Sábado, Março 12, 2011

Preconceito racial-social no Mosaico Baiano (?)

Desde que os burgueses da França inculcaram na plebe o grito de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, o mundo ocidental se inebria nos vapores da ilusão que essas palavras, já naquele tempo, produziam. Não poderia ser diferente na Bahia.

Aqui, neste estado cuja bandeira reproduz o ideal de 1789, desde antes da abolição da escravidão vê-se surgir a torto e a direito quem brade em prol desse mesmo lema revolucionário. Para isso não nos faltam poetas, pintores, políticos, religiosos, ricos, pobres, sem-ter-o-que-fazer, enfim, representantes de todas as classes, credos e cores que parecem soar em uníssono a utopia da unidade baiana universal.

No entanto, quando observamos nossos atos e palavras no dia-a-dia, vemos os nossos preconceitos enraizados nas frases mais inocentes e nas expressões faciais e corporais mais imperceptíveis berrarem em nossa cara que a verdade não é e não foi - mas ainda aguardamos com muita fé e esperança que seja - assim.

Vejamos, por exemplo, o quadro de moda do programa Mosaico Baiano exibido pela TV Bahia no dia 05/03/2011, quando a patricinha mais bem intencionada da sociedade baiana, caminhando pela praça do Campo Grande, encontrou as “modelos” para serem mostradas como exemplo de bom gosto da moda no carnaval.

Obviamente sem ter a intenção de, mas expressando inocente e livremente o preconceito em nós arraigado há séculos, Paula Magalhães – neta do falecido senador ACM -, apresenta suas modelos – alunas afro-descendentes trajando uniforme de uma escola pública da capital baiana – com palavras que devidamente interpretadas poderiam ser as seguintes: “como nem tudo é perfeito, não conseguimos encontrar mulheres que possam usar uma roupa mais sofisticada para o camarote no carnaval, então, as meninas nos mostrarão como é se vestir para sair na pipoca” (termo que designa o folião que não tem recursos financeiros para pagar os abadás dos cada vez mais caros blocos puxados pelas estrelas do Axé e Pagode baianos).

Decidiram, assim, vestir com o “figurino mais sofisticado” a (branca e linda) designer de moda convidada e as meninas (pretas e “bonitinhas”) ficaram na verdade com roupa para a “pipoca”, afinal, alguém que mesmo não sendo folião pipoca, como disse uma das moças, mas que sairá na avenida com o bloco do grupo Parangolé, não pode mesmo ter sofisticação – ao que parece.

A questão é tão seriamente inerente à nossa sociedade que nem os editores do programa - recorde de audiência no horário - se perceberam da gafe da sua apresentadora evidenciada claramente nos tópicos frasais que iniciaram e findaram o seu texto.

Se notaram, não deram importância porque, realmente, não há motivos para fazê-lo, afinal, nós estamos tão acostumados aos nossos preconceitozinhos, tão confortáveis com as nossas diferençazinhas sociais e raciais, que pouco ligamos se meninas afro-descendentes de colégio público estão ou não aptas a serem sofisticadas em camarotes de carnaval e se sua aparição na televisão num quadro que busca “sofisticação” não é “perfeita”.

Mas eu, talvez mesmo como a voz do que clama no deserto querendo endireitar o caminho de alguém, não podia deixar de comentar a respeito do choque que senti ao ver as caras, as bocas, as contorções, as hesitações ali, diante de mim, naquela tarde modorrenta de sábado.



10 comentários:

andréa.mascarenhas disse...

Muito bom, meu caro Márcio! Precisão no olhar e nas palavras.
Parabéns.
Bj

Tatiana disse...

Preconceito velado é ruim. Mas, esse vexame foi ainda pior.E ela nem percebeu...

rabiscando.com disse...

Muito bom!

Thaez disse...

rídiculo. a equipe preguiçosa, ela, o programa -que-parece-ser-inteligente-mas-no-fundo-é-débil, os comentários da magalhães e essa porra toda.

carlosmm disse...

disculpa! nao estou aqui pra criticar nem sou ninguem pra fazer criticas.. mas no meu ponto de vista nao foi um preconceito racial, pois ela tambem disse que as roupas eram para mulheres mais velhas e nao para tens, e no meu parecer ela retratou a palabra pipoca como um lugar para os mais jovens que eu acho que e muito verdade... porque na pipoca vc ve as pessoas mais jovens... nem e pelo fator economico mas sim pela fulia mesmo, foi o que percebi! se estiver errado me diga! um abraço Marcio! tudo de bom! estou esperando o livro.. hehehe!!

Erick Rabello disse...

Putz! Eu comentei sobre isso na hora que vi o programa!
Negro na Bahia só é lindo e cultural quando aparece tocando tambor.
Apesar de ser a cidade com a maior população negra do Brasil, o preconceito em Salvador é latente!
Trabalhei no verão de 2009/2010 para uma cantora de grande sucesso aqui e no Brasil. Pasmem! Ela não queria promotores negros no cast! Eu só trabalhei porque era coordenador e não ficaria na rua...
O abismo aqui é bem profundo, só que os meios de comunicação distorcem a verdade.

Márcio Walter Machado disse...

Obrigado a todos pelo tempo dispensado à leitura e aos comments; e Carlos, amigo, no es necesario disculparse, todas las opiniones son bien-venidas,estamos aca para discutir y aclarar el texto, trabajando juntos con nuetras impresiones sobre él y el video ;)
Mas como o Erick disse, o preconceito na Bahia é muito grande.

carlosmm disse...

obrigado Marcio!! olha eu tenho um amigo que e da bahia e negro, e pude notar que ele mesmo se autopreconceita! ( nem sei se existe essa palabra mas vou coloca assim.. hehe) ele falava assim porque sou negro nao vou cenceguir...porque sou negro ninguem gosta de mim.... acho a populaçao tambem tem que parar de se sentir rebaixado, sei que existe muito preconceito ainda, mas se o propio ofrodescendente da espaço para o preconceito ele sempre vai existir.. eu sou um cara que nao tenho preconceito nenhum de nenhum tipo, e sei que tem muito negro que tem preconceito tambem, temos que tomar conciencia e acreditarmos em nosso potencial sem achar que estamos sendo preconceituados e se achar uma pessoa preconceituosa sei la! deixar que ela morra na ignorancia, porque nao da pra mudar a cabeça de quem tem preconceitos... so nao temos que deixar que o preconceito nos afete.. obrigado!

Márcio Walter Machado disse...

Isso também é verdade, boa parte dos preconceitos vem das próprias pessoas que se sentem inferiorizadas, e isso não só na questão da cor - tb social, sexual etc. É necessário que as pessoas se aceitem, larguem os complexos de inferioridade pra trás e não se sintam menor que ninguém, aí ne querendo, as pessoas conseguirão intimidá-las.

2Pack disse...

ela foi muito infeliz no comentário que fez.