvore genealógica"? Ele é derivado do formato que ela tem, lembrando uma árvore e suas ramificações, pois ela vai crescendo para cima (começando de um ancestral comum a todos os outros descendentes dele/a) ou para baixo (se você começar de si mesmo). Neste último formato você vai descobrindo que à medida em que se encontram novos ancestrais, a árvore vai ficando cada vez mais robusta na base, pois cada um de nós tem 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós 32 tetra-avós, e assim por diante. 

Onde encontrar os registros
Quando comecei a pesquisar, apenas tinha conhecimento do Google Search. Não sabia aonde ir ou a quem pedir ajuda. Quando se acabaram as informações da Internet sobre os ancestrais que eu conhecia, fiquei num mato sem cachorro. Daí, joguei a pergunta no buscador online: "onde pesquisar genealogia". Vários sites foram encontrados e eu comecei a buscar informações neles. Demorou algum tempo até que descobri aonde ir em Salvador. 
Via de regra (não só aqui, mas pelo mundo), os registros a partir de 1900 poderão ser conseguidos no cartório - mas lá será necessário você ter datas de nascimento, casamento, óbito, não apenas o nome. Outra forma de conseguir os registros de nascimento, casamento e óbito no Brasil e Portugal é nos livros de assentos de batismo, matrimônio e óbito da igreja católica. 
Os registros da igreja supracitados estão disponíveis em Salvador no laboratório de restauro da Universidade Católica, na Federação (http://www.ucsal.br/extensao/projetos-e-acoes-comunitarias/laboratorio-de-conservacao-e-restauracao-reitor-eugenio-veiga-lev) e na Cúria Metropolitana, no Garcia (http://arquidiocesesalvador.org.br/site/). Embora os arquivos estejam disponíveis livremente à pesquisa pública, é necessário fazer o agendamento prévio. 
Em Portugal, os registros são disponibilizados nos Arquivos Distritais, na Torre do Tombo, em Lisboa, e na Universidade de Coimbra, em Coimbra, tanto presencialmente como através da Internet. Para mais informações, vá aqui:  http://www.aatt.org/site/index.php?P=3
Outra maneira de conseguir informação sobre os assentos de batismo, casamento e óbito da igreja católica (lembrem-se que no Brasil e Portugal esses registros eram feitos pela igreja, portanto, os registros antes de 1900 com certeza estarão nos arquivos eclesiásticos), é através do site dos mórmons: Family Search. Por questões religiosas, eles mantém o maior banco de dados genealógico digitalizado a partir dos livros das igrejas e registros civis pelo mundo. Isso quer dizer que provavelmente você não precisará sair de sua casa para acessar os registros de seus ancestrais. O site é este aqui: https://familysearch.org/search/collection/location/1927159?region=Brasil. Para começar a pesquisar no site é bom você seguir a visita guiada. 
1B - Certidão de batismo de meu bisavô (Brasil). Ao canto esquerdo lê-se o (prenome) Mário, e a cor (branco). No texto: a data de batismo, data de nascimento, nomes dos pais, e padrinhos; assinatura do padre.
Uma dica para começar a pesquisa é que você pode iniciá-la de duas formas: com as certidões de casamento ou batismo. Nas primeiras, geralmente, você encontrará os nomes dos noivos e de seus pais. Para mim, é o modo mais fácil, pois nos assentos de casamento escreviam-se os nomes de ambos os noivos na lateral do documento, enquanto nos assentos de batismo apenas se escreviam os prenomes das crianças. Desse modo, a certeza de que se encontrou o ancestral correto é maior. Depois de encontrar o certificado de matrimônio, passe ao de batismo. Como os métodos contraceptivos não eram vistos com bons olhos, o primeiro filho sempre vinha nove meses depois do casório, assim, se seu ancestral tiver se casado em janeiro de 1900, tudo correndo bem, seu primeiro filho, com quase absoluta certeza, terá nascido em outubro. Aí você passa a procurar nos assentos de batismo a partir de agosto (o bebê pode ter vindo prematuro) para encontrar seus ancestrais e os irmãos deles. Note que a igreja escrevia apenas o prenome da criança, portanto, há que se ler o certificado de batismo para encontrar os nomes dos pais e (geralmente, em Portugal, raríssimamente no Brasil) os nomes dos avós como se pode observar nas imagens 1B e 1C. As certidões de batismo e casamento portuguesas às vezes vêm com riquezas de detalhes a ponto de informar inclusive a profissão do pai e dos avós da criança, No Brasil, as informações são extremamente básicas - uma das certidões que encontrei, por exemplo, tem apenas a data do casamento dos nubentes, os nomes das mães (ambos constam como filhos legítimos, mas o padre não se deu ao trabalho de incluir os nomes dos pais, que já estavam mortos) e a assinatura do padre. Nesse caso, a pesquisa se torna um pouco mais difícil. 
1C - Certidão de batismo da avó do meu bisavô - minha tetra-avó - (Portugal). Ao canto superior esquerdo lê-se a vila de origem (Covellos) e o prenome (Maria). No texto: dia do nascimento, filiação e vila de origem de cada um dos pais, os nomes dos avós paternos e maternos e suas vilas de origem, o nome da igreja, os nomes dos padrinhos e testemunhas e suas vilas, e a assinatura do vigário. 
Por esta razão, temos que lembrar da existência de outros documentos que nos confirmem filiação, origem, etc., tais quais passaportes, testamentos, certidões de compra e venda, documentos das Forças Armadas, Câmaras Municipais, casamento civil (a partir de 1890), documentos de divórcio (idem), etc. Para ter acesso aos passaportes de portugueses antes de 1910, e os cartões de imigração do Brasil, pode-se consultar os Arquivos Distritais, o Family Search, Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Para os outros documentos, procure o Arquivo Público de sua cidade. No APEBa (em Salvador), eu encontrei vários inventários, testamentos, cartas de dote, recibos de compra e venda de imóveis e produtos, correspondências dos ancestrais que eram delegados de polícia, e os livros da Polícia do Porto, onde se pode ver a entrada e saída de passageiros pelo Porto de Salvador - você também encontra esses livros da Polícia do Porto digitalizados no Family Search). Para mais informações sobre o Arquivo Público da Bahia, APEBa, em Salvador, vá aqui: http://www.fpc.ba.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=66. Você ainda pode procurar na Fundação Gregório de Mattos http://www.culturafgm.salvador.ba.gov.br/ - lá encontrei alguns registros de óbito, casamento civil e documentos da Câmara Municipal -, e nos arquivos da Santa Casa de Misericórdia da Bahia: http://www.santacasaba.org.br/ - se seus ancestrais eram ligados à Santa Casa, e.g. se eram irmãos, provedores ou mesários, ou se foram sepultados no Campo Santo, você encontrará informações valiosas sobre eles como data de nascimento e morte, nome do cônjuge, etc. 

E então, prontos para começar os primeiros esboços de sua árvore genealógica? No próximo post falaremos a respeito dos sobrenomes, e daremos dicas de como ler e entender a grafia nos documentos antigos.

Gostaram? Então divulguem. 




segunda-feira, março 28, 2016

Europa em 60 dias - Coimbra, Portugal - Em busca das origens - Parte II


Praça 8 de Maio - Coimbra
Havia deixado Aveiro sob uma chuva fina e insistente por volta das 12 horas. Sentei-me no vagão e pus-me a ler as notas das minhas pesquisas genealógicas, a atualizar algumas informações, a rever os planos de visitas aos sítios de meus ancestrais para otimizar meus dias em Coimbra. Pelas largas janelas do trem, via os olivais e as pequenas vilas ficarem para trás. Adiante de mim, se abria uma rota nova, cortada pela estrada de ferro e pedras que formavam o caminho. Se de Ílhavo e Eixo vinha a família de meu pai, era de várias vilas no distrito de Coimbra que vinham boa parte dos meus ancestrais maternos. Pus de lado o caderno de notas, fechei os olhos, comecei a traçar o caminho do meu trisavô Domingos Dias Brandão, que há mais de cem anos deixara o lugar de Covelos, na freguesia de Foz de Arouce, Concelho da Lousã, Distrito de Coimbra, Região das Beiras, (é tão mais fácil ter "bairro, município, estado e região"!) e partira a singrar os mares por mais de vinte dias, para do outro lado do Atlântico, na Cidade da Bahia, dar origem à minha família. O que o tinha levado a isso? e aqui,
Faculdade de Direito de Coimbra
haveria ainda parentes nossos? como seria de verdade o lugar de Covelos que eu tinha "visitado" por tantas vezes pelo Google maps 3D? O comboio parou, a senhora que vinha ao meu lado, pensando que eu dormia, tocou levemente o meu braço e me disse que estávamos na estação final, eu agradeci. As pessoas começaram a levantar, as portas se abriram, uma lufada de vento frio, desautorizando o sol brilhante, esfriou o vagão.
Da porta, vi que o dia estava radiante quando desembarquei na estação de comboios Coimbra (A), que fica exatamente no centro da cidade. Apenas uma hora havia passado desde que saímos de Aveiro. Ao descer do trem, as malas ainda com salpicos da chuva que lá peguei, respirei profundamente o ar úmido e frio vindo do Rio Mondego, correndo ali ao lado. Saí da estação, tomei a esquerda, Google maps na mão, em busca da Rua Saragoça, onde me hospedaria. 
Já habituado à arquitetura portuguesa, não me detive muito observando a cidade e continuei caminhando até ficar de frente a uma ruazinha estreita de pedrinhas brancas ladeada por várias casas comerciais. Parei, olhei a indicação no maps, decidi pegar aquela rua. As malas, embora tivessem praticamente o mesmo conteúdo, estavam levemente mais pesadas, talvez devido à falta de exercício, talvez devido ao cansaço de tantos dias de viagens e emoções.
Continuei puxando minhas malas, pedindo passagem aqui e ali às pessoas que paravam a conversar tranquilas com seus conhecidos ou com os vendedores das lojas. De repente, quando me preparava a parar mais uma vez, ouvi uma voz doce, com um levíssimo sotaque, chamar meu nome. Virei para confirmar que era mesmo comigo e me deparei com a Teresa e a Francesca - as italianinhas que conheci em Aveiro. Havia dois dias, fui deixá-las na estação de comboios de Aveiro, e agora ali, sem marcar nada, nos reencontrávamos no fervilhante centro de Coimbra. Que felicidade reencontrá-las e ouvir de novo suas vozes cheias de uma cadência única, de uma música linda, quer falássemos em italiano ou em português. Elas me apresentaram ao Riccardo, conterrâneo seus que estudava na Universidade de Coimbra, e, depois de alguma conversa, voltei ao meu caminho em direção às ladeiras da cidade, às enormes ladeiras da cidade, puxando minhas malas e sentindo minhas batatas da perna arderem, meus braços doerem, meu suor escorrer rios até chegar à casa da dona Fátima, onde passaria os próximos 12 dias.
Vista do Mondego ao pôr do sol a partir da Ponte Pedro e Inês - Coimbra
Uma surpresa de aniversário
Rua Visc. da Luz - Coimbra
Cheguei no dia 27 de janeiro, dia do meu aniversário. Mas, como não sou de me ligar muito pra data, não comentei o assunto nem com minhas amigas, nem com minha anfitriã, para não deixá-las agoniadas a fazerem regalos ou me pagarem refeições, apesar de que, varado de fome do jeito que eu estava, não seria uma má ideia, especialmente se dona Fátima fizesse aquele delicioso arroz doce ou a sopa dos deuses que ela faz! Mas naquele primeiro dia eu ainda não sabia o que estava perdendo.
Portanto, o que fiz foi deixar minhas malas no quarto, tomar uma boa ducha e sair a explorar aquela cidade milenar da qual eu tinha ouvido falar muito no curso de Letras porque muitos de nossos maiores poetas (e.g. Gregório de Mattos Guerra) estudaram lá. Assim também, pela chamada Questão Coimbrã (uma briga ideológica entre poetas portugueses), pelos estudos sobre o antigo
Igreja da Santa Cruz
dialeto moçarábico, por causa das histórias dos reis de Portugal, entre eles D. Afonso Henriques, e, obviamente, pelo fado e guitarra de Coimbra pelos quais um dos meus professores de Literatura Portuguesa era doido.
Descer a Rua Saragoça era uma contemplação da bela e antiga Coimbra. Pode-se chegar à parte baixa por quatro caminhos a partir de lá e qualquer um que se pegar, é maravilhoso por conta da vista e da arquitetura. Por onde for, também, a Cabra - nome da torre do sino da Faculdade de Direito - é vista, parece mesmo que ela é ubíqua, se impondo no alto da colina, quase como uma sentinela de tempos longínquos, a guardar a cidade e seus cidadãos. Mas eu só iria vê-la de perto mais tarde. Agora, descendo aquelas ladeiras silenciosas, cortadas pelos passos calmos de um ou outro transeunte, eu só queria um lugar para aplacar a minha fome.
Vendedor de castanhas na Praça 8 de Maio
Não foi custoso encontrar, pois o centro da cidade está cheio de cafés, pastelarias e restaurantes. Na Praça 8 de Maio (ao lado da Igreja da Santa Cruz), por exemplo, há um café restaurante muito famoso e muito frequentado. Não estive nele, embora sempre pensasse em entrar.
Eu fui, no entanto, quase todos os dias, parar num café restaurante próximo à estação de trens Coimbra (A), chamado Estação Doce, onde eles servem refeições deliciosas, e onde eu, de sobremesa, sempre pedia brigadeiro (se servem doce do nosso país, por que não comê-lo para matar a saudade de casa um pouquinho?) para acompanhar meu chá preto com leite - a bebida foi um costume aprendido dos meus anfitriões em Dublin há alguns anos. A Mônica, funcionária do restaurante, quando via que eu já terminara a refeição, logo perguntava: "Chá preto com leite e brigadeiro?" e sorria. Como disse anteriormente, Portugal não me deixou, em nenhum dia, ser apenas mais um na multidão.
Maurício e eu nas escadarias de Coimbra
Na Estação Doce, encontrei um amigo brasileiro que está fazendo doutorado na cidade e de lá fomos percorrer Coimbra, a subir e descer ladeiras, a descer e subir ladeiras, escadarias enormes, atravessar pontes sobre o Mondego, a contemplar a vista de cima da colina da Universidade. Coimbra brilhava tremeluzente com as luzes do sol poente sobre suas casas e seus monumentos. O Maurício e eu andamos por mais de três horas não apenas pelo centro, mas por várias partes da cidade que ele conhecia como um nativo. Acabamos por parar em sua casa para o jantar e lá a grande surpresa: um delicioso pene al pesto preparado por ele, e uma garrafa de vinho tinto junto com um bilhete de Feliz Aniversário e ingressos para o Festival de Filmes Alemães que aconteceria no teatro Gil Vicente a partir do dia seguinte, e onde, após o jantar, fomos encontrar seus amigos. E eu pensando que, longe de casa, meu aniversário passaria batido. Mas é como disse o Riccardo, "Em Coimbra tudo acontece".

Vista panorâmica de Covelos - Foz de Arouce






Um Lugar chamado Covelos - Foz de Arouce
Entrada de Covelos
Por volta das 9 horas, dona Fátima me levou à estação rodoviária de onde eu deveria tomar o autocarro para Foz de Arouce - pode-se também tomá-lo próximo à estação de comboios Coimbra (A). Tinha procurado na Internet sobre horários de ônibus e conduções para lá, mas não encontrei nada. Então, caso você deseje conhecer Foz de Arouce e Covelos, e não puder dirigir, é tomar o ônibus que sai em direção a Vila Nova de Poiares, o valor até Covelos é 3.05 euros. O ônibus vai te deixar na entrada de Covelos, se você andar um pouco mais para a frente, sobe uma ladeirinha e vai chegar - depois de uns vinte minutos andando - na vila de Foz de Arouce.
O caminho de Coimbra até Covelos é de uma
Antiga casa de moagem - Covelos, Foz de Arouce
beleza espetacular. Totalmente cênica, com vilas, rios, pontes e muitos bosques, a estrada nos faz esquecer que vamos de um centro urbano a outro e nos dá a sensação de que estamos aonde poucos homens chegaram, tamanha a faixa de mata preservada e a pureza das águas cristalinas do rio que corta todo o percurso. Fui conversando com o senhor Ricardo, o motorista do autocarro, que me deu várias dicas de lugares para comer, o que visitar, como ir, enquanto estivesse na região. Me indicou, por exemplo, não deixar passar a oportunidade de comer as lampreias e a chanfana, pratos típicos da sua vila, chamada Penacova, aonde eu também teria de ir em busca de meus ancestrais, Quando o ônibus chegou diante da placa de Covelos, o senhor Ricardo me disse: "Olha bem o relógio, fazes o que tens de fazer, mas lembra-te de estar na paragem no horário, pois o último autocarro é este, quando eu voltar". Dormir ao relento, num lugar tão frio e enevoado, não era minha opção. O senhor Ricardo partiu em direção a Vila Nova de Poiares e eu fiquei na estrada, olhando um lado e outro sem ver viva alma, me perguntando o que fazia ali.
Olhei o relógio, tinha menos de três horas para ver o máximo que podia. Atravessei a rua, e fui descendo a estreita ladeira de terra que corta a entrada do vilarejo. Olhei para um lado e outro e tudo o que vi foi névoa e casas feitas de ardósias, mato e oliveiras, e um córrego cristalino. Continuei andando à procura de alguém, mas nem as chaminés, nem as glebas nos fundos das casas me davam sinal de que aquela não era uma vila de onde todos os moradores houvessem emigrado para o Brasil, como meu trisavô e seus irmãos. No caminho, uma casa me chamou a atenção por uma inscrição sobre um nicho, uma oração dedicada ao lugar de Covelos e à mãe do escritor. Parei, fotografei. Dias depois vim descobrir que aquela era a casa onde meu trisavô nasceu e cresceu e de onde ele saiu para o Brasil deixando sua irmã Delfina Maria e seu cunhado José Vaz Colaço como proprietários. A chamada Casa da Eira, de Covelos, ali, diante de mim, com suas paredes de pedra, era uma das quintas que Domingos Dias Brandão havia deixado em Portugal e de que eu tanto ouvia falar quando criança.
Rio Ceira - Foz de Arouce
Contornei a casa, e fui ladeira acima. Passei por uma capelinha, reconheci nomes de ruas e propriedades que havia encontrado nos assentos de batismo e casamento em minhas pesquisas: "Rua do Cabeço", "Rua da Portelinha", e assim vai. Todas as portas continuavam fechadas, o único sinal de vida foi um cachorrito que começou a me seguir, latindo para talvez quebrar a monotonia do lugar, e me levou direto à casa onde sua dona arava a terra. Perguntei a ela se conhecia alguém da família Vaz Collaço (a resposta eu dou num post mais adiante sobre árvore genealógica); fiz o percurso de volta à estrada e fui parar no outro lado da rua, a caminho de Foz de Arouce. Aquela vila invadida por franceses e que derrotou o inimigo, se mantendo fiel às suas tradições lusitanas.
Igreja de São Miguel de Foz de Arouce
Atravessei a ponte, vi o monumento aos heróis que venceram os franceses, sentei numa das várias mesas para piquenique no Parque das Merendas a fim de forrar meu estômago que àquela altura já roncava. Na tranquilidade daquele lugar, diante das águas cristalinas do Rio Ceira correndo à minha frente, pássaros chilreando sobre minha cabeça e cabras e ovelhas brincando e balindo por ali perto, pus-me a pensar em como a vida naquele lugar não deve ter mudado tanto nos últimos cem anos. Não fosse o barulho de carros cortando o silêncio da vila de alguma rara vez em alguma rara vez, aquele seria o mesmo lugar em que meus ancestrais viviam, a mesma paz que eles tinham, a mesma vida serena e tranquila.
Voltei a caminhar, explorar a vila, a me deparar com portas e janelas fechadas e o barulho do vento
Placa indicando localidade em Foz de Arouce
Rua de Foz de Arouce
que cortava o dia. Um cachorro veio ao meu encontro, manso, querendo carinho naquele sítio onde só fachadas coloridas de casas antigas lhe faziam companhia. Passei pela Quinta Brandão, um dos maiores e mais conhecidos produtores de vinho da região. Era a única casa aberta pelo caminho. Não entrei, aqueles Brandão eram de outra família, a minha tinha emigrado para o Brasil. Vi um restaurante aberto, entrei em busca de um cafezinho quente. Lá dentro havia um casal de senhores e o dono, todos almoçando. Ao ouvirem meu sotaque, logo começaram uma conversa muito interessada no que eu estava fazendo ali, tão longe de casa. Conversamos um bom tempo, todos tinham parentes que viviam no Brasil, especialmente em São Paulo. Os jovens do lugar estavam indo embora da vila por conta de emprego e de novas aspirações existenciais, por isso a cidade parecia tão deserta. Me recomendaram voltar no verão. Os velhinhos se levantaram, me desejaram boa sorte e partiram. Quando eu estava para sair, entrou um moço a quem logo o dono do restaurante me apresentou como sendo o filho do presidente da Junta de Freguesia, com quem eu poderia obter toda a informação de que precisasse sobre Covelos. O rapaz, em plena hora do almoço, me levou a sua casa, me apresentou seu pai e, com toda cortesia e hospitalidade portuguesas às quais eu já me estava acostumando, me convidou a almoçar com a família. O senhor Padrão se mostrou extremamente prestativo e interessado em minha história, e ali, com ele, minhas buscas tomariam novos rumos, sobre os quais falarei em outra oportunidade.
Voltando da lida - Covelos - Foz de Arouce
Durante nossa conversa, uma ou outra pausa para ouvirmos o noticiário sobre o surto de Zika vírus no Brasil e como ele estava chegando a Portugal. Olhei o relógio, era hora de correr à parada de ônibus pois o senhor Ricardo estaria passando dentro de alguns minutos e eu deveria voltar a Coimbra. Me despedi do senhor Padrão e de sua gentilíssima família, marcamos a minha volta e peguei meu rumo, correndo feito louco para não perder o ônibus. Quando cheguei à "paragem", uma senhora meio enfezada, que chegava em Covelos, me perguntou o que eu tanto "andava a fotografar". Quando lhe expliquei os meus motivos familiares, ela logo abriu um sorriso e me pediu meu endereço eletrônico para acompanhar minha viagem e descobertas.
O senhor Ricardo chegou, no ônibus apenas ele e eu a conversar até estarmos em Coimbra com o sol
de inverno que já começava a se pôr no horizonte.

Vila Nova de Poiares - Terror no Cemitério
Adicionar legenda
Fui a Vila Nova de Poiares numa terça-feira. A ideia era conhecer o lugar e fotografar as localidades de onde vinham meus ancestrais (Ribas, Algaça, Pereiro de Baixo, Redouça, Mocela, entre outros) e as duas igrejas nas quais vários deles foram batizados, casados e sepultados no decorrer de 300 anos. Mas tive que esperar o ônibus por um bom tempo. Os ônibus intermunicipais em Portugal - pelo menos nas regiões onde estive - demoram muito a passar e têm horários extremamente complicados. Por isso, se você vai precisar de se locomover entre localidades no país, o melhor é alugar um carro, do contrário, perde-se muito tempo e vê-se muito pouco. Eu havia deixado minha carteira de motorista em Salvador (geralmente se pode dirigir com a habilitação brasileira em vários países estrangeiros, mas dê uma lida aqui para maiores informações, afinal, melhor é prevenir que remediar: http://www.denatran.gov.br/informativos/20070611_permissao_internacional.htm), portanto, o negócio era mesmo tomar meu chazinho de cadeira sempre que precisasse ir para alguma localidade não atendida por comboios.
Rua no centro de Vila Nova de Poiares
Ao sair da estação rodoviária, logo me deparei com mais uma vila onde não víamos ninguém, ou quase ninguém, a depender da rua onde entrássemos. Fui caminhando a explorar o centro da cidade, onde encontrei um senhor a quem pedi informações sobre a localização das igrejas de Santa Maria de Arrifana e de São José das Lavegadas. O senhor me disse que ambas eram muito distantes para ir andando, pois ambas estavam nas freguesias de mesmo nome, que o ideal seria ir de carro, pois passaria quase o dia inteiro andando para chegar lá. No entanto, me apontou o caminho que eu deveria seguir. Após caminhar bastante pelo centro daquela vila tão charmosa, fui parar no cemitério. À porta dele estava sentado um senhor, com uma boina portuguesa, a quem perguntei se estava no caminho certo para a igreja de Santa Maria de Arrifana. Ele me apontou outro caminho e me disse que era muito longe, que melhor seria... ter um carro. Como estava à porta do cemitério, entrei para ver se encontrava o jazigo de algum parente. No meio-tempo, inventei de tirar uma foto do lugar, que achei superorganizado e limpo. De repente, quando estava saindo, um homem alto e magro postou-se no centro da avenida entre onde eu estava e a entrada. Os braços cruzados, o rosto rígido, o corpo plantado como o capitão de exército diante dos flancos inimigos. Saudei-lhe com um bom-dia, ele me respondeu: "Posso saber o que estava a fotografar?", eu lhe respondi que fotografei
Igreja de Sta Maria de Arrifana
apenas a avenida principal do cemitério. Ele, com a mesma pose: "Com ordem de quem você fez a fotografia?", eu: "Com a ordem de ninguém. Como o cemitério é um local público, pensei que não tivesse problema fotografar". O homem enrijeceu mais o semblante e mandou: "Pois aqui, para fotografar, há que ter a minha permissão. Agora vai me levar exatamente onde fez a fotografia para me mostrar o que fotografou". Eu senti minhas bochechas queimarem, de vergonha. Lhe disse que, se ele quisesse, eu apagaria a fotografia e acabávamos a conversa por ali. Lhe expliquei o porquê de ter ido ao cemitério, ele começou a relaxar o rosto, seu tom ríspido deu lugar a um tom mais afável, compreensivo, e me pediu que o seguisse. Chegamos diante de um barracão, ele entrou, pediu que eu o acompanhasse, não tinha motivos de postar-me à porta. Olhei para um lado e outro, não vi o senhorzinho de boina, que sumira desde que meu imbróglio começara. Pensei: "se eu entrar, o senhor de boina vai trancar a porta e eu serei preso e amordaçado aqui dentro e ninguém saberá do meu paradeiro!". Senti a adrenalina correr, minhas pupilas dilatarem, o coração pulsar mais rapidamente. Todos os filmes de terror que vira passavam como um rio em minha memória. Preparei a ginga para golpear meu agressor com um rabo-de-arraia, uma queixada, uma ponteira, uma meia-lua, ou qualquer outro golpe de capoeira que meu instinto lembrasse. Me aproximei do homem que buscava algo dentro de uma caixa. O coração a mil. Ele sacou o celular, fez uma ligação à junta de freguesia contando minha história e pediu a atendente que me ajudasse, "Pronto, tudo resolvido. Agora você vai lá, vê exatamente onde estão seus familiares e volta aqui. Se calhar, eu mesmo o levarei à Santa Maria de Arrifana.". Estendeu a mão e com um
Igreja de S. José das Lavegadas
aceno disse que me esperava de volta. Passei pelo portão onde o senhor de boina estava sentado a apreciar a vista da vila e fui parar na Junta de Freguesia onde não puderam me ajudar, uma vez que aquele cemitério era do início do século passado e meus ancestrais seguramente não estariam lá. Pedi a moça que agradecesse ao zelador e que lhe explicasse o motivo de eu não voltar ao cemitério. Desci para a rodoviária onde ficaria por três horas esperando a condução de volta a Coimbra.
Para passar o tempo, comecei a escrever minha aventura num caderno que comprei quando meu laptop deu pau. Ao virar para o lado para observar a rodoviária antes de descrevê-la, vi o anúncio de táxis afixado à porta de entrada. Pensei no tempo que esperaria pelo autocarro, pensei no nada que iria fazer ali sentado. Vi todos os números da lista, escolhi um no "Papai do Céu mandou...", liguei. Uma voz feminina atendeu, falei com ela onde estava e pedi que me mandasse um táxi, ela me disse que o motorista era ela e que chegaria em três minutos. Dito e feito. Partimos para a Igreja de Santa Maria de Arrifana, onde ela, conversando com o rapaz que arrumava a igreja, conseguiu que eu entrasse e de lá fomos para São José das Lavegadas por ladeiras extremamente íngremes e sinuosas ao ponto de me gelarem a espinha.
Monumento "O Cristo"
Minha motorista e eu fomos conversando por todo o caminho. Ela me mostrou várias casas fechadas pelos lugarejos e ruas e me disse que muita gente tinha ido para o Brasil e outros para países da CEE em busca de trabalho, mas que agora muitos jovens estavam retornando devido a incentivos do governo para a agricultura e empreendimentos familiares. No entanto, as ruas continuavam desertas. Pedi a minha condutora que em vez de me levar de volta à rodoviária, me levasse para a vila de Lousã, onde poderia encontrar um dos novos amigos que fiz em Coimbra e que em Lousã trabalhava e residia. Ela me deixou no Centro da vila e eu liguei para o André a avisar-lhe que estava por lá. Ele, feliz com a notícia, me indicou um café-bar bem bacana, a Taberna Burguesa, cujos donos haviam vivido em Salvador por muitos anos e onde eu poderia comer alguma coisa enquanto ele saia do trabalho.
Conheci o André quando fotografava uns monumentos em Coimbra. Ele me viu fotografar uma fonte e logo me perguntou se eu sabia a história por trás dela. Daí, ao ouvirmos os sotaques tupiniquins ecoados por nós ambos, logo surgiu aquele sentimento de irmandade que aparece entre conterrâneos em terras estrangeiras. Foi o André quem me levou a conhecer vários lugares em Coimbra, por sinal, lugares que turistas geralmente não frequentam, porque estão fora dos roteiros batidos.
Centro da Vila da Lousã
Meu amigo me levou até o castelo da Lousã - o vi apenas por fora, pois já era noite - e de lá rumamos de volta a Coimbra, o André rindo às gargalhadas com meu momento de pânico no cemitério de Vila Nova de Poiares. Mas agora, pensando friamente no caso, não tiro a razão ao funcionário do cemitério. Afinal, estava sob a responsabilidade dele, e ele tinha de zelar pelo lugar. Sua postura foi a de alguém que leva a sério o seu trabalho.
Terminamos a noite num restaurante muito bom chamado Solar do Bacalhau, onde o Bacalhau ao Forno quentinho e o vinho da Quinta do Sobral me fizeram sorrir satisfeito por estar vivo.

"O 'adeus' de Tereza" - como diria Castro Alves
Francesca, eu e Teresa - Jardim Botânico - Coimbra
Coimbra é um lugar onde, para várias de minhas perguntas, consegui respostas  que pudessem completar meu quebra-cabeças genealógico. Lá visitei lugares que puseram fim a uma busca de duas gerações, mas, sobretudo, Coimbra é mais um lugar de que eu lembrarei pelas pessoas que conheci e pelas amizades que fiz.
Foi lá, por exemplo, que fiquei bem mais próximo de Teresa e Francesca, e que, pela primeira vez em tantos dias de convivência, vi nos olhos de minhas amigas um sentimento de melancolia e saudades misturadas, de tristeza, como a que senti ao deixar Aveiro. Acredito que seja assim que todos nos sentimos ao deixar Portugal: com um sentimento de vazio, de incompletude, de ruptura com algo maravilhoso que encontramos.
Arco de Almedina
No último dia delas na cidade, resolvemos ir andando, conversando, trocando experiências, rindo, comendo. Fomos a vários sítios interessantes, a alguns dos quais eu não conhecia como a Quinta das Lágrimas, o Jardim Botânico, e suas histórias de amor e suicídios. Conversamos sobre literatura brasileira e portuguesa, fiz uma lista de música e livros de ambos os países que elas pudessem ler e escutar para aprimorar suas experiências linguísticas. Trocamos ideias, fizemos planos para as próximas férias: Brasil, Itália, Portugal. Portugal parecia sempre ser a melhor opção. Encontramos o Riccardo, que me surpreendeu com todo o seu conhecimento sobre a cultura brasileira e a riqueza de informações que ele tinha sobre o Brasil, de sorte que até me contou três versões para a lenda da índia Iara. Ele faz mestrado na Universidade de Coimbra, mas como lhe disse, seu vasto conhecimento sobre o Brasil e a nossa cultura me fez duvidar se ele estava estudando no país certo. Continuamos os quatro a pisar aquelas ruas de pedras e paralelepípedos mais antigos que todos nós juntos, passamos pelas muralhas guardiãs e fomos parar na República dos Fantasmas, onde nosso amigo residia. Lá, mais uma surpresa, para nos despedirmos das meninas, o Riccardo fez um delicioso chimarrão! Isso mesmo, um chimarrão à gaúcha! com direito a barulhinho no final e tudo!  mas é como ele diz sempre: "Em Coimbra tudo é possível", inclusive um italiano fazendo chimarrão para esquentar o frio de fim de tarde.
Praça da Canção - Parque do Choupaninho
Deixei minhas amigas na estação, corações apertados, saudades já batendo à porta juntas com as lembranças das nossas caminhadas e descobertas, e rumei, lentamente, na direção de casa. Sentindo o vento frio da noite portuguesa, olhando o Rio Mondego correr, milenar com suas águas crispadas pelo vento. Recitando, intuitivamente, o poema de Castro Alves, que eu tinha esquecido de dizer a Teresa:

"A vez primeira que fitei Tereza,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus..."

Talvez não a valsa, mas o fado, a guitarra de Coimbra, a voz taciturna, sofrida do fadista nas tabernas da velha cidade.

"Coimbra tem mais encanto na hora da despedida"
Ou assim diz a música popular, e é apenas quando estamos de partida, em pé na estação de comboios
Competição de Kayak no Rio Mondego - Coimbra
que sentimos todo o peso dessa verdade. Começamos a pensar em tudo que estamos deixando para trás, nos lugares que visitamos, nas pessoas que conhecemos, na comida que experimentamos, nos fados que ouvimos, na vida borbulhando em todo o redor, na paz de sentarmos no parque e ver as corridas de kayak, os enamorados, os atletas, as aves voando livres.
Pensamos em tudo o que não iremos mais fazer ali e, por isso, tudo se torna bem mais encantador.
O táxi me deixou na estação Coimbra B (de onde se parte para Lisboa) apenas 4 minutos antes do trem expresso partir. Quando cheguei ao balcão de bilhetes, a atendente me disse: "Corre, põe a mala em qualquer vagão e vai andando até o teu.". Foi o que fiz, arrastando minhas malas superpesadas de souvenirs que levava para os entes queridos e garrafas de vinho que ganhei dos amigos. Mas, enfim, era hora de dizer tchau, sentar-me no meu assento e esperar Lisboa chegar dentro de alguns instantes.
Olhei pela janela do trem, o céu escurecia, as luzes de Coimbra começavam a ficar para trás, e eu me lembrava das palavras de Maurício: "Na verdade, Coimbra tem mais encanto da segunda vez que voltamos aqui". Descobrirei em tempo. Agora era fechar os olhos e esperar a próxima estação.

O que ver em Coimbra:
Feira próxima ao  mosteiro de Sta Clara, a Velha
Universidade de Direito de Coimbra;
Igreja da Santa Cruz;
Sé Velha;
Sé Nova;
Museu Machado Castro;
Portugal dos Pequenitos;
Arco de Almedina;
Ponte Pedro e Inês;
Jardim Botânico;
Biblioteca Joanina;
Igreja de São Tiago;
Mosteiro de Santa Clara a Velha;
Mosteiro de Santa Clara a Nova;
Feira ao ar livre em frente ao Mosteiro de Santa Clara, A Velha (que ocorre no 1o sábado de cada mês);
Sé Velha - Coimbra
Escada do quebra-costas;
Pátio da Inquisição;
Parque do Mondego;
Praça do Comércio.

Fora da Cidade:
Figueira da Foz;
Serra da Estrela;
Conímbriga

Onde Comer em Coimbra:
Estação Doce;
Solar do Bacalhau;
Café Bar A Caldeira;
Café Febica (dentro de uma antiga igreja na Rua de Sofia)
The World Needs Nata;
Galeria Santa Clara (ao lado de Portugal dos Pequenitos);
Restaurante da Rodoviária (por incrível que pareça, o restaurante, simples, é muito bom e a comida deliciosa. Quase todos os dias de manhã tomava café lá)

Coimbra tem mais encanto na hora da despedida: 









Londres ao pôr do sol

Devo confessar que nesta altura do campeonato não vi sequer um jogo da Copa do Mundo na Rússia. Eu sei, o Brasil está em polvorosa, ca...