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domingo, maio 01, 2016

Árvore Genealógica - Em busca das origens


Meus avós maternos, tias-avós, bisavó, mãe e tios
Caros amigos, como prometido, começo aqui uma pequena série de posts para aqueles que se interessam pela busca de suas origens, em conhecer sua ancestralidade. Espero poder de alguma forma contribuir com suas pesquisas.

Algumas palavras iniciais
Desde criança eu sempre tive grande curiosidade em saber sobre a história de minha família, especialmente quando se falava de ancestrais (ascendentes já falecidos, normalmente de várias gerações anteriores). Ficava calado, olhos abertos, ouvindo minha tia-avó Zita (a que está sentada à direita da foto, segurando meu tio) contar as histórias de seus pais, avós, tios-avós, primos-bisavós, etc. 
Os casos e anedotas por ela compartilhados sempre impulsionaram minha imaginação. Ficava pensando em um de seus avós cruzando o oceano em busca das terras brasileiras, de um de seus bisavós que era delegado de polícia no Brasil colonial, de seus ancestrais diretos e indiretos que participaram de guerras e insurgências, sempre curioso com os desfechos das histórias. Vez ou outra eu perguntava o nome da família a qual pertencia o ancestral em questão. Aí, ela vinha com uma lista de nomes que sempre repetia, talvez para incutir em minha memória e não me deixar esquecer nossas origens: Dias D´ávila, Dias Brandão, Pinto Pacca, Rodrigues Pinto, Cachoeira, Mattos Guerra, Goes e Vasconcellos, Abreu e Lima, Carvalho e Albuquerque, Pereira Marinho, Braga Sampaio, Tinta, e por aí ia a longa lista. Ficava impressionando como sua memória já anciã guardava tanta informação. Especialmente porque ninguém na família, a não ser ela, se interessava por esses pormenores, os quais se mostraram importantíssimos nas minhas buscas quando a leitura de documentos começou a ser feita. 
1A: Meu bisavô é o n. 4 - Mário Dias Brandão.
Do livro "Impressões do Brasil no Século Vinte"
P. 885, Lloyd's Great Britain Publishing Co., 1913
Apesar de todo seu conhecimento da nossa história, alguns fatos como, por exemplo, o lugar de onde seu avô materno era originário, haviam caído no esquecimento após duas gerações, restando apenas nas lembranças os feitos e os seus ensinamentos. Aliás, conversando com as pessoas descobri que esse é geralmente o limite de conhecimento sobre os antepassados: duas gerações. E, incrivelmente, há aqueles que não conhecem sequer os nomes de seus avós , pois os pais não falam sobre seus pais a seus próprios filhos (o que para mim é um escândalo!). Talvez essa falta de interesse familiar de nossa sociedade seja mesmo a razão pela qual ao comentar com algumas pessoas sobre as minhas pesquisas genealógicas elas revezem os questionamentos: "você não tem mais o que fazer?" ou "está querendo tirar passaporte português?". Elas não conseguem entender como alguém pode se interessar pela história de sua família e seus ancestrais, ou como alguém pode passar horas lendo livros velhos e empoeirados, ou buscando na Internet informações sobre pessoas que já se foram há tanto tempo. Tem gente que passa duas horas assistindo a jogos, outros passam a tarde inteira assistindo novelas mexicanas, outros passam seu tempo dormindo, outros estudando a origem do universo. Eu, ultimamente, tenho preferido passar meu tempo livre com pesquisas familiares as quais, além de me levarem ao conhecimento das minhas origens, também me abriram caminho para outras áreas do saber como a onomástica, a paleografia, a antropologia e, obviamente, a história. 

Coincidências à parte...
Depois que minha tia Zita se foi, as conversas sobre meus ancestrais quase não existiram. No entanto, lá nas minhas recordações, a chama da curiosidade ardia a custo, tremulante, querendo uma palhinha para voltar a luzir mais fortemente. 
avós maternos
Isso aconteceu, certo dia, quando  estava assistindo a uma série estadunidense da qual eu gosto muito chamada "Brothers and Sisters" (Irmãos e Irmãs) que se desenrola em torno da família Walker e de suas tribulações e alegrias, conflitos e amores. Em um dos episódios da série, surge uma personagem secundária que é totalmente obcecada por genealogia e que descobre coisas interessantíssimas sobre os ancestrais dos Walkers simplesmente buscando informações sobre eles na Internet, a qual, segundo a personagem "faz a sua cabeça rodar pelas coisas que permite que a gente encontre nas buscas". 
Essa frase ficou martelando na minha cabeça, a força da curiosidade gerada por esse comentário aumentando cada vez que a personagem dizia algo novo sobre os ancestrais das personagens principais. 
Terminado o episódio, sentei na frente do computador e, lentamente, como quem se sentia um bobo por seguir a recomendação de uma personagem de série de TV, pus o nome de meu bisavô materno no Google, sacudi a cabeça me reprovando, cliquei no "enter". Menos de um segundo depois aparece diante de mim o resultado. Vários Mários Dias, Mários Brandão e apenas um que combinava os dois sobrenomes e que fazia parte de um livro sobre como era o Brasil no dealbar do século 20 e quem eram as figuras ilustres de cada Estado brasileiro na época. Cliquei no link, abriu-se a foto que postei acima (1A). 
avós paternos e tios
Quando bati o olho no rosto n. 4 logo reconheci aquela cara bonita por trás do bigodão. Meu bisavô, o mesmo da foto na parede do nosso gabinete, estava ali, na internet, diante dos meus olhos. Liguei para minha avó, perguntei se ela sabia de algum livro no qual o nome e a foto de seu pai constavam, ela disse que não -  ninguém sabia, minha tia nunca mencionara o livro. Começava aí a minha busca pelos tesouros perdidos. Desliguei o telefone, escrevi o nome do meu trisavô. Lá estava ele! Um dos heróis que arriscaram a própria vida durante o incêndio na Faculdade de Medicina da Bahia, em 2 de março de 1905! 
Olhei minha cara refletida no espelho à minha frente, a boca estava aberta em sinal de pasmo. Senti correr em meu corpo aquele raio elétrico de excitação e assombro. Como ninguém nunca tinha pensado em fazer isso?! Continuei a pôr os nomes de que me lembrava, alguns resultados positivos, outros sem nenhum resultado. Entre esses resultados positivos, talvez o mais espantoso tenha sido um sobre a família do avô materno de meu pai, da qual não sabíamos quase nada. Na verdade, a não ser pela foto do meu bisavô, nada mais sabíamos de sua história ou de seus ancestrais, apenas que ele era português e morrera quando minha avó ainda era criança. Pus o nome dele no Google e descobri que era comerciante em Salvador. Pus o nome de seu pai na pesquisa e encontrei um site com um texto longuíssimo falando sobre o homem e sobre sua importância na cultura da cidade de Ílhavo, em Aveiro, Portugal. João da Rocha Carolla, músico ilhavense de outrora, dizia o site. E eu sem ter ideia de onde era o Ílhavo! 
Foi assim, por coincidência, com a ajuda da Internet, por causa de uma série de TV, que iniciei a busca pela história esquecida da minha família.
João da Rocha Carolla - trisavô paterno
Como iniciar suas pesquisas genealógicas
Toda pesquisa genealógica começa com o conhecimento dos nomes de seus ascendentes. Uma boa maneira de você descobrir quem eram eles é olhando sua certidão de nascimento, pois nela constam os nomes de seus pais e seus avós. Depois de saber isso, procure as certidões de nascimento de seus pais, lá constarão os nomes dos pais e dos avós deles - assim você saberá os nomes de seus pais, avós e bisavós. Se ainda conseguir a certidão de seus avós, aí você conseguirá saber os nomes de seus trisavós, e assim por diante.
Uma ideia boa e simples para começar a montar sua árvore (pois existem formas técnicas, algumas delas meio rebuscadas), é você usar o programa Excel => Ferramenta SmartArt => Hierarquia e ir escrevendo as informações (nome e sobrenomes, data de nascimento, casamento, óbito) a partir de você (você pode fazer isso numa cartolina também). Eu mesmo comecei minha árvore pondo os nomes numa folha de ofício A4, pois nunca pensara que ela chegaria tão longe. Na verdade, eu achava que iria encontrar no máximo quatro ou cinco gerações. Mas a pesquisa foi se aprofundando, os documentos disponíveis, na grande maioria, estavam bem conservados, aí eu fui me deixando pesquisar.

O Excel é bom, no entanto, pois com os recursos de adicionar novas cédulas ao lado e abaixo no programa, você pode fazer sua árvore ad infinitum desde que vá aumentando o tamanho da página, e se precisar corrigir alguma data ou nome, o trabalho ficará muito mais fácil e organizado. A minha árvore, por exemplo, já chegou à 13a geração antes de mim (em torno de 1584), e nesses dois anos de pesquisa eu precisei fazer algumas correções de nomes, datas e lugares de origem do ancestral, conforme as informações dos documentos - por essa razão, não devemos apenas procurar os ancestrais diretos, devemos também procurar os irmãos deles para termos certeza da informação prestada no material que temos.
Mas de onde raios vem o nome "árvore genealógica"? Ele é derivado do formato que ela tem, lembrando uma árvore e suas ramificações, pois ela vai crescendo para cima (começando de um ancestral comum a todos os outros descendentes dele/a) ou para baixo (se você começar de si mesmo). Neste último formato você vai descobrindo que à medida em que se encontram novos ancestrais, a árvore vai ficando cada vez mais robusta na base, pois cada um de nós tem 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós 32 tetra-avós, e assim por diante. 

Onde encontrar os registros
Quando comecei a pesquisar, apenas tinha conhecimento do Google Search. Não sabia aonde ir ou a quem pedir ajuda. Quando se acabaram as informações da Internet sobre os ancestrais que eu conhecia, fiquei num mato sem cachorro. Daí, joguei a pergunta no buscador online: "onde pesquisar genealogia". Vários sites foram encontrados e eu comecei a buscar informações neles. Demorou algum tempo até que descobri aonde ir em Salvador. 
Via de regra (não só aqui, mas pelo mundo), os registros a partir de 1900 poderão ser conseguidos no cartório - mas lá será necessário você ter datas de nascimento, casamento, óbito, não apenas o nome. Outra forma de conseguir os registros de nascimento, casamento e óbito no Brasil e Portugal é nos livros de assentos de batismo, matrimônio e óbito da igreja católica. 
Os registros da igreja supracitados estão disponíveis em Salvador no laboratório de restauro da Universidade Católica, na Federação (http://www.ucsal.br/extensao/projetos-e-acoes-comunitarias/laboratorio-de-conservacao-e-restauracao-reitor-eugenio-veiga-lev) e na Cúria Metropolitana, no Garcia (http://arquidiocesesalvador.org.br/site/). Embora os arquivos estejam disponíveis livremente à pesquisa pública, é necessário fazer o agendamento prévio. 
Em Portugal, os registros são disponibilizados nos Arquivos Distritais, na Torre do Tombo, em Lisboa, e na Universidade de Coimbra, em Coimbra, tanto presencialmente como através da Internet. Para mais informações, vá aqui:  http://www.aatt.org/site/index.php?P=3
Outra maneira de conseguir informação sobre os assentos de batismo, casamento e óbito da igreja católica (lembrem-se que no Brasil e Portugal esses registros eram feitos pela igreja, portanto, os registros antes de 1900 com certeza estarão nos arquivos eclesiásticos), é através do site dos mórmons: Family Search. Por questões religiosas, eles mantém o maior banco de dados genealógico digitalizado a partir dos livros das igrejas e registros civis pelo mundo. Isso quer dizer que provavelmente você não precisará sair de sua casa para acessar os registros de seus ancestrais. O site é este aqui: https://familysearch.org/search/collection/location/1927159?region=Brasil. Para começar a pesquisar no site é bom você seguir a visita guiada. 
1B - Certidão de batismo de meu bisavô (Brasil). Ao canto esquerdo lê-se o (prenome) Mário, e a cor (branco). No texto: a data de batismo, data de nascimento, nomes dos pais, e padrinhos; assinatura do padre.
Uma dica para começar a pesquisa é que você pode iniciá-la de duas formas: com as certidões de casamento ou batismo. Nas primeiras, geralmente, você encontrará os nomes dos noivos e de seus pais. Para mim, é o modo mais fácil, pois nos assentos de casamento escreviam-se os nomes de ambos os noivos na lateral do documento, enquanto nos assentos de batismo apenas se escreviam os prenomes das crianças. Desse modo, a certeza de que se encontrou o ancestral correto é maior. Depois de encontrar o certificado de matrimônio, passe ao de batismo. Como os métodos contraceptivos não eram vistos com bons olhos, o primeiro filho sempre vinha nove meses depois do casório, assim, se seu ancestral tiver se casado em janeiro de 1900, tudo correndo bem, seu primeiro filho, com quase absoluta certeza, terá nascido em outubro. Aí você passa a procurar nos assentos de batismo a partir de agosto (o bebê pode ter vindo prematuro) para encontrar seus ancestrais e os irmãos deles. Note que a igreja escrevia apenas o prenome da criança, portanto, há que se ler o certificado de batismo para encontrar os nomes dos pais e (geralmente, em Portugal, raríssimamente no Brasil) os nomes dos avós como se pode observar nas imagens 1B e 1C. As certidões de batismo e casamento portuguesas às vezes vêm com riquezas de detalhes a ponto de informar inclusive a profissão do pai e dos avós da criança, No Brasil, as informações são extremamente básicas - uma das certidões que encontrei, por exemplo, tem apenas a data do casamento dos nubentes, os nomes das mães (ambos constam como filhos legítimos, mas o padre não se deu ao trabalho de incluir os nomes dos pais, que já estavam mortos) e a assinatura do padre. Nesse caso, a pesquisa se torna um pouco mais difícil. 
1C - Certidão de batismo da avó do meu bisavô - minha tetra-avó - (Portugal). Ao canto superior esquerdo lê-se a vila de origem (Covellos) e o prenome (Maria). No texto: dia do nascimento, filiação e vila de origem de cada um dos pais, os nomes dos avós paternos e maternos e suas vilas de origem, o nome da igreja, os nomes dos padrinhos e testemunhas e suas vilas, e a assinatura do vigário. 
Por esta razão, temos que lembrar da existência de outros documentos que nos confirmem filiação, origem, etc., tais quais passaportes, testamentos, certidões de compra e venda, documentos das Forças Armadas, Câmaras Municipais, casamento civil (a partir de 1890), documentos de divórcio (idem), etc. Para ter acesso aos passaportes de portugueses antes de 1910, e os cartões de imigração do Brasil, pode-se consultar os Arquivos Distritais, o Family Search, Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Para os outros documentos, procure o Arquivo Público de sua cidade. No APEBa (em Salvador), eu encontrei vários inventários, testamentos, cartas de dote, recibos de compra e venda de imóveis e produtos, correspondências dos ancestrais que eram delegados de polícia, e os livros da Polícia do Porto, onde se pode ver a entrada e saída de passageiros pelo Porto de Salvador - você também encontra esses livros da Polícia do Porto digitalizados no Family Search). Para mais informações sobre o Arquivo Público da Bahia, APEBa, em Salvador, vá aqui: http://www.fpc.ba.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=66. Você ainda pode procurar na Fundação Gregório de Mattos http://www.culturafgm.salvador.ba.gov.br/ - lá encontrei alguns registros de óbito, casamento civil e documentos da Câmara Municipal -, e nos arquivos da Santa Casa de Misericórdia da Bahia: http://www.santacasaba.org.br/ - se seus ancestrais eram ligados à Santa Casa, e.g. se eram irmãos, provedores ou mesários, ou se foram sepultados no Campo Santo, você encontrará informações valiosas sobre eles como data de nascimento e morte, nome do cônjuge, etc. 

E então, prontos para começar os primeiros esboços de sua árvore genealógica? No próximo post falaremos a respeito dos sobrenomes, e daremos dicas de como ler e entender a grafia nos documentos antigos.

Gostaram? Então divulguem. 




quarta-feira, março 23, 2016

Europa em 60 dias - Aveiro, Portugal - Em busca das origens - Parte I

Ponte 25 de Abril vista do Cristo Rei - Lisboa (foto: Johann Morriseau)
Saí de Dublin todo agasalhado por causa dos -2 graus que fizeram com que John precisasse jogar água quente nos vidros do carro para derreter o gelo acumulado da noite, e cheguei em Lisboa com um calor imenso de 16 graus (um baiano chamando 16 graus de quente, inemaginável, não é? passe um mês no frio e me diga depois ^_^). Antes de alcançar o sanitário do aeroporto para mudar de roupa, já estava suando bicas arrastando minha malinha pelos corredores como se puxasse o cadáver abatido de um companheiro de guerra pelo Sahara, tamanho o calor que fazia meu cansaço, o sono, a leseira, se agigantarem em mim. 
Troquei o suéter, o sobretudo e as botas cheias de meias de lã por uma fina e confortável camiseta de 1.99 euros e um tênis Olympicos superleve, peguei minha mala grande que estava no aeroporto há um mês, paguei minha taxinha para retirá-la e me mandei para o hostel a comer e dormir. Não consegui dormir, pois passaria apenas um dia em Lisboa antes de ir para o meu próximo destino, então, era aproveitar o que aquela bela capital tinha a oferecer. O dia seguinte, cedíssimo, era hora de ir para a rodoviária, tomar o autocarro (pode-se ir de comboio também) e partir rumo a Aveiro, o coração a mil, a imaginação e a expectativa enchendo meus pensamentos.

Aveiro, a cidade da Ria
Pôr do sol em Aveiro
Como disse no post anterior, minha ida a Portugal tinha sido motivada por uma questão genealógica iniciada em abril de 2014 quando comecei a fazer as pesquisas sobre meus ancestrais. Um dia, cheguei da casa de minha tia com a certidão de nascimento de minha avó em mãos e, ao ligar o computador, resolvi pôr o nome do avô dela na pesquisa do Google; a partir disso fui parar na cidade de Ílhavo, distrito de Aveiro, Região Centro, Sub-região do Baixo Vouga, cujo foral foi-lhe dado pelo rei-poeta D. Diniz no ano de 1296, e que anteriormente era conhecida pelos romanos como Illiabum, mas sobre a qual eu nunca tinha ouvido falar até aquele dia (escreverei, mais à frente, um post sobre minhas pesquisas genealógicas que já me fizeram conhecer a história de minha família até meados de 1500). 
Não consegui me hospedar em ílhavo, pois os valores de hotéis e pousadas que eu achei estavam fora
Centro de Aveiro
da minha realidade monetária para tantos dias que me eram necessários ficar por lá. Encontrei, no entanto, um alojamento legal, num sobrado antigo e rústico, muito parecido com os que encontramos nos centros históricos coloniais de cidades brasileiras antigas. O Fernando's Guest House fica bem no coração da cidade de Aveiro, no distrito de mesmo nome. Por isso, assim que saltei do ônibus logo cheguei ao lugar que, apesar de simples, está numa rua tranquila e tem um ambiente muito bom; o quarto em que fiquei era bem arejado e limpo, com vista para a rua, a cama muito confortável, me dando a sensação de que eu estava em casa. Não posso esquecer também que a dona do alojamento é uma portuguesinha hipersimpática e prestativa, do tipo que nos deixa super à vontade, sentindo-se no aconchego do nosso lar, especialmente porque na cozinha há café e chá à nossa espera em qualquer hora - um cafezinho quente no friozinho da noite portuguesa sempre é bem-vindo. 
Inscrição no moliceiro
De Aveiro ao Ílhavo são aproximadamente 20 minutos de autocarro (que passa a cada uma hora, mais ou menos), então, não seria problema me hospedar ali. Especialmente porque a cidade é linda e tranquila e as pessoas locais sempre gentis e amistosas. É mais uma cidade onde se deixa o coração e se reza para termos a oportunidade de voltar.
Aproveitei que o ocaso se aproximava e fui perambular pelas ruas a fotografar e descobrir a existência de uma palavra em português europeu que jamais escutara no Brasil: Ria, que segundo informação do Wikipédia é, "em termos gerais, um braço de mar que adentra a costa e que está submetido às marés", mas que para mim era simplesmente um lindo canal cheio de peixes, cortando a cidade, por onde circulam os moliceiros - barcos parecidos com gôndolas que antes eram usados para tirarem os moliços (plantas aquáticas que são usadas na agricultura), e que hoje levam turistas acima e abaixo, num passeio superagradável pela cidade. Uma curiosidade sobre os moliceiros é que todos eles têm umas inscrições cômicas em uma das extremidades, algumas de cunho erótico, outras religiosos, outras de ditos populares, mas todas muito engraçadas. Para mais informações sobre o distrito e gente de Aveiro, sugiro o site do historiador Fernando Martins: http://pela-positiva.blogspot.com.br/.
Moliceiros na ria de Aveiro - Portugal
Sentei na praça em frente à ria para comer um doce delicioso e típico de Aveiro, feito de ovos e hóstia, chamado "Ovos moles". 
Os ovos moles de Aveiro, segundo me contou o dono da pastelaria onde os comprei, tiveram origem nos conventos da região, onde as freiras, após engomarem as roupas com a clara dos ovos, usavam as gemas que eram aproveitadas como doce para não serem jogadas no lixo. Depois que os conventos acabaram, as senhoras educadas pelas freiras continuaram a fazer os doces. Hoje pode-se comer os ovos moles de duas formas, ou se compra uma barriquinha e as enche com eles, ou se compram eles envoltos em hóstias. De uma forma ou de outra, eles são deliciosos! Comi vários deles com um cafezinho com leite e sem açúcar - pois os ovos moles são doces o suficiente - pra esquentar a noite que chegava com pontos brilhantes no céu. 

Praia da Costa Nova, Farol da Barra - Ílhavo
Casas típicas da Costa Nova - Ílhavo
Aproveitei que o dia seguinte era um sábado de sol invernal e rumei para a praia da Costa Nova, aonde um amigo que fiz durante minhas pesquisas me indicou que fosse. Enquanto passava minha horinha de chá de cadeira na "paragem do autocarro", um rapazinho que esperava a mãe de sua namorada vir pegá-lo no ponto puxou assunto comigo. Ao ouvir meu sotaque, me encheu de perguntas sobre o Brasil e sobre a Seleção e me pôs na parede querendo saber se eu achava Neymar melhor que (Cristiano) Ronaldo, o melhor do mundo. Eu, que não sou fã de futebol e que não sei nem o que é um goleiro, joguei a pergunta de volta pra ele com um "ora, a resposta é óbvia, o que você me diz?". Aí, ele voltou a se empolgar e o papo continuou até que sua namoradinha e a mãe dela chegaram, me ofereceram uma carona e partiram sem mim, pois íamos em direções opostas.
Não demorou muito tempo, um rapaz de aparência oriental chegou ao ponto e se aproximou

Surfistas na praia da Costa Nova - Ílhavo
perguntando em inglês se o ônibus para Costa Nova (pronunciou o "s" chiado) já havia passado. Eu disse que também o estava esperando e aí foi conversa que não acabou mais.
Descobri que meu novo amigo vinha de Taiwan e que estava em Aveiro a trabalho por um mês. Aquela seria a sua penúltima semana na cidade e ele estava aproveitando o tempo para passear um pouco. Já havia ido ao Porto e me recomendou enfaticamente visitar a cidade que fica a apenas uma hora de trem de Aveiro, me deu todas as instruções, o valor do comboio e o que eu poderia visitar na cidade - um roteiro turístico completo. 
Meu amigo Taiwanês e eu passamos o dia juntos caminhando pela linda Costa Nova e Barra, trocando informações sobre a cultura dos nossos países e compartilhando as experiências em Portugal, e tudo de maneira muito natural, como se fôssemos velhos conhecidos que acabavam de se reencontrar após longas datas e punham o papo em dia - maravilhas que acontecem quando se viaja e se encontra pessoas abertas ao mundo. Em dado momento de nossa conversa, alguém lembrou-se de perguntar os nomes, eu, como de costume ao falar com estrangeiros que falam inglês, disse, fazendo a mímica: mar-see-you (como em "I see you", "eu vejo você"), ele riu e nunca mais esqueceu - ninguém esquece! "E o seu?", eu perguntei. Ele naturalmente me disse "Yoshi". Eu fiquei em silêncio, num silêncio constrangedor, lembrando do
Farol da Barra
meu jogo favorito da infância, olhando para ele, com cara de paisagem, querendo perguntar. Ele entendeu e me respondeu, "Você conhece o jogo Super Mario Bros., não é?", eu disse que sim, ele continuou "Então, é igual ao do dinossauro". Eu ri. "E eu pensando que minha técnica de memorização de nomes era infalível! A sua que é. Você apelou para a memória sentimental. Nunca mais se esquece seu nome! Yoshi, Cadê Luigi, o rei Copas?". Ele começou a gargalhar e a gente continuou andando enquanto ele me contava a história daquele nome, que não era o dele mesmo, mas uma aproximação de sons. O seu nome real era bem mais complicado e decidimos que Yoshi estava legal.
O papo estava tão bom, que a gente foi andando até chegar ao Farol da Barra sem sentir o tempo passar, O farol  é o mais alto de todo Portugal e o segundo maior da Península Ibérica, do qual os portugueses - pelo menos os de Aveiro - têm um orgulho imenso. Ele foi construído a partir de 1885 e tem 62 metros de altura. Fica na praia da Barra, na freguesia da Gafanha da Nazaré, concelho de Ílhavo, e de cima dele dá para se ter uma visão incrível do lugar. Nós não pudemos subir, pois na porta, estava afixada uma nota dizendo que o farol está aberto à visitação às quartas-feiras apenas. Mas mesmo de fora, a imponência dele, a beleza dele na paisagem, já enchem os olhos. Sentamos na praça em frente ao farol e o Yoshi, cheio de saudades de casa, me contou a lenda da deusa Matsu, protetora dos velejadores e marinheiros, e de como ela tinha morrido ao se lançar no mar para salvar seu pai e seu irmão. Ficamos contemplando o farol por mais alguns minutos, calados, pensando na deusa Matsu e seu ato de heroísmo. Discutimos o assunto do heroísmo dos deuses e homens e aquele papo filosófico encheu a gente de fome.
Homens pescando na praia da Barra - Ílhavo
Voltamos andando pela praia à procurar um lugar para comer e encontramos um restaurante café superarrumado quase sobre a areia onde eu apresentei a Yoshi a famosa francesinha portuguesa. Ele comeu para lamber os beiços e dizer "é muito bom, é muito bom!".
Depois da barriga cheia, era hora de voltar para a cidade de Aveiro. Fomos andando pela praia, pelo cais, sem pressa. Conversamos com pessoas locais nas lojas de souvenir e no calçadão, ouvimos histórias parecidas contadas por lábios diferentes sobre o lugar e sua gente e suas atrações. Sentamos a esperar o ônibus e no meio-tempo podemos apreciar uma regata que estava ocorrendo por lá. As praias da Costa Nova e da Barra são excelentes para a prática de esportes como futevôlei, futebol e vôlei de areia, frisbee e de esportes náuticos. Para lá vão surfistas, kitesurfistas, velejadores, canoístas e afins, além de pescadores, banhistas e gente que quer apenas desfrutar da beleza e calma da praia de areia bege e fofa. Também a localidade é famosa pela culinária, especialmente pelo bacalhau e pelas deliciosas enguias fritas,  as quais eu tive o prazer de desfrutar no tradicional restaurante Marisqueira em companhia de meu amigo e historiador gafanhense, o Sr. Fernando Martins, enquanto saboreávamos um delicioso vinho verde e ele me regalava com as histórias do lugar e do povo. 
Antes de vermos o fim da regata, o ônibus chegou e com ele a noite se aproximava. Descemos em Aveiro, me despedi de Yoshi, que se tornaria meu companheiro de caminhadas e janta durante todo o tempo que fiquei na cidade, e, como tinha comprando um ingresso para o novo Star Wars,
Regata na Costa Nova do Prado - Ílhavo
fui encerrar minha noite vendo Harrison Ford e companhia. 
No cinema, que fica no shopping center local chamado Fórum Aveiro, aconteceu um fato curioso. Estava eu lá vendo meu filminho tranquilo com os dez ou onze outros espectadores quando, do nada, no meio do filme, as luzes se acenderam, eles começaram a tocar música brasileira e algumas pessoas saíram da sala. Olhei para o casal ao meu lado e perguntei o que estava acontecendo, se o filme tinha dado problema, se teríamos de voltar no dia seguinte, se tinha pegado fogo na Babilônia. O rapaz me disse que não me preocupasse, dentro de poucos minutos o filme voltaria a rodar, era só um intervalo. Recostei na minha poltrona e fiquei lá ouvindo Caetano Veloso cantando pra São Jorge até o intervalo acabar. 

Cidade de Ílhavo
Monumento da cidade de Ílhavo
Na segunda-feira, logo cedo, fui conhecer a cidade de Ílhavo atrás de informações sobre meus ancestrais e os irmãos de minha avó que ficaram lá. O ônibus que sai de Aveiro deixa a gente na porta da Câmara Municipal, prédio onde funcionam vários órgãos públicos de que eu precisava para minha pesquisa.
Depois de encontrar as informações em uma e outra sala, fui andar pela cidade para conhecê-la um pouco. Caminhar naquelas ruas pacatas de paralelepípedos e calçadas de pedras portuguesas, olhar as casas de azulejos coloridos, a arquitetura que me lembrava o barroco colonial da Bahia, me fez sentir passeando por Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, e a igreja de São Salvador do Ílhavo me fez pensar na igreja do Senhor do Bonfim. Pude entender porque meu bisavô se sentia tão em casa na cidade da Bahia que voltou a morar e casar por aqui duas vezes.
Praça Central da cidade de Ílhavo
Entrei na igreja, sentei no banco, fiz uma prece. Olhei aquele lugar por muito tempo, emocionado. A igreja é simples, sofreu algumas reformas, mas a pia batismal antiga ainda estava lá. Pensei em meu bisavô sendo batizado, meus trisavós, os pais deles e assim vários ancestrais antes deles. Pensei nos casamentos que ali se fizeram e nas composições sacras que meu trisavô João da Rocha Carolla tinha escrito e nas vezes todas que elas devem ter sido executadas no órgão da igreja. Meu coração estava cheio de uma emoção nova; eu estava extasiado.
Saí da igreja para continuar minha caminhada pelo Museu Marítimo de Ílhavo e Aquário da cidade, onde aprendi muito sobre a história dos ílhavos e a pesca do bacalhau. Lá se pode também ver um aquário imenso com bacalhaus vivos se aproximando do vidro para nos dizer um "Olá, como estás?". Depois, cansado de tantas andanças, fui à praça central para descansar antes de voltar a Aveiro e lá encontrei um senhor sentado no banco a tomar o sol frio que brilhava no céu azul. Puxei conversa com ele perguntando se conhecia a família de meu bisavô e, do longo papo que se seguiu, pude encaixar mais peças ao meu quebra-cabeça genealógico (mas sobre isso falarei em outro post).
Igreja de S. Salvador de Ílhavo
No final do dia, retornando a Aveiro, as emoções já em ordem, ao voltar para o Fernando's Guest House conheci minhas vizinhas de quarto: duas italianinhas gente boníssima que estavam passeando por Portugal há algumas semanas para praticar o português que aprendiam no curso de Letras na Universidade de Turim. Novas amizades pela frente, uma boa caminhada pela ria sob o céu estrelado.

Quando dizer adeus dói
No distrito de Aveiro eu experimentei fortes emoções e conheci lugares e pessoas maravilhosos. Desde a cultura religiosa, à culinária, à paz e tranquilidade das praias de areia levemente  bege, à amistosidade e receptividade do povo, às casas coloridas típicas e aos famosos "palheiros" da Costa Nova, Aveiro nos transporta para um mundo moderno que está embebido de uma aura antiga. Onde as pessoas apressadas pelo dia a dia não têm pressa, onde se sentam para um café e conversam com alegria, onde sorriem cordialmente e te fazem sentir incluído no seu ambiente, onde parecem ter o prazer em receber o forasteiro
Sobremesa de frutas cobertas com ovos moles
e compartilhar com ele daquilo que lhe é próprio. Não é à-toa que todos as pessoas de lá que me deram o prazer de suas companhias se tornaram instantaneamente queridas para mim. Desde o meu amigo historiador Fernando Martins, à dona da pousada, aos Pedro e Abel - atendentes do restaurante Sabores do Mercado, no Fórum Aveiro, aonde eu ia jantar todas as noites -, aos pesquisadores e o pessoal do atendimento no Arquivo Distrital de Aradas, à velhinha da venda, dona Maria, que sempre me dava uma cavaca quando eu aparecia por lá, ao primo que conheci, aos senhores na praça de Ílhavo, enfim, parece mesmo que todos que me chegaram pelo caminho - até os não-portugueses - em Aveiro vinham saídos de um mundo que está desaparecendo das nossas vidas urbanas cotidianas.
Entre essas pessoas, ainda há o Luís Shark, uma pérola da música jovem gafanhense e um campeão da vida.
Havíamos nos conhecido há mais ou menos um ano em um grupo do Facebook e, na minha ida a Aveiro, não pude deixar de encontrá-lo pessoalmente.
Luís Shark  em seu show
Marcamos de nos ver num bar hipermassa na Gafanha da Nazaré chamado Porão Restbar onde a galera jovem se encontra para uns goles, uma conversa, umas músicas, enfim, para descontrair. Quando cheguei, o Luís já estava lá, sentado numa grande mesa de madeira tamborilando com os dedos algum arranjo que ele, músico talentosíssimo, provavelmente estava criando.
Ficamos conversando por horas sobre tantas coisas da vida e do mundo, sobre as superações dos obstáculos que a vida nos impõe, sobre o não prostrar-se diante das adversidades; sobre assuntos pesados e leves; sobre qualquer coisa que nos vinha à mente, como é natural acontecer com alguém cuja prosa é tão fácil. O Luís mesmo, pela sua história, é um desses gigantes que não se deixam abater, que transformam as agruras do destino em caminhos a serem galgados e superam o que a vida traz de mal, pegando o leme da existência na sua mão e conduzindo seu barco para os mares que lhe aprazem. Muitas vezes transformando a vida em música e projetos musicais a fim de ajudar a existência de outros através da arte e da cultura, proporcionando a outros sonhar, pois como ele mesmo diz "vida sem sonhos é como um céu sem nuvens, um passo mal dado".
E assim, entre um gole e outro de café com o Luís ou com os outros camaradas que encontrei, se confirmou em mim que essa minha viagem tinha sido mais sobre pessoas e a aventura humana e a bênção de conhecer vidas e histórias do que visitar lugares e coisas.
Por isso, Aveiro fica na minha memória não só como o lugar de onde um de meus bisavós saiu a singrar os
Trenzinho saindo da estação de Aveiro
mares para realizar o sonho do conquistador de novos mundos, mas como um porto seguro, uma parada obrigatória para as próximas viagens que eu fizer às Terras Lusitanas; um sítio aonde eu fui procurar por histórias dos mortos e encontrei gente viva, espontânea e cordial que enriqueceu minha viagem e a minha própria história.

Para mais sobre o Luís, acessem aqui: https: https://www.facebook.com/LuisRocha.Singer/?fref=ts

e escutem:


Museu da Cidade de Aveiro
O que fazer/ ver em Aveiro:
Passeio de moliceiro na Ria de Aveiro;
Praia da Costa Nova;
Farol da Barra;
Igrejas e o Museu da Cidade de Aveiro;
Festa de São Gonçalinho (em maio) onde cavacas são jogadas da torre da capela de São Gonçalo como forma de pagamento de penitências (cuidado com a cabeça);
Comer as enguias fritas, cavaca e ovos moles.

Onde comer em Aveiro:
Sabores do Mercado do Fórum Aveiro;
Zig Zag Café e restaurante;
Marisqueira (Costa Nova);

Mais sugestões? Me diga e as postarei aqui.

Para mais sobre o que ocorre em Aveiro, acesse: https://www.viralagenda.com/pt/aveiro



Londres ao pôr do sol

Devo confessar que nesta altura do campeonato não vi sequer um jogo da Copa do Mundo na Rússia. Eu sei, o Brasil está em polvorosa, ca...